A ética jornalística vale para todos?
A liberdade de imprensa é uma conquista da sociedade democrática. É ela que garante ao jornalista investigar, denunciar, questionar o poder e, inclusive, preservar o sigilo de suas fontes quando isso é necessário para proteger o interesse público. Esse princípio precisa ser defendido. Mas há que se entender que toda liberdade vem acompanhada de responsabilidade. E é justamente nesse ponto que uma pergunta me incomoda: a ética jornalística vale apenas para proteger o jornalista ou também deveria proteger aqueles que se tornam objeto da notícia?
Hoje, 8 de julho de 2026, um cibermeio jornalístico publicou trechos supostamente do relatório final sobre o acidente com o voo VOEPASS 2283, ocorrido em 9 de agosto de 2024, acusando publicamente pilotos, imputando responsabilidades à companhia aérea e à própria agência reguladora da aviação brasileira, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Este documento, sob responsabilidade do sistema perito em investigação, do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), não está sequer oficialmente divulgado.
Não discuto aqui o direito e a função do jornalismo de informar a sociedade. Minha pergunta é simples: o que a sociedade ganhou com essa publicação, repostada inúmeras vezes, sem qualquer validação da fonte original? Quando uma empresa midiática informa que obteve acesso a um relatório oficial ainda não publicado, pouco importa para o leitor comum como esse documento chegou até os profissionais jornalistas. A mensagem para a sociedade é simples, um documento que deveria permanecer restrito circulou antes da conclusão formal do processo. Isso, por si só, fragiliza a confiança em um sistema pericial cuja credibilidade depende justamente da independência, da técnica e da integridade de seus procedimentos. Ao mesmo tempo, pilotos que perderam a vida passam a ser julgados publicamente sem qualquer possibilidade de resposta. Empresas têm sua reputação atingida. Instituições são colocadas sob suspeita.
O relatório de investigação não existe para distribuir culpa, mas para identificar fatores contribuintes capazes de prevenir novos acidentes. Entretanto, quando trechos desse documento passam a circular isoladamente, acabam produzindo exatamente o efeito oposto: transformam um instrumento de prevenção em um instrumento de julgamento público.
É triste perceber como a ética é lembrada quando se trata de proteger a fonte da informação, mas parece perder espaço quando a informação tem potencial para destruir reputações e causar dor à sociedade. Não se trata de defender censura, nem de limitar a liberdade de imprensa. Trata-se de perguntar se o mesmo compromisso ético invocado para proteger o exercício do jornalismo também está presente quando esse exercício produz consequências sobre pessoas, instituições e famílias.
Muitos cibermeios reproduziram a matéria, mas nem todos normalizaram as informações. Lito Souza, especialista em aviação e cidadão, publicou um vídeo, no canal Aviões e Música do YouTube, demonstrando sua indignação pela falta de ética jornalística da notícia.
Uma democracia precisa de uma imprensa livre. Mas precisa, igualmente, de um jornalismo que compreenda que a força da liberdade está diretamente ligada à responsabilidade com que ela é exercida. Porque a ética não pode existir apenas para proteger quem publica. Ela precisa também proteger aqueles que suportam as consequências da publicação.
Autor
Iniciou sua carreira militar em 1986, para cursar o ensino médio, graduou-se em Ciências Aeronáuticas como piloto na Academia da Força Aérea em 1992 e, no ano seguinte iniciou sua especialização como piloto de helicópteros. Em 1994 começou a trabalhar na área de resgate e 1997 formou-se em curso específico para formação de instrutores de voo. Trabalhou na formação de novos pilotos de helicópteros por 7 anos. Em 2000 gradou-se em Direito. Em 2005 concluiu uma pós graduação em Educação e em 2010 um MBA em Gerenciamento de Projetos.No período de 2004 a 2015 representou o Brasil em dois programas distintos da Organização das Nações Unidas. Quando se retirou da Força Aérea, trabalhou em uma empresa multinacional como Gerente de Projetos para a América Latina. Apaixonado pela conhecimento fez mais de 20 cursos online no modelo MOOC em Universidades como HarvardX, MitX, DelftX entre outras. Em 2017 iniciou uma nova fase, empreendendo na área de educação e, desde então, é gestor de uma empresa focada no ensino de idiomas. Em 2025 concluiu curso de Mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Em 2026 publicou o livro VOEPASS 2283, TRAGÉDIA E DESINFORMAÇÃO, resultado de sua pesquisa no curso de Mestrado em Comunicação. O livro faz uma análise da cobertura jornalística do acidente do voo VOEPASS 2283. "Um avião sofre um acidente... 62 vítimas fatais. Entre o tempo da investigação técnica e a velocidade da mídia, instala-se um vazio e se transforma em "espetáculo", a notícia perde densidade e a confiança começa a se desgastar. É um convite ao leitor a revisitar a cobertura jornalística de acidentes aéreos e a refletir sobre os limites da velocidade, a responsabilidade ética da informação e o papel do jornalismo em um ecossistema marcado pela urgência".
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Acidente com voo VOEPASS 2283 em Jundiaí (SP)