A sociedade cria laços com os animais de estimação em vida, e mesmo após o falecimento destes os sentimentos prevalecem. De acordo com a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, Artigo Nº 6, todo o animal que o homem escolheu para seu companheiro possui o direito da duração de vida conforme a sua longevidade e define que o abandono de um animal é um ato cruel e degradante. O Artigo Nº13 da mesma declaração complementa e define que os animais mortos devem ser tratados com respeito.
Segundo o Euromonitor de 2019, em infográfico elaborado pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), a população total de animais no Brasil é em torno de 144 milhões. Entre eles, 55,9 milhões são cães; 40,4 milhões são aves canoras e ornamentais; 25,6 milhões de gatos e 19,9 milhões de peixes ornamentais. Conforme as informações do Instituto Pet Brasil e do Euromonitor a estimativa da população mundial de animais é de 1,6 bilhões.
Pesquisa Nacional de Saúde realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, concluiu que 46,1% dos domicílios do país possuíam pelo menos um cachorro. A região Sul do Brasil apresentou a maior proporção, 57,4%, enquanto a menor foi na região Nordeste, 37,6%. As estimativas das outras regiões foram de 56,3% na região Centro-Oeste, 52,4% na região Norte e 44,3% na região Sudeste. Em 2019, em relação aos felinos, 19,3% dos domicílios do país possuíam pelo menos um gato. As regiões Norte e Nordeste divulgaram os maiores percentuais 25,3% e 24,1%, ao mesmo tempo que as regiões Sudeste e Centro-Oeste, os menores 15,2% e 16,6%. Na região Sul, havia ao menos um gato em 21,2% dos domicílios.
A Comissão de Animais de Companhia definiu como método de análise em sua pesquisa três perfis de tutores, o primeiro intitulado amantes de animais, o segundo amigos dos pets e o terceiro de desapegados. Os entrevistados da pesquisa relatam que ter um animal de estimação melhora o dia a dia e o humor. Dentre os amantes de animais 97% afirmam que de modo algum conseguem imaginar a vida sem as presenças dos animais de estimação, na categoria amigos dos pets o número caiu para 94%, e dentre os desapegados apenas 9% concordam com a afirmação.
A Lei Nº 5.673 de junho de 2021 estabelece normas para a proteção dos animais do Estado de Mato Grosso do Sul. O texto define que animais domésticos são “todos aqueles animais cujas espécies que, por meio de processos tradicionais, sistematizados de manejo ou melhoramento zootécnico, possuem fins de companhia, criação ou produção e apresentam características biológicas e comportamentais em estreita relação com o homem, podendo apresentar fenótipo variado, diferente das espécies silvestres que os originaram, assim definidas pelo órgão ambiental competente” e animais de estimação são “aquele animal mantido próximo ao homem para sua companhia sem propósito de reprodução”. No parágrafo Nº5 a lei considera como abuso ou maus-tratos contra os animais atos de abandonar, em qualquer situação, animal sob sua responsabilidade, em quaisquer condições em que o animal se encontre.
O artigo Nº11 da Lei Nº 2990 sobre a Posse Responsável de cães e gatos no Estado de Mato Grosso do Sul define que em caso de óbito do animal de estimação, cabe ao proprietário ou ao veterinário responsável comunicar o ocorrido ao órgão municipal responsável pelo controle de zoonoses. O encarregado de fiscalização do Setor Varrição de Vias, Logradouros Públicos e Serviços Correlatos (Solurb), Wagner Souza informa que “a Solurb realiza coleta de carcaça de animais de pequeno porte, somente no município de Campo Grande”.
A DOR DA PERDA
A estudante do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Emily Colvara relata que foi um choque receber a notícia do falecimento de seu animal de estimação pouco comum, um rato do sexo feminino, com o nome de Arthurita. Emily Colvara pensou que Arthurita pudesse estar adormecida, assim como acontece com os hamsters que hibernam. A estudante do curso de pedagogia ficou sem coragem de ver a rata falecida. “Eu era apaixonada pela Arthurita. Eu não consegui ver, mas no momento foi bem pesado, a gente chorou bastante, se desesperou. Foi bem traumático. Sabe, a gente não espera que um rato vá ser tão especial”.
