O campo de estudos e pesquisa compreendido como “saúde da mulher” engloba questões de saúde sexual, oncologia pélvica e mamária, ginecologia e obstetrícia. As mulheres cisgênero, homens trans e pessoas não binárias são diferentes grupos de pessoas com vulva que precisam de cuidados íntimos. Homens trans e pessoas não binárias possuem corpos entendidos socialmente como “femininos”, porém não se reconhecem como mulheres.
O termo transgênero é usado para nomear e legitimar a existência de pessoas que não se identificam com o gênero que foi atribuído a elas ao nascerem. Trans e cis são identidades de gênero, ou seja, a forma como cada um se identifica. Pessoas não binárias também são consideradas pessoas trans por não se encaixarem na binaridade de gênero, de ter que ser homem ou mulher. Pessoas que se reconhecem com o gênero socialmente atribuído são chamadas de cisgênero.
inserir infográfico sobre identidades de gênero e orientação sexual
A fisioterapeuta e especialista em "Saúde da Mulher" (ver onde ela se especializou), Beatriz Guadiano afirma que esse assunto ainda é compreendido como um tabu na sociedade. “É um assunto que poucas ‘mulheres’ se sentem confortáveis em conversar sobre, seja com o parceiro [ou parceira], com uma amiga, uma confidente, e alguns problemas que as mulheres [e pessoas trans] enfrentam em uma relação sexual, acabam passando sem solução pelo simples fato de ela nem saber que aquilo é um problema, de não ter com quem contar, de não ter informação sobre como o próprio corpo responde aos estímulos sexuais”.
A ginecologista Ana Teresa De Lucia observa que as pessoas possuem pouco conhecimento sobre seus corpos. “Na consulta ginecológica é hora de perguntar, de tirar suas dúvidas. Eu acho que as mulheres [e as pessoas trans com vulva] se conhecem pouco anatomicamente, sexualmente, hormonalmente”. Ela defende que “a informação, de uma maneira geral, vai levá-las a esse autoconhecimento e a esse autocuidado”.
Saúde sexual de homens trans e pessoas não binárias
O estudante do curso de Educação Física (ver instituição)e Mister Trans MS, Alexandre Clemente é um homem trans que não possui retificação, ou seja seus documentos não constam seu nome social e a sua identidade de gênero correta. “Sempre tem aquela dificuldade em perguntarem e nos chamarem com nosso nome social e tratar com os nossos pronomes corretos”. A lei que regulamenta o Sistema Único de Saúde (SUS) garante, desde 2006, o direito do nome social, que é o nome pelo qual pessoas trans escolhem ser chamadas socialmente. “Esse assunto não é muito falado no nosso meio, porque além do nosso preconceito de ir ao ginecologista e fazer o acompanhamento, por conta das nossas disforias, a gente também não tem muita visibilidade sobre isso. Quando a gente vê médicos e médicas falando, é sobre ‘a saúde da mulher’ e acaba que a gente se afasta de cuidar de nós mesmos por conta dessa falta de acesso [e preparo] dos profissionais”.
O SUS instituiu, em 2008, o Processo Transexualizador, que permite às mulheres trans, segundo divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o “acesso a procedimentos de harmonização e cirurgias de mudança corporal e gential, assim como acompanhamento multiprofissional”. O programa foi alterado, em 2013, por meio da Portaria 2803/2013 e passou a englobar os homens trans ao serviço.
O estudante do curso de artes visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e tatuador Cell Ventorim é uma pessoa não binária que se identifica com os pronomes “ele/dele”. “No meu processo de me entender eu dei de cara com várias coisas muito normativas, com essa coisa muito binária, com essa coisa de ‘ai se você não é mulher então quer dizer que você é um homem trans’ e eu ficava ‘não eu não sou um homem trans mas eu também não sou mulher’ e eu não sabia o que isso significava”.
ÁUDIO CELL
Então eu fui pesquisando e fui descobrindo pessoas na internet que se identificavam do mesmo jeito que eu e tal e eu descobri outros termos dentro do termo guarda-chuva não-binário que entra o gênero fluido, entra o não-binário transfeminino ou trans masculino e eu me incluo no agênero, em que eu não sou nada nem ninguém. Assim, eu sou alguém, mas não sou um gênero.
E eu acho que é isso, é um processo que até hoje está acontecendo e eu acho que acontece pra vida inteira da gente assim esse processo de afirmação tanto pra si quanto pro mundo assim, principalmente pro mundo, né?
