Hoje, Campo Grande amanheceu sob forte nevoeiro. Quem olhava pela janela percebia que as condições meteorológicas eram muito diferentes de um dia normal. Foi nesse cenário que uma aeronave decolou do Aeródromo Santa Maria com destino ao Pantanal e, pouco depois, informou a intenção de retornar. O acidente que se seguiu tirou a vida de seus dois ocupantes.

Enquanto as equipes atuavam na ocorrência, outro fenômeno, infelizmente previsível, também começava: a corrida pela publicação da primeira notícia.

Em poucos minutos surgiram informações desencontradas, versões sem confirmação e explicações apressadas. Em vez de buscar a validação junto às autoridades aeronáuticas, muitos preferiram preencher os espaços vazios com especulações. Como acontece com frequência, a velocidade venceu a verificação.

O que mais chamou minha atenção, porém, foi a divulgação de vídeos mostrando os destroços da aeronave e mencionado nos áudios onde estavam os corpos das vítimas. Sob o ponto de vista ético e humanitário, qual interesse público é atendido por esse tipo de exposição? Que informação relevante ela acrescenta para que a sociedade compreenda o acidente?

Na minha avaliação, nenhuma. Apenas amplia a dor de quem acabou de perder um familiar e transforma uma tragédia em conteúdo “espetacularizado” para consumo imediato.

Também não passaram despercebidos erros básicos sobre a dinâmica da ocorrência, como afirmações imprecisas sobre os procedimentos adotados após o acidente. São detalhes que demonstram como a cobertura de acidentes aéreos continua sendo tratada, muitas vezes, sem o conhecimento técnico mínimo necessário.

É evidente que a sociedade tem o direito de ser informada. Mas informar não significa publicar tudo, da forma mais rápida possível. Significa verificar, contextualizar e, acima de tudo, respeitar as pessoas envolvidas.

A cobertura de acidentes aéreos no Brasil ainda parece confundir impacto com informação. Enquanto isso não mudar, continuaremos assistindo à repetição do mesmo roteiro de especulação, imagens apelativas, erros factuais e pouco compromisso com aquilo que deveria ser a principal missão do jornalismo: informar com responsabilidade.

Silvio Monteiro Junior*

Silvio Monteiro Junior

Iniciou sua carreira militar em 1986, para cursar o ensino médio, graduou-se em Ciências Aeronáuticas como piloto na Academia da Força Aérea em 1992 e, no ano seguinte iniciou sua especialização como piloto de helicópteros. Em 1994 começou a trabalhar na área de resgate e 1997 formou-se em curso específico para formação de instrutores de voo. Trabalhou na formação de novos pilotos de helicópteros por 7 anos. Em 2000 gradou-se em Direito. Em 2005 concluiu uma pós graduação em Educação e em 2010 um MBA em Gerenciamento de Projetos.No período de 2004 a 2015 representou o Brasil em dois programas distintos da Organização das Nações Unidas. Quando se retirou da Força Aérea, trabalhou em uma empresa multinacional como Gerente de Projetos para a América Latina. Apaixonado pela conhecimento fez mais de 20 cursos online no modelo MOOC em Universidades como HarvardX, MitX, DelftX entre outras. Em 2017 iniciou uma nova fase, empreendendo na área de educação e, desde então, é gestor de uma empresa focada no ensino de idiomas. Em 2025 concluiu curso de Mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Em 2026 publicou o livro VOEPASS 2283, TRAGÉDIA E DESINFORMAÇÃO, resultado de sua pesquisa no curso de Mestrado em Comunicação.