EIXO HESITAÇÃO VACINAL E BAIXA PROCURA
O Plano Nacional de Imunização (PNI) foi formulado em 1973 pelo Ministério da Saúde e, a partir da sua institucionalização em 1975, consolidou estratégias de vacinação no Brasil. As 20 vacinas de rotina previstas no PNI, que imunizam o indivíduo em todas as etapas da vida, são disponibilizadas para a população dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul nas 597 salas de vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS) do estado. Os imunizantes estão à disposição, e os profissionais da Saúde percebem que enquanto as salas de espera para atendimento médico encontram-se abarrotadas, as de imunização tem se tornado vazias.
O médico cardiologista e presidente da Caixa de Assistência dos Servidores de Mato Grosso do Sul (Cassems), Ricardo Ayache relata uma queda dos índices de população vacinada no estado e aponta que o exemplo mais expressivo é o da vacina contra a Influenza. “Recentemente, a gente percebe uma adesão baixa à vacinação contra Gripe, que tem levado a superlotação dos hospitais públicos e privados de todas as unidades de saúde com casos de Gripe, de Influenza, viroses respiratórias e outras, levando a uma superlotação de todo o sistema de saúde”. A 26° campanha da vacina da Influenza foi antecipada neste ano, começou no dia 18 de março, e o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul ampliou o público para toda a população não imunizada, a partir dos seis meses de idade, no dia 2 de maio deste ano, em razão da baixa procura e do aumento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).
De acordo com a coordenadora de Imunização da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Ana Paula Goldfinger a diminuição da cobertura dos imunizantes em Mato Grosso do Sul está associada a hesitação vacinal causada pela politização da vacina durante a pandemia da Covid-19, de forma que “no ano de 2021, 2022 e 2023 a gente já fez um trabalho de resgate dessa população, só que junto com isso, a pandemia deixou para nós uma herança ruim, que foram as fakes news, e a imunização vem sendo muito prejudicada justamente por essas fakes news que foram construídas durante a pandemia”. A enfermeira e fonoaudióloga Andrea Neves considera que o déficit de vacinação em Mato Grosso do Sul tem causas multifatoriais. “Não conseguimos a chegar a 100% [de cobertura vacinal] porque existem diversos fatores, como mães que não querem vacinar seus filhos, por fatores religiosos, mães que tem medo da vacina, pessoas que tem medo dos mitos em relação à vacina, sabe, tem influência da parte cultural também e de educação”.
O bombeiro militar Manolo Cid questiona a necessidade de realizar a vacinação, pois acredita que não é necessário se prevenir para possíveis adoecimentos. “Eu acredito que um corpo saudável não precisa de nenhum tipo de remédio ou vacina, assim como os agrotóxicos envenenam as plantações, os medicamentos fazem o mesmo com nosso organismo. O consumo de produtos naturais na alimentação e a prática constante de exercícios contribui para que nosso corpo se mantenha saudável, e um corpo saudável tem força para combater qualquer tipo de vírus”. A enfermeira da Unidade Básica de Saúde (UBS) 26 de Agosto, de Campo Grande (MS), Gilvania Bonifácio alerta que a recusa à vacinação deixa o indivíduo mais vulnerável, “porque não vai ter imunidade, porque a vacina faz o organismo criar imunidade para aquela doença, para a forma grave daquela doença”.
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Informações disponibilizadas pelo Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS/MS) apontam que a vacina BGC e a Pneumocócica, ministradas no primeiro ano de vida das crianças, são algumas das que tiveram quedas expressivas nos índices de imunização em Mato Grosso do Sul nos últimos três anos. A taxa de cobertura da vacina BGC reduziu em 21,56% de 2022 a 2024, enquanto a da Pneumocócica diminuiu em 11,57%. A enfermeira Gilvania Bonifácio considera que o maior desafio para o cumprimento das metas de vacinação tem sido conscientizar a população, sobretudo os pais, sobre a importância das vacinas para prevenir formas graves das doenças. “A gente sempre orienta bem os pais, quando eles optam não vacinar, que eles estão deixando o filho exposto a uma doença que pode ser prevenida através da vacina. Então, essa é uma responsabilidade muito grande”.
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A enfermeira e fonoaudióloga, Andrea Neves contraiu o vírus da Poliomielite quando tinha dois anos de idade, época em que a vacina para a doença ainda não tinha sido descoberta, e ainda vive as consequências da falta de imunização contra a doença. “Em 1972 eu fui acometida, eu não fui vacinada e aí me deixou com sequelas motoras no membro inferior direito. E a Poliomielite, após 15, 20 anos, o vírus também trabalha, ela surge como Síndrome Pós-Poliomielite. [...] Em 2016, no meu corpo, eu tive que começar a usar bengala, porque eu tive perda de 90% de força da musculatura, então, é algo que não tem [solução] com fisioterapia e nenhum remédio”. Andrea Neves relata que a disponibilidade da vacina também fez diferença em 2020, quando o companheiro de Andrea contraiu o vírus da Covid-19 antes de ter a oportunidade de se vacinar. “Eu perdi meu esposo, e meu esposo super cuidadoso fazia uso de máscara, todos aqueles protocolos e não tinha nenhum tipo de comorbidade. Ele se contaminou. Nós não sabíamos como, mas foi naquela segunda leva, que o vírus veio bem forte e ele não se vacinou porque ainda não tinham descoberto a vacina. Então, muitas pessoas que foram a óbito na pandemia não tiveram a oportunidade da vacina [...] e muitas poderiam, após a descoberta da vacina, ter se vacinado e evitado morrer”.
