Unidade 1: Paradesporto

     

Os paradesporto, esportes adaptados para pessoas com deficiência independente da modalidade escolhida ou nível da deficiência, começou a ser desenvolvido em 1948, e ganhou repercursão em 1960, com a primeira edição dos Jogos Paralimpicos, principal evento de paradesporto em âmbito mundial. Desde a criação das competições para pessoas com deficiência, atletas de Mato Grosso do Sul têm contribuído para colocar o país em destaque perante delegações de outras nações. Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020, os esportistas sul-mato-grossenses conquistaram quatro das 22 medalhas de ouro do Brasil. Os atletas do estado se destacam em duas das 22 modalidades paralímpicas, o paratletismo e a paracanoagem.

As Paralimpíadas Escolares, o Festival Paralímpico 2023 e as Olimpíadas das Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) estão entre as competições regionais de Mato Grosso do Sul. As disputas realizadas em sua maioria em Campo Grande, são organizadas pelo Governo de Mato Grosso do Sul e intermediadas pela Fundação de Desporto e Lazer (Fundesporte), Secretaria de Estado de Turismo, Esporte, Cultura e Cidadania (Setescc), Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e as Apae. As competições esportivas com foco em pessoas com deficiência, são realizadas todos os anos no estado e oferecem oportunidades para a participação em jogos de âmbito nacional e internacional.

A prática dos paradesportos acontece em quatro polos de treinamento em Campo Grande. A técnica desportiva da Fundesporte, Amanda Velasco explica que a instituição do Centro de Referência Paralímpico no estado é importante pois proporciona lazer e aprendizado para as pessoas com deficiência interessadas na prática de esportes. “Muitas vezes a pessoa com deficiência tem vontade de praticar esporte, mas não sabe aonde ir, o centro veio para unir as modalidade e tirar um pouco de todo peso das associações. Assim, as pessoas têm um local que podem treinar sem precisar competir também”.

O Centro de Referência Paralímpico, criado pelo Governo Estadual de Mato Grosso do Sul, em parceria com a Fundesporte, oferece estrutura para a prática de oito dessas modalidades de forma gratuita à população com deficiência. Bocha, atletismo, natação, tênis de mesa, judô, futebol, goalball e basquete fazem parte do quadro de esportes oferecidos. Os Jogos Paralimpícos ocorrem a cada quatro anos e abrangem atletismo, badminton, basquetebol em cadeira de rodas, bocha, canoagem, ciclismo, esgrima em cadeira de rodas, futebol de cinco, goalball, hipismo, judô, levantamento de peso, natação, remo, rugby em cadeiras de rodas, taekwondo, tênis de mesa, tênis em cadeira de rodas, tiro, tiro com arco, triatlo e voleibol sentado, modalidades esportivas reconhecidas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro.

(IMAGENS DE ATLETAS DE BOCHA E ATLETISMO)

[áudio FUNDESPORTE]

in: 03:43 - a gente já tem hoje 8 modalidades

out: 04:42 - que é legível para ela


Os atletas elegíveis, ou seja, que estão aptos para competições são classificados por meio da Classificação Esportiva Paralímpica (CEP), de acordo com a capacidade visual, intelectual e físico-motora de cada indivíduo. Profissionais especializados realizam avaliações clínicas, técnicas e de desempenho periodicamente para definir a categorização dos competidores, de acordo com Código Nacional de Classificação Esportiva Paralímpica, que segue as regras e políticas estabelecidas pelo Comitê Paralímpico Internacional. Cada modalidade esportiva possui uma regulamentação específica, para garantir que as disputas ocorram de forma justa e que todos os atletas possuam as mesmas chances de vitória. 

(infográfico - modalidades)

As modalidades das Paralimpíadas incluem atletas com deficiências motoras, amputados, cegos e pessoas que apresentam paralisia cerebral. Os competidores de alto rendimento, no estado, que se destacam em competições nacionais e internacionais de sua categoria, estão aptos a receber uma ajuda de custo com o Programa Bolsa Atleta. A iniciativa do Ministério do Esporte, tem como objetivo garantir condições mínimas de preparação esportiva aos atletas brasileiros que atendam aos critérios estabelecidos na legislação vigente e aos requisitos elencados nos Editais publicados todos os anos. [hiperlink].

