Os agrotóxicos são substâncias químicas utilizadas para prevenir doenças em plantações agrícolas e não agrícolas que ameaçam a saúde humana, animal e vegetal. A pesquisa realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), aponta que o Centro-Oeste é a terceira região que mais utiliza agrotóxicos no país, e Mato Grosso do Sul como o sétimo estado que tem maior destaque quanto a utilização inadequada dos agroquímicos

 

Unidade informativa 1: Causa e efeito 

Os agrotóxicos são produtos químicos sintéticos utilizados para o manejo de doenças em plantações causadas por insetos, larvas, fungos e carrapatos. A pesquisa realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), aponta que o Centro-Oeste é a terceira região que mais utiliza agrotóxicos no país, com 23%. Mato Grosso do Sul é o sétimo estado que tem maior destaque quanto a utilização dos agroquímicos. 

A substância é classificada como prejudicial nos níveis pouco tóxico, medianamente tóxico, altamente tóxico e extremamente tóxicos. A Secretaria Executiva de Agricultura Familiar, de Povos Originários e Comunidades Tradicionais (SEMADESC), indica que os agrotóxicos utilizados no Estado são Glifosato, 2-4-D, Acefato, Metomil, Atrazina, Dicloreto de Paraquate, Imidacloprido, Diuron e Mancozebe. Os organofosforados e carbamatos são os  principais causadores de intoxicação na população.

Os produtos que contém agrotóxicos devem ser cadastrados na Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) pelas Indústrias Produtoras, Importadoras ou Manipuladoras, para armazenamento e comercialização no Estado. A Engenheira Agrônoma e Fiscal Estadual Agropecuária, Glaucy Ortiz explica que uma das funções da Iagro é fiscalizar as propriedades rurais quanto à utilização correta dos agrotóxicos conforme prescrito no rótulo e bula das embalagens. "Nós verificamos se o produto foi destinado corretamente, se o produtor observou as questões ambientais de armazenamento e aplicação. Além disso, controlamos todos os procedimentos de entrada e saída de agrotóxicos dentro do estado, no qual é exigido um registro de cadastro secundário emitido pelo Ministério da Agricultura ou Ibama". A Engenheira ressalta que a Iagro também realiza fiscalizações no trânsito com o intuito de proibir a entrada de produtos importados transportados sem regulamentação. 

O Conselho Estadual de Agrotóxicos (CEA) regulariza as políticas públicas associadas ao uso da substância, desde a produção, comercialização, prescrição e eficiência. O presidente do Conselho, Fernando Nascimento relata que "a grande meta do CEA é coordenar ações que visem o uso racional dos agrotóxicos, para que ele não deixe de ser solução de problemas da produção para problemas de saúde humana ou ambiental. Fernando Nascimento relata que na maioria das vezes os agrotóxicos são utilizados de maneira indevida pelo agricultor, que evita utilizar o tipo ideal de agrotóxico para cada plantação e não respeita o período de carência que é o intervalo de tempo no qual os produtos agrícolas devem ser observados após a aplicação do agrotóxico para depois serem colhidos. Nascimento ressalta que o agrotóxico é utilizado na agricultura familiar e comercial, o que pode diminuir o uso é a produção de bioinsumos, manejo integrado de pragas e medidas de defesa fitossanitária como os vazios sanitários da soja e algodão

Vídeo  Fernando 

As exportações de produtos como a soja, milho e algodão contribuem para o uso excessivo dos agrotóxicos no estado, os países dependentes das exportações destas commodities, utilizam o defensivo agrícola para aumentar a produção e assegurar a qualidade dos produtos destinados ao mercado internacional. A Carta de Conjuntura, produzida pela Semadesc, mostra que o estado exportou um bilhão e trezentos mil nos meses de janeiro e fevereiro de 2024. O relatório apresenta um aumento de 25% nas vendas ao exterior nos dois primeiros meses de 2024, a celulose é o produto com maior volume e valor apurado nas exportações.  O milho teve destaque com novecentos e cinquenta e nove mil toneladas exportadas e duzentos e setenta e nove milhões de faturamento em comparação ao primeiro bimestre de 2023. 

engenheira Agrônoma Francimar Perez relata que "o aumento do uso de agrotóxicos nem sempre resulta em aumento de produtividade porque cada cultura tem um limite, um potencial genético que se relaciona com o meio ambiente e permite uma determinada produtividade". A engenheira ressalta que mais importante do que obter aumento de produtividade, é analisar estratégias de equilíbrio entre o custo benefício dos produtos e rendimento econômico na lavoura.  "O principal desafio dos produtores para implementar o manejo de pragas e doenças está relacionado à formação de equipes de campo para fazer um monitoramento e levantamento, pois requer pessoas treinadas e comprometidas".

