A inflação é explicada como o aumento dos preços de bens e serviços, e pressupõe a diminuição do poder de compra da moeda. Ela é medida pelos índices de preços, e no Brasil o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), é utilizado no sistema de metas para inflação. Dentre as causas, temos as pressões de demanda e de custo, inércia inflacionária e expectativas de inflação.
As altas taxas de inflação resultam em diversas consequências, como por exemplo a desvalorização da moeda que impactam em diversas esferas. Os produtos importados por exemplo, passam a custar mais caro pois quando a moeda desvaloriza, o dólar valoriza. Os salários quando não reajustados na mesma medida que os produtos, impacta na vida da população e no poder de compra e se o salário não acompanha os preços dos produtos, a vida fica mais restritiva.
No Brasil, os combustíveis elevaram o IPCA do mês de março em 1,62%, e é a maior taxa para meses de março desde o ano de 1994, além de ser a maior inflação mensal desde janeiro de 2003, que era de 2,25%. São sete meses seguidos com a inflação acima de dois dígitos e oito dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados apresentaram alta. Os maiores aumentos foram no "Transportes" (3,02%), e no grupo "Alimentação e Bebidas" (2,42%). A gasolina teve alta de 6,95%, e é o subitem com maior impacto individual (0,44%), e em 12 meses teve alta de 27,48%. Esses aumentos são em decorrência do reajuste de até 24,9% que a Petrobrás anunciou no mês de março.
Em Campo Grande, a inflação chegou a 1,73%, a maior desde março de 2015, quando chegou a 1,79%. No acumulado de 2022, chega a 3,44% e nos últimos 12 meses a 12,02%, e ficou acima do índice nacional de 1,62%. Dos nove grupos pesquisados em produtos e serviços, oito também registraram aumento, o maior deles foi "Transportes" com 2,78%, seguido por "Alimentação e Bebidas" com 2,58%, que foi afetado pela elevação de diversos produtos como o tomate (40,08%), o mamão (39,97%) e o repolho (31,63%).
As médias de inflação destoam em comparação às médias do Brasil com as de Campo Grande. A economista Yasmin Casagrandra explica que isso se dá por cada região ter um hábito de consumo diferente. “Eu estava olhando essa última inflação de agora e os maiores aumentos no Brasil numa média geral é tomate e cenoura, de alimento. Já em Mato Grosso do Sul é tomate e mamão. Então isso depende de muita coisa, por exemplo o tomate, de onde vem, se está mais perto de São Paulo, então o custo é menor, o preço é menor. Se é um produto que vem do nordeste, pode ser que o aumento seja maior. Então é pelo aumento, se o aumento foi maior ou não, a tendência é que seja sempre de aumento, uma vez que a inflação como um todo aumentou”.
Economista Yasmin Casagranda (Foto: Luciano Pinheiro/Primeira Notícia)
Segundo a economista Yasmin Casagranda, os países aderem uma forma comum de controlar a inflação.
O Conselho Monetário Nacional (CMN) define metas de inflação anualmente e para 2022 a meta é ficar abaixado de 3,5%. Esse sistema foi adotado em 1999, após o Brasil deixar de ter o câmbio controlado, onde o governo divulga um valor e o Banco Central tenta manter abaixo do calculado. Yasmin Casagranda lembra também que mesmo que a população deseje preços mais baixos, muitas empresas estão em dificuldade para se manter, pois não é só o preço do produto que entra na conta. “Então tem uma empresa por trás, que precisa pagar um funcionário, que precisa pagar a logística, que precisa pagar a conta de luz, que precisa pagar transporte, então se o preço fosse menor e todos os outros itens ali da cadeia fossem menores também, o preço seria menor pra todo mundo. Mas o preço menor para um empresário que tem custos altos, para ele é prejuízo”.
Os vilões da inflação: gás e combustível
O item "Transportes" do IPCA foi um grande fator para alta na inflação do mês de março, com 1,62%, e o maior índice para o mês em 28 anos. O grupo subiu 3,02%, um impacto de 0,65 ponto percentual no IPCA. A gasolina teve alta de 6,95%, e o produto de maior aumento dentre os subitens de Transportes. O óleo diesel (13,65%), o GNV (gás veicular, 5,29%) e o etanol (3,02%) também tiveram aumentos.
