REPORTAGEM ESPECIAL

Identidade Cultural de Campo Grande

As comunidades quilombola, indígena e nipônica formam a pedra fundamental da formação cultural e da identidade de Campo Grande traduzida na culinária, no comércio, nas festividades e no cidadão que se identifica como nativo da cidade.

Por Mariana Piell

Introdução

Campo Grande é uma cidade formada pela multiculturalidade. As comunidades nipônica, indígena e quilombola se uniram ao longo de mais de um século de história para formar a identidade única que existe no município. Os três grupos tem em comum a participação na história de Campo Grande e a contribuição cultural com a cidade. A “pedra fundamental” de Campo Grande, ponto de encontro das culturas quilombola, indígena e nipônica foi a construção da ferrovia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, entre 1905 e 1914. 

Nipônica

O japonês Kosho Yamaki adquire uma chácara em Campo Grande para cultivar hortaliças e se torna o primeiro nipônico a residir permanentemente no município após encerrar seu trabalho na construção da ferrovia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em maio de 1914. Kamado Oshiro, Toku Akamine, Kame Akamine, Guentai Hokama e Jiro Oshiro residiram na cidade em setembro do mesmo ano e formaram a comunidade nipônica, que deu origem à Escola de Língua Japonesa, à Escola Visconde de Cairu e à Kyuyo-Kyokai, instituição que posteriormente se tornou a Associação Okinawa Kenjinkai e a Associação Esportiva e Cultural Nipo-Brasileira de Campo Grande (AECNB).  

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Brasil apoiou os países "Aliados" (Estados Unidos, França e Inglaterra), que se opuseram aos países do Eixo (Japão, Alemanha e Itália). Os imigrantes japoneses perderam toda forma de contato com seu país de origem e receberam ataques antinipônicos no Brasil. Após o fim da guerra, o Japão retomou suas relações diplomáticas com o Brasil e a comunicação com os imigrantes e seus descendentes.

O vice-presidente cultural, esportivo e social da AECNB, Cláudio Sussumu, explica que a prioridade dos japoneses, no momento em que se instalaram no município, foi a educação. “A Escola de Visconde de Cairu, esse ano está fazendo 106 anos, em agosto, e o nosso clube 104. A primeira coisa que os japoneses pensaram foi a educação, depois o lazer. Então, primeiro fizeram a escola para os filhos e dois anos depois construíram o clube, para o lazer da comunidade japonesa”.

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A descendente nikkei, Aparecida Quicue Koyanagui Inoue, de 76 anos, relatou que os japoneses planejavam retornar ao Japão. “Meus pais, quando chegaram do Japão pra cá, eles não pretendiam viver aqui no Brasil. Tanto é que eles só sabiam falar e escrever em japonês, mas eles não quiseram aprender português. Porque eles achavam que eles iam voltar para o Japão. Eles vieram para cá para ganhar um dinheiro, porque o Japão na época estava em uma situação de extrema pobreza. Então o governo japonês fazia questão de que todos saíssem do Japão para procurar um lugar melhor, porque ali eles já não tinham alimentação, não tinham como viver”.

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O professor de Sanshin, embaixador da Boa Vontade de Okinawa no Brasil e diretor cultural adjunto da Associação Okinawa, Crystian Proença acredita que além de elementos culturais como danças, esportes, culinária e festividades, os brasileiros não descendentes podem aprender com os métodos educacionais japoneses. “O não descendente recebe muita coisa da cultura japonesa, o que é muito bom, mas ainda acho que tem que melhorar muito. Na questão talvez de que nós aprendamos gestão empresarial, sabe essas coisas, nos modelos que o Japão implementa. Trazer mais do que há de bom, né? Não necessariamente só cultura”.

