Mato Grosso do Sul é um dos destinos para migrantes venezuelanos que saem do país em busca de melhores condições de vida. De acordo com dados divulgados pela Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), Mato Grosso do Sul recebeu 3.876 venezuelanos desde abril de 2018. A cidade de Dourados é o quarto município brasileiro que mais recebeu venezuelanos, com 2.896 migrantes residentes no município desde 2018. Dourados é, proporcionalmente, a cidade brasileira com maior densidade migratória de venezuelanos.
Dados da ACNUR apontam que Mato Grosso do Sul ocupa o sexto lugar no ranking dos estados com maior número de venezuelanos, enquanto o Brasil é o país com a quinta maior população venezuelana fora do seu país de origem. Refugiados percorrem 5.268 quilômetros da capital venezuelana à capital sul-mato-grossense em busca de novas oportunidades, empregos e vida. O objetivo da mudança é buscar condições dignas de sobrevivência em solo brasileiro.
Partidas e chegadas
O professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Hermes Moreira Júnior explica que a fuga de habitantes em massa da Venezuela acontece pela grave crise política, econômica e social que se intensificou nos últimos cinco anos no país, após a morte do presidente Hugo Chávez. “Enquanto o continente sul-americano passava por um processo de redemocratização nos anos 80, 90, a Venezuela continuou passando por uma série de tentativas de golpe, governos contestados, disputa entre os poderes da república. Isso se agravou muito significativamente com a ascensão do presidente Nicolás Maduro”. Moreira define a situação da Venezuela como um “grande caldeirão de crises”, onde a população vive em situação de extrema fome, desemprego e violência. Neste cenário, o último recurso encontrado é migrar em busca de oportunidades melhores.
A artista visual Poppy Carpio é venezuelana e mora em Campo Grande há 13 anos. A família de Poppy Carpio decidiu mudar para Mato Grosso do Sul em busca de melhores condições de moradia. “Meu pai conseguiu um emprego numa ONG que protege a onça-pintada no Pantanal, então viemos junto com ele e moramos aqui. Meus pais também estavam procurando melhores lugares para morar, pois na época perceberam que talvez as coisas não iriam bem dali pra frente, então ele recebeu essa proposta de trabalho e viemos. Faz uns dez anos que não volto para lá, então é como se eu esquecesse ou tivesse uma identidade não somente venezuelana, mas brasileira também e do mundo”. Poppy Carpio afirma que se adaptou bem ao Brasil mesmo com as diferenças culturais e que se sente “metade brasileira, metade venezuelana”.
ÁUDIO POPPY CARPIO
A comerciante Lorena Castillo saiu de Caracas há dois anos com destino a Campo Grande em busca de melhores condições de vida. Lorena Castillo afirma ter saudade da Venezuela. “A saudade do meu país é a mesma. A gente foca em outros benefícios. Não é fácil, mas a gente está conseguindo acalmar a saudade”. Lorena Castillo afirma que o idioma brasileiro é um obstáculo em seu dia a dia. “Ainda tenho muito o que aprender. Mas mesmo assim acho que não é um obstáculo muito grande”. Lorena Castillo diz que foi bem recebida ao chegar em terras brasileiras. “O povo brasileiro é muito acolhedor. A gente só recebe deles coisas boas, tanto materiais quanto emocionais. Brasil é um povo do bem. Foi mais fácil do que eu pensei. O brasileiro sempre encontra uma forma de se relacionar com o estrangeiro. Eu amo o Brasil”.
Poppy Carpio diz que que também foi bem recebida quando chegou em solo brasileiro. “Me receberam bem, com muita empolgação, era como uma novidade, pois na época em 2008 acredito que era raro encontrar pessoas de fora aqui, principalmente da Venezuela. Com o tempo fui fazendo boas amizades, que são muito importantes para mim hoje. Hoje minha relação é como com qualquer outro, é normal e da minha convivência”.
