PREVENÇÃO DA FAUNA (1º UNIDADE )
O perímetro urbano de Campo Grande abriga uma grande biodiversidade de espécies do cerrado e da mata atlântica. A preservação da fauna na região é importante para a manutenção do equilíbrio na natureza e controle da população de animais selvagens. O avanço da urbanização na capital de forma desordenada e o desmatamento ilegal, obriga a mudança de comportamento dos animais.
O Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) de Mato Grosso do Sul atendeu 784 animais silvestres, até agosto de 2023. No estado, duas a três vidas da fauna são resgatadas por dia em áreas urbanas pela Polícia Militar Ambiental (PMA), após operações de combate ao tráfico, acidentes e invasão de residências e comércios. As ações de proteção de reservas ambientais e do bem-estar animal devem ser contínuas, para diminuir o risco de extinção dessas espécies.
O CRAS, fundado em julho de 1987 em Campo Grande, reúne médicos veterinários, biólogos e funcionários de apoio que atuam na reabilitação do animal resgatados pela PMA. O atendimento consiste nas etapas de recepção, quarentena e acondicionamento, acompanhamento nutricional, sanitário e comportamental, destinação e o monitoramento. Segundo dados do Centro de Reabilitação até agosto deste ano, 257 animais foram devolvidos à natureza, 233 continuam em reabilitação e 294 morreram.
O estudante do programa de pós-graduação em ciências veterinárias da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) , Lucas Cazati afirma que a descaracterização do habitat dos animais é um dos principais motivos da migração para a cidade. Segundo Cazati, o aumento de animais nos centros urbanos tem sido gradual e pode ter relação direta para com a taxa de incidentes. “A gente observa que com a expansão da cidade, os animais não têm para onde ir e acabam se encaixando a essa nova realidade, o que pode corroborar em dados negativos”.
ÁUDIO - LUCAS CAZATI
A estudante do Programa de Pós Graduação em Ecologia e Conservação da UFMS, Daniele Pereira explica que há uma mudança drástica no número de espécies e comportamento das aves no perímetro urbano, como a dificuldade de reprodução. “Em locais com grandes construções e poucos espaços verdes, a biodiversidade de espécies é pequena em relação a lugares com mata preservada e reservas florestais”. Do total de animais silvestres recepcionados pelo CRAS, 68% são aves, 20% mamíferos e 12% répteis.
VIDEO - DANIELE PEREIRA
O diretor de comunicação da SOS Pantanal, Gustavo Figueiroa explica que o confinamento dos animais nas unidades de conservação dentro das cidades, força uma adaptabilidade das espécies no meio, e aqueles com dificuldades em se adaptar são extintos. “Áreas de reservas em qualquer lugar são importantes, a extinção em massa de uma espécie silvestre geralmente ocorre quando você destrói todo o ambiente em que aqueles animais vivem”. A preservação de reservas ambientais nas cidades, como parques e outros locais de conservação implantados em meio à projetos urbanos são necessários para manter a biodiversidade e os ecossistemas locais.
VIDEO - GUSTAVO FIGUEROA
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (Semadur), é responsável pelo controle e fiscalização ambiental de Campo Grande, dentre as questões observadas estão a gestão de áreas verdes e da arborização urbana. A prática ilegal de desmatamento e supressão de vegetal são crimes ambientais que prejudicam diretamente o meio ambiente, a vida selvagem, a biodiversidade e os recursos naturais. A Lei Nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, prevê a pena de detenção, de um a três anos, ou multa, ou ambas as penas cumulativas.
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INCIDENTES NA ÁREA URBANA (2º UNIDADE)
A Policia Militar Ambiental (PMA) de Mato Grosso do Sul, capturou 546 animais silvestres de janeiro a junho de 2023, alta de 62% em relação ao mesmo período do ano passado. Os animais sem ferimentos são soltos na natureza, aqueles que estão machucados ou vítimas de tráfico são encaminhados para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS). Segundo a capitã da PMA, Thamara Moura os policiais possuem treinamento para o manejo de animais silvestres, no entanto em casos considerados extremos como resgate de grandes felinos, a equipe conta com o auxílio de médicos veterinários hábeis para a utilização de dardos sedativos.
INFOGRÁFICO COM NÚMERO DE CAPTURAS POR REGIÃO
A capitã Thamara Moura afirma que são frequentes as ocorrências de resgate de lobos-guará e macacos-pregos em áreas urbanas e de mamíferos como antas, tamanduás e lobos-guarás vítimas de atropelamento. No entanto, aves como araras e papagaios estão em primeiro lugar na lista de atendimento e reabilitação entregues ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras), principalmente em razão do tráfico que está entre as maiores atividades ilícitas do mundo, de acordo com a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres. " A aproximação dos animais em residências em busca de alimento e esconderijos tem crescido na capital".