A estudante do curso de Matemática da UFMS, Stefani Santa Ana tinha dois cachorros, a Luka, uma dachshund, que viveu durante 16 anos, e o Bonnie, um labrador, que viveu durante 11 anos. Ambos vieram a óbito no mesmo ano. Segundo ela, sua família ficou desolada pois sentiam falta dos barulhos que os cachorros faziam. Ela diz que por Luka possuir unhas grandes sempre fazia barulho quando andava e quando a mesma morreu a casa ficou em silêncio. "Todo mundo ficou muito triste e a gente ficou tipo “mano, que que a gente vai fazer agora sem nada, nem um passarinho, nem um gato, nada, nem um latido” nossa, não tinha um latido, que horrível que era”.
A médica veterinária Andresa Gomes tinha uma coelha e um cachorro. O cachorro morreu em dezembro e a coelha em fevereiro. “Meu cachorro já era considerado idoso, porque era um cachorro de porte médio e tinha cerca de dez anos e ele teve um carcinoma no fígado. Em decorrência disso a gente tentou tratar, mas ele acabou falecendo. A gente optou pela eutanásia porque ele estava em um estado muito ruim. E a minha coelha ela morreu de doente, eu acredito que ela tenha morrido por impactação no septo colum, mas ficou a dúvida, a gente não mandou fazer patologia nem nada então ela só ficou mal, tentei tratar em casa e ela faleceu no outro dia, eu esqueci como tratava um bicho, eu esquecia como colocava um soro. Eu não consegui tratar ele, então perder ele, para mim, foi como se eu perdesse um membro da minha família mesmo. Eu chorei muito, a família inteira chorou muito”. ELEMENTO GRÁFICO DE BALÃO DE FALA
O psicólogo Marcelo Comparim fala que a profundidade do luto se baseia em três aspectos, o tamanho do amor, ou seja, o tamanho do vínculo que é criado, a duração desse amor e como se deu a perda. “O tamanho do luto tem um elemento que às vezes as pessoas não consideram tanto que é como se perde, o tipo da perda, porque a perda ela pode ser lenta e calma ou ela pode ser abrupta e agressiva. E quando ela é abrupta e agressiva é retirado alguém do cerne da família de uma maneira inesperada então existe uma profundidade nisso. Esses três aspectos criam um ambiente onde vai variar o tamanho da dor que essas pessoas vão sentir”.
A estudante do curso de Medicina Veterinária da UFMS, Luary Emmanuely perdeu seu animal doméstico, Luna, uma cadela que faleceu de convulsão. “Eu me senti muito mal, me senti impotente diante daquilo, só que depois eu percebi que realmente não tinha o que fazer porque foi uma coisa que aconteceu do nada, foi muito repentino, então não tinha como ter previsto que aquilo iria acontecer com ela”.
No caso do falecimento de Luna, nenhuma comprovação do que aconteceu foi recebida, ela acredita que pode ter sido provocada por alguma planta de seu quintal ou picada de inseto. “Nós sempre deixamos nossos animais soltos no quintal, e nosso quintal tem muita planta, muito inseto, nós procuramos para ver se ela tinha comido algo, se tinha algum inseto por perto, só que realmente não achamos”. A tutora ainda destaca que foi um acontecimento repentino, sem mostrar sinais com antecedência.
A enfermeira Rayane Soares passou pela experiência do luto, sequencialmente, por dois animais domésticos. Ela perdeu há cerca de três meses seu cachorro de estimação, um Yorkshire, chamado Biscoito, e sua hamster, Luna. “Ele comeu uma planta, que acho que era venenosa e acabou dando intoxicação e acabou falecendo. E ela, eu sempre deixava na gaiolinha, mas no meu quarto eu soltava, para ela andar um pouquinho e antes de eu dormir sempre colocava ela de volta, só que, nesse dia eu adormeci e ela acabou escapando do meu quarto e um dos cachorros da minha mãe acabou encontrando ela e ela acabou falecendo”.