FOTO POPPY CARPIO SEGURANDO BANDEIRA DA VENEZUELA – crédito: Naiara Camargo
A bioquímica Mirtha Carpio Diaz é venezuelana e afirma que nunca sofreu xenofobia ou preconceito por ser venezuelana. “Até agora nunca recebi uma palavra, preconceito, ao contrário, fomos bem recebidos, as pessoas são super amáveis, sempre falam para nós que é bom sermos de outro país e que acham chique”. Mirtha Carpio também é presidente da Associação dos Venezuelanos em Campo Grande, que possui cerca de 300 famílias registradas.
VÍDEO POPPY E MIRTHA CARPIO
A cozinheira Mariana Yousele afirma que saiu da Venezuela devido à situação econômica que o país enfrenta e que ainda sente muita falta do local. “Me conforta um pouco fazer ligação de vídeo no WhatsApp, mas mesmo assim a saudade de dar um abraço neles é imensa”. Mariana Yousele diz que que o campo-grandense a recebeu com boas-vindas. “Fui muito bem recebida. Só posso dizer que as pessoas que conheci me deram muito acolhimento”. Mariana Yousele diz que tem dificuldade em falar o idioma brasileiro, o português. “Sinto dificuldade, mas consegui me adaptar e entender quando comecei a conversar com amizades brasileiras”.
Brasil x Venezuela
Poppy Carpio, Mariana Yousele e Lorena Castillo afirmam que o Brasil e Venezuela possuem diferenças culturais. De acordo com Lorena Castillo, "determinado ingrediente é salgado para venezuelanos, enquanto o mesmo ingrediente é doce para brasileiros. Abacate para nós é salgado, você só come em salada ou em comidas salgadas. Aqui tem picolé de abacate. É estranho para nós”. De acordo com Poppy Carpio, grande parte das receitas venezuelanas possuem presença do milho e no Brasil isso é diferente. “Acredito que o jeito de ser do venezuelano é bem diferente do brasileiro. Acredito que festividades e comidas e costumes são diferentes”.
Poppy Carpio afirma que música latina, reggaeton e músicas em espanhol são as canções mais ouvidas na Venezuela. Os pratos típicos mais consumidos na Venezuela são arepa, pabellón criollo e hallaca. “As comidas lá tem muito mais a presença do milho, a arepa, a cachapa, a hallaca, tudo é feito com base no milho ou farinha de milho”.
VÍDEO – MODO DE PREPARO AREPA
Poppy Carpio revela que a diversidade de gênero é mais evidente no Brasil do que na Venezuela. “Aqui também tem muito mais presença de pessoas LGBTQIA+, ou de pessoas que mostram sua identidade, não sei porque razão específica mas aqui existe muito mais diversidade de pessoas que lá na Venezuela. Lá obviamente tem também mas, acho que ainda tem muito preconceito, machismo e muito a ser discutido, como aqui também, mas ainda mais. Aqui se fala muito mais abertamente sobre isso”.
Poppy Carpio compara políticas públicas venezuelanas e brasileiras e revela que a administração funciona melhor no Brasil. “Percebo de diferente é que o Brasil é um país bem avançado na parte da preservação da natureza, aqui tem muito mais presença de animais, aves como araras e tucanos na cidade, somente aqui. Também no quesito de transporte e leis funcionam muito melhor do que na Venezuela. Na Venezuela é tudo muito bagunçado, e não funciona direito, se funciona é tudo na base do dinheiro”.
