Uma crise psicótica, provocada pela abstinência de substâncias químicas, levou o jovem Diego - cujo nome foi trocado para preservar sua identidade -, de 21 anos, à internação no centro de atendimento médico do bairro Guanandi, no último domingo de junho, 30. Durante o surto, ele tentou destruir uma viatura do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU) e feriu, sem gravidade, três policiais, de acordo com o boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (DEPAC) Piratininga. [caption id="attachment_3456" align="alignleft" width="302"]Foto: Suelen Buzinaro Mãe de Diego quer que ele seja internado compulsoriamente
Foto: Suelen Buzinaro[/caption] Maria - que também teve o nome trocado -, a mãe de Diego, busca a internação compulsória para que ele possa se recuperar do vício. Segundo ela, ele fugiu de outras clínicas e tem ficado cada vez mais agressivo. “Precisaram amarrá-lo e dopá-lo porque meu filho queria fugir e o tempo todo ameaçava quem ficava no quarto, até mesmo a mim”, relata a mãe. O problema, de acordo com a família, é a demora do poder público em avaliar e, caso o setor de psiquiatria do Centro de Atenção Psicossocial / Álcool e Drogas (CAPS/AD) indique, internar Diego. Há quatro dias internado, ele é o sexto da fila que aguarda o atendimento. A irmã mais velha de Diego, Joana - cuja identidade verdadeira permanece em sigilo -, denuncia que “tem gente que fica lá até oito dias aguardando a tal vaga. Enquanto isso o paciente fica dopado o tempo todo”. A psicóloga especialista em pacientes com dependência química, Carolina Soares, indica o melhor tratamento nestes casos. “Primeiro o CAPS deve fazer esse acolhimento e encaminhá-lo para avaliação psiquiátrica, já que ele é usuário de drogas. Depois, associar a medicação com a psicoterapia e com a atividade de terapia ocupacional, que é muito importante para a recuperação de usuários”, explica. Mato Grosso do Sul ainda não interna os usuários que se negam a ir de forma voluntária como é o caso de São Paulo. É preciso que a família entre com uma ação judicial com documentos que comprovem que esta é a única alternativa. É o que explica a psicóloga. “Atualmente a saúde pública está trabalhando com a internação compulsória, a partir dos CAPS/AD, em hospitais conveniados com a rede pública. Mas, nesse caso, a família tem que solicitar essa internação, mesmo ele se negando a fazer, porque já é um caso extremo”, esclarece. https://soundcloud.com/primeiranot-cia/audio-psic-loga-carolina Infância difícil Segundo outra irmã de Diego, Daiane - que também teve o nome trocado por razões de confidencialidade -, desde pequeno, Diego dava sinais que algo estava errado. Ele foi diagnosticado com hiperatividade e transtorno bipolar ainda criança. A família não tinha condições de bancar o tratamento adequado. Daiane lembra os problemas que eles enfrentaram desde a infância. “Minha mãe se matava de trabalhar para nos sustentar. Eu mesma comecei a trabalhar aos 12 anos. Mas não ter um pai presente foi o que mais desestabilizou meu irmão. Três mulheres não conseguem ‘controlar’ um adolescente de 16 anos que estava revoltado com a vida", conta. Segundo a irmã, foi com a influência de amigos que Diego entrou no mundo das drogas. Primeiro no álcool, principal porta de entrada para as drogas ilícitas, e depois para entorpecentes mais pesados. Até hoje, a família não sabe exatamente o que Diego usa, de acordo com a mãe. “Ele diz que é só maconha, mas dá pra ver no jeito que os olhos dele ficam que não é apenas isso. Os médicos acham que é crack”, diz. Uma pesquisa do Levantamento Nacional de Alcool e Drogas (LENAD), organizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que, em 2012, 442 mil adolescentes haviam experimentado cocaína e derivados, 244 mil apenas naquele ano.

adolescentes x adultos

Outro gráfico do mesmo estudo mostra que, 45% de todos os usuários de cocaína e derivados do país experimentaram a droga antes dos 18 anos.

inicio na cocaína

[caption id="attachment_3456" align="alignleft" width="210"]Foto: Heloísa Garcia Maria leva alguns dos alimentos preferidos do filho quando vai visitá-lo no CAPS/AD.
Foto: Heloísa Garcia[/caption]

Desfecho feliz

Depois de pedir auxílio a autoridades e diversos veículos de comunicação,  os parentes de Diego conseguiram uma vaga para interná-lo no CAPS/AD. De acordo com a família, "a batalha mal começou". O próximo passo é entrar na justiça para conseguir a internação compulsória. Daiane se diz aliviada por seu irmão ter conseguido uma vaga no CAPS/AD, mas não esconde sua preocupação. "Tivemos sorte de ter conseguido ajuda da imprensa, mas e quem não consegue?", indaga. Culpa e medo Para Maria, é impossível deixar de sentir a culpa pelos problemas dos filhos. "Quando olho pra ele, naquela cama, pedindo para ser sedado porque não aguenta mais os efeitos da abstinência, me sinto um fracasso. Sinto que falhei como mãe. Quem sabe, se eu fosse mais dura, isso não aconteceria com meu filho. Mas a gente só se da conta disso quando é tarde demais", desabafa.   Reportagem: Heloísa Garcia Fotos: Suelen Buzinaro Edição: Vanessa Albuquerque