Rayane Soares comenta que vivenciar perdas seguidas é algo muito doloroso pois o tutor cuida com muito carinho do animal doméstico. “Principalmente na morte da Luna, que foi um descuido meu, me senti muito mal de ter dormido e não ter colocado ela de volta na gaiola”. Ela relata que havia levado sua nova hamster, Jujuba, ao veterinário recentemente. “O veterinário tinha falado que ela estava bem, tudo normal, ele receitou um medicamento fitoterápico e eu estava dando para ela, estava melhorando, não sei porque isso aconteceu.”
O QUE CAUSOU SOFRIMENTO?
Segundo o Radar Pet 2020 a média de animais por domicílio no Centro-Oeste é de 1,6% para cães e de gatos de 1,8%. A pesquisa também mostrou que o perfil dos cuidadores de cães nas três etapas desenvolvidas foi definido como feminino, 66% são donas de cães, 65% de lares onde a mulher é a principal pessoa que cuida do cão e 60% onde a mulher é quem faz compras para o cão. O mesmo se repete para gatos.
O operador de telemarketing Hygor Cabral perdeu seu animal doméstico em um atropelamento há oito meses. Cabral comenta que percebeu a mancha de sangue na rua e o associou. Ele destaca que a cena ficou marcada em sua memória, e que sente culpa pelo falecimento. “Gato não fica preso, você não prende gato, ele é mais solto na dele. Mas, a gente poderia ter cuidado mais nessa questão de proteger, de orientar. A gente sempre se culpa né”.
Cabral ainda teve um período de receio em adotar animais, com medo de que o fato pudesse se repetir. Foi só recentemente que adotou uma gata e dois filhotes. Para ele, o cuidado foi redobrado com todos os animais da casa. “Nós ficamos um tempo sem adotar, porque nós temos esse medo, sabe, a gente adotou agora uma gata que vivia em situação de rua, mas mesmo assim ainda temos medo.
De acordo com a pesquisa Radar Pet 2021 sobre mercado de produtos para animais domésticos durante a pandemia de Covid-19, 43% dos gatos, dos tutores entrevistados, foram resgatados. A pesquisa define que resgate de felinos são os mais frequentes.
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Na pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) sobre o perfil e padrão de comportamento dos brasileiros na interação com seus animais domésticos, os entrevistados sem animais de estimação relatam que os motivos são, 30% trabalham muito tempo, 27% menos condições financeiras do que gostariam, 18% relatam que é difícil encontrar pessoas para cuidar dos animais em sua ausência, 16% dizem que é muito caro para manter e 9% diz que é um compromisso total por muitos anos.
A estudante do curso de Matemática da UFMS, Stefani Santa Ana fala que a causa dos óbitos de Luka e Bonnie foram diferentes. Bonnie morreu de câncer, na época que foi descoberto o câncer o veterinário deu três meses de vida para o animal. Assim, todos começaram a trabalhar para pagar o tratamento do cachorro. “O que era três meses virou um ano e pouco, e ele viveu muito bem nesse um ano e pouco, só foi aparentar estar doente no último mês, infelizmente. Ele morreu em junho”.
