Cerrado, o Pantanal e a Mata Atlântica são os três biomas que estão presentes na área de Mato Grosso do Sul. De acordo com o “Boletim Casa Rural” realizado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (FAMASUL), o estado concentra 64,5% do Pantanal brasileiro, o que corresponde a 9,73 milhões de hectares. Dentro do território sul-mato-grossense há também a maior área contínua preservada de Mata-Atlântica que estão concentradas em unidades de conservação da natureza (UCs), sendo o maior deles o Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro, com um total de 78,3 mil hectares. A Conservação Internacional (CI-Brasil) destaca no documento "As Regiões Biologicamente mais Ricas e Ameaçadas do Planeta" que o cerrado é um hotspot global de biodiversidade, composto por 32% de espécies endêmicas. O resultado dessa junção é uma fauna diversa e ameaçada por ações antrópicas, como a construção de rodovias sem planejamento adequado.

A médica veterinária do projeto Bandeiras e Rodovias, Grazielle Soresini afirma que “a elevada biodiversidade do estado do Mato Grosso do Sul, associada a uma lacuna na infraestrutura das estradas e rodovias que foram construídas sem prever uma forma de evitar que os animais acessem a pista, contribuem para a ocorrência frequente de acidentes envolvendo a fauna local”. A Confederação Nacional do Transporte divulgou a Pesquisa CNT de Rodovias 2023 que indica que 56.2% das rodovias sul-mato-grossenses são classificadas como regulares, ruins ou péssimas. Ainda de acordo com a pesquisa, as rodovias federais são em sua maioria, classificadas como boas ou ótimas. As principais rodovias do estado são a BR-262 e a BR-163, as quais também recebem um alto fluxo de veículos pesados e de carga para transportar os produtos da agroindústria. 

O Governo Federal, de acordo com informações divulgadas na página do Ministério do Transporte, destinou o orçamento de R$1,1 bilhão de reais à construção e manutenção das rodovias incluídas na rota bioceânica em 2023. Foram assinadas duas ordens de serviço em dezembro de 2023 que colocam em ação as obras de adequação para o corredor bioceânico que perpassa a BR-267, o investimento é de R$239 milhões. O médico veterinário do projeto Bandeiras e Rodovias, Mario Alves afirma que a BR-262 é uma rodovia de altos índices de colisão com animais silvestres. “As lesões mais comuns encontradas são de animais silvestres que foram vítimas de colisões [...] de maneira geral, os animais pequenos, geralmente sofrem poli traumatismo, então múltiplas fraturas, hemorragia interna, e morrem ali mesmo na pista. Os animais grandes, como as antas, capivaras e tamanduás, têm maior chance de sofrer”.

>>>>>>>>>> INFOGRÁFICO <<<<<<<<<<<<<

O Instituto de Conservação de Animais Silvestres publicou informações sobre o monitoramento de 15% das rodovias sul-mato-grossenses durante três anos e registrou a morte de 968 capivaras, 766 tamanduás-bandeiras e 425 antas. A veterinária do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), Jordana Toqueto afirma os atropelamentos interferem em todo o ecossistema local. “Em épocas reprodutivas do tamanduá-bandeiras, muitas vezes a mãe está morta e o filhinho ele está vivo no dorso dela, então aí eles trazem somente o filhote [...] então isso acomete todo um ciclo de vida deste animal que nasceu e do animal que veio a óbito, as antas são as jardineiras da nossa floresta e todos animais possuem um papel importante, então diminuindo a quantidade desses animais, com o passar do tempo, acaba desequilibrando todo o ecossistema”.

>>>>>>>>>>> CARROSSEL DE FOTOS <<<<<<<<<<<<<<

O médico veterinário do projeto Bandeiras e Rodovias, Mario Alves destaca que o número de animais mortos por colisões em rodovias é muito maior. “Dependendo do impacto, fraturas eles seguem vivos, e então se afastam da rodovia e chegam a morrer mais longe da rodovia, o que nos leva a entender que muitas vezes os números contabilizados por nós durante esses monitoramentos são subestimados”. O Instituto Bandeiras e Rodovias constatou durante os monitoramentos realizados que a persistência da carcaça na rodovia é de 22 a 38%. Alves ainda ressalta que “se nós registramos 761 tamanduás-bandeiras mortos nesses três anos, então sabemos que esse número é muito maior do que isso, porque 761 são só os animais que ficaram na rodovia e que nós pudemos registrar”. 

