Unidade informativa: Biodiversidade
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, atrás da Amazônia e ocupa 23,3% do território brasileiro segundo o livro 'Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil', do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O bioma abrange dez estados, entre eles o Mato Grosso do Sul, cuja área de Cerrado cobre mais de 216 mil km² do território total do estado. O Cerrado é a savana mais biodiversa do planeta e também a mais ameaçada, como mostra o relatório ‘Bioma Cerrado’ da organização não governamental World Wide Fund for Nature (WWF).
O Cerrado foi o bioma mais desmatado no Brasil entre 1985 e 2022 e perdeu 27% de sua área de floresta de acordo com o mapeamento 'As Florestas do Brasil 1985-2022', do MapBiomas. Dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Mato Grosso do Sul foi o segundo estado com o maior registro de desmatamento no Cerrado, com um aumento de 14% em sua área desflorestada em 2023. O Inpe registrou uma área desmatada de 153,64 km² no estado desde julho de 2023, o que equivale a 15 mil campos de futebol.
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Segundo estudo da doutora em Ecologia, Ludmilla Aguiar, o Cerrado possui cerca de 69 mil espécies catalogadas de animais, entre animais vertebrados e invertebrados, e 6,6 mil plantas. A plataforma SALVE do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) mostra que 67 espécies endêmicas da fauna do Cerrado estão em risco de extinção em Mato Grosso do Sul, o número sobe para 1,7 mil espécies quando incluídas as não endêmicas. As espécies mais ameaçadas são os peixes Loricaria coximensis e Brycon orbignyanus (piracanjuba), as aves Ortalis remota (aracuã) e Sporophila maximiliani (bicudo), e o invertebrado Girardia multidiverticulata.
O doutor em Ecologia e Conservação e responsável pela Delegacia do Conselho Regional de Biologia (CRBio-01) de Campo Grande (MS), José Milton Longo explica que a remoção da vegetação nativa afeta diretamente na sobrevivência das espécies nativas do bioma. “O desmatamento no Cerrado força o deslocamento dessas populações, interfere na sobrevivência e na reprodução dessas espécies negativamente, de forma com que essas espécies sejam afetadas e impactadas com essas atividades”. O impacto é ainda maior para as espécies endêmicas, que necessitam das características específicas proporcionadas pelo ecossistema do Cerrado para sua manutenção.
O desflorestamento também interfere no ciclo das águas no Cerrado, a remoção da vegetação nativa influencia no escoamento hídrico nas regiões de mata ciliar. Longo afirma que "as nascentes que se localizam no Cerrado têm pressão de desmatamento nas suas cabeceiras e isso vai interferir na contribuição da água nesses ambientes. A troca dessa vegetação vai interferir severamente na flora nativa porque muitas espécies são endêmicas”. O Cerrado do Mato Grosso do Sul concentra duas importantes bacias hidrográficas, a do rio Paraguai e do rio Paraná.
Áudio milton falando do ciclo das águas
O doutor em Geografia Física, Julio Cesar Gonçalves afirma que a supressão vegetal do solo do Cerrado gera o assoreamento dos rios e córregos do bioma devido ao acúmulo de sedimentos e detritos. “O sistema hidrográfico do local pode ser afetado, com a diminuição e perda de nascentes, esses corpos de água acabam sendo poluídos. Essa desestabilização vai ocorrer como o assoreamento e o escoamento, que é aquela capacidade primária que o solo tem de escoar a água, então a água acaba indo para dentro dos rios”. Gonçalves destaca o caso do rio Taquari, no Mato Grosso do Sul, um afluente do rio Paraguai que possui nascentes na área de transição entre o Cerrado e o Pantanal e que foi impacto pelo assoreamento. Segundo estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Pantanal o assoreamento do rio Taquari provocou o rompimento das suas margens e a mudança do curso do rio.
Vídeo do Julio Cesar falando das águas + taquari
Uma das formas desflorestamento no Cerrado são os incêndios florestais. Dados da plataforma BDQueimadas, do Inpe, mostram que o número de incêndios florestais no Cerrado do Mato Grosso do Sul cresceu 66% em 2023, com 1,6 mil focos contra 973 em 2022. Os municípios de Porto Murtinho, Ribas do Rio Pardo, Campo Grande, Corumbá e Dois Irmãos do Buriti tiveram o maior número de focos de queimadas registrados em áreas de Cerrado. O aumento de incêndios florestais em Campo Grande foi de 210% em 2023.
O tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Militar do Mato Grosso do Sul (CBMMS) e presidente do Comitê Interinstitucional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, Leonardo Rodrigues Congro ressalta que o fogo é um importante agente ecológico do Cerrado, é positivo para a manutenção de diversas espécies e sua ocorrência indiscriminada pode gerar desequilíbrios para a biodiversidade local. “Mesmo que historicamente comum e benéfico para o ambiente, o fogo que moldou o ambiente de Cerrado ocorria de forma natural e contida, muito diferente dos incêndios catastróficos que comumente vemos hoje”. Segundo Congro, o regime incorreto do fogo compromete a manutenção da biota a longo prazo e seu uso indiscriminado pode levar a perda de biodiversidade vegetal e animal.