Preço médio da gasolina em R$, no mês de março de 2022 nas cidades de Mato Grosso do Sul. Fonte: ANP (Gabriella Gomes/Primeira Notícia)
O gás de cozinha registrou aumento de 1,17% no país e em Campo Grande teve uma redução de 5,27% na média, entre março e abril. A Superintendência para a Orientação e Defesa do Concsumidor (Procon), realizou uma pesquisa em 20 estabelecimentos entre 11 e 21 de março e encontrou variação de até 29% no preço do botijão de gás de cozinha de 13kg, o menor preço encontrado foi R$ 105,00 e o maior R$ 135,00.
Uma comparação de evolução dos preços também foi feita entre janeiro de 2021 a março de 2022, sobre o menor, a maior e a média de preços e teve uma variação de aumento de 47,02% no valor médio do produto. A coordenadora da assessoria de Pesquisas e Projetos Financeiros do Procon Municipal Rosemeire Costa explica que os valores devem demorar para abaixar, pois é preciso manter uma constância que irá impactar daqui dois meses.
Rosemeire Costa esclare que o Procon e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos (Dieese), fecharam uma parceria para pesquisas. “O Procon fechou parceria com a Dieese, que realiza pesquisas sobre as cestas básicas e tem dado grande apoio nas pesquisas de consumo. Nós temos muita variação de preço, de 29% a 200% e a ação do Procon basea-se em fiscalizações e pesquisas nas sete macrorregiões de Campo Grande”.
Evolução do preço do GLP (gás liquefeito do petróleo nos últimos 10 anos em Mato Grosso do Sul. Fonte: ANP (Gabriella Gomes/Primeira Notícia)
O economista e docente na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Eugênio Pavão explica que o motivo para o aumento desses produtos, faz parte de uma política feita para recuperar a capacidade da Petrobrás, onde o governo brasileiro optou por os preços em dólar, ou seja, todo o conjunto de produtos distribuídos pela empresa são vendidos em dólar.
Outro fator que causa aumento nos itens é a guerra na Ucrânia, que é um grande produtor e fornecedor de petróleo mundial. "Nós estamos pagando pela política que foi colocada a partir de 2016, tudo é cotado em dólar em questão do petróleo. Então o gás de cozinha a tendência é continuar aumentando, aumenta o dólar fica mais caro, aumenta o preço do barril fica mais caro. Então nesse conjunto, essa inflação é provocada por essa opção política”.
Alimentos da cesta básica não param de subir
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), realiza mensalmente a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos (PNCBA), um levantamento dos preços de produtos alimentícios que são considerados essenciais em 17 capitais brasileiras, e permite a comparação dos custos desses principais alimentos básicos consumidos pelos brasileiros.
A cesta básica é composta por 13 produtos alimentícios em quantidades que sejam suficientes para garantir por um mês o sustento e bem-estar de um trabalhador de idade adulta, que foram definidos pelo Decreto Lei n° 399 de abril de 1938, que regulamentou o salário mínimo no Brasil. No banco de dados do PNCBA, pode-se encontrar os preços médios, o valor do conjunto dos produtos e a jornada de trabalho que o trabalhador precisa cumprir para adquirir a cesta básica em todas as capitais.
No mês de março, o valor do conjunto de alimentos básicos aumentou em todas as capitais pesquisadas, e entre as maiores altas estão Rio de Janeiro (7,46%), São Paulo (6,36%) e Campo Grande (5,51%). Na comparação do valor da cesta em 12 meses (março de 2021 a março de 2022), Campo Grande apresentou variações de 29,44%. Em relação ao salário mínimo necessário para manter uma família de quatro pessoas, o valor deveria ser de R$ 6.394,76, ou seja, 5,28 vezes o valor atual de R$ 1.212,00.
Variação entre janeiro e março de 2022 no item “Alimentação e bebidas”. Fonte: IPCA/Março março/2022(Gabriella Gomes/Primeira Notícia)
O valor da cesta básica em Campo Grande foi de R$ 751,81 e em relação ao tempo médio de trabalho necessário para comprar os produtos da cesta básica foi de 119 horas e 11 minutos, contra 109 horas e 18 minutos calculados para março de 2021. Os produtos que registraram maior aumento nos preços foram o tomate com 51,74%, o óleo de soja com 14,43% e a farinha de trigo com 8,90%. A batata foi o único produto que registrou redução de 8,29%.