O vice-presidente cultural, esportivo e social da AECNB, Cláudio Sussumu afirma que o fator mais relevante para manter a cultura japonesa viva é a aceitação que há na comunidade para acolher diferentes pessoas. "Nos departamentos do clube todos são voluntários, trabalhamos para o bem comum, a coletividade... A gente falava que é para a comunidade japonesa, mas não é. É para quem é amante da comunidade japonesa. ‘Ah, eu gosto da culinária, eu gosto de origami, eu gosto da dança, do karaokê, de alguma coisa da comunidade japonesa’. Hoje, em nossos eventos, 80% não são descendentes japoneses, mas que gostam da nossa cultura”. 

O professor de Sanshin, embaixador da Boa Vontade de Okinawa no Brasil e diretor cultural adjunto da Associação Okinawa, Crystian Proença, que conheceu a cultura okinawana aos 14 anos quando visitou a Associação Okinawa em um evento aberto ao público, explica como a boa relação da cultura com a comunidade não descendente faz com que a cultura se perpetue. “A integração hoje entre a cultura japonesa e okinawana, eu posso dizer que é muito boa. Por exemplo, a gente tem aula de dança de salão aqui que é com música sertaneja, com descendentes e não descendentes. E a gente tem aula de música tradicional okinawana, que tem descendentes e não descendentes. Hoje na Associação Okinawa, a gente não é fechado só para descendentes. A gente também tem festas com pratos tradicionais e churrasco. Então, eu acho que essa integração tanto culinária é muito legal. Eu acho que o povo brasileiro e o povo okinawano, que é descendente e brasileiro transita nesses dois universos”. 

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O antropólogo Álvaro Banducci Júnior explica que apesar de o sobá ser um prato de origem japonesa, é considerado um prato típico e exclusivo de Campo Grande. “Nós temos a comunidade japonesa que comercializa na feira, depois a feira cresce e vira referência na cidade. Depois, os okinawanos transformam um prato típico da comida okinawana, que é o sobá, num prato de referência na cidade, na culinária da cidade, que se transforma mais tarde no patrimônio da cidade. [...] o sobá foi muito modificado e sofreu modificações para se adequar à nossa culinária, seja pelo nosso gosto como consumidores, seja pelos produtos que têm, que conseguem colocar naquele prato”.

De acordo com o vice-presidente cultural, esportivo e social da AECNB, Cláudio Sussumu as expressões religiosas dos japoneses são diversas em Campo Grande e coexistem entre si. “Hoje nós temos seis igrejas vinculadas à comunidade japonesa. O Círculo Católico Estrela da Manhã, onde há padres japoneses e a maioria são descendentes de japoneses. Nós temos uma igreja também da comunidade japonesa, que é a Igreja Holiness. Temos igrejas budistas também. Nós temos a Messiânica e outras entidades religiosas”.

Quilombola

As comunidades quilombolas do Mato Grosso do Sul foram formadas após a assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil em 1888. Ex-escravos formaram ondas migratórias, vindas das províncias de Goiás, Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro, para lutarem na Guerra do Paraguai ou em busca de terra e trabalho.

A Comunidade Quilombola Tia Eva  foi fundada pela ex-escrava Eva Maria de Jesus no final do século 19. Eva obteve a alforria por volta dos 50 anos de idade e migrou de Goiás para o Mato Grosso posteriormente, Mato Grosso do Sul para trabalhar como curandeira, cozinheira, lavadeira, parteira e benzedeira. O terreno onde hoje fica localizada a comunidade quilombola foi adquirido com recursos próprios da Tia Eva.

Álvaro Banducci, antropólogo, explica que a população negra da cidade, liderada por Tia Eva, veio para trabalhar na construção da ferrovia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e, posteriormente, se estabeleceu por meio da agricultura. “Esse grupo chega pela ferrovia, se estabelece, compram terras, vão trazendo parentes e também vão trabalhar com agricultura. A Tia Eva, que era uma liderança, ela por si mesma, pelos dons que ela tinha, como parteira, curandeira… consegue ganhar terras para as famílias em função desse trabalho, mas que perdura em função das trocas comerciais. Eles produzem alimentos, produziam rapadura que eles vinham vender na cidade”.