A família de Stefani Santa Ana decidiu que o melhor a se fazer com relação a Bonnie seria sacrificá-lo devido à situação causada pelo câncer. “Levei ele no meu colo na parte de trás do carro até a clínica. Estar lá com ele foi uma das coisas mais dolorosas que eu já tive que fazer na minha vida. Eu nunca, nunca, nunca imaginei não estar lá com ele, porque eu prometi que eu não ia abandonar meu filho”
A médica veterinária que cuidou do caso dos animais de Stefani Santa Ana avisou que Luka provavelmente faleceria logo após Bonnie, pois a cachorra havia “adotado” o outro. Luka veio a óbito dois meses depois do falecimento de Bonnie. “Por mais que a gente desse todo o carinho do mundo, por mais que a gente desse toda a atenção, ela morreu. A gente até pensou na solução de adotar outro cachorro para ela não ir, mas a gente ainda não estava muito preparado para isso e ela acabou falecendo, o que tornou tudo pior”.
De acordo com a Comissão de Animais de Companhia o cuidado com os animais domésticos é constante e os entrevistados declaram que a saúde do animal de estimação é tão importante quanto a saúde de um membro da família. A médica veterinária Andresa Gomes tinha uma coelha e um cachorro. O cachorro morreu em dezembro e a coelha em fevereiro. O cachorro tinha dez anos e era considerado idoso. “Ele teve um carcinoma no fígado. Em decorrência disso a gente tentou tratar, mas ele acabou falecendo. A gente optou pela eutanásia porque ele estava em um estado muito ruim. E a minha coelha, eu acredito que ela tenha morrido por impactação no septo colum, mas ficou a dúvida, a gente não mandou fazer patologia nem nada então ela só ficou mal, tentei tratar em casa e ela faleceu no outro dia”.
Segundo a pesquisa Radar Pet 2021, 44% dos tutores entrevistados foram presenteados com cachorros. Após o falecimento dos dois animais de estimação, a família da enfermeira Rayane Soares ganhou de amigos um novo cachorro, ainda filhote, e outra Hamster, chamada Jujuba. Para ela, animal algum substitui o outro, a presença de um novo animal de estimação após a perda recente proporciona um conforto para o tutor.
A estudante do curso de Medicina Veterinária da UFMS, Arielli Soares perdeu sua cadela Pepita há seis anos, um de seus primeiros animais domésticos. Pepita chegou ao lar de Arielli com um pouco mais de seis meses, e faleceu pela doença cinomose canina. “Quando ela veio para casa, como ela já era grandinha, já tinha passado dos seis meses, a gente pensou que ela já tinha tomado a vacina, as três primeiras doses tomam quando são filhotes. Passamos a dar a vacina para ela de seis em seis meses junto com nossa outra cachorrinha, e após, se não me engano dois ou três anos que Pepita estava com a gente, ela adquiriu a cinomose”.
LAÇOS ETERNOS
Arielli Soares após optar pela eutanásia procurou a veterinária para fazer o procedimento. No dia, ela relata que a veterinária estava sem disponibilidade de horário, e que a eutanásia foi marcada para o outro dia, que seria o dia do casamento dos seus pais. “Então assim, foi bem difícil porque foi um misto de que bom que meus pais estão se casando, só que, que horrível que é esse dia porque eu estou me despedindo da minha cachorra, que foi a minha primeira melhor amiga da vida”.
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A médica veterinária Andresa Gomes comenta que após os falecimentos de seus animais prefere continuar sem outros animais de estimação. “Eu costumo falar que têm mulheres que escolhem não ser mães, eu escolho não ter mais cães, eu não quero mais”. Ela afirma que é um apego que se cria com os animais, e que, assim, a dor da perda também existe. “Então eu não quero mais cachorro nem coelho porque vive muito pouco também”.
De acordo com a pesquisa Radar Pet 2021, caí a tendência de que os tutores vejam os animais de estimação como somente um bicho de estimação e em constante alta a percepção do animal como filho, membro da família, amigo e companhia.
O psicólogo Marcelo Comparim comenta que pode existir um sentimento materno ou paterno gerado por ter um animal de estimação. “Eu vou dizer que em primeiro lugar uma mãe de pet ou um pai de pet as vezes é muito mais amoroso do que um pai ou uma mãe de humanos. Têm pais que são extremamente frios, mães que são frias, têm pais que são agressivos que tratam mal os filhos, não participam e eles não sentem tanta importância de um papel paterno ou materno. Existem pais e mães de pet que tratam os animais com tanto carinho, com tanta importância que eles chegam a ter um quarto na casa com todos os elementos importantes para um animal”.
