Por Helder Carvalho
Introdução
Dados do Consórcio Guaicurus mostram que o transporte coletivo em Campo Grande opera com a frota total de 465 ônibus e 160 rotas para atender todas as regiões da cidade. Veículos com condições inadequadas tornam o transporte público precário e inseguro para a população. O transporte coletivo, para grande parte dos habitantes da cidade, é o único meio disponível, um serviço insatisfatório, que compromete a mobilidade. Passageiros relatam longas esperas nos pontos de ônibus e viagens desconfortáveis, especialmente nos horários de pico.
Unidade I: Mobilidade urbana
O site do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) define o transporte público e coletivo como um elemento-chave para garantir o acesso da população a atividades de trabalho e lazer, além de contribuir para redução das emissões de gases de efeito estufa e poluentes. Dados da Agência Municipal de Trânsito (Agetran) apontam que mais de 140 mil pessoas se locomovem diariamente por meio de ônibus em Campo Grande.
A Agetran é o órgão público responsável pelo planejamento, a coordenação da operação e fiscalização do sistema viário de Campo Grande. O Decreto n°15.131 de 2022, da Agetran, determina que a instituição é responsável pelo “controle e o acompanhamento da execução das ações que visam assegurar a prestação de serviços públicos concedidos de transporte, de forma adequada e em condições de regularidade, continuidade e a prestação com eficiência, segurança, atualidade, generalidade e cortesia”.
A empresa responsável pelo funcionamento do transporte coletivo no município desde 2012 é o Consórcio Guaicurus. O diretor-executivo do Consórcio Guaicurus, Robson Strengari explica que a Agetran determina as regiões que devem ser atendidas, a quantidade de veículos em circulação, horário e os modelos dos veículos, e o Consórcio deve ofertar à população aquilo que foi planejado.
INFOGRÁFICO SOBRE NÚMERO DE TERMINAIS, LINHAS, ÔNIBUS RODANDO
Strengari relata que a responsabilidade pela infraestrutura do transporte coletivo é da prefeitura. O diretor-executivo explica que é necessário finalizar as obras dos corredores de ônibus e reformar os terminais da cidade como fatores essenciais para solucionar o problema de diminuição dos passageiros. “Nós estamos alertando a Agetran e a Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados de Campo Grande (Agereg) desde 2016 sobre a queda de passageiros. Se continuar com o mesmo passageiro caindo e a quilometragem cada vez mais alta, as passagens para eles que pagam vão ser altas.
ÁUDIO DO ROBSON EXPLICANDO A PLANILHA DA TARIFA
Segundo a arquiteta e urbanista da Subsecretária de Gestão e Projetos Estratégicos da prefeitura municipal de Campo Grande (Sugepe), Neila Janes a mobilidade urbana é um conjunto de fatores que permitem as pessoas se deslocarem pela cidade, conforme suas necessidades. “Nós temos a mobilidade ativa, que é considerada então a mobilidade que se faz a pé ou de bicicleta, e temos a mobilidade que se faz por meio de um veículo, seja ele qual for: moto, ônibus, carro e caminhão”.
"Para podermos dizer que um transporte é eficiente, se ele garantir que a pessoa saia de um determinado ponto da cidade e chegue ao seu destino em segurança, dentro de um tempo razoável de locomoção e que atenda a necessidade dos usuários desse transporte". - Neila Janes
Conforme Neila Janes, os principais desafios em relação ao transporte público e a mobilidade urbana em Campo Grande são o valor da tarifa, o número de rotas e os horários de funcionamento dos ônibus. A urbanista reforça que o planejamento urbano de Campo Grande precisa considerar o transporte como parte necessária para as atividades econômicas, atividades culturais e sociais. “Todas as variáveis dentro da cidade precisam ser pensadas de forma conjunta, não dá para pensarmos só no transporte, só no planejamento da cidade, ou só pensar nas atividades, mas temos que pensar em conjunto porque está tudo ligado e inter relacionado”.
“O que eu vejo é que nem tudo que se planeja acontece na realidade, as decisões nem sempre são técnicas, mas muitas vezes são decisões políticas”. - Neila Janes
O transporte público é considerado prioridade no trânsito, uma vez que ele transporta um número maior de passageiros que os veículos particulares. A geógrafa Flávia Akemi explica que um sistema de mobilidade urbana tem que ter como objetivo conectar melhor os diferentes modais de transporte, além de priorizar os não motorizados e o transporte coletivo. “Individualmente não temos caminhado nesse sentido, a gente avançou no ponto de vista da reflexão teórica a respeito disso de como deve ser a mobilidade urbana, mas ainda há uma distância muito grande entre o que a legislação diz, as diretrizes, as nossas intenções e o que a gente observa em termos práticos”.
