Pesquisa do Instituto de Ciência Tecnologia e Qualidade Industrial (ICTQ), divulgada no dia cinco deste mês mostra que tomar um remédio sem receita médica para tratar gripes, dores e desconfortos é um hábito da população brasileira. Os dados mostram que 76,4% dos brasileiros praticam a automedicação, e 32% aumentam a dose do medicamento sem consultar um médico.
O diretor de pesquisa do ICTQ, Marcus Vinicius, diz que outro dado que lhe chamou a atenção foi “que 61,4% da população que se automedica já obteve acesso à informação sobre o Uso Racional de Medicamentos, no entanto insiste na prática e assume o risco de uma reação adversa, intoxicação ou até morte”.

A médica e professora de Farmacologia Clínica da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Elsa Gonçalves explica os principais riscos da automedicação. “Se você não sabe exatamente pra que a medicação serve, ou usa baseado numa prescrição anterior, o principal problema são os efeitos adversos como dor de estômago, alergias, interação com outras medicações e também intoxicação”.
Segundo dados divulgados pelo Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul (CRF/MS), no Estado foram 430 casos de intoxicação registrados somente no ano de 2013. O presidente do CRF/MS, Ronaldo Abrão esclarece que todos os medicamentos têm o seu grau de risco, e não devem ser encarados como uma coisa banal. Alguns hábitos são muito recorrentes entre a população brasileira, a pesquisa realizada pelo ICTQ elencou oito.

Ainda segundo a pesquisa, 72% dos entrevistados afirmaram que confiam na indicação de medicamentos feita pela família, e 42,4% confia na indicação de amigos. Como explica Elsa Gonçalves, medicamentos podem ter indicações diferentes de acordo com a faixa etária, da condição de saúde, dos medicamentos que o paciente utiliza, entre outros fatores. Outros hábitos errados são utilizar receitas de prescrições anteriores para continuar a comprar e consumir medicamentos e cortar comprimidos ou abrir cápsulas para tentar controlar a dosagem.
Segundo Gonçalves, algumas classes de antibióticos não são usadas para crianças porque interferem no crescimento, calcificam cartilagens, e antiinflamatórios devem ser usados com muito cuidado. O problema maior para crianças são as doses, pois a janela entre a dose terapêutica e a dose tóxica é muito estreita nessa faixa etária. Idosos também são um grupo vulnerável, e os médicos evitam receitar remédios com efeitos colaterais que possam prejudicá-los.
Combinações de medicamentos também oferecem riscos, pois um pode anular o efeito do outro, além de consequências mais graves. Abrão explica que outras interações perigosas são entre medicamentos e alimentos gordurosos, leite e derivados e álcool. Medicamentos naturais não são inofensivos, e devem ser usados com orientação. No caso dos antibióticos, as bactérias podem se tornar resistentes a eles quando tomados em dosagens inadequadas ou por tempo insuficiente.
Para evitar problemas, a recomendação é sempre procurar um médico. A doutora Elsa Gonçalves, explica que existe uma faixa de automedicação que é permitida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e até necessária, pois o sistema de saúde não seria suficiente para tratar todos os desconfortos que surgem na população. Para orientar os consumidores de maneira correta, é essencial a presença de um farmacêutico responsável em todas as farmácias.
O farmacêutico Rubens Moreira de Oliveira, responsável por uma drogaria da capital, esclarece o assunto. “Nós orientamos a dosagem e o modo de tomar, mas se os sintomas persistirem, sempre orientamos a procurar por um médico”. Muitas vezes uma medicação pode não ser adequada para determinada situação, e somente o médico pode reorientar a medicação ou pensar em outro diagnóstico.
A pesquisa realizada pelo ICTQ apontou ainda que 65% dos consumidores deixam de consultar o médico ou o farmacêutico no ato de compra e consumo de medicamentos isentos de prescrição, mas mesmos estes podem trazer riscos.
A facilidade de adquirir medicamentos no balcão das farmácias, sem receita médica, contribui para a automedicação.
- (Foto: Gabriel Ibrahim)