O atleta de paracanoagem, modalidade disputada em águas calmas e ambientes abertos que consiste na disputa de uma prova de 200 metros, Alan Nantes começou sua trajetória nos esportes após um acidente que causou a perda dos movimentos de membros inferiores do corpo. Ele explica que precisou se adaptar à sua nova realidade e o esporte ajudou neste processo, e o deu um novo significado para sua vida. Nantes disputa pela categoria VL1, classe que abrange atletas tetraplégicos e paraplégicos, a dois anos e recebe auxílio financeiro do estado e de patrocínios privados de empresas de Sidrolândia. “Eu consegui a Bolsa Atleta e atualmente recebo auxílios privados de empresas parceiras, amigos e fazendeiros da minha cidade que me ajudam nas viagens”.

(VÍDEO ATLETA)

 

Unidade 2: Inclusão Social

 

De acordo com a psicóloga Clara Costa capacitismo é o ato de discriminar e subestimar pessoas com deficiência física ou mental. “Uma atitude capacitista é, por exemplo, supor que uma pessoa cadeirante ou autista não consegue fazer uma determinada ação e julgá-la incapaz ou inferior”. Termos ofensivos ou pejorativos, olhares de julgamento e a exclusão de pessoas com deficiência de grupos ou espaços de convivência são manifestações deste tipo de preconceito e causam impactos nas relações sociais destes indivíduos. As consequências do capacitismo também são percebidas no espaço físico das instituições e das cidades. 

 

A luta pelos direitos das pessoas com deficiência (PCD) ocorre desde a década de 80 e ganhou força com a implementação da Lei da Acessibilidade, que decretou medidas efetivas para a inserção social de pessoas com deficiência nos espaços públicos, privados, físicos e digitais que garante o acesso à informação e a comunicação, a partir do ano 2000. O bacharel em direito e engenheiro da computação Michel de Oliveira participa do Projeto Social Incluir pelo Esporte, promovido com apoio da FUNDECT em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), e se orgulha por realizar tarefas de maneira autônoma. “Eu não sou um coitado, se eu tiver as ferramentas necessárias para fazer as coisas que eu preciso, eu consigo fazer tudo”. 

 

A subsecretária de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência, Telma Nantes afirma que o Estado tem o objetivo de promover ações de inclusão para pessoas com deficiência por meio do programa MS Acessível. Ela destaca a utilização do esporte na melhoria da qualidade de vida e da permanência de alunos com deficiência no ambiente escolar. “Estamos com um diálogo aberto com a Sed [Secretaria de Educação de Mato Grosso do Sul] para levar essas iniciativas para as escolas, fortalecer as medidas de inclusão e da acessibilidade no ambiente escolar, a atenção à saúde, educação e aos esportes adaptados, esperamos conseguir levar estas políticas públicas e ações para todos os municípios”. A coordenadora de Políticas para a Educação Especial (Copesp), Janaina Belato relata que o esporte contribui para a inclusão e permanência destes alunos no ambiente escolar. “O estado tem a responsabilidade de usar ferramentas que favoreçam a permanência e a participação desses estudantes na escola com o máximo de qualidade. O esporte é um instrumento que deve ser valorizado”.  

 

O Censo Escolar 2022, promovido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), demonstrou que em 272 escolas do Mato Grosso do Sul inexistiam recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. São escolas privadas e públicas sem recursos humanos e de infraestrutura como corrimão, piso tátil, sinal tátil, sinal sonoro e visual. O atendimento às pessoas com deficiência é realizado por 1.458 escolas. Janaina Belato relata que a Copesp é responsável por verificar as necessidades e especificidades educativas de cada estudante e promover a sua matrícula e a permanência e explica que “os serviços da educação especial vão variar em tipos, tempos e intensidade e, alguns, na questão da provisoriedade ”. 

 

 [ÁUDIO JANAINA] sobre serviços de inclusão 

 

A Associação dos Pais e Amigos Excepcionais é uma das instituições que atendem estudantes da educação básica em contraturno e utiliza-se do esporte como ferramenta de reabilitação e inclusão social. De acordo com a professora de Educação Física da APAE, Caroline Michele Fabiano, a matrícula em institutos e programas similares depende do envolvimento familiar. “ É a família que vai conseguir apresentar este aluno, este atleta para nós enquanto instituição”. Ela também reafirma o incentivo da rede pública à participação dos alunos com deficiência em atividades desportivas e a importância da Inclusão. 

 

[VÍDEO CAROLINE] [5:30] [6:34]

 

A professora de Educação Física do projeto Incluir pelo Esporte, Marli Cosseli também percebe o apoio da família como fundamental para o desenvolvimento do paradesportista. A professora, que é entusiasta do esporte, atua na área há mais de 20 anos, e explica que a família observa a evolução das pessoas com deficiência e sua capacidade. Ela afirma que o esporte é uma ferramento transmformação social, e os benefícios se estendem para os familiares e a comunidade ao redor.

