Por Helder Carvalho
Introdução
Dados da Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS), em Campo Grande, mais de 2.200 idosos são atendidos regularmente nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Convivência. Esse número reflete não apenas a crescente população idosa na capital do Mato Grosso do Sul, também a necessidade de se estabelecer políticas e serviços que promovam o bem-estar e a integração social dessa parcela da sociedade. (Representar visualmente)
“A melhor forma de combater o preconceito etário ou o ageísmo é por meio do conhecimento sobre o processo de envelhecimento, conhecimento da velhice e da conscientização da população de que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito e dignidade” - Docente do curso de Fisioterapia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Suzi Miziara
Unidade I: institucionalização do idoso
O trabalho de cuidado com a pessoa idosa é caracterizado como o conjunto de atividades e serviços prestados para atender às necessidades físicas, emocionais, sociais e de saúde dessa população, como, por exemplo, o auxílio com a alimentação, atividade física, vacinação e acompanhamento em visitas regulares ao médico. Profissionais de saúde, como enfermeiros, cuidadores, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais e até mesmo o cuidador parental são os responsáveis por esse trabalho. A profissão de cuidador consta na classificação brasileira de ocupações do Ministério do Trabalho e o papel desempenhado inclui o elo entre a pessoa cuidada, a família e a equipe de saúde.
Dados divulgados pelo relatório de Programas e Ações do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) revelam que existem mais de 90 unidades da rede socioassistencial do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), como centros de convivência, unidades de acolhimento e centro dia direcionados aos idosos.
Os centro de convivência, casa de repouso, lar de idosos e clínica geriátrica são alguns dos nomes designados às instituições que oferecem serviços de acolhimento a pessoa idosa e, embora pareçam sinônimos, possuem diferenças quanto a estrutura, atendimentos e equipes de profissionais.
A Técnica de Enfermagem e cuidadora, Fernanda Machado da Silva trabalha há seis anos na Sirpha Lar do Idoso e relata o esforço em atender às necessidades dos mais de 90 idosos que cuida na instituição e possuem diferentes patologias. Fernanda Silva explica que o trabalho funciona como um ciclo e diariamente precisa oferecer serviços específicos para cada idoso desde o momento em que dormem até o acordar.
“Tem uns que a gente nota a diferença ao chegar na instituição. Porque ele estava acostumado com o habitat dele, a casinha dele, as coisinhas dele. De repente ele vem para um lugar onde ele está distante de tudo e não conhecem ninguém. Muitos se agitam e costumam recusar o contato, outros simplesmente aceitam e ficam mais tranquilos, mais maleáveis”.
----------------------- ÁUDIO FERNANDA CUIDADORA 8:42 até 9:52 -----------------------
Segundo a assistente social Katiusce Ramos dos Santos Reinoso o trabalho social é uma forma de caridade no entendimento comum e é preciso desmistificar o serviço garantidor de direitos a pessoa idosa. A assistente social comenta que no lar do idoso o trabalho consiste em oferecer suporte, cuidado e assistência aos idosos e seus familiares. Katiusce Reinoso relata que o trabalho precisa ser realizado com os parentes por entenderem as instituições como uma forma de abandono e sentem “remorso e culpa por não conseguir cuidar”.
“A gente acaba tendo problema com a família que tem o psicológico afetado mais do que com o próprio idoso, porque ele já vem perdendo a memória, ele já não tem consciência do que está acontecendo. Então, ele ser acolhido e amado para ele é ótimo. O problema vem com a família, ela que entende o processo e o que está acontecendo”.
Arthur Oscar Garcia, de 77 anos, mora na unidade geriátrica Emílio Takamori há mais de cinco anos. O idoso foi diagnosticado com diabetes e em decorrência da doença sofreu a amputação da perna. Garcia relata que pela falta de um atendimento imediato nas proximidades da fazenda onde morava, precisou se deslocar até a capital para conseguir recursos de cuidado. “De família só tenho meu irmão, que me visita 2 vezes por mês. Também tenho uma filha que mora em Porto Seguro e a gente se fala pelo WhatsApp mesmo”.