Outro setor muito afetado com as altas nos preços da cesta básica são os donos de pequenos negócios. A dona da lanchonete "Siriguela" no centro de Campo Grande Vanja Michelle Neris da Costa Leite abriu negócio há apenas três meses e sofre com a alta nos produtos, fazendo reajustes nos valores dos alimentos que oferece em seu comércio. “Nesses três meses acho que já fiz reajuste umas três vezes de preço, até os clientes às vezes chegam para mim e perguntam 'Nossa, mas não é tanto?' Porque o fornecedor muda para mim e eu tenho que repassar. Mas assim, eu tento absorver um pouco também, para não ficar muito puxado, porque se você for repassar sempre para o cliente o valor que foi passado, você para de vender, porque as pessoas param de vir, ou vão procurar outro lugar”.
Com os aumentos, outros setores acabam prejudicados, como a falta de dinheiro para realizar reformas no estabelecimento ou para contratar funcionários. Vanja Michelle com essas dificuldades, trabalha sozinha em sua lanchonete, realizando todas demandas. "Hoje eu tô trabalhando quase 18 horas, sei lá eu durmo 4h, 5h no máximo. Porque eu abro aqui às 6h e fecho às 19h da noite, aí eu vou para minha casa, vou ao mercado fazer as compras, aí eu vou colocar as coisas no lugar, no estoque, ás vezes ainda vou assar salgado porque no outro dia demora para assar”.
Vanja Michelle em sua lanchonete (Foto: Luciano Pinheiro/Primeira Notícia)
Segundo a empreendedora Vanja Michelle, a maioria dos clientes entendem que é necessário o reajuste dos preços de seus produtos.
Outro dono de pequeno negócio que também passa por problemas em relação à inflação dos alimentos é o dono do restaurante vegano "Mais que salada" Guilherme Telo que também decidiu por tentar absorver os aumentos em outros aspectos e não aumentar os preços dos produtos principais. “A última vez que subiu o valor foi do meio para o final do ano passado, subiu de R$ 13 para R$ 15 reais na refeição, a taxa de entrega também subiu, sobremesa subiram, algumas coisas a gente foi ajustando, mas o reajuste da comida mesmo tem um bom tempo que não sobe. E agora vai subir no próximo mês, tô tentando segurar e absorver o máximo os aumentos, absorver a inflação o máximo possível, mas vai ter uma onda de reajuste agora, em praticamente tudo, do suco à refeição”.
Outra alternativa encontrada para driblar os aumentos foi parar de servir alguns alimentos, como o tomate por exemplo, que registra alta nos preços. “A solução foi que as coisas que vão subindo a gente vai cortando e tentando ir por outro caminho, então se a batata tá muito alta, então beleza, 'quanto que tá a mandioca?' Ah não subiu tanto, então vamos para a mandioca”.
O empresáro Gulherme Telo narra as dificuldades em ajustar os preços.
Produtos à venda no Ceasa (Foto: Luciano Pinheiro/Primeira Notícia)
Mais de 40% da população de Campo Grande está inadimplente
A inadimplência reflete a partir da situação econômica de um país como um todo, como ficou constatado durante a Pandemia, as dificuldades financeiras refletiram no indicador de endividamento em todo Brasil. Fatores econômicos negativos como desemprego, redução da renda familiar, aumento do preço de produtos básicos como alimentos, gás de cozinha e combustível impactam diretamente na inflação e, consequentemente, exigem da população priorizar seus gastos e escolher entre comprar os itens básicos e protelar pagamentos de seus débitos.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Campo Grande atualmente está em 916 mil e de acordo com o Mapa da Inadimplência do Serasa do mês de fevereiro, são 373.659 mil pessoas com alguma inadimplência.
Isso corresponde a 40,79% da população adulta de Campo Grande, que se encontra com alguma dívida em aberto, seja por dívidas de cartão de crédito, empréstimos em bancos, prestação de serviços como água e luz ou próprio aluguel. A dívida dos campo-grandenses passa de R$1.904 bilhões.
Ainda segundo os dados do Serasa, onde o perfil dos endividados analisado por gênero, as mulheres são as mais endividadas com 50,2%, seguido dos homens com 49,8%. A faixa etária, os campo-grandenses de 26 a 40 anos se destacam entre os mais endividados com 35,3%. Os principais segmentos das dívidas são bancos e cartão de crédito com 33,2%, seguido do varejo com 16,8% e serviços com 12,9%.
A pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), de março/2022, realizada no período de 18 de fevereiro a 28 de fevereiro, com 17.800 famílias, mostrou o nível de comprometimento da renda familiar dos campo-grandenses com dívidas como cartões de crédito, cheques pré-datados, fiados,carnês de lojas, empréstimos, compra de imóvel e prestação de carros e seguros.
O levantamento da Peic de março de 2022, mostrou que o comprometimento médio da renda familiar foi de 30,5% mensalmente e 55,5% das famílias entrevistadas estão com sua renda comprometida entre 11% a 50% para quitação de débitos.
