UNIDADE 1 - Perfil
Dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA) da Polícia Federal apontam que 32.805 imigrantes vivem atualmente no Mato Grosso do Sul. Os imigrantes no estado estão divididos entre as categorias residente, provisório, temporário e fronteiriço. O número de imigrantes no estado aumentou 56,4% em dois anos, em 2022 eles eram 20.968.
GLOSSÁRIO: residente, provisório, temporário e fronteiriço
As nacionalidades as venezuelanas e as paraguaias representam o maior número de imigrantes no Mato Grosso do Sul são, que juntas somam 65% dos estrangeiros que vivem no estado. Os venezuelanos são a maioria, com 11.234 pessoas, enquanto os paraguaios são 10.125. O número de venezuelanos no Mato Grosso do Sul aumentou 114,5% entre janeiro de 2022 e abril de 2024.
INFOGRÁFICO: venezuelanos e paraguaios em 2022 e em 2024 / nacionalidades com o maior número de imigrantes
O doutor em Geografia, Marcelino de Andrade Gonçalves explica que existem elementos particulares que influenciam o deslocamento de pessoas de um país para outro, entre eles a economia, a diminuição da capacidade de consumo e a procura por redes de apoio. "A migração tem um sentido de uma busca e uma mudança na condição econômica de vida e de reprodução. Por exemplo, no Brasil, quando a população migrava do campo para a cidade no século 20, a ideia era mudar de patamar do ponto de vista econômico e social".
A proximidade com o Paraguai e a Bolívia influenciou diretamente nos fluxos migratórios no Mato Grosso do Sul. A doutora em Direito e líder do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos, Direito Internacional e Relações Transfronteiriças, Ana Paula Martins Amaral afirma que o Mato Grosso do Sul recebeu diversas ondas migratórias, tanto internas quanto externas, e que isso se intensificou ao longo dos anos. "Nós temos hoje os novos imigrantes, da Venezuela, do Haiti, que entram a partir de Corumbá e daqui seguem para o restante do estado. Esses imigrantes internacionais que temos no estado muitas vezes Campo Grande não é o principal destino, é um ponto de parada e aí eles continuam, é uma rede que se desenvolve".
Ana Paula Martins explica que Campo Grande, Dourados e Três Lagoas são os principais destinos dos imigrantes que entram no estado, por serem as cidades mais populosas e com a maior infraestrutura. "Apesar de não ter muitas fábricas, Campo Grande tem uma parte de serviços que necessita muito de mão de obra. Dourados e Três Lagoas também se destacam, por causa das fábricas de frigorífico em Dourados e também as fábricas de celulose em Três Lagoas".
Vídeo Ana Paula - sobre importância de documentação e direitos assegurados
A doutora em Direito destaca a Operação Acolhida, criada em 2018 pelo Governo Federal e realizada pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) em parceria com as Forças Armadas do Brasil (FAB), que visa apoiar o deslocamento voluntário, seguro e organizado de imigrantes venezuelanos, bem como auxiliar na integração socioeconômica e cultural. O Mato Grosso do Sul é o quinto estado do Brasil que mais recebeu imigrantes encaminhados pela Operação Acolhida, com 6.934 pessoas. "Devido à situação econômica, política e social, desde 2015 houve uma grande saída de venezuelanos da Venezuela. A Operação Acolhida tem trazido muitos venezuelanos para Dourados, já com contrato de trabalho para que eles possam já vir com emprego garantido".
A presidente da Associação Venezuelana em Campo Grande (AVCG), Mirtha Carpo afirma que atualmente há uma diáspora venezuelana e que milhares de pessoas deixam a Venezuela em busca de melhores condições de trabalho e acesso à saúde. "Existem venezuelanos que estão saindo para a Colômbia, Peru, Equador e Bolívia e quando estes países estão mal, eles vêm para o Brasil". Mirtha Carpo destaca que muitos imigrantes venezuelanos escolhem o Mato Grosso do Sul devido a uma maior oferta de vagas de trabalho.