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Jorge Diacópulos, historiador e idealizador do portal "Comunidade Quilombola Tia Eva" afirma que a comunidade Tia Eva possui dois patrimônios culturais de Campo Grande. “Ela primeiramente edificou a mais antiga igreja da cidade, que é a Igreja São Benedito, que era um Santo devoto de Tia Eva, ela fez uma promessa a esse Santo, que caso ele guiasse ela para essas novas terras ela iria erguer uma igreja. Esse é um patrimônio material. Anos depois da igreja ter sido edificada, Tia Eva renovou os votos com o padroeiro e instituiu uma festa, que se tornou também a festa mais antiga também da cidade, que é a festa do São Benedito, um patrimônio imaterial”.

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De acordo com Jorge Diacópulos, o principal desafio da comunidade é em relação ao direito às terras. "Essa comunidade foi certificada no ano de 2008 como comunidade remanescente de Quilombo que é o primeiro passo para uma série de direitos, entre eles, o direito à terra e à titulação para a comunidade. Como a comunidade está envolvida ali como se fosse um bairro, algumas propriedades que eram de membros da comunidade foram vendidas para terceiros. Aí você tem toda uma especulação imobiliária de uma região que se valorizou bastante e a comunidade também sofre com os valores do IPTU”.

Segundo o Sérgio Antônio da Silva, primeiro presidente da Comunidade Quilombola Tia Eva e bisneto da fundadora, houve uma iniciativa para fazer a doação do terreno da igreja da Tia Eva para a Arquidiocese, mas a população não aprovou. Em sua última gestão recebeu processos de cobrança dos impostos do terreno que ainda está no nome da fundadora da comunidade. "Eu reuni a família para concordar se passava pra diocese, mas só um concordou. Agora eu não posso dar uma coisa que não é meu, que só eu estou a frente. Então ficou no nome da Tia Eva e ainda na minha gestão veio três ou quatro processos de cobrança, mas vai cobrar quem?".

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A quilombola Gleice Martins, da comunidade Furnas do Dionísio, explica que o quilombo em que mora é mais avançado em relação às políticas públicas por não estar inserido no contexto urbano."A comunidade já está bem evoluída no modo de pensar. Como a Tia Eva já está ficando para trás, sendo uma comunidade urbana, as políticas públicas estão mais fracas dentro da comunidade. Porque as políticas de Furnas de Dionísio, elas sempre vêm de dentro pra fora. A comunidade se reúne e decide o que quer ali. Não deixam os políticos falarem por nós, a gente fala pela comunidade. Não tem movimento político que não é da comunidade". 

A quilombola Adriane Soares, da comunidade Furnas de Boa Sorte, relata que para que haja uma representação adequada dos quilombos na política não basta ser negro, precisa estar associado a questões raciais. “Não adianta ser um negro que não tem ligação no quilombo, porque nós temos as nossas especificidades do movimento negro. [...] Nós precisamos do poder da caneta. Eles nos atacam com a caneta, e logo chegam os fuzis para tirar e nos agredir em nossos direitos”. 

Adriane Soares defende que as comunidades quilombolas devem manter a religião dissociada da cultura. “Eu acho que as comunidades quilombolas têm o direito de ter a religião que elas queiram. As religiões só não podem interferir no convívio da comunidade, na cultura da comunidade. Tudo bem o quilombola ter religião, mas a comunidade não tem porque ela tem a cultura, ela tem as danças, ela tem os seus rituais. E isso não pode ser interferido de jeito nenhum porque isso vem dos nossos antepassados, com a nossa vivência dos navios negreiros”.

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Indígena

A Aldeia Urbana Marçal de Souza é a primeira aldeia urbana do Brasil. A comunidade foi formada por indígenas da etnia Terena que buscaram moradia na cidade após se apossarem de suas terras no interior do estado. A ocupação do terreno pertencente à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), localizado no Bairro Tiradentes, ocorreu durante a década de 1990 e foi regularizada pela prefeitura de Campo Grande em 1998.