O professor do curso de História na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e pesquisador dos fluxos migratórios na fronteira, Marco Aurélio Machado afirma que um fluxo migratório pode despertar diversos tipos de reações por parte dos habitantes locais, de solidariedade até o ódio. Os recém-chegados desenvolvem estratégias de adaptação. “Ao chegar na fronteira, um migrante não tem apenas uma estratégia documental na mente. Ele tem uma estratégia de lidar com a cidade, com as pessoas, com a cultura e tudo o que é divergente do seu local de origem”. - TRANSFORMAR EM ARTE
Machado explica que a principal estratégia de sobrevivência adotada por migrantes, de forma geral, é tentar passar despercebido. “Eles ocupam espaços dentro da cidade que são muito calculados, onde a invisibilidade é quase atingida. Eles não querem ser vistos, não querem confusão, não querem associação a qualquer problema”. Machado evidencia que a reação dos brasileiros ao que vem de fora costuma ser seletiva e hierárquica. “Questões como cor da pele, a religião e a orientação sexual são elementos que estão na pauta do entendimento sobre os grupos migratórios. Também há influência do fator renda. Quanto mais pobre, mais vulnerável e mais exposto à situações de hostilidade”. – TRANSFORMAR EM ARTE
INTERAÇÕES
O projeto Viver Fronteiras, coordenado pelo professor do curso de Psicologia da UFGD, Dionatans Godoy, promove a interação entre migrantes e quem mora no local. O projeto tem como objetivo fornecer informações sobre migração para a população local enquanto oferece espaço de escuta e acolhimento para os migrantes. Godoy afirma que é necessário promover a educação para garantir a inserção social adequada dessas populações. “A população de uma maneira geral desconhece muito o fenômeno e acaba atuando de forma preconceituosa com os migrantes, que muitas vezes são taxados de várias coisas negativas. Mais do que acolher o imigrante, a gente precisa educar a população para a diferença”. O professor e alunos do curso de Psicologia da UFGD produzem vídeos, confeccionam folders informativos e utilizam as redes sociais para divulgar conteúdos relevantes sobre o assunto.
As redes sociais também são alternativa para aproximar venezuelanos e brasileiros em tempos de pandemia. O grupo de estudantes atende queixas de venezuelanos, como problemas com documentações e necessidade de escuta. O grupo oferece atendimento por videochamadas e disponibilidade de conversas pelo chat do Instagram.
A estudante do curso de Psicologia da UFGD, Thalia Ternovoe relata que é comum pacientes relatarem dificuldades de barreira linguística, desvalorização profissional e de atitudes preconceituosas por parte de brasileiros durante atendimentos. “Uma das mulheres que conversei é manicure e trabalhava em salão. Ela não aguentou e acabou saindo porque as brasileiras a tratavam como se estivesse roubando o trabalho delas. Havia discriminação no sentido de falarem que ela estava roubando clientes, falavam que aquele não era o lugar dela. Hoje ela trabalha como manicure, porém de forma autônoma”. Thalia Ternovoe afirma que outro ponto que percebe recorrentemente é a dificuldade em aceitar culturas diferentes.
“É brutal o modo como certas pessoas impõem que os estrangeiros se encaixem na nossa cultura. É preciso aceitar a multiculturalidade, respeitar a cultura de cada um. Precisamos tentar olhar o lado deles, ter empatia, conhecer, vivenciar também. Assim como eles podem vivenciar a nossa, a gente também pode vivenciar a deles. Acho muito importante dar essa abertura para que isso aconteça”. TRANSFORMAR EM ARTE
Linguagem
A Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) oferece acolhimento linguístico para migrantes por meio do projeto de extensão 'UEMS Acolhe', que teve início em 2017. O professor do curso de Letras e coordenador do projeto, João Fábio Sanches explica que o trabalho possui três eixos, que são o acolhimento linguístico, humanitário e educacional, que são complementares. “Tudo começa pela linguagem. Então nossa primeira ação são os cursos de Português como língua de acolhimento. Quanto a gente pensa em um venezuelano que acabou de chegar, ele precisa aprender a língua de forma eficiente muito real para que possa ter acesso a outros direitos”.
A proximidade entre o português e espanhol facilita o processo de aprendizagem do migrante venezuelano. Existem desafios que são característicos de hispanofalantes. Sanches explica que é recorrente a ocorrência de um processo chamado transferência. “Falantes de espanhol conseguem pegar muitas estruturas da língua espanhola e levar para a língua portuguesa. O problema é quando ele usa uma transferência que só faz sentido em espanhol. Isso precisa ser observado para que não se torne algo que depois não muda mais. E aí você tem as interlínguas, o ‘portunhol’, o que gera problemas de entendimento de leis, problemas com traduções e outras situações”.