Áudio Mirtha Carpo - motivos que impulsionam a vinda de imigrantes
UNIDADE 2 - Acolhimento
Dados da Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS) de Campo Grande mostram que 475 imigrantes chegaram a Campo Grande nos cinco primeiros meses de 2024. Os dados são das Unidades de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias (UAIFA I e II) e da Casa de Passagem Resgate, que acolhem imigrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Os dados da SAS ainda apontam que 1.579 imigrantes procuraram atendimento nas unidades em 2023.
Infografia: imigrantes em Campo Grande
O secretário municipal da SAS, José Mário Antunes afirma que há um protocolo de atendimento aos imigrantes internacionais baseado na Lei Nº 9.474/97, também conhecida como Estatuto dos Refugiados. "Trabalhamos documentação, emprego, autonomia da pessoa, se querem permanecer na capital, acesso à escolarização aos menores de idade, bem como passagens, se assim fizer necessário, mediante escuta qualificada, assistente social, psicólogo e advogado". O secretário destaca que após a regularização dos documentos do imigrante na Polícia Federal, é feita a inserção destes em programas sociais, como Cadastro Único, Bolsa Família e Identidade Jovem.
O Comitê Interinstitucional Municipal de Promoção, Proteção e Apoio aos Migrantes Internacionais e Refugiados, suas Famílias Crianças e Adolescentes (CIMPAMIRF) é uma das iniciativas da Prefeitura de Campo Grande para acolher os imigrantes na capital. A coordenadora do CIMPAMIRF, Thais Helena ressalta que o comitê reúne o poder público municipal, estadual, federal e a sociedade civil. "Hoje temos migrantes de mais de 90 países em Campo Grande. Porém, isso é muito rotativo, porque hoje ele está em Campo Grande, amanhã ele pode não estar mais. Trabalhamos na interseccionalidade de todas as políticas, educação, saúde, assistência social, moradia e emprego".
Vídeo Thais Helena
A coordenadora do Comitê afirma que o órgão também realiza ações de conscientização em relação ao preconceito contra os imigrantes em parceria com a Coordenadoria de Igualdade Racial, vinculada à Subsecretaria Municipal dos Direitos Humanos (SDHU). "A gente percebe que a xenofobia e o preconceito estão sendo trabalhados para que a gente possa oferecer a essas pessoas uma convivência melhor, uma convivência harmônica e trazendo toda a diversidade cultural que eles têm e que é uma riqueza do nosso país". A assistente social Adriana de Lima Neves trabalha no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Mida Barbosa Marques, no bairro Guanandi, e integra a equipe do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF), que oferece acolhimento humanizado, atendimento psicológico, material informativo em espanhol e francês e articulação com outras instituições que acolhem famílias imigrantes. Adriana de Lima destaca que o serviço contribuí para a manutenção dos laços familiares dos imigrantes. "A gente verificou que 2021 para cá houve um aumento de imigrantes aqui no CRAS e que poderíamos trabalhar com eles de uma forma diferente, porque a demanda era muito grande".
Adriana de Lima explica que a principal dificuldade enfrentada no atendimento aos imigrantes era o idioma. "A princípio utilizámos o Google Tradutor. Mas como íamos explicar para eles o que era o CRAS e o que era o PAIF? Então resolvemos fazer o folder em espanhol e em francês. Quando elas chegam aqui, atendemos elas, verificamos quais as demandas que elas necessitam, se possuem documentação ou CadÚnico". A assistente social afirma 99 famílias foram atendidas pelo CRAS Mida Barbosa Marques desde 2019.
A Liga Acadêmica de Direito Internacional dos Refugiados (Ladir) é uma associação acadêmica vinculada ao curso de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), fundada em 2019. A Liga tem como objetivo oferecer acolhida humanitária e presta assistência jurídica aos refugiados, aos solicitantes de refúgio, apátridas e estrangeiros em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A vice-presidente do Ladir, Beatriz Lourençoni afirma que a Liga atua com a imigração não ordenada, caracterizada pelo deslocamento forçado e não planejado. "Em Campo Grande não temos um fluxo direto de encaminhamento dessas pessoas, onde elas vão e onde procuram. Dependemos muito dessa atuação em rede, a Ladir está sempre em contato com as associações civis e dentro da universidade nós tentamos facilitar os processos, como a revalidação de diploma e os editais para refugiados e imigrantes".