Comparim explica que o vínculo é a relação de afeto entre dois objetos ou duas pessoas. “Esse afeto pode ser positivo ou negativo. Pode ser amor ou ódio. Mas, o vínculo que estamos falando é o vínculo amoroso, um amor mútuo, um animal que é amado e também ama. O animal tem o jeito dele de amar, ele não sabe falar, mas ele vai demonstrar o afeto dele”.
A enfermeira Rayane Soares e seu cachorro Biscoito eram próximos, a tutora relata que ficou com mal estar por duas semanas após o falecimento do animal. “Quando o biscoito faleceu, a gente achou ele no corredor de casa, estava no chão com diarreia, acho que devido a intoxicação. Eu fiquei muito mal por ver que poderia ter sido evitado por conta da planta que ele comeu, minha mãe gosta muito de planta, mas nunca tinha colocado no chão e acabou colocando, teve acesso a planta, não sabíamos que ela era venenosa”. Segundo ela, a família tentou salvar a vida do animal com medicamentos para intoxicação. “Demos os remédios, parecia ter melhorado, mas aí no outro dia acordei quatro horas da manhã, ele estava bem, um pouco quietinho, voltei a dormir e quando foi seis horas quando fomos ver ele já não estava mais com vida. Foi bem triste, chorei muito, fui trabalhar chorando”.
A responsável pelo marketing do Crematório PetPrimavera, Tatiana Uemura relata que o momento da despedida é importante. “Nós temos uma sala de última homenagem aqui em Dourados, assim que o animal falece a gente faz a preparação dele e os tutores fazem a última despedida. Nós realizamos uma homenagem com fotos do pet, colocamos até às vezes uma música que o dono lembra do pet”. Ela afirma ser um momento emocionante que envolve toda a equipe, pois entendem o sentimento porque possuem animais de estimação. “A gente chega, olha aquilo e quer acolher o máximo possível, é transformar aquele momento no mais memorável, que o dono tenha aquela última lembrança do pet, como se fosse de alegria e não de despedida, um até logo”.

E QUANDO A NOTÍCIA CHEGA?
O médico veterinário Ari Neto relata que o anúncio do falecimento de um animal doméstico é feito com cuidado para que os danos ao tutor sejam mínimos. “Existem dois casos, às vezes o animal já está mal, tenho o primeiro contato e vejo a necessidade de internação e encaminho ele para alguma clínica parceira, nesse caso quem vai anunciar o falecimento é a clínica. Quando é no meu caso, que estou cuidando do animal e não houve necessidade de enviar para a clínica, o anúncio é feito sempre com muito cuidado, hoje nós não tratamos mais os animais como animais de companhia, temos uma nova linha, eles foram agregados como familiares. Embora seja algo muito discutido, não podemos anunciar “O teu cachorro morreu” porque tem muitas pessoas que os consideram como entes queridos”.