O antropólogo Álvaro Banducci também atribui a redução das terras indígenas como fator que proporcionou a migração para áreas urbanas. “A área desses povos, a terra indígena, acaba se mostrando restrita pela população africana. Eles são aldeados em pequenas áreas que são insuficientes para a sobrevivência do grupo e acabam vindo morar aqui em Campo Grande. Depois se estabelecem em alguns bairros e a gente passa a ter a formação de aldeias urbanas. São locais em que essas pessoas se organizam e ocupam. E aí são pessoas que interagem e fazem parte dessa composição social e étnica da cidade”.

audio alvaro

De acordo com Álvaro, elementos da cultura indígena estão presentes na cultura campo-grandense. “É uma apropriação nossa desse alimento. A gente come carne de caça. A gente aprendeu a fazer doces com as frutas daqui, que eram cultivadas por indígenas. Você pode não perceber isso como uma tradição indígena na nossa culinária, mas ela está lá. Você tem um tereré, que é uma bebida Guarani do Paraguai que se tornou tradicional aqui. Virou tradicional porque criaram essa tradição. Essa bebida existia, mas era consumida por segmentos mais marginalizados da sociedade, não era uma bebida nobre. É parte da nossa identidade e se transforma nessa grande referência, que é uma construção, mas o alimento em si, é uma herança da cultura indígena”.

O antropólogo pontua a conservação da língua terena e o direito à terra como a preservação da identidade cultural da comunidade. “Perder a língua pode ser um problema para eles porque a língua é uma referência fundamental de uma cultura. [...] Mas o maior problema para os indígenas manterem a tradição é a terra. [...] Se os grupos indígenas têm a terra, eles sobrevivem como grupo vivendo da terra, se relacionando e tendo as tradições. [...] Eles podem não dominar a língua, se eles têm relações de parentesco com as aldeias, se têm esse vínculo com as aldeias, então eles estão relacionados com os grupos dele”. 

A indígena Victória Cristina Soares Antônio explica que a preservação da cultura é feita por meio do idioma e da arte terena, que são passadas às crianças por meio da educação. “A gente tem a Escola Municipal Sulivan Silvestre de Oliveira, que é uma escola que no currículo dela tem a língua e a arte da cultura terena. Então a gente tenta passar para as nossas crianças. E aqui nas casas a gente tem bastante anciões que tentam passar para as nossas crianças a importância da nossa cultura, porque é a nossa geração futura. Temos um coletivo também, que tenta levar para as nossas crianças a dança, a importância de estar mostrando para as pessoas que a gente tem a nossa cultura, as nossas origens”.

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O líder da juventude indígena da Aldeia Urbana Marçal de Souza, Bryant Soares relata que a valorização da ancestralidade indígena é fundamental na comunidade. “O idoso pra gente é supervalorizado, porque ele é a nossa história de vida, ele é a nossa ancestralidade. Tudo que eu falo e tudo que eu faço, junto com o coletivo hoje, a gente senta e consulta o idoso. É como se os não indígenas fossem consultar em um livro ou no Google”.

O cacique Josias Ramires esclarece que apesar da maioria da comunidade ser cristã, alguns ritos e tradições antigas são mantidos. “A gente ainda tem a crença da reza, tem um tipo de pajelança. Tem algumas pessoas mais antigas que conhecem sobre a medicina tradicional. Os anciões passam esse conhecimento para nós”.

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De acordo com o cacique, a influência da cultura não-indígena na aldeia é presente por meio da música. “Nosso povo é um povo bastante festeiro. O povo terreno é um povo que gosta de baile, de forró, gosta de sertanejo universitário, sertanejo raiz. Ele meio que se encaixou. Mas a gente não perde a essência do território. Então hoje nós temos DJs indígenas, nós temos grupos de baile indígena que cantam na nossa língua. E acho que são igualdades de música, mas tocadas pelo nosso povo. Tudo agrega e acaba contribuindo pro crescimento da população indígena”.

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