O doutor em Biologia Vegetal, Geraldo Alves Damasceno Júnior afirma que a biodiversidade do Cerrado é resiliente e que a flora do bioma possui sistemas subterrâneos. As plantas nativas do Cerrado possuem raízes que atingem grandes profundidades no solo para captação de água em situações extremas, como de queimadas. “Muitas plantas do Cerrado possuem sistemas que conseguem ficar dormentes no solo por mais de anos e na medida em que a ação de desmatamento cessa, essas plantas são capazes de rebrotar e reocupar o ambiente”.
Unidade informativa: Agronegócio
O MapBiomas indica que 16 milhões de hectares do Cerrado do Mato Grosso do Sul são utilizados para a atividade agropecuária, o que compreende 75,97% da área total do bioma no território sul-mato-grossense. A pastagem, a monocultura de soja e a silvicultura são as atividades mais presentes na área de Cerrado no estado. De acordo com o doutor em Ecologia, José Milton Longo a agropecuária é uma atividade incentivada no estado desde os anos 60 e reverter o cenário requer restrições que limitem as concessões para o desmate. “Isso é algo que precisamos para o nosso Cerrado, uma visão mais restritiva para a concessão de licenças de desmate, haja vista que essa conversão é notoriamente sabido que prejudica e interfere no clima regional, na qualidade das águas e afeta a população de fauna e flora nativa”.
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Longo explica que o Cerrado não possui uma legislação própria, como a Lei do Pantanal ou a Lei da Mata Atlântica, que limita o processo de licenciamento para desmate legal. “Essa seria uma das diferenças na questão do licenciamento ambiental, menos restritivo na hora de conceder uma licença em relação aos outros biomas que tem legislação apropriada, deveria acontecer então um viés mais preservacionista para o nosso estado”. A Lei nº 12.651/2012 regula a delimitação da área de reserva legal e estabelece que os proprietários de imóveis rurais podem desmatar até 80% da vegetação nativa de Cerrado caso esta esteja fora da Amazônia Legal, como é o caso no Mato Grosso do Sul.
Glossário
O doutor em Geografia Física, Julio Cesar Gonçalves afirma que o uso intensivo do solo do Cerrado para atividades agrícolas e pecuárias gera degradação e erosão da superfície vegetal do bioma. “Se não houver a prática de uma agropecuária com tecnologia, vai ter o problema da desertificação, da erosão e da capacidade produtiva primária do solo”. O geógrafo destaca que a monocultura e a pecuária extensiva sem o rodízio de atividades econômicas gera o esgotamento do solo e perda de nutrientes, o que consequentemente impulsiona o uso de nutrientes artificiais por meio da adubagem e os agrotóxicos.
Vídeo Julio Cesar
A doutora em Agronomia, Alexandra Sanae Maeda explica que aproximadamente 46% dos solos do Cerrado são classificados como latossolos, que apresentam acidez e poucos nutrientes, mas que possuem características que os tornam propícios para a agricultura. “São solos bastante intemperizados e profundos, a profundidade é uma vantagem para a agricultura e a pecuária, são solos bem drenados e tem uma boa retenção e permeabilidade de água. A desvantagem seria apenas a parte química, mas isso é corrigível através da calagem e adubação”.
Alexandra Maeda ressalta que a atividade agropecuária a longo prazo afeta a microbiota e a biodiversidade do Cerrado e que o manejo conservacionista ajuda na conservação da saúde do solo. “Hoje nós temos várias instituições que trabalham com a manutenção da vegetação nativa para obtenção de lucro, principalmente para pequenos produtores, como por exemplo as essências, a extração de óleos e frutas típicas da região. Outro ponto importante é que dentro do Cerrado estão as principais nascentes do Brasil, é como se fosse a caixa d’água do país, porque quando falamos de preservação do solo, consequentemente também estamos falando da preservação dos mananciais hídricos”.
Áudio da Alexandra
O chefe-geral da Embrapa Cerrados e doutor em Biotecnologia Agrícola, Sebastião Pedro da Silva Neto afirma que é possível alinhar a produtividade agropecuária e a conservação no Cerrado. O pesquisador cita as técnicas de Integração Lavoura-Pecuária-Florestas (ILPF), o sistema de plantio direto na palha, a rotação de culturas e a tecnologia de bioanálise do solo (BioAS) como métodos sustentáveis de baixo impacto no meio ambiente. “Aumenta-se a produtividade e poupa-se terra, menos área é necessária para produzir a mesma quantidade de alimentos, fibras e bioenergia, então é bastante possível produzir com conservação”.
Áudio do Sebastião
Unidade informativa: Conservação
Segundo dados do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), do ICMBio, Mato Grosso do Sul possui 57 unidades de conservação em áreas de Cerrado. A área total protegida pelas unidades de conservação no estado é de 13 mil km², cerca de 6% da área de Cerrado no território sul-mato-grossense. Os números do SNUC mostram que apenas 13 das 57 das unidades no Mato Grosso do Sul possuem proteção integral, enquanto 56% carecem de conselho gestor.