Para o veterinário, os tutores sofrem com o procedimento da eutanásia pois a média de vida dos animais domésticos está em constante aumento. “É algo muito doloroso sempre, porque é uma dor, uma perda. Os animais, hoje em dia, a média de vida deles, pode colocar acima de 13 anos, tanto canino quanto felino tem vivido muito bem, até porque a nossa área tem crescido bastante, nós temos nos aperfeiçoado, então a vida desses animais tem se prolongado. Quando se perde um animal de um ano existe um peso e quando se perde um de dez, nesse caso já tive contato com pessoas perdendo até de 15 anos, então é inevitável”
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De acordo com a pesquisa Radar Pet 2021, 50% dos tutores entrevistados adquiriram ao menos um gato na pandemia e 50% dos entrevistados que moram sozinhos adquiriram cães no mesmo período. O psicólogo Marcelo Comparim explica que o luto está relacionado ao aumento nos últimos anos da população de animais de estimação. “Talvez um dos elementos que esteja implicado no aumento dos animais seja exatamente a dificuldade para lidar com o luto, porque um animal perdido pode ser mais facilmente ‘substituído’ então pode ser que exista essa implicação. Mas o aumento talvez seja porque as pessoas têm uma necessidade natural de se relacionar, existe um certo receio em ter um filho por algumas razões econômicas, práticas, etc e o ser humano não foi feito para ficar sozinho. Nós somos seres sociais. A gente pode ficar sozinho, mas não viver em solidão, por essa razão as pessoas que não teriam filhos ou algumas pessoas que teriam filhos optam por trocar uma paternidade/maternidade humana por uma paternidade/maternidade animal pelas razões pelas quais elas entendem que sejam razões coerentes”.
MALES QUE CHEGAM
Segundo a pesquisa Radar Pet 2021 os tutores buscam informações sobre seus animais de estimação com veterinários, no Google, com funcionários de lojas especializadas em animais de estimação, no YouTube, com outros donos e em redes sociais. A pesquisa relata que o volume de atendimentos veterinários em 2021 subiu em média 45% a mais que em comparação a 2020. Os principais motivos segundo a pesquisa para as consultas são a vacinação e consultas preventivas.
A Unidog Nacional oferece plano de saúde para animais de estimação no mesmo molde de um plano de saúde para humanos. A empresa foi criada em Mato Grosso do Sul em abril de 2011. O diretor comercial, Robson Maniero relata que criou um plano de saúde para animais de estimação devido ao alto custo veterinário. “As consultas funcionam do mesmo modo de atendimentos particulares, temos o custo da consulta horário comercial pela tabela social fator participativo de R$50, sendo que no particular é cobrado no mínimo R$100, em plantão é cobrado o adicional de plantão pelo plano após as 20 horas e não às 18 horas como é nos atendimentos particulares”.
Conforme o Radar Pet 2021, as doenças mais comuns em cães na pandemia foram gastroenterite, 41%, alergia, 28%, doença do carrapato, 27%, infecção viral, 24%, e doenças de pele, 23%. E para os gatos foram, doença renal ,36%, doenças de pele, 26%, Felv ,22%, e doenças respiratórias, 20%.
MAS, E DEPOIS?
De acordo com a responsável pelo marketing do PetPrimavera, Tatiana Uemura após os tutores entrarem em contato com a empresa são solicitadas diversas informações para direcionar o atendimento. “Às vezes o pet tem alguma doença, cada situação temos que tomar um treinamento específico e a partir disso a gente acompanha o pet, até o momento da cremação. Assim que o tutor fecha conosco, a gente pega a responsabilidade da cremação, o pet é acolhido conosco, tem todo um trabalho com o técnico operador, veterinário, o pet não fica sozinho, sempre tem alguém acompanhando o processo”.
Segundo Tatiana Uemura a empresa atende todo tipo de animal, a única restrição é que possua até 100 quilos. “A parte de crematório é uma legislação muito grande, porque não é feito de qualquer maneira, a gente tem que seguir normas ambientais é um processo muito difícil, complicado e também mexemos com uma coisa que é forte, que é o carinho, uma coisa pessoal, é um pet, um membro da família, então não pode ser feito de qualquer forma tem que ser feito com muito carinho, com muito acolhimento e isso é a dificuldade de ser implantada”.
Tatiana Uemura aponta que a cremação é uma despedida e um método ecológico. “Precisamos cada vez mais conscientizar a população da importância da cremação, hoje a cremação é o meio mais ecológico dessa última despedida, não é só dizer adeus, é uma forma digna de dizer, porque hoje você enterrar no quintal não é mais viável, porque polui o meio ambiente, pode poluir os lençóis freáticos e você incinerar seu pet, você não tem o retorno dessas cinzas, não sabe como que é o processo. Esse cuidado e essa conscientização é muito importante para que a gente coloque aquela sementinha para as pessoas entenderem que temos que dizer adeus, mas de uma forma digna e humana, porque são nossos melhores amigos”.