VÍDEO DA FLÁVIA
Unidade 2: Precarização
A precarização do transporte coletivo em Campo Grande tem se agravado nos últimos anos. Dados da Agência Municipal de Trânsito (Agetran) indicam que o número de passageiros transportados diminuiu em cerca de 20% entre 2023 e 2024. Nos fins de semana, esses números são ainda menores, com o volume de passageiros reduzido a 10% do registrado em um dia útil.
A tarifa do transporte coletivo urbano de Campo Grande foi reajustada em 2,15% em março de 2024, o que elevou o preço da passagem de R$ 4,65 para R$ 4,75. Segundo o diretor-executivo do Consórcio Guaicurus, Robson Strengari os elementos que contribuem para o aumento das tarifas incluem a demanda de passageiros, a extensão das rotas percorridas e, especialmente, os custos com mão de obra, que representam o principal fator de consumo da receita. Strengari explica que a frota de veículos é composta por 460 ônibus e somente 14 possuem ar-condicionado.
INFOGRÁFICO EVOLUÇÃO DAS TARIFAS
“O que houve foi uma promessa de um candidato que teria ar-condicionado em todos os ônibus. E esse candidato ganhou, só que acho que ele não leu o contrato de concessão. Porque nenhum contrato de concessão fala do tipo de ônibus que temos que ter. Não estava previsto o ar condicionado. Dá para colocar? Dá. Tudo é questão da tarifa. A tarifa existente hoje não atende esse requisito de aumentar em 30% o valor da compra do veículo e da manutenção do veículo. Então não há essa previsão de aumentarmos o número de ar condicionados com essa tarifa”.
VÍDEO ROBSON STRENGARI
A estudante do curso de psicologia da Faculdade Estácio de Sá, Maria Vitória da Silva mora no bairro Moreninhas e diariamente utiliza três ônibus para fazer a locomoção da sua casa até o trabalho e faculdade. A estudante comenta que a superlotação dos ônibus é a principal dificuldade com a utilização do transporte público e a precarização torna sua rotina cansativa e exaustiva. “Passei mal algumas vezes no transporte público, com falta de ar ou até mesmo náusea pela superlotação, porque realmente nos horários que eu pego os ônibus eles estão muito lotados, é o horário de pico é muito cheio, tem uma superlotação imensa que acaba gerando um desconforto”.
Maria Vitória da Silva ressalta que o tempo gasto no transporte público e nos terminais de ônibus prejudica a realização de suas atividades diárias. Segundo a estudante, o perigo associado a pontos de ônibus mal iluminados e veículos inseguros faz com que pegar ônibus à noite deixe de ser uma opção. “Geralmente acaba tendo que esperar muito tempo para pegar o próximo ônibus, em torno de quinze a trinta minutos, e eu acho que esses quinze e trinta minutos conta bastante até eu chegar no meu serviço ou até mesmo chegar na minha faculdade. Já chegou a vez de eu chegar muito atrasado, de perder prova por conta disso”.
ÁUDIO MARIA VITÓRIA
Segundo o Diretor de Transporte Público da Agência Municipal de Trânsito (Agetran), Luiz Alencar a população que utilizava o transporte público diariamente, hoje prefere realizar a locomoção de bicicleta, carro ou moto. Alencar explica que o transporte da capital tem dois problemas principais, relacionados a baixa demanda que caiu pós-pandemia de Covid-19 e a dificuldade de encontrar mão de obra para realizar o serviço. “A Moreninhas é uma das regiões que mais perdemos passageiros e que mais concentrou empresas crescendo lá. Deixou de ser interessante você sair do seu bairro e enfrentar os ônibus”.
“É precário? Sim. Tinha que ser melhor? Tinha que ser melhor. Mas qual é o preço disso? Quem vai pagar esse preço. O passageiro não consegue”. - Diretor de Transporte Público da Agência Municipal de Trânsito (Agetran), Luiz Alencar.
O vereador, Ronilço Guerreiro ressalta que é preciso revisar o contrato com o Consórcio Guaicurus pela precariedade do serviço oferecido para a população. O vereador destaca que é repassado um alto valor para a empresa responsável pela administração do transporte coletivo e o retorno é evidenciado por ônibus em péssimo estado e inseguros para os usuários. “Eu sou a favor de revisar esse contrato. Quando se fala em transporte coletivo de Campo Grande, ele não é público, ele é privado. As empresas trabalham e querem lucrar. Se a prefeitura romper o contrato agora com consórcio, ela paga uma multa altíssima. Se o consórcio também romper o contrato com a prefeitura, ela paga uma multa altíssima”.