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Informações disponíveis na página da Secretaria de Estado de Saúde (SES) apontam que o Governo de Mato Grosso do Sul investiu R$ 5,5 milhões em ações estratégicas de imunização e no pagamento de profissionais da vacinação em 2023. As agentes de saúde Marina e Paula trabalham diretamente com famílias campo-grandenses e relatam que as dúvidas sobre o funcionamento e eficácia da vacina são constantes. “Conforme a visita aos domicílios, a gente ouve das pessoas que elas viram algum vídeo na internet ou escutaram de algum familiar que as vacinas poderiam fazer mal. Então uma forma de ajudar é passando a informação ao cidadão e orientando sobre como a vacina funciona”, declara Paula, “Eu acho que a gente deveria ser melhor informado, deveria ter mais preparação para orientação. Eu acho que falha um pouco nisso, a gente não é tão preparado para orientar e vai se preparando ali, no fluxo do que vai acontecendo mesmo”, complementa Maira.
EIXO DESINFORMAÇÃO
A Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) disponibilizou informações pela página do Programa Educacional de Vigilância em Saúde que apontam uma queda na imunização entre crianças que se mantém constante desde 2016. O coordenador de Imunização da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), Evandro Ramos enfatiza que uma comunicação direta com a população é um dos meios encontrados para atingir o público. “A Rede Municipal de Saúde também tenta fazer ações com as unidades de saúde, com aponta para desmistificar também isso [baixa adesão], as ações de busca ativa também buscam fortalecer e esclarecer essas dificuldades que tem da população por exemplo, de entendimento sobre a importância da vacina ou até mesmo da importância de manter o calendário atualizado”.
A Escola Nacional de Saúde Pública publicou informações que mostram os principais veículos que causam as desinformações, as redes sociais, com destaque para o Instagram, Facebook e WhatsApp. A coordenadora da Agência Veracidade e docente do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Tais Fenelon comenta que existem diversos canais que geram desinformação para a população, inclusive de pessoas com autoridade no assunto. “ Existem vários perfis de médicos no Instagram que continuam reforçando mentiras deliberadas de que a vacina foi feita em curto período de tempo, de que ela não é segura, informações que já foram contestadas e comprovadas com base na ciência”.
>>>vídeo tais<<<
Segundo a coordenadora de Imunização da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Ana Paula Goldfinger o principal motivo para a propagação de informações falsas que desencadeiam na desinformação são as redes sociais. A enfermeira Andrea Neves enfatiza que um dos meios para combater a desinformação é transmitir à população o conhecimento e enfatizar a importância de manter os calendários vacinais atualizados. “O nosso grande desafio é a conscientização da importância da vacinação e dos pais estarem levando essas crianças às unidades de saúde. Nós temos na mídia toda a divulgação do calendário vacinal”.
Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou informações que alertam a existência de uma nova crise na Saúde Pública gerada pelo excesso de informações, o que provoca uma dificuldade em distinguir o que está correto ou não, o termo é conhecido como infodemia. O docente do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Marcos Paulo da Silva enfatiza que a infodemia não foi iniciada na pandemia e ressalta que foi amplificada neste período. “A pandemia, como fez com vários aspectos da sociedade, potencializou e explicitou várias contradições e várias questões sociais que já existiam e que foram aprofundadas ali”.
>>áudio Marcos Paulo<<
A coordenadora de Imunização da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Ana Paula Goldfinger comenta que a pandemia da Covid-19 deixou uma "herança negativa" para a sociedade, que foram as desinformações. “A imunização vem sendo muito prejudicada justamente por essas fakes news que foram construídas durante a pandemia”. O docente do curso de Jornalismo da UFMS, Marcos Paulo da Silva afirma que para o combate à desinformação é necessário valorizar os institutos que produzem conhecimentos verídicos em relação à vacinação.
>>áudio Marcos Paulo<<
A coordenadora da Agência Veracidade e docente do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Tais Fenelon afirma que uma das principais causas da queda na imunização da população de Campo Grande ocorreu devido às informações falsas terem sido compartilhadas de forma rápida. “A desinformação que circulou sobre a vacina foi tão poderosa, deixou as pessoas com tanto medo pela quantidade de mentiras que foram inventadas e criadas contra essa vacina, não apenas durante a pandemia”. A coordenadora de Imunização da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Ana Paula Goldfinger reforça que a população deve procurar páginas institucionais antes de repassar informações relacionadas com a imunização.