Saúde sexual da mulher cis lésbica ou bissexual
A fisioterapeuta Beatriz Guadiano explica que a sexualidade vai muito além do ato sexual em si, pois o "sexo é a relação sexual, a sexualidade é todo esse movimento e essa energia que faz com que uma pessoa procure esse contato íntimo”. Ela defende que existem infinitas possibilidades no sexo que vão além da penetração. “Esse pensamento que a gente tem do sexo falocêntrico, onde só a penetração é considerada a relação sexual, isso é um conceito extremamente equivocado, que inclusive frustra muitas mulheres, porque o maior prazer sexual está na vulva, na parte de fora”.
Para a estudante do curso de jornalismo da UFMS e co-fundadora da Revista LesbÔ, Rafaella Moura “essa visão falocêntrica das relações sexuais invisibiliza o sexo entre duas pessoas que possuam vulvas, pois esse tipo de relação não inclui nenhuma pessoa com pênis e continua sendo um sexo válido”. Ela acredita que a desinformação e a dificuldade de acesso são os principais problemas que pessoas como ela enfrentam, pois quando o sexo é entre um homem cis e uma mulher cis, a camisinha é amplamente difundida, quando são duas pessoas com vulva, elas adaptam as camisinhas para servirem como dental dan. “Eu acho que o maior tabu é o perigo de engravidar, mas as Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) não são abordadas com o teor que precisa. Acho que é importante também falar que mulheres com mulheres também se relacionam, homens com homens também se relacionam e as ISTs estão aí independente do gênero da pessoa”.
Cuidados necessários
Desvincular o sexo, a sexualidade e os cuidados íntimos da esfera do tabu precisa ser combinado com acompanhamento de profissionais da saúde. Para a fisioterapeuta Beatriz Guadiano, a fisioterapia pélvica pode transformar a vida das pessoas, pois “sexo é uma função fisiológica do nosso corpo, não tem nada de sujo ou obsceno. Primeira coisa é entender isso, do mesmo jeito que a gente faz xixi, a gente come, a gente dorme, [o sexo] é uma função do nosso corpo”. A ginecologista Ana Teresa De Lucia explica que “a consulta ginecológica é importante na prevenção, estimular o uso do preservativo, desses cuidados com a com essa parte da em relação as relações sexuais, como também nos exames, detectar essas ISTs que são bactérias, vírus, que ela se contagia através do ato sexual que podem ser evitadas ou então logo tratadas, porque algumas ISTs dessas como clamídia, mycoplasma, pode ficar alojado no trato genital, nas trompas e levar a uma obstrução tubária que pode um dia impedi-la de ter filhos”.
ÁUDIO ANA TERESA
O que a gente mais fala na mídia é a prevenção do câncer, né? É, é um motivo mas não vou dizer que seja o principal. Porque o exame de papanicolau, que é o preventivo em que você consegue olhar o colo do útero, o ginecologista com aparelhinho, coloca o espéculo, olha o colo do útero e consegue colher células desse local e células alteradas podem determinar que é um pré-câncer. Nem é câncer ainda não vai virar, quem fizer papanicolau sempre não tem como ter câncer de colo do útero, né. Então é uma oportunidade. Qual o outro câncer que é totalmente evitável? É só o do colo do útero. O de mama que você pode pegar numa fase inicial cedo. Então fazer o exame clínico da mama, fazer mamografia, ultrassom permite detectar.
Também a gente orienta os exames laboratoriais para detectar um pré-diabetes ou um diabetes, as dislipidemias que é colesterol e triglicérides alto, as vitaminas baixas, o ferro baixo, que muitas meninas sangram muito e às vezes perdem e nem tão percebendo que elas tão com uma anemia, e no exame vai ser detectado isso.
Outras deficiências nutricionais devido aos hábitos alimentares daquela menina que podem ser detectadas numa consulta que vai solicitar esses exames laboratoriais. E muito importante, a prevenção de ISTs. Então, antes era mais doenças e agora são infecções sexualmente transmissíveis, porque ela pode tá com uma infecção e não sentir nada, né?
Preparo médico para atender pessoas LGBTQIAPN+
Infográfico explicando a sigla lgbt
O artista Cell Ventorim fez uso dos sistemas público e privado de saúde e sente que os profissionais da área “não estão preparados para atender pessoas da comunidade LGBTQIAPN+. A impressão que eu tenho é que principalmente na área da ginecologia e de outros até mesmo dentro da psicologia e da psiquiatria é sempre aquele negócio de empurra pra frente, passa pro próximo, ‘não, procura essa pessoa que essa pessoa pode te ajudar’, ‘não, mas eu indico que você vá pra esse lugar’ e assim nenhum dos dois sistemas tem preparo pra lidar com essas pessoas e eu acho que chega a ser até uma falta de interesse”. Ele acredita que isso contribui para que “essa população acabe estigmatizada, jogada de lado pela sociedade”, por isso ele pede aos profissionais da saúde por mais respeito.
