A Polícia Civil desarticulou organização criminosa que desviou R$ 78 milhões da Saúde Pública em Mato Grosso do Sul. A Operação OncoJuris cumpriu 21 mandados de busca e apreensão, e realizou cinco prisões temporárias no dia 23 de abril. As ações ocorreram em Campo Grande, Ribas do Rio Pardo, São Paulo, Barueri, Itu e Nova Lima. O grupo fraudava decisões judiciais para fornecer medicamentos oncológicos superfaturados e sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A Operação da Polícia Civil identificou que a organização do grupo criminoso era composto pelos núcleos administrativo, jurídico, empresarial e de importação. Orçamentos com valores próximos do Preço Máximo de Venda ao Governo (PMVG) eram solicitados judicialmente para superfaturar os medicamentos. A investigação da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul concluiu que empresas sem estrutura operacional e sem habilitação sanitária se candidatavam como fornecedoras.

A delegada titular do Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), Ana Cláudia Medina ressalta que "eles pagavam mil reais na medicação, mas antes, na hora da prescrição, esse medicamento custaria 80 mil reais”. A delegada afirma que os investigados "alteravam os dados por meio de notas fiscais" de prestação de serviço e de importação. Segundo Ana Medina os medicamentos eram solicitados por farmácias que não estavam habilitadas para o fornecimento. “Não sabíamos o que esses pacientes estavam ingerindo”.

O Núcleo de Atenção à Saúde (NAS) da Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul (DPGE-MS) identificou, em setembro de 2025, inconsistências nos processos judiciais de solicitação de medicamentos. A coordenadora do NAS, Eni Maria Diniz apresentou uma notícia crime para a Polícia Civil, que iniciou as investigações. Eni Diniz afirma que "os medicamentos que eram autorizados não chegavam aos pacientes".

Agentes do Dracco cumpriram cinco mandados de prisão contra dois ex-servidores da Secretaria de Estado de Saúde (Ses), um advogado e dois proprietários de farmácia. A juíza do Núcleo de Garantias do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), May Melke Amaral Penteado Siravegna indeferiu a prorrogação das prisões da Operação OncoJuris. A delegada do Dracco, Ana Medina ressalta que a liberação dos presos não anula as investigações.

A advogada e mestra em Direito Médico pela Universidade Santo Amaro (Unisa), Ingrid Secco Dameão ressalta que há uma característica de crimes cometido em orgãos públicos como o Sistema Único de Saúde (Sus). “Quando nós falamos falamos do Sus, estamos falando de grandes quantias de dinheiro. A margem de poder omitir ou superfaturar acaba ficando um pouco mais facilitada”. A advogada afirma que "uma fiscalização das empresas fornecedoras e leitura cautelosa dos orçamentos garantiria melhor acessos aos medicamentos para a população". 

O Dracco apreendeu medicamentos importados da Índia, Paquistão e Turquia sem registro na Anvisa. Segundo a delegada Ana Medina os medicamentos entravam no país por meio de importação em nome dos pacientes. "Importavam essa medicação no nome do próprio paciente e faziam, inclusive, por meio de métodos fiscais e tributários diferentes daqueles que necessitavam ser feitos. Porém, isso ficava maquiado dentro desse procedimento". A investigação policial integra a operação nacional Renocrim Recupera, coordenada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e compartilha provas com a Polícia Civil dos estados de São Paulo e Minas Gerais.