Números de meses necessários para quitar as dívidas. Fonte: PEIC/Março março/2022(Patrícia Martins/Primeira Notícia)
A pesquisa divulgou que o período de comprometimento da renda familiar está na média de oito meses para quitar os débitos. Ao todo 39,5% dos entrevistados estão com dívidas com mais de um ano para serem quitadas totalmente.
Nesse perfil de campo-grandenses de inadimplentes, a dona de casa, Patrícia dos Santos Barbosa escolhe entre comprar comida ou pagar o aluguel. A opção escolhida foi se mudar para a Comunidade Alfavela com seu marido, para morar com sua mãe em um casebre.
Famílias que abriram mão de uma casa alugada para viver em uma comunidade carente (Foto: Gabriella Gomes/Primeira Notícia)
Ela relata que nos últimos dois anos foi morar com sua mãe, e antes da pandemia morava em uma casa alugada onde na mensalidade do aluguel era cobrado a energia e água, onde grande parte do salário de seu esposo Jaime Barbosa era demandado.
O casal possui apenas com a renda de Barbosa, que trabalha informalmente como pedreiro e recebe R$100 reais por dia trabalhado. Com a Pandemia, os trabalhos de Jaime Barbosa foram cada vez mais escassos. ”Como só o meu esposo trabalha, e veio a pandemia, ele ficou muito tempo parado e tivemos dificuldade em pagar o aluguel, então a minha mãe que já morava na favela por não ter condições de pagar aluguel me convidou para morar com ela”.
Nos últimos anos, o casal sobrevive com o básico, arroz, feijão e ovos, pois os mesmos criam galinhas.
Patrícia dos Santos segurando ovos produzidos no galinheiro improvisado de sua casa (Foto: Gabriella Gomes/Primeira Notícia)
Sem condições de comprar gás de cozinha, Patrícia dos Santos relata que usa um fogão velho usado como ‘forno a lenha’ para preparar as refeições. "Tá tudo alto agora, o gás em alguns lugares tá R$ 150 reais, aí o povo vai mudando faz na lenha, troca o óleo pela banha de porco, eu acho que o Brasil inteiro está comendo ovo, frango e porco, porque carne virou luxo”.
A comunidade recebe ajuda de ONG's e doações para se manter, como a Central Única de Favelas (Cufa), que atua em 37 favelas e comunidades de Campo Grande no auxílio de famílias em situação de vulnerabilidade social com prioridade as mães solos, mulheres em situação de violência doméstica, além de indígenas, imigrantes, moradores de rua com doações de cestas básicas, hortifruti, marmitas, itens de higiene pessoal.
A instituição atua em bairros periféricos de Campo Grande desde 2019, e estima-se que 35 a 50 famílias recebem ajuda da Cufa. A coordenadora da central na capital, Lívia Lopes explica que o objetivo da Cufa é além da assistência social, atuar como fomentadora de programas culturais, capacitação para o mercado de trabalho, além de orientação e ajuda para famílias vulneráveis.
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Durante a Pandemia, a Cufa teve que parar seus projetos culturais para se dedicar às cestas básicas, gás de cozinha e rodas de conversa. Lívia Lopes relata que mudanças foram necessárias para poder entregar o básico às milhares de famílias assistidas pela Cufa. “No início, a gente colocava até produtos de higiene pessoal na cesta como pasta de dente, sabonete, absorvente e desodorante. Agora tivemos que tirar itens de higiene pessoal e começamos a fazer campanhas para arrecadar esses itens”.
Sobre o gás de cozinha, Lívia Lopes esclarece que não consegue fornecer botijões de gás para todos os cadastrados. “Atendemos moradores de favela, quando falo favela são famílias que moram em barracão, em lona. Todo mundo que a gente não conseguiu atender com o gás, trocaram o gás por uma fogueira de madeira de carvão com um suporte improvisado para colocar as panelas e cozinhar. A gente conseguiu uma doação de gás, mas sabemos que é uma coisa pontual, vai ajudar no momento, depois de dois a três meses, eles vão precisar de novo”.
Fogão velho transformado em ‘forno a lenha’, onde ficava o acendedor foi retirado para poder colocar a lenha para para queimar e assim cozinhar (Foto: Patrícia Martins/Primeira Notícia)
A líder da comunidade, Paula Correia da Silva explica que o padrão de histórias das famílias que recorrem à ocupação. “Muitas famílias como é o meu caso, tinha uma casa alugada, mas teve que abrir mão porque não tinha condições para pagar, no meu caso já faz seis anos. Há seis anos atrás já estava difícil, imagina agora”.
