Movimento - Quem são os estudantes das Universidades Públicas de Campo Grande? 

Para o crescimento de um estado é necessário o investimento em educação, tanto infantil como universitária, para a formação de bons profissionais. Ao passar pelo vestibular, além da empolgação de ser aprovado em uma Universidade, manter-se nela é um desafio para os estudantes migrantes que saem de suas cidades em busca do diploma universitário. De acordo com uma pesquisa realizada pela equipe de reportagem, 54,6% dos estudantes de universidades públicas de Campo Grande não estudam na cidade em que nasceram. 

A proporção de estudantes que precisam se mudar para estudar é maior entre os estudantes das universidades públicas, de acordo com o Instituto Datafolha. Uma das causas desse movimento é o fato que, em sua maioria,  as Instituições Federais, apresentam maior nota no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE). Além disso, o investimento das universidades públicas  em iniciação científica, projetos de extensão, dentre outras atividades extracurriculares com bolsas e auxílios estudantis também contribuem na hora do estudantes escolher uma faculdade.

Foto de alunos em uma reunião de projeto de extensão

Dados do Mapa de Ensino Superior da Semesp de 2022, a região Centro-oeste corresponde a 9,8% da educação superior do Brasil. A mesma pesquisa apontou que no ano passado 71.425 pessoas foram matriculadas em instituições públicas e privadas de ensino superior no estado, desse número apenas 25.604 frequentaram as aulas. Alguns fatores contribuiram para que 45.821abdicassem de suas vagas na faculdade, como a desistência da matrícula em uma faculdade particular após ser aprovado em uma universidade pública; a falta de condições financeiras para morar em um cidade sem a família; a matriz curricular do curso que não permite conciliar um trabalho, dentre outras situações.

No caso da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), por exemplo, que tem diversos cursos em período integral, os auxílios permanência e alimentação fornecidos pela instituição tornam-se uma necessidade para muitos estudantes que migram de suas cidades para cursar o ensino superior. De acordo com uma pesquisa realizada pela equipe de reportagem, 45% dos estudantes das universidades públicas da capital saíram de sua cidade exclusivamente para estudar em Campo Grande. O apoio financeiro das instituições de ensino é indispensável para os alunos que não têm a possibilidade de trabalhar ou que precisam complementar a renda familiar para pagar as despesas domésticas. 

Infográfico 1

O mestre em Ciências com ênfase na Orientação da Conduta e graduação em Licenciatura em Educação, Linoel Leal, é imigrante da Venezuela e chegou ao Brasil em 2018. Em seu país de origem, Leal é professor na Área de Ciências da Educação na Universidade Nacional Experimental Francisco de Miranda, e quem sugeriu o Brasil como uma opção para fazer pós-doutorado foi a co-orientadora de doutorado do imigrante. Atualmente Leal encontra-se de licença especial no Brasil como estagiário pesquisador do Programa Nacional de Pós-Doutorado (CAPES/PNPD) no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu) da UFMS. 

Áudio Linoel

Leal também atua como professor colaborador e editor internacional da Revista InterMeio do PPGEdu demonstra preocupação com a “fuga de cérebros" que acomete os países da América Latina. Para o imigrante, “o principal fator que estimula estudantes de países vizinhos a virem para o Brasil, é o ensino de graduação e pós-graduação gratuito”. O pesquisador menciona que em seu país de origem as universidades públicas representam cerca de 60% das instituições de ensino superior, mas não há opção de fazer pós-graduação gratuitamente, apenas em faculdades privadas.

Vídeo linoel
 

"Aldeando a Universidade" - do interior de MS para a Cidade Universitária


“Estamos aldeiando a universidade”. É assim que a estudante do curso de Engenharia Ambiental, Marília Marcelino descreve o aumento do número de estudantes indígenas na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Marília Marcelino é indígena da etnia Terena, da aldeia Tereré, no município de Sidrolândia. Todos os entrevistados indígenas nesta reportagem serão apresentados tanto pelo nome e sobrenome quanto pela etnia e aldeia da qual eles fazem parte. 

VÍDEO MARÍLIA (1:23 - 2:03)

O ingresso de uma pessoa indígena em uma universidade representa um complexo processo que abrange desde a aprovação no vestibular até a garantia da permanência desses estudantes no ambiente universitário. Até o ano de 2012, a UFMS era a única universidade pública da região Centro-Oeste que não apresentava um programa de reserva de vagas. O processo de seleção de estudantes e a criação de reserva de vagas que considerava condições socioeconômicas, assim como de raça e etnia, só foi alterado a partir da instituição da Lei 12.711, conhecida como “Lei de Cotas”.

