REPORTAGEM ESPECIAL

Águas Urbanas

Urbanização descontrolada leva à impermeabilização do solo, aumentando o risco de enchentes, alagamentos e inundações

Por Mariana Piell

Introdução

Campo Grande é uma cidade ‘cortada’ por águas. O perímetro urbano possui 33 cursos d’água e 11 bacias hidrográficas em seu território. As bacias hidrográficas existentes na cidade de Campo Grande são Anhanduí, Bandeira, Bálsamo, Coqueiro, Gameleira, Imbirussu, Lageado, Lagoa, Prosa, Ribeirão Botas e Segredo. [aqui precisa de uma conclusão: CG tem X corregos, mas e dai? O que o letor vai encontrar nessa reportagem?]

 

Urbanização

A doutora em Geografia Eva Faustino explica que os vazios urbanos, que compõem 35% da área de Campo Grande são importantes para a preservação dos córregos. “Dentro dessas áreas públicas estão as áreas de proteção ambiental, que são as unidades de conservação. Aí tem as áreas particulares, que têm um dono. Essa área pode ser negociada, ela pode ser comprada por alguém, pelo próprio governo”.

A geógrafa Natália Aude explica que os córregos são um recurso natural de drenagem. Na área urbano são necessárias intervenções para aumentar a eficiência do escoamento. “Córregos ajudam a drenar águas pluviais, mas a urbanização descontrolada pode levar à impermeabilização do solo, aumentando o risco de enchentes. Por isso é crucial a construção de sistemas de drenagem eficientes, como piscinões, canais e sistemas de escoamento que trabalhem em conjunto com os córregos”.

A geógrafa Natália Aude explica que intervenções que afetam diretamente o curso dos córregos são prejudiciais. ”A canalização e o tamponamento dos cursos d’água influenciam no escoamento e na vazão dos córregos, alterando a dinâmica natural e acelerando o fluxo da água e sendo potencial acelerador ou causador dos fenômenos estudados [enchentes, alagamentos e inundações]”. 

A engenheira ambiental e diretora de Planejamento e Monitoramento da Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb), Mariana Massud explica que a canalização de córregos era uma prática comum para resolver problemas locais de alagamento. “A gente chama essas estruturas de estruturas cinzas. Antigamente, era um conceito muito utilizado para resolver o problema de drenagem. Então a gente pegava, canalizava córregos, colocava galerias, bueiros, barragens, enfim, a gente jogava a água o mais longe possível. Ou seja, o nosso problema mudava de lugar. E até certo ponto ele é um remediador. Mas já faz alguns anos que a tendência é que isso mude, que a infraestrutura azul e verde sejam mais adotadas, que é a drenagem sustentável da gente segurar no lote, por exemplo, o índice de relevância ambiental”.

De acordo com o engenheiro civil especialista em Engenharia de Sistemas Hídricos Urbanos, Andrés Felipe Hatum, que faz parte do projeto de monitoramento de risco de alagamento, existem 33 pontos críticos na cidade. “Essa rede de monitoramento tem 29 pluviógrafos para medir a precipitação. Tem atualmente cinco medidores do nível da água. Temos uma estação hidrometeorológica e se tem pensado para o segundo semestre de 2024 instalar seis meios de nível além do que se tem agora”.

Cleide Freitas, moradora das proximidades do córrego Anhanduí há 40 anos, relata que presenciou o transbordamento do córrego duas vezes. “Nenhuma das vezes foi dentro de casa. O esgoto transbordou porque o córrego encheu, já que a água do esgoto cai no córrego”.

AUDIO DA CLEIDE FALANDO QUE GOSTARIA QUE FECHASSE O CÓRREGO E O QUE A PREFEITURA JÁ FEZ

 

Natureza

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Gestão Urbana a lançar, em março de 2009, um programa de monitoramento da qualidade das águas superficiais do município, denominado Programa Córrego Limpo. O programa foi lançado a partir da institucionalização da Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelecida pela Lei Federal n. 9.433, de 8 de janeiro de 1997, e a Política Estadual de Recursos Hídricos, normatizada pela Lei n. 2.406, de 29 de janeiro de 2002.

O Programa Córrego Limpo utiliza o Índice de Qualidade das Águas adaptado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (IQACETESB) para disponibilizar informações de maneira simplificada para a comunidade. O índice sintetiza em um único número, relacionado a qualidade da água, várias informações sobre parâmetros físico-químicos e facilita a compreensão do público leigo. A rede de monitoramento municipal contempla 83 pontos de amostragem, distribuídos em nove das onze microbacias de Campo Grande, com exceção das microbacias do Gameleira e do Ribeirão Botas porque apresentam características de uso e ocupação do solo estritamente rurais.

INFOGRAFICO CORREGO LIMPO

A geógrafa Natália Aude explica que inundações e enchentes em Campo Grande ocorrem principalmente nos períodos de outubro a março, em que a quantidade de chuvas é maior. “Nos meses de novembro, dezembro e janeiro há uma concentração de chuvas intensas, com uma precipitação média mensal acima de 200mm. São nestes meses que as ocorrências de enchentes, inundações e alagamentos ocorrem na cidade”.