ÁUDIO RONILÇO GUERREIRO
Unidade 3: segregação socioespacial
A geógrafa Flávia Akemi define a segregação socioespacial como uma separação da população urbana segundo os níveis socioeconômicos, resultante da maneira como as cidades são produzidas. A segregação, em Campo Grande, se manifesta na valorização e desvalorização de determinadas áreas da cidade e no acesso desigual à infraestrutura e serviços. “Existe uma separação entre os indivíduos de classes diferentes, como se existissem duas cidades em uma só, a cidade rica e a pobre. O local que as pessoas vão morar e a capacidade de acessar determinados ambientes e serviços vai depender da sua capacidade de consumo e de pegar pela mercadoria que é a terra urbana”.
VÍDEO FLÁVIA
De acordo com a vereadora, Luiza Ribeiro, a má qualidade do transporte coletivo e o alto valor cobrado pelas tarifas dificultam o acesso das pessoas de baixa renda a determinadas regiões da cidade. Luiza Ribeiro afirma que a precarização do transporte público é uma forma de criar uma separação entre os indivíduos e reforçar as desigualdades sociais presentes na nossa sociedade. "O valor dessa tarifa impede muitas vezes que pessoas deem continuidade a tratamentos médicos, faz com que jovens abandonem a escola ou algum curso e obriga as famílias periféricas a comprarem nem que seja um carrinho antigo".
O acesso desigual reflete-se nas relações econômicas, ao afastar o trabalhador dos seus postos de trabalho, e limita o acesso das famílias em estado de vulnerabilidade socioeconômica a lazer e cultura. Flávia Akemi reforça que na capital existe uma concentração na região central da cidade das oportunidades de trabalho e dos espaços de socialização e manifestação cultural, o que força os moradores das regiões mais afastadas a se deslocarem até o centro ou conviverem com a privação. "Se a gente entende que a qualidade de vida é o estado das condições responsáveis pelo grau de bem-estar das pessoas, é fácil perceber que tem pessoas que vivem bem melhor do que outras e as condições para essa qualidade de vida incluem desde a remuneração até a mobilidade urbana".
ÁUDIO FLÁVIA AKEMI
O assistente de redes, Diullyano Abreu mora no bairro Nhanhá e depende do transporte público para acessar outras regiões como o trabalho e opções de lazer. Abreu relata que sempre que precisa ir para o centro da cidade pesquisa quais são as rotas possíveis para evitar a lotação e diminuir o tempo de espera. “Os ônibus que sãos disponibilizados para a minha região tenho a impressão que são os piores pelas condições apresentadas, todos antigos e quebrados. Chega a ser exaustivo depender de um transporte nessas condições, até falo que canso mais andando de ônibus do que trabalhando".
A secretária Loreynne Ferreira é moradora do bairro Nova Lima e relata que precisa acordar às 4h30 todos os dias para conseguir estar no trabalho às 6h40. Loreynne Ferreira afirma que deixa de frequentar lugares como o Shopping e o centro da cidade por causa da exaustão que o transporte público causa. "Olha o tempo que você perde. Um deslocamento que de carro você faz em 20 minutos, nós perdemos horas nesse translado de ônibus, terminal, espera".
De acordo com Luiza Ribeiro, a implementação da tarifa zero para a população é uma maneira de proporcionar melhor qualidade para o transporte coletivo e incentivar as pessoas que abandonaram os ônibus a retornarem para o transporte público urbano. Luiza Ribeiro explica que para a execução desta medida o governo se responsabilizaria pela administração dos veículos por meio da criação de uma empresa estatal. "A tarifa zero é gratuidade universal da tarifa e ela precisa ser implementada pensando no orçamento das famílias mais pobres, que geralmente é quem está usando o transporte urbano utilitário em nossa cidade".
A estudante do curso de Zootecnia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Micaela Silva relata que seu único meio de locomoção é o transporte público e por morar distante das áreas centrais da cidade e da universidade, precisa passar horas no ônibus. A estudante mora no bairro Nova Lima e explica que muitas vezes considera faltar na faculdade para evitar o estresse de frequentar os terminais e as rotas que precisa para chegar na faculdade. “As condições de transporte são bem precárias, tanto que tem dias que o ônibus quebra e todo mundo fica desesperado, é complicado mesmo. Dependendo, se eu conseguir pegar um ônibus bairro-centro, eu pego só 3 ônibus e caso eu não consiga, eu pego 4 ônibus, passar por 3 terminais até chegar na faculdade que leva em torno de 2 a 3 horas”.
Situações do transporte lotado e sem ar condicionado
- (Foto: Geane Beserra)