O professor da Faculdade de Ciências Humanas (FACH) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Daniel Miranda afirma que a institucionalização da Lei de Cotas modificou o perfil tanto racial quanto socioeconômico dos alunos que conseguiram acessar a universidade. Segundo Miranda, por mais que a Lei apresente um tempo determinado para ser implementada, os seus efeitos podem ser identificados em diferentes universidades públicas do país, inclusive nas universidades do Centro-Oeste. Para o professor, 

Áudio prof. Daniel Miranda sobre a Lei de Cotas

A realidade do acesso de estudantes indígenas na UFMS só foi alterada em 2018. Nesse ano, a universidade estabeleceu a reserva de vagas para pessoas indígenas em todos os cursos de graduação, decisão que permitiu que mais pessoas indígenas conseguissem entrar na universidade. O estudante do curso de Educação Física e indígena de etnia Terena da aldeia Água Branca, Douglas Sebastião relata que a mudança só aconteceu a partir da mobilização da comunidade acadêmica. 

ÁUDIO DOGLAS SEBASTIÃO 


Para Doglas Sebastião, o processo de adaptação cultural é um dos principais fatores que dificultam a entrada de pessoas indígenas no ensino superior.  Esse processo de adaptação pode ser sentido em diferentes aspectos da vida dos estudantes indígenas. O idioma é o primeiro elemento que caracteriza esse choque cultural . Segundo relata Sebastião, o idioma potuguês não é o idioma materno de grande parte dos estudantes indígenas, fato que dificulta tanto o processo de comunicação com os demais estudantes e professores quanto o desempenho desses alunos em avaliações e trabalhos.


ÁUDIO DOGLAS SEBASTIÃO 

O doutor em Antropologia e professor da Faculdade de Ciências Humanas da UFMS, Antonio Hilário afirma que, diferentemente dos outros estudantes, o processo de adaptação de pessoas indígenas que entram em uma universidade é marcado por “questões culturais mais profundas”. 

A estudante do curso de Farmácia e indígena da etnia Terena da aldeia Tereré, Luciana Cabo e o estudante do curso de Enfermagem e indígena da etnia Kadiwéu da aldeia Alves de Barros, Claucir Matchua da Silva optaram por cursos da área da saúde. Para os estudantes, a ausência de profissionais indígenas, como médicos e enfermeiros, que trabalham em suas comunidades foi o fator que os motivou a buscar uma graduação no ensino superior. Para Luciana Cabo e Claucir Matchua, estar em uma universidade representa a oportunidade de conseguir ajudar os membros da sua comunidade e valorizar, por meio da produção de conhecimento científico, as tradições e a cultura de suas etnias.
 
VÍDEO CLAUCIR 

A viabilização da permanência desses estudantes vinculados à universidade é o principal desafio enfrentado por pessoas indígenas após o processo de adaptação cultural vivenciado em suas experiências iniciais enquanto membros da comunidade acadêmica. Doglas Sebastião é o único dentre os entrevistados que reside em Campo Grande. Marília Marcelino, Claucir Matchua e Luciana Cabo se deslocam todos os dias de suas respectivas aldeias, localizadas em Sidrolândia, para a Cidade Universitária. A permanência de estudantes indígenas no ensino superior é amparada pelo Programa Bolsa Permanência (PBP). O programa foi criado em 2013 e tem como principal objetivo viabilizar a permanência de estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica que estejam matriculados em alguma instituição do ensino superior, a partir da concessão de auxílio financeiro pago pelo Governo Federal.  

O PBP auxilia os estudantes no custeio de suas necessidades diárias com alimentação e transporte, uma vez que todos os estudantes estão matriculados em cursos no período integral. Além disso, com execeção de Sebastião, Marília Marcelino, Luciana Cabo e Claucir Matchua não são asssitido pelo Programa de Auxílios Estudantis coordenado pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PROAES) da UFMS. Matchua relata que depende do auxílio financeiro de seus pais para conseguir permanecer matriculado em um curso integral e para custear as despesas diárias com alimentação. Marília Marcelino afirma que a ausência da garantia de estabildade financeira para conseguir estudar tem sido um dos principais obstáculos desde que ela ingressou na universidade.