O biólogo e doutor em Ecologia e Preservação José Milton Longo esclarece que todo resíduo de atividade humana impacta a qualidade das águas fluviais e afetar a biodiversidade aquática. “O que determina o nível de poluição é o nível de ocupação e as atividades antrópicas que estão ao lado. Se é comercial, se é industrial e se seus resíduos são dispensados sem tratamento dentro dos corpos d'água. É o que a gente verifica ao longo do córrego Anhanduizinho. Você percebe que tem poluentes que são sequestradores de oxigênio. São óleos e solventes que vão roubar o oxigênio da água e não deixar disponível para as espécies de animais e plantas que precisam do oxigênio dissolvido nessa água. Interfere então na cadeia alimentar, através da qualidade de água depreciada, interfere no crescimento e estabelecimento de uma série de peixes e de outros organismos que têm dependência desses ambientes aquáticos”.

VIDEO DO JOSE FALANDO COMO SURGIU O PROGRAMA CÓRREGO LIMPO

O vendedor de veículos Thiago Guimarães relata que o córrego Prosa, localizada em frente à concessionária [onde, essa loja é dele ou ele só trabalha lá? Precisa esclarecer], não apresenta problemas de enchente. “Querendo ou não, atrapalha o ambiente, né? E fica um cheiro ruim e aí acaba não dando concentração do serviço”.

 

Convívio

GLOSSARIO EXPLICANDO O QUE É ENCHENTE, ALAGAMENTO E INUNDAÇÃO

A doutora em Geografia Eva Faustino explica que as principais formas de degradação das águas de Campo Grande são processos de assoreamento, solapamento, insuficiência no sistema de captação de águas pluviais e contaminação por efluentes domésticos. “As bacias do Segredo, Prosa e Anhanduí são as que se encontram mais degradadas. A história de Campo Grande começou na confluência desses córregos e, ao longo dos anos, junto com o desenvolvimento urbano vieram os problemas ambientais. Nas duas últimas décadas houve uma grande abertura de vias públicas ao longo desses córregos. A mata ciliar foi retirada sendo substituída por avenidas asfaltadas e a colocação de concreto em leitos e margens dos córregos, a ação antrópica em Campo Grande tem ocasionado problemas relacionados ao uso e ocupação do solo em áreas que deveriam ter sido preservadas, especialmente em bacias hidrográficas, localizadas no perímetro urbano da capital”.

A engenheira ambiental e diretora de planejamento e monitoramento da Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb), Mariana Massud explica que a prefeitura não tem responsabilidade direta pelos córregos. “Quando a gente fala de recursos hídricos, pela Constituição, é uma obrigação da União e do Estado. Então não é do município. A legislação não é do município. Mas nós temos instrumentos, planos de manejo, conselhos, onde pessoas de vários segmentos participam e contribuem para a conservação desses locais”.

A geógrafa Natália Aude explica que a cidade de Campo Grande apresenta um histórico de eventos de inundações desde o princípio de sua urbanização. “Temos por exemplo as obras de infraestrutura que foram realizadas entre as décadas de 1970 e 1980, dentre elas a canalização do córrego Maracaju para solucionar problemas recorrentes de enchentes no local”.

Maria Auxiliadora, que mora no cruzamento da Av. Afonso Pena com a Av. Ernesto Geisel, duas das maiores vias de Campo Grande, explica que a inundação afetou seus vizinhos. “Ele [córrego] só enche realmente quando tem muita chuva. Então deve faltar escoamento, algum tipo de coisa assim. Não é sempre que acontece, mas já aconteceu algumas vezes”.

VIDEO MARIA

O gerente de meio ambiente e qualidade da Águas Guariroba, Fernando Garayo explica que a água utilizada para consumo é captada fora do espaço urbano. “Nossa captação e o nosso tratamento de água atualmente é feito por duas captações superficiais. Uma fica na bacia do Guariroba, que se localiza a 35 km de Campo Grande, e a outra é a bacia do Lageado. O Guariroba corresponde a em torno de 36% da água que é distribuída para a população de Campo Grande e o Lageado em torno de 13%. O restante das nossas captações são realizadas por postos, em torno de 150 postos profundos, que captam água de três aquíferos subterrâneos, o Serra Geral, o Guarani e o Caiobá”.

O gerente de Recursos Hídricos do Instituto de Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul (Imasul), Leonardo Sampaio explica que os cômites de Bacias HIdrográficas são responsáveis por definir as ações tomadas pelo órgão. “São colegiados que nos ajudam a dar as diretrizes de uso daquela bacia. Eles são divididos em três segmentos: o poder público, os usuários e a sociedade civil. Então a gente faz a eleição, convoca esse pessoal e eles se reúnem três vezes por ano para dar essas diretrizes e para receber o relatório do que a gente está executando”.
 

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