“Não foi fácil, na minha cabeça custou aceitar isso, 100% ainda não está, e nunca vai chegar. É o que eu sinto e observei de todos aqui. No começo é difícil, você tem sua casa, sua cama, seu banheiro de muitos anos, chega aqui muda”.
----------------------- ÁUDIO ARTHUR OSCAR 2:30 até 3:16 -----------------------
As Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) configuram um espaço no qual a terceira idade encontra acolhimento assistencial, e poucas são as instituições que possuem condições adequadas para receber a população e oferecerem serviços que proporcionem o bem-estar e cuidado na capital. O idoso em alguns desses lugares sofrem maus tratos e vivem em situação de abandono.
Segundo o secretário da Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS), José Mário Antunes da Silva o município não tem acolhimento institucional para idosos e que o apoio é realizado por meio de parcerias com o asilo São João Bosco, Viver Bem e com a Sirpha, no qual são feitos os encaminhamentos das pessoas que necessitam ser acolhidas.
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A assistente Social Katiusce Reinoso reforça que “a instituição ao receber a pessoa idosa inicia de imediato o processo para recebimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC-LOAS). A instituição pode fazer uso de 70% do benefício do idoso porque a secretária custeia apenas 30% das despesas”.
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Infográfico Sobre distribuição do BPC-LOAS
Unidade 2: Inversão de papéis
O processo natural da vida é que os pais cuidem de seus filhos, ensinem os bebês a andar, falar e aos poucos criarem autonomia de seus atos. Quando os papéis se invertem, e os mais novos são encarregados de cuidar dos idosos, e ajudarem nas atividades mais básicas do dia a dia, surge a sobrecarga e o sentimento de culpa.
Dados disponíveis de uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2019 mais de cinco milhões de familiares eram responsáveis por seus parentes de 60 anos ou mais. É listado na pesquisa, que as principais atividades exercidas pelos familiares com os idosos são monitorar ou realizar companhia nos domicílios, auxiliar nos cuidados pessoais e transportar para médicos, atividades sociais ou religiosas.
Famílias se organizam aos poucos para o envelhecimento ou doença de um parente, adaptam a casa, sua rotina e estudam como melhor ajudá-los. Outras, precisam se adaptar rapidamente à nova realidade. A dona de casa Claúdia Aguiar cuidou de sua mãe com Alzheimer até o seu falecimento, ela conta que não tinha muitas informações acerta da doença quando sua mãe recebeu o diagnóstico. “Eu me senti devastada, foi um baque muito grande porque eu não conhecia muito sobre a doença, então foi muito triste e desesperador pra mim na época. Ela já havia tido alguns sintomas de esquecimento, mas a gente nunca imaginava que era essa doença, foi muito duro para nós”.
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A fisioterapeuta Laryssa Farias diz que é primordial que os familiares que cuidam de idosos sejam pacientes e saibam como supervisionar adequadamente seus parentes. Ela também afirma que ter a ajuda de uma equipe multidisciplinar é necessária para não sobrecarregar o familiar responsável pelo cuidado do idoso. “Para os familiares que cuidam em casa, acaba sendo mais pesado, estressante pois os familiares não estão preparados para isso, nem emocionalmente. Acaba sobrecarregando esse familiar, que acabam adoecendo também”.
A psicóloga Quézia Alexandre enfatiza que o cuidado de um idoso é cansativo, ele perde a autonomia com o passar do tempo e depende mais de um cuidador. A pessoa responsável por ajudar o idoso deve observar as questões fisiológicas como dores musculares, dor de cabeça e problemas intestinais. “Sinais de alerta de esgotamento são principalmente físicos, que aí as pessoas vão começar a perceber, que às vezes os sintomas emocionais, como irritabilidade, impaciência, estresse, a pessoa sabe que ela está, mas relacionada com a dupla jornada. Ela cuida da casa, do filho, tem um trabalho físico e ainda tem que cuidar do idoso, aí ela junta tudo isso”.