VIDEO DE ANIMAIS EM REABILITAÇÃO
A entrada de animais silvestres em áreas urbanas ocorre em razão da descaracterização do habitat natural das espécies, o que pode gerar impacto tanto sob a população recém-chegada quanto sob as que residem nas cidades há mais tempo. De acordo com o diretor de comunicação da SOS Pantanal, Gustavo Figueiroa o encontro entre diferentes espécies, inclusive com os seres humanos, resulta em conflitos. “Há um aumento nos incidentes, muitos animais acabam machucados e até mortos pelos conflitos diretos com os seres humanos. Isso vai impactar na qualidade de vida deles”.
A bióloga e pesquisadora associada ao Instituto Arara Azul, Larissa Tinoco afirma que as aves que circulam no ambiente urbano correm riscos de mortalidade com a linha de cerol, contato com a rede de energia elétrica e a predação por animais domésticos. A maioria dos casos de morte registradas pelo instituto envolve a rede de energia elétrica. “A gente tem uma parceria com a concessionária de energia local e quando há uma necessidade de manejo, passamos para a Energisa que encaminha uma equipe para fazer avaliação e ações necessárias em árvores ou estruturas de fiação para evitar acidentes”.
ÁUDIO - LARISSA TINOCO
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (Semadur) de Campo Grande também possui parceria com a concessionária de energia para manejo arbóreo ou da infraestrutura elétrica. A superintendente de meio ambiente da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Campo Grande, Gisseli Giraldelli explica a importância de corredores verdes para o tráfego e alimentação dos animais no perímetro urbano, principalmente em áreas de maior fluxo animal. “Em relação ao planejamento urbano, a Semadur passou a exigir que novos loteamentos e empreendimentos da capital tenham soluções para a segurança da fauna local”.
ÁUDIO - GISSELI GIRALDELLI
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SAÚDE PÚBLICA E ANIMAL (3º UNIDADE)
A ação humana modifica o meio ambiente e causa impactos importantes, como o maior contato entre homens e animais silvestres. Os animais silvestres e domésticos, tanto em vida livre como em cativeiro, podem ser reservatórios e portadores de zoonoses que representam um grande problema de saúde pública. Doenças como peste, leptospirose, febre maculosa brasileira, hantavirose, doença de Chagas, febre amarela, febre de chikungunya e febre do Nilo Ocidental, estão entre principais zoonoses monitoradas por programas nacionais de vigilância e controle do Ministério da Saúde.
De acordo com o manual do Ministério da Saúde, zoonoses são doenças infecciosas transmitidas de animais para animais e pessoas. Os patógenos podem ser bacterianos, virais, parasitários e se espalhar para os humanos por meio do contato direto ou através de alimentos, água ou meio ambiente. Em muitos casos animais silvestres, domésticos ou sinantrópicos podem servir como hospedeiros dos agentes transmissores, como a pulga e o carrapato.
Os parasitas podem ser encontrados em cães, gatos, bovinos, aves e roedores como a capivara. Segundo a médica veterinária, Juliana Galhardo os casos são perigosos, pois a presença dos animais hospedeiros em áreas urbanas e domésticas possibilitam o contágio da doença em humanos. “Elas representam um grande problema de saúde pública que exige extremo cuidado e atenção dos órgãos de saúde devido à nossa estreita relação com os animais no ambiente doméstico, na agricultura e no ambiente natural”.
INFOGRÁFICO - DOENÇAS E SEUS VETORES
A confirmação de 60 casos e 11 óbitos por febre maculosa em 2023 no Brasil, gerou alerta em relação à transmissão e alta letalidade da doença. A médica veterinária explica que com o aumento de infecções, em maio deste ano, muitas dúvidas foram levantadas sobre o risco do contato com as capivaras, animais que podem ser hospedeiros do carrapato-estrela, transmissor da febre maculosa. “O distanciamento saudável é uma medida que deve ser tomada em relação a todos os animais silvestres que se apresentam no perímetro urbano”.
VIDEO - JULIANA GALHARDO (CONTATO CAPIVARAS)
Mato Grosso do Sul é um estado livre da doença, cinco casos suspeitos foram descartados em 2023, segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES). Apesar do estado não apresentar casos confirmados, Juliana Galhardo afirma que o distanciamento é uma das melhores medidas de prevenção contra a doença. “Não devemos forçar uma aproximação com esses animais, esse distanciamento, além de ser uma forma de respeito, é uma maneira de promover saúde pública e garantir a saúde dos animais também, pois a nossa presença invadindo o espaço deles também causa mal aos bichos de diversas formas”.
VIDEO - JULIANA GALHARDO (PREVENÇÃO FECHE MACULOSA)
O monitoramento populacional dos animais silvestres dentro da área urbana é uma das principais formas de prevenção de zoonoses, com objetivo de barrar possíveis focos de doenças. Outra forma de coibir o aparecimento destas doenças é o cumprimento do calendário vacinal promovido pela prefeitura de Campo Grande, que garante a imunização contra as principais zoonoses registradas no país. Além disso, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) é responsável pelo desenvolvimento de ações contra doenças transmitidas por animais, por meio do controle das populações de animais domésticos (cães, gatos e animais de grande porte) e de animais da fauna sinantrópica (morcegos, pombos, roedores, caramujos, carrapato e pulga entre outros).
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- (Foto: Thauana Luares)