VÍDEO CELL
Soubessem que nem toda pessoa trans quer se harmonizar. Soubessem que nem toda pessoa trans quer utilizar os pronomes neutros necessariamente. Que nem todas as pessoas trans são homossexuais. Existem pessoas trans de várias sexualidades.
E que nós somos pessoas como qualquer outra e a gente só quer respeito.
Ele relata que “esse processo nunca acaba. Então assim, todos os lugares que eu vou, eu preciso estar me afirmando, pessoas que eu não conheço acabam me tratando no feminino e eu tenho que ficar ‘olha não é assim’ e é muito cansativo. Tem vezes que eu não tenho mais nem força pra ficar corrigindo as pessoas e eu acabo só me submetendo e é um processo constante ter que ficar me afirmando o tempo todo em todos os lugares, mas é sobre mostrar que nem tudo é aquilo que se vê”.
Educação sexual
A fisioterapeuta Beatriz Guadiano defende que a educação sexual precisa existir desde a primeira infância. “Até para a gente proteger as nossas crianças de possíveis abusos. Educação e informação trazem segurança. E a educação sempre vai ser uma ferramenta de empoderamento”. A fisioterapeuta destaca que “sexo” se tornou um assunto recorrente e que a informação para as crianças trará benefícios e refuta a compreenção social de que educação sexual é ensinar a criança a transar. “Nossas crianças estão sendo extremamente sexualizadas na sociedade atual, por meio das mídias e músicas, então elas já tem o acesso a isso sem entender muito bem o que acontece. Quando um adolescente vai dar início a sua vida sexual e já está informado, é muito mais fácil de ele fazer escolhas mais saudáveis e ter experiências muito mais positivas”. Para o artista visual Cell Ventorim a educação sexual “além de ajudar a prevenir casos de assédio, de estupro e fazer as crianças entenderem, não só as crianças mas adolescentes também, entenderem sobre consentimento sobre o próprio corpo, eu creio que se eu tivesse tido educação sexual na minha época na escola isso teria me afastado muitas inseguranças com a minha vida pessoal”.
ÁUDIO CELL
Como eu cresci numa cidade pequena eu não conhecia alguém LGBT, eu não sabia o que era uma pessoa gay, lésbica, trans, enfim. A educação sexual não somente ensina isso, né? Mas mostra que as possibilidades vão além. Então tipo, tira muito dessas inseguranças, provavelmente teria me feito enfrentar a todos esses questionamentos que eu tive muito melhor, teria me evitado muitos traumas com relação a pessoas, relacionamentos, abusos, assédios, enfim, N milhões de coisas, eu acho que não devia nem mais estar sendo discutido isso hoje em dia em pleno 2023.
A fisioterapeuta Beatriz Guadiano destaca que a educação sexual engloba também o autoconhecimento e o diálogo. “Muitas vezes as mulheres [cis e outras pessoas com vulvas] não conhecem a própria anatomia, e assim fica muito mais difícil de ter uma relação satisfatória, quando você não conhece o próprio corpo”. Esse autoconhecimento passa pelo auto estímulo sexual, ou seja, a masturbação, e pelo conhecimento a respeito da anatomia das genitais.
Ela sugere que as pessoas com vulva vejam suas próprias vulvas, entendam do que ela é composta e usar um espelho para observar a própria genitália pode ser uma alternativa. “Até a higiene íntima fica comprometida por a gente não saber a nossa própria anatomia. Então, o autoconhecimento no sentido de saber do que é composta a nossa genitália e também no sentido de entender como o nosso corpo funciona quando ele recebe os estímulos sexuais”. O Mister Trans MS Alexandre Clemente entende a educação sexual como uma área ampla, pois “engloba tudo: sexualidade, identidade de gênero, consentimento, métodos de prevenção [de ISTs e de gravidez], cuidado, autocuidado. Tem muita gente que não se conhece, não sabe o que gosta ou o que deixa de gostar, como se enxerga”. A fisioterapeuta Beatriz Guadiano defende que “quando a gente entende o que deveria acontecer com o nosso corpo, na ereção do clitóris, da lubrificação, de uma distensão do canal vaginal para preparar para uma penetração. Quando a gente entende que tudo isso tem que acontecer para termos uma relação sexual de qualidade, a gente consegue perceber quando alguma coisa não está certa”.
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- (Foto: Foto: Ana Laura Menegat)