O médico veterinário Ari Neto relata que o tutor possui algumas opções em relação ao destino do corpo do animal após o falecimento. "Nós liberamos o corpo para que ele possa fazer a retirada ou ele pode solicitar um descarte dentro das leis do regulamento, nós temos leis ambientais que não permitem que esses animais sejam descartados de qualquer maneira. Inclusive algo que é muito normal e habitual é enterrar animal no quintal, e isso não é nem um pouco ético e nem liberado devido a saúde pública; Então a gente sempre orienta o cliente, se ele não tiver possibilidades nós temos também o 0800 da Solurb que é algo muito importante e poucas pessoas sabem, eles recolhem o animal, na frente da casa, só que o único problema é que são 48 horas e às vezes em motivo de dor a pessoa até escolhe fazer esse descarte biologicamente mais seguro”.
AJUDE UM FOCINHO
O grupo Ajude um Focinho existe desde 2016, na cidade de Costa Rica no Mato Grosso do Sul. A iniciativa é formada por seis mulheres e sem fins lucrativos. A atual presidente do grupo, Heloísa Lemos relata que todos os dias o grupo realiza resgates. “É muito difícil ter um dia que a gente não atua. Nossa função mesmo, que a gente mais tenta atuar, é em resgate de animais soltos, abandonados ou em situações precárias. A gente já teve muita procura por animais que haviam donos. Quando tem resgate, a gente faz de forma sem custo, é dos nossos veículos, nossas formas mesmo. Geralmente, é denúncia ‘ah, eu vi um animal atropelado e não consegui fazer nada, vocês podem ir lá?’, ‘em tal rua tem uma ninhada de gato’, então, geralmente, é assim que chegam os animais”.
Desde 2016, o grupo resolveu 540 casos de animais resgatados. A advogada Thays Felício como presidente do grupo, apoiou o projeto para a criação de um cemitério de animais na cidade em decorrência da alta demanda de resgates e consequentemente de óbitos dos animais acolhidos. O projeto de implantação do cemitério de animais passou pelo judiciário e foi aprovado em 2018 pelo então prefeito Waldeli dos Santos Rosa. “Quando acaba acontecendo de animais falecerem com a gente, ‘ah, está em tratamento mas não conseguimos’, e faleceu, a gente consegue que o pessoal do cemitério retire na própria casa. Então eles vão até a casa do morador e retiram o próprio animal e fazem o enterro. É um espaço até grande, mas acredito eu que esteja precisando abrir outro espaço por conta de tanta demanda”.
A presidente do grupo Ajude um Focinho ressalta que a existência de um cemitério de animais é uma questão de saúde pública. "Então a gente precisa prezar por isso, a gente precisa entender que o descarte de animal é igual, idêntico ao descarte de uma pessoa, ninguém faria se fosse ao contrário. Não tem como eu falar que um animal não transmite uma doença se ele for descartado no lugar errado, porque eu estarei mentindo. Porque transmite, e é uma coisa inconveniente. Então, a ideia do cemitério de animais, eu acho que quem teve essa ideia foi muito inteligente, e acho de extrema importância”.
Heloisa Lemos relata que é importante a conscientização da população sobre o descarte correto e digno dos animais de estimação. “Eu acredito que é uma bandeira que a gente vai levantar sempre. Para algumas pessoas isso vai ser inválido e a gente entende super bem que não vai ser em 2021 ou 2022 ou nem nessa geração que a gente vai mostrar para todo mundo a importância de um descarte correto ou a importância de um animal na vida de alguém”.
São frequentes as recordações da presença do animal de estimação falecido de Luary Emanuelly e Benedita Gomes.
- (Foto: Nathalia Alcântara)