(Infográfico sobre a ligação da celulose e agrotóxicos)

O economista Eugênio Pavão destaca que a produção de soja registrou quedas na produtividade por causa da estiagem em 2022, o estado permanece no 5º lugar no ranking nacional. Eugênio Pavão relata que a compra de sementes ilegais com baixo custo influencia a pessoa a utilizar agrotóxicos devido algumas sementes serem de baixa qualidade. "A pessoa economiza na semente, mas acaba comprando agrotóxico ilegal também, pois as sementes de boa qualidade são muito caras produzidas para a elite de fazendeiros. Os pequenos agricultores geralmente compram sementes que eles mesmo produzem, mas não é tão desenvolvida como a biotecnologia usada nas sementes de qualidade". A pesquisa divulgada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que a disseminação de patógenos também podem ser encontrados em sementes provenientes das técnicas agrícolas sustentáveis, inclusive os agrotóxicos.

 

Áudio do economista 

 

Unidade Informativa 2: O agrotóxico é (tóxico)

 

(Infográfico alimentos que mais contém agrotóxicos no país)

A pesquisa divulgada pelo Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apresenta que os agrotóxicos ocasionam cerca de 70 mil intoxicações por ano no Brasil devido ao uso inadequado, constante exposição e ingestão de alimentos contaminados. O dermatologista do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap), Alexandre Moretti relata que a intoxicação por agrotóxicos acontece a longo prazo, pelas pequenas quantidades da substância que se acumula no corpo. "Os pacientes são atendidos com dores, formigamento e doenças cardiovasculares e no sistema nervoso central, esses são os principais efeitos que os agrotóxicos podem causar no corpo humano". Moretti comenta que a intoxicação por contato direto com a substância ocorre em pessoas que trabalham sem o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI's), e a contaminação por ingestão de alimentos contaminados acontece pela falta de higienização correta. 

(Vídeo Moretti)

A coordenadora de Prevenção e Vigilância (Conprev) do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Márcia Sarpa relata que o câncer é uma das doenças que pode ocorrer no ser humano devido a exposição por via respiratória, contato dérmico, ingestão oral, preparo e aplicação do aditivo químico. As empresas de desinsetização, transporte, comércio de agrotóxicos e indústrias de formulação também são afetadas, além dos trabalhadores da agricultura e pecuária. Márcia Sarpa explica que "não é possível identificar um tipo específico de agrotóxico como sendo o principal contribuinte para o desenvolvimento de câncer, pois é uma doença multifatorial. Entretanto, uma das formas de identificar ingredientes ativos de agrotóxicos que apresentam maior probabilidade para este desenvolvimento é por meio da classificação de carciogenecidade".

Infográfico com os principais tipos de câncer causado por agrotóxicos

A professora de ciências biolólogicasda Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Alexandra Penedo de Pinho é responsável pelo projeto "Impactos dos agrotóxicos em comunidades de povos tradicionais em Mato Grosso do Sul direitos à saúde ambiental e humana" que estuda o uso de agrotóxicos em território sul-mato grossense e os impactos na vida animal e da população indígena no interior do Estado. O projeto detectou o uso de substâncias agrícolas em animais da região como tamanduás e araras, e nas águas dos rios, nascentes e chuvas. "Os agrotóxicos, uma vez presentes no solo, sempre vão permanecer no solo, ele pode acabar com a microbiota que é a responsável pela ciclagem de nutrientes, interferindo também nos microrganismos e na vida animal".

"A educação ambiental formal é muito importante porque as crianças já vêm com um subsídio de sensibilização. As pessoas que estão mais velhas, que são a maioria dos produtores rurais que a gente tem hoje em dia, não têm essa sensibilização" (BOX DE FALA SOLTA) 

(Vídeo Alexandra)

Iniciativa Nacional para Conservação da Anta Brasileira (Incab) realizou uma  pesquisa em 2015 e 2018, com o uso de estudos quantitativos de agrotóxicos e metais em antas de Mato Grosso do Sul. O resultado das amostras de tecidos destes animais mostrou que estavam contaminados por diversos agrotóxicos como o carbamatos e organofosforados,  além de metais tóxicos como o cádmio e chumbo.   Segundo a veterinária do Incab, Fernanda Jacoby a contaminação ambiental por esses produtos químicos afetam a biodiversidade da região como a fauna e o ecossistema do Cerrado devido às intoxicações causarem problemas reprodutivos, diminuição populacional e desequilíbrios ecológicos. "As medidas de precauções para proteger a vida selvagem incluem a redução do uso de agrotóxicos, monitoramento ambiental regular, zoneamento agrícola, aplicação e fiscalização de leis ambientais e investimentos em pesquisas contínuas. Essas ações visam mitigar esses impactos na biodiversidade, promovendo práticas agrícolas mais sustentáveis". 

O Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev) representa a indústria de agrotóxicos do Sistema Integrado Campo Limpo, responsável pela destinação correta de embalagens vazias de agrotóxicos e sobras pós consumo de defensivos agrícolas no Brasil. O Coordenador Regional Institucional do Inpev, Hamilton Rondon relata que 97% das embalagens recebidas são recicladas e 3% são incineradas. "Orientamos os agricultores a realizarem a tríplice lavagem das embalagens vazias de defensivos por meio da devolução no local indicado pela nota fiscal. Essa devolução dos materiais deve ser feita em uma das 416 unidades de recebimento que integram o Sistema Campo Limpo". Hamilton Rondon enfatiza que desde 2002, 750 mil toneladas de embalagens vazias foram destinadas corretamente e o descarte inadequado das embalagens é crime passível de multa devido aos danos que causa no meio ambiente e na saúde humana.

 

Unidade informativa 3: Da terra à mesa

A agricultura familiar é praticada por pequenas propriedades de terra, onde o cultivo é feito por membros da mesma família. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (SEMADESC) apresenta que Mato Grosso do Sul tem 70 mil famílias que trabalham na agricultura familiar, considerado o setor responsável pela comercialização de 1,3 mil toneladas de 138 tipos de produtos. 

Censo Agropecuário divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2017, mostra que cerca de 15 mil produtores rurais familiares utilizam insumos agrícolas, como os agrotóxicos, no cultivo. O agricultor familiar Roberto Lopes afirma que uma das dificuldades dos agricultores familiares é a escassez de mão de obra qualificada. "Poucos querem trabalhar nessa área da agricultura. Os agricultores mais velhos saem e se aposentam, e os jovens sem interesse, deixam de apreender e dar continuidade. Caso o meu funcionário saia, eu terei que parar".  

(Vídeo Roberto)

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) reconhece como orgânico produtos provenientes do processo extrativista sustentável que não danifiquem o ecossistema local. O cultivo orgânico é o único que consiste na produção de alimentos que têm alternativas naturais, como o controle biológico de pragas, adubação orgânica e rotação de culturas, que protegem o meio ambiente e a saúde dos consumidores sem a necessidade de usar agrotóxicos. O agricultor orgânico Vanderlei Azambuja comenta que a produção de alimentos orgânicos é afetada pelas condições climáticas que impedem de ter hortaliças em todas as épocas do ano. "A produção de alimentos orgânicos depende muito da natureza e recentemente, o clima anda desfavorável para o cultivo de hortaliças. Outro fator que desmotiva produtores que migraram para a modalidade orgânica, é o baixo consumo desse tipo de alimentos em Campo Grande". O agricultor relata que devido à falta de interesse em produtos de origem orgânica da população local, que prefere comprar em mercados, o número de agricultores presentes na feira diminuiu de 38 para três.

(Vídeo Vanderlei)

Limite Máximo de Resíduos (LMR), regulamentado pela Lei n° 14.785, de dezembro de 2023, refere-se à quantidade permitida de agrotóxicos nos alimentos desde a sua produção até o consumo. O diretor-presidente da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), Washington Willeman comenta que a Agraer realiza pesquisas e palestras para promover o desenvolvimento de uma agricultura com baixa dependência de agrotóxicos para os agricultores do estado. "Atualmente estamos com 19 projetos de pesquisa em andamento. Esses projetos levam em conta aquilo que os agricultores familiares necessitam quando nos procuram, junto com as diversas atividades agrícolas que podem existir junto à floresta nativa, onde nós melhoramos a qualidade do clima, do solo e das águas".

(Áudio Agraer)

A Central de Abastecimento de Mato Grosso do Sul (Ceasa/MS) tem como objetivo facilitar a comercialização de produtos de origem hortifrutigranjeira ao proporcionar espaços de venda para atacadistas, varejistas e agricultores locais. O diretor-presidente da Ceasa/MS, Fernando Begena relata que devido a fiscalização de órgãos como a Agraer, a central deixa de monitorar se os produtos contém agrotóxicos. "A Ceasa não tem autoridade para realizar a fiscalização dos produtos. É complicado para nós abrirmos caminhão por caminhão e verificar caixa por caixa, para garantir a qualidade dos produtos comercializados aqui no Ceasa.