A presidente do Ladir, Izabela Villanova Barreto Miguel destaca que a principal demanda dos imigrantes e refugiados ao chegarem em Campo Grande é a emissão do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) e a Carteira de Registro Nacional Migratório (CRNM). "O refugiado chega e ele já tem a barreira linguística, porque o Brasil é o único país da América Latina que fala português. Aqui, o nosso governo funciona de um jeito, ele é sistematizado de um jeito, então um órgão que aqui seria o Sistema Único de Saúde (SUS), na Venezuela é outro, no Haiti é outro. Então, se você tem CPF você tem tudo".
Vídeo garotas do Ladir
O Programa Ensino de Línguas (Progeli) é um projeto de extensão criado no curso de Letras da UFMS em 1996 e que oferta o curso 'Português como língua de acolhimento' para estrangeiros desde 2024. O doutor em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês e coordenador do Progeli, Elton Luiz Aliandro Furlanetto explica que o curso voltado para estrangeiros surgiu inspirado no programa realizado na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), UEMS Acolhe, que oferece ensino de línguas para imigrantes e refugiados. "Por enquanto, a turma é composta principalmente por pessoas que são da UFMS, como alunos intercambistas, alunos que são de outros países e que não tem nada de português. Eles não têm muito o perfil de imigrante refugiado, que foge um pouco do que a gente tinha proposto, mas a ideia é acolher as pessoas. Isso é algo que podemos trabalhar para o futuro".
Vídeo Erlan Furlanetto
UNIDADE 3 - Inserção
A presidente da Associação Venezuelana em Campo Grande (AVCG), Mirtha Carpo afirma que chegou ao Brasil em 2008, em uma migração planejada, e após observar o fluxo migratório de venezuelanos em Campo Grande nos últimos anos decidiu fundar a AVCG. "Essa possibilidade de ajudar, de inserir estas pessoas, de integrar elas na sociedade, de dar vagas de trabalho. Então esse é o nosso trabalho, integrar essas famílias, ensinar o português, que é uma das barreiras mais importantes". Mirtha Capro destaca que a AVCG é integrante do Comitê Estadual para Refugiados, Migrantes e Apátridas no Estado de Mato Grosso do Sul (CERMA/MS) enquanto organização da sociedade civil.
Vídeo Mirtha Carpo
A cozinheira Anghelys Vallenilla González é venezuelana e mora no Brasil há cinco anos. Ela afirma que deixou a Venezuela devido à situação econômica do país, morou por seis meses em Manaus e atualmente possui um restaurante de culinária venezuelana no bairro Taquarussu, em Campo Grande. "Lá você trabalha e não dá para sustentar a família. Hoje eu tenho minha moto, meu esposo tem sua moto, nós temos um carro, mas estamos sempre buscando melhorar".
Áudio Anghelys
O Instituto Brasileiro de Inovações pró-Sociedade Saudável Centro-Oeste (Ibiss/CO) é uma organização não governamental e oferece atendimento jurídico e psicossocial a grupos sociais vulneráveis, entre eles os imigrantes, e realiza mutirões de orientação sobre registros e documentos para imigrantes em Campo Grande. O soldador José Gregório Medina é venezuelano, mora em Campo Grande há cinco anos e participa das ações do Ibiss/CO em busca de doações. José afirma que mentia sua nacionalidade ao procurar emprego por medo do preconceito nos primeiros anos. "Cheguei batendo nas portas, pedindo ajuda, muitas pessoas me ajudaram e outras não, porque ainda exsite muito preconceito aqui. Minha expectativa agora é melhorar de saúde, continuar trabalhando, procurar outras metas e outros projetos em minha vida".
A autônoma Elizabeth Romero Gonzalez chegou ao Brasil em 2019 e foi direcionada ao Mato Grosso do Sul pela Operação Acolhida. Ela afirma que deixou a Venezuela por causa da situação econômica do país. Elizabeth Gonzalez afirma que mora em Campo Grande com a família, composta por ela, o marido e os dois filhos e que trabalham sem vínculo empregatício, devido à dificuldade de conseguir um emprego com carteira assinada. "A gente vive dia-a-dia, aqui não somos ricos mas conseguimos nos sustentar".
Áudio Elizabeth
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