 

[VIDEO MARLI]

IN: 13:2 8 - NEM TODOS QUE VEM PRATICAR 

OUT: 14:00 NOSSA ATENÇÃO E NOSSO CARINHO

 

Unidade 3: Reabilitação

 

A prática de atividades esportivas para pessoas com deficiência, além de promover benefícios relacionados ao bem estar e a qualidade de vida, também ajuda na prevenção de enfermidades secundárias à deficiência, incentiva a integração social e a reabilitação da pessoa com deficiência. O desporto adaptado é indicado desde a fase inicial do processo de reabilitação. O fisioterapeuta André Campos afirma que a prática de esportes, aliada a tratamentos como a terapia ocupacional, é uma ferramenta eficaz na reabilitação de indivíduos com deficiência motora ou neurológica, por trazer benefícios para a mobilidade, além de efeitos positivos para a saúde mental do indivíduo.

 

vídeo andré

 

Os esportes adaptados têm regras, fundamentos e estrutura projetados para permitir a participação de pessoas com diversos tipos e graus de deficiência, de maneira a respeitar suas limitações físicas e intelectuais e incentivar a realização de movimentos e estímulos aos sentidos, como o tato e a audição. O jogo de bocha adaptado é um exemplo de esporte que pode ser praticado por indivíduos com grau de deficiência motora grave, e que permite o desenvolvimento de um elevado nível de habilidade. O jogo requer planejamento e estratégia na tentativa de colocar o maior número de bolas próximas da bola-alvo, de maneira a desenvolver e aumentar, entre outras funções, a capacidade viso-motora. Além disso, o jogo pode ser facilmente adaptado para permitir que jogadores com limitação funcional usem dispositivos auxiliares, como rampas ou calhas e capacetes com ponteira.

 

infográfico - benefícios do esporte

 

Existem dezenas de projetos sociais e associações, como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) que têm como foco democratizar o acesso às práticas esportivas para pessoas com deficiência em Mato Grosso do Sul. A professora de Educação Física do projeto Incluir pelo Esporte em Campo Grande, Marli Cosseli afirma que o paradesporto auxilia de diversas maneiras na reabilitação física e mental de seus alunos. “No projeto nós estamos formando atletas caso eles queiram, mas também incentivando bons hábitos a partir do esporte”.

 

(ÁUDIO MARLI)

IN: 1:35 - É CIENTIFICAMENTE COMPROVADO

OUT: 2:14 - COM DEFICIÊNCIA E ROTULAR  

 

O esporte proporciona um ambiente de experimentação sensorial, independente das limitações físicas ou barreiras sociais. Além disso, promove o lazer e o estímulo à competição, que são considerados aceleradores do processo de reabilitação. O fisioterapeuta André Campos relata que, aliado a processos terapêuticos como a fisioterapia e a psicoterapia, a prática de esporte apresenta benefícios na realização das atividades diárias e na autoestima dos indivíduos. “Além de melhorar a condição física, os PCD que praticam esportes apresentam uma melhoria da autoconfiança para fazer as atividades do dia-a-dia. Conheço atletas do bocha que tem mobilidade reduzida e realizam todas as atividades cotidianas com a ajuda dos pés, o esporte ajuda nesse aspecto também”.

 

Pessoas com deficiência encontram dificuldades e se deparam com falta de apoio, acessibilidade e preconceito para começar e se manter ativo em uma modalidade desportiva adaptada. A doutora em Políticas Públicas e Assistência Social para Pessoas com Deficiência em Campo Grande (MS), Juliana Bauab afirma que a capacitação de profissionais para atuação com pessoas com deficiência e o cenário fragilizado do Sistema de Saúde Público (SUS) são pontos que carecem de melhoria nos serviços prestados no município. O SUS é responsável pelos serviços de atenção a pessoas com deficiência relativos à reabilitação física e motora. Juliana relata que a falta de uma implementação efetiva das políticas públicas de inclusão existentes torna o serviço ineficiente.

 

áudio Juliana

 

A subsecretária de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência, Telma Nantes afirma que o paradesporto deve ser desenvolvido e favorecido pelo governo do Estado, como forma de reabilitação, lazer e inclusão social e também como potencial competitivo de alto rendimento. “Temos esportistas brilhantes aqui no estado e eles precisam ser valorizados, valorizar estes atletas também faz a população entender que a pessoa com deficiência pode superar todos os limites e obstáculos impostos, e que podem realizar atos grandiosos.” A subsecretária informa que a implementação de políticas públicas de inclusão e acessibilidade como o programa Viver Sem Limites estão previstas para 2024 e tem o paradesporto como um dos focos de atuação em Mato Grosso do Sul. 

 

áudio telma