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O Parque Estadual Matas do Segredo é uma reserva estadual criada em 2000, em Campo Grande, que compreende uma área de 177 hectares e é considerado um 'fragmento de Cerrado’, área conservada do bioma que mantém características da sua biodiversidade nativa. A bióloga e mestre em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, Luciana Mendes Valério reforça a importância dos fragmentos de Cerrado, que conservam a biota próxima aos centros urbanos. “Quando a gente pensa no papel da conservação, nós associamos com áreas distantes, naturais e intocadas, mas nós temos uma grande biodiversidade dentro das cidades, nas áreas urbanas, nos parques e nas reservas. Temos que manter essas áreas justamente para a manutenção da biodiversidade, pensando nas espécies vegetais e principalmente nas espécies que ocupam, se reproduzem e se alimentam nesses ambientes”.
Luciana Valério explica que o grupo de pesquisa Ecologia de Fragmentos registrou diversas espécies de mamíferos, anfíbios, répteis e aves em estudos conduzidos no Instituto São Vicente, na área de proteção da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). No estudo ‘Anuros de um Fragmento Urbano de Cerrado no município de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil’ foram registradas 30 espécies anuros na área, o que corresponde a 47,8% das espécies registradas no Cerrado do Mato Grosso do Sul. “É muito importante valorizar essas áreas urbanas, primeiro temos que conhecer e trazer propostas para aumentar essas áreas, depois propostas para que a sociedade seja incluída, porque é muito importante esse conhecimento, quando a gente não conhece a gente não se preocupa em conservar”.
Vídeo Luciana Mendes Valério
A gestora do Parque Estadual Matas do Segredo e responsável pelo Núcleo de Gestão de Áreas Urbanas do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), Katiuscia Balbueno destaca que as áreas de conservação próximas ao perímetro urbano são postivas para a comunidade no entorno e para a conscientização ambiental. "Um dos serviços ambientais que essa área proporciona são a qualidade do ar e a sensação de bem-estar, a área é muito importante para o desenvolvimento de pesquisas, de atividades recreativas, de educação ambiental e interpretação ambiental". Segundo Katiuscia, o parque abriga diversas espécies da fauna silvestre, como o tamanduá-bandeira, tamanduá-mirim, irara e onça-parda.
áudio Katiuscia
A Fundação Neotrópica do Brasil integra o Projeto Reservas Privadas do Cerrado que presta consultoria para criação de Reserva Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) no Mato Grosso do Sul. Dados do SNUC mostram que mais de 26 mil hectares no Mato Grosso do Sul foram enquadrados como RPPNs em 30 unidades. O superintendente da organização não governamental, Kwok Chiu Cheung afirma que é necessário a criação de mais unidades de conservação de proteção integral, que inibem o desmatamento e o uso indevido do bioma. “Essas áreas funcionam como reservatórios de biodiversidade, são abrigos para fauna, são fontes de recurso vegetal e controlam o clima local produzindo umidade e gerando chuvas. Por isso, é importante ter unidades de conservação também próximas às áreas urbanas e mesmo dentro delas”.
O doutor em Ecologia, José Milton Longo ressalta que, além da criação de unidades de conservação, é necessário a implementação de planos de manejo para tais áreas, bem como a recuperação de áreas degradadas. “Tem como recuperar muitas áreas do cerrado que estão em processos erosivos avançados, recuperar com vegetação nativa ou redirecionar para produção. É um esforço conjunto, políticas públicas com maior direcionamento para a conservação do Cerrado e o uso sustentável dos recursos naturais”.
Áudio Milton
A produtora Élida Martins Aivi é moradora do município de Bonito há mais de 20 anos e trabalha com o reflorestamento e reabilitação de pastagens degradadas com espécies nativas do Cerrado, como o baru, o jatobá e a bocaiúva. “Eu era funcionária de uma fazenda, nosso patrão trabalhava com soja e milho e aí ele quebrou, deu uma seca e como só tinha um tipo de cultura ele faliu. Ganhamos nossas terras e aí foi quando eu pensei: vou fazer tudo ao contrário e trabalhar com várias culturas, livre dos agrotóxicos”.
Élida Martins possui uma fazenda de 15 hectares chamada Boa Vida, no assentamento Santa Lúcia, onde pratica o sistema de agrofloresta, que une culturas agrícolas e florestas nativas. A produtora implantou as práticas de conversão de pastagens para agricultura e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. “Tem uma parte que está com agropastoril e outro local que eu tenho a floresta de frutas nativas e não nativas, fiz um berçário de só um hectare com 223 mudas de árvores nativas, fora as outras que tem banana, abacaxi, poncã, cana e tudo que você imaginar. Aí já não é o agropastoril, é a floresta junto com o nosso alimento”.
Áudio Élida Martins, guardiã das sementes
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