Patricia dos Santos Barbosa e a líder da comunidade Alfavela, Paula Correia da Silva (Foto: Gabriella Gomes/Primeira Notícia)
Paula Correia afirma que na comunidade onde estão localizados no momento há 70 famílias que a maioria não têm condições de pagar água, luz, aluguel e alimentação. Casos de famílias que tinham estabilidade financeira não são exceções, e que com a atual situação econômica perderam tudo.
Sobre o assistencialismo por parte do Estado, a líder da comunidade responde que até o momento a ajuda fixa que tiveram foram pela Cufa com alimentação, em relação a cestas básicas, frutas e legumes e assistência social.
Patricia dos Santos e Paula Correia possuem histórias parecidas, ambas são esposas de pedreiros, que estão com dificuldades em encontrar trabalho e para elas conseguirem um emprego formal existem vários empecilhos. Desde problemas como a falta de locomoção para ir às entrevistas de emprego, pois o meio de deslocamento atual é a pé ou de bicicleta, inviável para entrevistas longe de casa.
Em relação ao endereço cadastrado nos currículos que são entregues às empresas, há certa descriminação, quando descobrem que se trata de um morador de comunidade periférica ou favela, segundo Paula Correia acabam sendo descartados. “Tem muitos casos que o pessoal da favela quando coloca no curriculo que mora em uma favela, a discriminação fala mais alto. E digo mais, se não for contratar devolve o currículo porque está caro tirar xerox”.
A líder Paula Correia também comenta sobre a indagação com quem será deixado os filhos para poder ir trabalhar.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) IBGE, o Brasil soma 12 milhões de desempregados. As dificuldades para buscar ou efetivar um emprego são grande empecilho para reduzir esse número.
Segundo o Pnad Contínua, na análise do mercado de trabalho do último trimestre de 2021, em Mato Grosso do Sul a taxa de desocupação recuou e encerrou com 92 mil desempregados, uma redução de significativa ao comparar com o 4º trimestre de 2020, que fechou com a somatória de 129 mil desocupados. É a menor taxa para um trimestre desde 2019 com 96 mil desempregados.
O Boletim do Observatório do Mercado de Trabalho, por meio dos indicadores do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e Relação Anual de Informações Sociais (Rais), em fevereiro Campo Grande teve um crescimento de 0,98%, na criação de novos postos de trabalho, foram criados 2.077 empregos, e a capital ocupa a 5ª posição no ranking da criação de empregos entre as capitais.
Segundo a Fundação Social do Trabalho de Campo Grande (Funsat), no primeiro bimestre de 2022 houve um aumento de 39,62% no total de vagas ofertadas no mesmo período em 2021. No saldo acumulado no ano de 2022 entre janeiro e fevereiro na Capital foram de 2.874 novos postos de trabalho.
Para o Diretor Presidente da Funsat, Luciano Martins um dos fatores determinantes para a retomada de crescimentos de vagas de emprego, foi a criação da Funsat Itinerante em julho de 2020, com objetivo de levar a fundação aos bairros da capital, a partir dos Centros de Referência da Assistência Social (Cras), instaurados nas macrorregiões de Campo Grande. Até março de 2022, foram realizadas 23 edições com mais de três mil atendimentos. “Em 2021 nós atendemos mais de 2.800 pessoas só nas ações itinerantes, mas eu ouço dizer que o impacto foi muito maior”.
As ações consistem em ofertas de vagas de emprego, emissão de carteira digital de trabalho, orientação para construir currículo e ofertas de cursos de qualificação de acordo com as tendências de mercado.
Luciano Martins esclarece o perfil de pessoas que buscam emprego hoje, estão na faixa etária de 20 a 40 anos, destaque para os jovens e as mulheres que ultrapassaram o número de homens contratados em 2021.
No dia 8 de abril, a Funsat itinerante esteve no Cras do Bairro São Conrado, e disponibilizou mais de 1.100 vagas de emprego. A região é próxima ao Portal Caiobá, onde as famílias do Alfavela poderiam encontrar um emprego formal, mas como a divulgação da Funsat ocorre pelas redes sociais Paula Correia afirma que só soube da ação depois que ocorreu.
A líder da comunidade propôs uma alternativa viável com carros de som, para divulgar as ações um dia antes e decorrer do evento. De forma que amplie os resultados para ambas as partes.
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- (Foto: Luciano Pinheiro)