“A medida que eu vou me sobrecarregando, a tendência é que isso se torne visual, inclusive para quem está sendo cuidado, então o idoso que está mais lúcido, ele tá percebendo que você está sobrecarregado, ela está percebendo que está sendo um fardo para você, ela está percebendo sua irritabilidade, sua impaciência, seu trato com essa pessoa vai ser diferente também, não vai ter o mesmo cuidado”. - Quézia Alexandre, psicóloga
O proprietário do Hotel Geriátrico Emílio Takamori, Wagner Takamori explica que a responsabilidade de cuidar do idoso normalmente pertence a um familiar. “Essa pessoa acaba se privando da própria vida, acaba tendo que parar de trabalhar, largar toda uma vida, para viver aos cuidados do idoso”.
----------------------- VÍDEO - EMÍLIO TAKAMORI -----------------------
1:16 - 2:03
A dona de casa Claudia Aguiar relembra que era responsável integralmente pelos cuidados de sua mãe. Claudia Aguiar ressalta que os familiares deveriam ter colaborado mais, que não teve o apoio suficiente. “ Quantas vezes eu pedi ajuda, até com o olhar, com uma cara de choro ou com o próprio choro que acontecia muito, já estava em mim. Minha mãe chorava e eu chorava porque eu não sabia o que ia fazer com ela. Então eu sentia, sim, que alguém às vezes poderia ter feito muito mais por mim”.
Infográfico dados IBGE
Unidade 3: O direito de morrer com dignidade
A assistente social Katiusce Reinoso reforça que as instituições e o poder público precisam garantir o direito que a pessoa idosa tem de viver sem dor e em um ambiente que a acolha e supra as suas necessidades. Muitos daqueles que precisaram ser institucionalizados pela família, por falta de condições para realizar os cuidados, ou que foram abandonados, terminam suas vidas acompanhados de poucas roupas e de solidão. De acordo com Reinoso os profissionais assumem o papel de família ao trazer conforto para a saúde psicológica "Tudo o que eles batalharam para ter a vida inteira não faz mais diferença. No final da vida tudo o que sobra é um canto para dormir no final do dia".
Segundo a fisioterapeuta Laryssa Farias, o contato que os profissionais geriatras possuem com a morte é constante e isso não pode afetar a saúde psicológica do profissional. A fisioterapeuta reforça que é impossível não criar vínculos com os pacientes. "Já atendi vários pacientes que foram a óbitos e aprendi que, se a pessoa já partiu, ela não vai voltar. Não adianta ficar chorando, rios todo dia que ela não vai voltar. Sempre mexe com a gente, mas precisamos aprender a passar por isso".
—--- VÍDEO LARYSSA —---
De acordo com a cuidadora, Fernanda Machado quando o idoso é acolhido em uma instituição de longa permanência o profissional precisa ter consciência de que o paciente já está com a saúde debilitada . Segundo Machado o trabalho da equipe é realizar cuidados paliativos para promover uma vida saudável. "Passa um tempo e os idosos começam a perder a noção, a memória e os familiares continuam alimentando as mágoas, eles têm esse direito, mas esse idoso precisa ser cuidado por alguém, por isso tratamos a pessoa e não o seu passado".
—---—---- VÍDEO FERNANDA —--------
A psicóloga Quézia Alexandre explica que em casos em que a pessoa idosa é tratada pela família, a relação se desgasta mais cedo. Quézia afirma que no processo para se despedir da pessoa, as fases do luto começam a ser vivenciadas enquanto o idoso ainda está vivo. “Ela começa a sofrer a perda daquela pessoa antes, começa a não saber lidar direito com aquilo. Mas acontece também o luto pela perda do que aquela pessoa já foi, então se eu tinha uma avó que fazia o almoço de domingo para a família, e ela hoje em dia ela não dá mais conta de fazer, eu começo a sentir o luto pela falta, não pela falta da pessoa em si, mas pela falta de tudo que envolvia aquela pessoa”.
—---—---- ÁUDIO QUÉZIA —--------
Além dos anos
- (Foto: Helder Carvalho)