>>vídeo ana paula<<
EIXO POLÍTICAS PÚBLICAS
A Constituição Federal garante, conforme o Artigo 196, que a Saúde é um direito de todos e uma responsabilidade do Estado. O governo deve ser capaz de resguardar a saúde pública e de prover acesso igualitário aos serviços oferecidos e, promover o desenvolvimento de políticas públicas para a saúde. A legislação brasileira também estipula que o atendimento deve ser completo e os serviços descentralizados e exige que cada município disponha de suas próprias unidades de saúde.
Informações do painel de informações da Sala de Gestão Estratégica do Ministério da Saúde (SAGE), existem 602 Unidades de Saúde Básica (UBS) em funcionamento em Mato Grosso do Sul, 73 delas, no município de Campo Grande. O coordenador de Imunização da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), Evandro Ramos afirma que várias unidades estão distribuídas de maneira proporcional pela cidade e estão promovendo iniciativas para aumentar a busca pela vacinação entre a população.“Muitas delas atendem na hora do almoço e até às 19h20 e temos várias ações que sempre são executadas em feriados e finais de semana [...] para justamente melhorar esse acesso, para não ter o argumento da população que não vai procurar vacina porque não tem acesso, então o acesso é garantido”.
> áudio 1
A 26ª Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza em Mato Grosso do Sul teve início em 25 de março, com o objetivo de imunizar 1,1 milhão de habitantes que compõem o público da vacina, idosos e crianças. O Governo do Estado ampliou a vacinação para a população com mais de seis meses e para todos que ainda não se vacinaram. Informações da Secretaria de Estado de Saúde (SES), afirmam que devido à baixa participação dos grupos prioritários, a quantidade de vacinados equivale a 17,41% do total de pessoas designadas como prioritárias. O governo de Campo Grande declarou, por meio do Diário Oficial de 30 de abril, situação de emergência em saúde pública devido à lotação de leitos da Unidades de Terapia Intensiva (UTI) na área neonatal e pediátrica causada pelo aumento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), uma semana após a ampliação.
O orçamento para realização de campanhas de imunização é distribuído pelo Ministério da Saúde, que distribuiu o subsídio de R$ 2,3 milhões entre 79 municípios do estado. Informações do Ministério de Saúde mostram que o incentivo financeiro mais recente para os municípios de Mato Grosso do Sul ocorreu em três de abril, como parte das iniciativas do Programa Saúde na Escola (PSE), que promove a aplicação das doses vacinais no ambiente escolar. A coordenadora de Imunização da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Ana Paula Goldfinger afirma que a vacinação nas escolas é uma das principais políticas públicas do estado. “O nosso público são crianças e adolescentes, [...] a Secretaria de Estado de Saúde vem fazendo é uma parceria junto com a educação, com a Secretaria de Educação, para que a gente retome a vacinação no âmbito escolar, como era feito a tempos atrás, onde nós tínhamos um êxito na vacinação e alcançamos boas e homogêneas coberturas vacinais”
> áudio 2
A cobertura vacinal em aldeias indígenas e nas regiões fronteiriças é uma das programações do calendário de imunização da Secretaria de Estado de Saúde (SES). A coordenadora da SES, Ana Paula Goldfinger explica que existe uma “demanda de tratamento distintivo”, de acordo com a cultura. “Nós já sabemos como ofertar a vacina em especial para população indigena, e trabalhamos muito junto ao Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) [...] nosso maior gargalo é realmente nesses 17 municípios que fazem fronteira com os países, que não detém uma carta de vacinas como nós temos aqui no Brasil, portanto fica bem fazer com que eles não busquem nossos imunizantes então a gente acaba atendendo, tem que vacinar para que a doença desses países vizinhos não chegue até o Brasil”.
> gráfico
O coordenador de Imunização da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), Evandro Ramos afirma que “as problemáticas do processo de vacinação, não envolvem só a aplicação, e sim, vários fatores de adesão, por exemplo, de disponibilidade das vacinas nas unidades de saúde, são particularidades que acabam refletindo também como um impacto negativo para a vacinação”. Informações do Ministério da Saúde, o estado de Mato Grosso do Sul foi o primeiro a fornecer a vacina para dengue em todos os municípios. A estratégia para conter o cenário epidemiológico no país foi adotada devido às altas taxas de transmissão do vírus na população entre 10 a 14 anos. Foram distribuídas 930 mil para municípios selecionados, e dentre elas, 668 mil doses estavam próximas da data de vencimento.
Informações do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)destacam que a vacina evita que doenças altamente contagiosas voltem a circular, assim como aconteceu com o sarampo. Evandro Ramos evidencia que apesar da erradicação de casos de doenças como a poliomielite, rubéola e tétano, é necessária a adesão contínua da imunização. “A população precisa compreender que ‘não vê ou não visualiza’ hoje crianças ou adultos jovens com alguma sequela de pólio porque justamente tomaram vacina, mas se essa baixa adesão continuar é muito provável que volte a acontecer casos no Brasil”. O docente do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Marcos Paulo da Silva destaca que, após a pandemia, houve um aumento significativo da desinformação sobre vacinas, o que motivou a criação de novas políticas públicas para combater essa tendência.
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Profissional da Saúde aplicando a vacina
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