As notificações de casos de violência contra crianças e adolescentes em Mato Grosso do Sul representam 75% do total de denuncias de violência, a maioria de vítimas do gênero feminino. Os registros de violência que ameaçam a integridade física, emocional e psicológica se concentra na faixa etária de zero a nove anos de idade. O estupro de vulnerável e as agressões sexuais são as mais frequentes.

O Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, é o serviço que mais recebe as denúncias de violência sexual com menores de idade.  A faixa etária com mais vitímas de violência sexual é de dez a 14 anos. A Rede de Proteção aos Direitos de Crianças e Adolescentes em Mato Grosso do Sul é responsável pelo atendimento em casos de abusos ou violência contra o público. 

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina políticas públicas de atuação em casos de violência contra crianças e adolescentes. A presidente da Comissão de Defesa da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (OAB-MS), Isabela Saldanha afirma que a subnotificação está entre os principais fatores que dificultam o combate à violência sexual contra crianças e adolescentes. Isabela Saldanha destaca que grande parte dos casos não são notificados às autoridades. Segundo a advogada, casos de violência no ambiente familiar ou em contextos de vulnerabilidade social, "dificulta a denúncia e o rompimento do silêncio por parte das vítimas e de pessoas próximas".

Isabela Saldanha destaca que políticas de proteção como o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Sistema de Garantia de Direitos e da Escuta Especializada exigem aplicação adequada. "A gente precisa da integração efetiva entre os órgãos do sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente para evitar a revitimização. Outra questão é a falta de estrutura, a insuficiência de recursos e capacitação. Nós precisamos da capacitação, conhecimento para salvar essas crianças e precisamos de uma equipe multidisciplinar qualificada". 

A coordenadora do Projeto Nova Transforma, Viviane Vaz trabalha com o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, e ressalta que o projeto atende desde a triagem. Segundo a coordenadora "a prioridade é analisar se a criança encaminhada se enquadra no recorte" quanto ao perfil de vitímas de abuso sexual. "Nessa triagem a gente pergunta questões comportamentais e emocionais para a gente avaliar sintomas de violência sexual".

Viviane Vaz afirma que as meninas representam a maior parte das vítimas de abuso sexual encaminadas ao projeto. Segundo a coordenadora, “as meninas são ainda mais abusadas pelos números, mas a gente não sabe se é porque elas denunciam mais ou porque de fato as mulheres são mais abusadas”.

A vice-presidente da Associação dos Conselheiros Tutelares de Mato Grosso do Sul, Anna Caroline Kalache enfatiza que o atendimento de crianças vítimas de violência segue um protocolo da rede, composta por diversos órgãos na área de educação, saúde, segurança pública e assistência social. "A partir da identificação de uma situação de violência e antes mesmo do registro na delegacia especializada, a rede inicia o acompanhamento a criança e a família da vítima, garantindo o tratamento em diversos âmbitos simultaneamente".