>>>>>>>>>>>>>> ÁUDIO MARIO <<<<<<<<<<<<<<<<<<<<

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EIXO - COMBATE

A Lei de Crimes Ambientais, de fevereiro de 1998, regulamenta as sanções para condutas que lesam o ambiente e dispõe sobre as atividades criminosas contra a fauna silvestre no território nacional. A penalidade para o atropelamento intencional de animais silvestres é determinada no Artigo 29 da Lei, e prevê ao infrator detenção de seis meses a um ano e o pagamento de multa. A Primeira-Tenente da Polícia Militar Ambiental (PMA), Eveny Parrela relata que a colisão de animais silvestres contra veículos em rodovias de Mato Grosso do Sul é majoritariamente acidental. “Geralmente o atropelamento de animal silvestre não é doloso, ele é culposo. Por causa da falta de atenção do condutor, ou às vezes até pela questão da velocidade [do veículo]. 

>>>> infográfico com os dados de atropelamento da PRF <<<<<

O Núcleo de Comunicação Social da Polícia Rodoviária Federal de Mato Grosso do Sul (PRF/MS) informa que foram identificados 30 casos de acidentes envolvendo o atropelamento de animais em rodovias federais nos primeiros cinco meses de 2024. O policial rodoviário federal Pedro Bózzio ressalta que a maioria das colisões contra animais silvestres nas estradas é decorrente da ação dos motoristas, pela forma de condução do veículo e suas condições de segurança. “Quase 90% dos acidentes em regra acontecem pela conduta humana, seja pela falta de experiência da pessoa conduzir, a má condução do veículo, a má conservação do veículo também pode acarretar algum acidente e a presença de animais, que são considerados fatores da via, eles são quase 5%. Essa responsabilidade é tanto do condutor quanto do estado, de quem cuide da rodovia”. 

>>>>>>>> vídeo Bózzio <<<<<<<<

A combinação de desrespeito às normas de trânsito e o acesso de animais às rodovias estaduais e federais pode ser fatal tanto para a fauna silvestre quanto para os condutores de veículos e Pedro Bózzio enfatiza que a maneira mais eficaz de prevenir acidentes é por meio da direção defensiva e o investimento na estruturação das rodovias. “O Estado também deve adotar medidas preventivas associando infraestrutura, tecnologias e sinalizações para compatibilizar o uso da rodovia pelos usuários e o fluxo dos animais silvestres [...] além disso, ações educativas também são medidas preventivas possíveis”. A médica veterinária do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), Grazielle Soresini destaca que os esforços do Estado pelo combate às colisões “devem ser focados em garantir que os animais não acessem a estrada. A cerca é uma das medidas de mitigação proposta e com maior eficácia na redução da mortalidade nas rodovias. As passagens inferiores associadas ao cercamento, para guiar os animais, são eficazes para travessias seguras”.

>>>>>> fotos dos dispositivos <<<<<<

Os técnicos do programa “Estrada Viva - a fauna pede passagem”, executado pela Agência Estadual de Empreendimentos de Mato Grosso do Sul (Agesul), monitoram os atropelamentos de animais silvestres em 18 trechos de 15 rodovias estaduais e um de rodovia federal, a BR-359. De acordo com informações da página do Estrada Viva, as atividades de monitoramento são executadas desde 2016 com o objetivo de “identificar os principais pontos de passagem dos animais para propor medidas preventivas e de mitigação dos incidentes”. A médica veterinária do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), Jordana Toqueto pontua que “a implementação de medidas de mitigação de colisões com fauna exige muito planejamento de forma a atender as especificidades de cada rodovia e trecho. Assim, este planejamento minucioso requer tempo e precede uma discussão entre esse planejamento, os custos para sua implantação e avaliação técnica”.  

A Primeira-Tenente da Polícia Militar Ambiental (PMA), Eveny Parrela pontua que a rodovia estadual MS-345, que ligará a cidade de Bonito (MS) a Anastácio (MS), é a primeira estrada em Mato Grosso do Sul projetada com dispositivos de mitigação de colisões veiculares com a fauna. O ICAS publicou em 2021, em conjunto com instituições nacionais e internacionais, o estudo “A prevenção de atropelamentos de animais selvagens pode compensar os investimentos em mitigação em curto e médio prazo”, que analisou 1158 km de estradas do estado e identificou que os custos do cercamento dos trechos críticos de acidentes com faunas nas rodovias seriam compensados em médio prazo. O médico veterinário do ICAS e pesquisador envolvido no estudo, Mario Alves informa que “nós [pesquisadores] calculamos que tudo o que se gasta com dano material em acidentes em rodovia compensaria o custo do cercamento em 9 a 25 anos. Esse é um dado extremamente importante que mostra que prevenir as colisões é eficaz também financeiramente”. 