Os cursos oferecidos pelo “UEMS Acolhe” passaram a ser ofertados remotamente devido à pandemia da Covid-19. Novas turmas são abertas de acordo com a demanda de interessados nas aulas. O projeto tem três turmas, com previsão de abrir uma quarta até o fim do ano e cerca de 600 migrantes inscritos em 2021. Sanches explica que os interessados costumam chegar até o projeto por meio de indicações. “A própria rede que une esses migrantes já divulga os cursos. Temos grandes parceiros como o governo do estado, Polícia Federal (PF), associações e pastoral de migrantes. É uma procura muito alta, mesmo agora na pandemia”.
ÁUDIO 19:09 – 20:27 “Retorno é a parte mais emocionante...”
O professor enfatiza que outro retorno positivo é a indicação feita pelos próprios migrantes para recém-chegados. “Recebo muita mensagem deles perguntando sobre o curso, que é para um conhecido que está vindo. É um retorno muito legal porque você vê que eles acreditam no curso ao ponto de indicar para quem está vindo. É um retorno qualitativo, de inserção plena na sociedade”.
Acolhimento
A Secretaria de Assistência Social (SAS) da Prefeitura Municipal de Campo Grande (PMCG) é o órgão do município responsável em acolher, atender e amparar refugiados. O Centro de Referência Especializado para População em situação de rua (Centro POP), entidade ligada a SAS, é responsável em oferecer atendimento à migrantes, imigrantes, estrangeiros ou pessoas em situação de rua.
O usuário tem acesso à alimentação, higiene e local onde pode guardar seus pertences. As Unidades de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias (UAIFAs) são locais que acolhem migrantes e têm capacidade de atender até 180 estrangeiros. A SAS também oferece passagens de retorno ao migrante para seu país de origem, caso tenha família ou emprego fixo em seu país natural.
De acordo com o gerente de Proteção Social Especial de Alta Complexidade da Secretaria de Assistência Social (SAS), Artemio Versoza, dos 231 atendimentos oferecidos à migrantes de janeiro à outubro deste ano em Campo Grande, 45 foram destinados à migrantes venezuelanos e 241 passagens de retorno foram concedidas à migrantes de janeiro a outubro de 2021.
A Casa de Passagem de Resgate é a unidade que prioriza o atendimento à pessoas em processo de migração. O trabalho social realizado no local consiste em acolher e recepcionar o migrante, encaminhá-lo para mercado de trabalho, proporcionar-lhe alimentação com quatro refeições diárias, moradia provisória, atividades socioeducativas, jogos, regularização do migrante perante a Polícia Federal (PF) e orientação para acesso à documentação pessoal. – TRANFORMAR EM INFOGRÁFICO – o que está de verde, colocar em tópicos – fonte: SAS
O acolhimento adequado para quem busca oportunidades em outro país perpassa por uma série de fatores. Segundo o professor Hermes Moreira Júnior, do curso de Relações Internacionais da UFGD, a principal questão a ser resolvida é a regularização no Brasil. “Isso deveria ser uma prioridade, porque com a situação migratória resolvida, a pessoa vai conseguir acessar serviços básicos como saúde, assistência social, educação, trabalho”. A qualificação profissional é outro ponto definido pelo professor como importante no processo de integração social. “Uma parcela deles já tem formação, mas grande parte não tem. Aí quando chegam aqui se deparam com dificuldade de encontrar emprego sem ter qualificação prévia".
A Lei Nº13.455, que garante direitos à população de migrantes no Brasil, foi sancionada em 2017. A normativa estabelece questões como o acesso igualitário e livre do migrante à serviços, programas e benefícios sociais, acolhida humanitária, inclusão por meio de políticas públicas e direito à liberdade de circulação. -TRANSFORMAR EM ARTE/INFOGRÁFICO - fazer em tópicos
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