>>>>>> frase em destaque <<<<<<<

Mario Alves indica que o papel do ICAS e do terceiro setor na mitigação das colisões veiculares contra animais silvestres em rodovias de Mato Grosso do Sul é “o de fornecer dados científicos que apontem para o poder público e para os tomadores de decisão o melhor caminho a ser tomado. [...] Tanto pensando na parte financeira, quanto na parte da conservação da biodiversidade e também na segurança dos usuários das rodovias”. A população pode contribuir para a contabilização dos casos de atropelamento de animais silvestres por meio do aplicativo “MS Digital”, do Governo do Estado, que conta com uma ferramenta de cadastro de informações desses acidentes. A médica veterinária do CRAS, Jordana Tochetto orienta que “caso veja algum animal na rodovia ou até mesmo se você atropelou esse animal, dá para você mesmo pegar e trazer aqui no Centro de Reabilitação de Animais Silvestres ou se é um animal de grande porte ou de grande perigo você pode ligar para a Polícia Militar Ambiental e eles fazem a captura desse animal”.

>>>>>> áudio Mario <<<<<<<

 

EIXO MONITORAMENTO E CONSCIENTIZAÇÃO

O Ministério do Meio Ambiente lançou o “Programa Nacional de Resgate de Fauna Silvestre - Resgate+” no ano de 2021. O programa tem intenção de garantir que animais silvestres tenham atendimento médico veterinário de emergência e assistencialismo de fauna silvestre em situação de risco e vulnerabilidade em todos os biomas do país. Informações publicadas pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), feitas pelo Projeto Bandeiras e Rodovias, estimam que 768 tamanduás-bandeiras tenham sido mortos nas estradas de Mato Grosso do Sul entre o ano de 2017 até 2020. 

A médica veterinária do ICAS, Grazielle Soresini ressalta que durante o tempo de monitoramento de colisões veiculares do Projeto Bandeiras e Rodovias foi percebido que as espécies mais afetadas são o cachorro do mato, capivaras e o tamanduá mirim.“Espécies ameaçadas de extinção, como o tamanduá bandeira e a anta também estão na lista de espécies registradas e além dos mamíferos, aves, répteis e anfíbios também são vítimas frequentes de colisão veicular”. O médico veterinário, também do ICAS, Mario Alves explica que o número de animais atropelados registrado pelo Projeto Bandeiras e Rodovias não representa a totalidade. “Esse número é subestimado porque muitos animais são atropelados na rodovia, mas não morrem na rodovia. Ou seja, esse número é muito maior do que a gente registrou”. 

Informações da página Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira apontam que 77 pessoas ficaram feridas e 28 foram a óbito por conta de colisões com antas nas rodovias estaduais e federais de Mato Grosso do Sul em sete anos. A médica veterinária do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), Jordana Toqueto comenta que um dos principais motivos para as colisões é a alta velocidade dos condutores. “Muitas vezes, se a pessoas frear, pode ocasionar acidentes para quem está atrás [do veículo], então, é importante a população saber qual local que tem mais incidência de animais, ficar em alerta quando passa e reduzir a velocidade”.

>>>>video jordana<<<

O Instituto SOS Pantanal, em parceria com outras instituições, participa da campanha de  conscientização “Estrada segura para todos”, no qual são realizadas ações de ativismos sobre o tema. Gustavo Figuerôa, diretor de comunicação do Instituto SOS Pantanal ressalta que “a gente faz algumas ações de ativismo e acompanha esses temas, fazemos parte de um observatório que foi criado recentemente, com membros do governo estadual e federal”. Gustavo Figueirôa pontua que todas as atividades do instituto são voltadas de maneira indireta à proteção de animais silvestres. 

>>>>>áudio gustavo<<<<

Os principais resultados obtidos pela primeira fase do Projeto Bandeiras e Rodovias, realizado entre 2017 e 2020, constataram que 12.400 animais silvestres foram vítimas de colisão veicular. A Primeira-Tenente da Polícia Militar Ambiental (PMA), Eveny Parrela comenta que um dos principais objetivos da PMA em relação ao atropelamento de animais é a conscientização por meio da educação ambiental. “O nosso trabalho mais forte é orientação. A gente tem que trabalhar a prevenção, a educação ambiental e ir orientando os condutores”. A médica veterinária Jordana Toqueto também enfatiza que a colaboração dos condutores é fundamental para evitar colisões com animais silvestres. “É importante a população saber qual local que tem mais incidência de animais, ficar em alerta quando passa por aí, cuidar e reduzir a velocidade”. 

>>>vídeo Jordana<<<<<