REPORTAGEM ESPECIAL

Mãos que Reciclam

O meio ambiente se torna coadjuvante no impacto socioeconômico da reciclagem, na vida de catadoras e catadores no estado

Por Helder Carvalho

INTRODUÇÃO

 

A estrutura de recuperação de materiais recicláveis em Mato Grosso do Sul possui em sua base o trabalho informal de catadoras e catadores. O cenário da reciclagem no estado, que abrange a precarização, falta de humanização e seguridade social, evidencia desafios vivenciados por esses trabalhadores que recorrem à coleta de materiais recicláveis como fonte de renda, emprego e o mínimo para sobreviver.

“O principal benefício social da reciclagem é ver a conversão dos resíduos em trabalho e renda para as famílias de catadores”. Engenheira ambiental Marjolly Shinzato

 

A INDÚSTRIA DA RECICLAGEM

 

Empresas que atuavam com reciclagem em estados como São Paulo e o Paraná,  há nove anos em Campo Grande, uma possibilidade de mercado ainda pouco explorada pelos empreendedores locais. O Anuário da Reciclagem, publicado em 2023, mostra que a comercialização de materiais recicláveis movimentou cerca de 20 milhões de reais no Mato Grosso do Sul, em 2023. Os sucateiros que se estabeleceram no estado lucram a partir da exploração do trabalho de catadores autônomos ao realizarem o serviço de atravessadores. 

A gerente de Pátio e Balanceira da empresa Gerações, Victória Vacariano explica que os materiais chegam até as empresas por meio de catadores carrinheiros e a principal função dos atravessadores é classificar os produtos comprados e fazer o intermediação com as indústrias encarregadas de transformar os insumos. "Os valores geralmente são classificados por um sistema que tem da reciclagem mesmo, que é um site, nesse sistema eles dizem qual o valor de cada material. Geralmente dentro de Campo Grande as reciclagens seguem um valor padrão". 

 

~ ÁUDIO DA VICTÓRIA~

 

De acordo com o  proprietário da empresa MSV Aços, Metais e Aluminios, Matheus da Silva Vituriano o preço dos materiais reciclados passaram por uma valorização econômica, principalmente durante a pandemia de Covid-19. A reciclagem que era praticada majoritariamente por pessoas em situação de vulnerabilidade financeira, começou a ser atrativa para os grandes empreendedores. "Depois que a reciclagem começou a ser uma preocupação aqui no Mato Grosso do Sul, todo mundo passou a enxergar isso como um novo horizonte. Hoje é uma renda muito boa para a pessoa que quer trabalhar de forma autônoma e para a gente, que faz o intermédio disso".

 

~VÍDEO DO MATHEUS SILVA~

 

A variação recorrente no valor de cada um dos materiais é o que define o que será comercializado e o que será destinado para os aterros e lixões, setor industrial pautado pela lucratividade e menos pelas questões ambientais.  De acordo com o geógrafo Marcelino de Andrade, os catadores são os responsáveis pela recuperação da maior parte dos materiais recicláveis e o lucro é direcionado para as empresas. "A reciclagem, ela se traveste de uma discussão ambiental mas no fundo o que move ela é o lucro. É bastante duro e socialmente injusto, quando a gente tá falando do trabalho dos catadores no circuito econômico da reciclagem, basta você ver o quanto lucra uma empresa dessa, de reciclagem de alumínio, e quando recebe um catador”.

 

-VÍDEO DO MARCELINO-

 

Os atravessadores são aqueles que lucram com a venda de sucatas e estão na parte privilegiada do circuito econômico da reciclagem, tornando-se os interessados na manutenção desse sistema e na precarização do trabalho realizado pelos catadores autônomos. Segundo o técnico ambiental, Frederico de Moraes as indústrias favorecem os atravessadores, pois são eles que conseguem reunir o montante exigido pelas empresas. " Poucos catadores e cooperativas conseguem reunir uma quantidade que pode ser vendida diretamente para a indústria. Isso gera uma renda maior e um preço melhor por kg/tonelada diretamente para os catadores, não dependendo assim de atravessadores, sucateiros e outros que se aproveitam do trabalho primário".  


 

-INFOGRÁFICO SOBRE A TABELA DE PREÇO DOS MATERIAIS-


 

TRABALHO INVISÍVEL -  Unidade 1

 

A reciclagem é um processo difundido como um benefício para a preservação da biodiversidade local. A transformação dos resíduos produzidos pela população do estado geram emprego, renda e desenvolvimento de novos negócios. 

Catadoras e catadores, em Mato Grosso do Sul, são os responsáveis pela separação e coleta dos materiais recicláveis e tem desafios para sobreviver. Dados do Anuário da Reciclagem de 2023, mais de 1400 pessoas atuam nas 53 organizações de catadores no estado. 

O técnico ambiental Frederico Gambardella de Moraes explica que os trabalhadores envolvidos na separação dos resíduos recicláveis são divididos em catadores autônomos e  catadores formalizados em associações e cooperativas. Frederico  Gambardella comenta que os autônomos trabalham para uma geração de renda diária que cubra despesas essenciais, como a alimentação. “Os catadores autônomos acumulam os materiais em suas próprias casas e já vendem direto para os atravessadores por um preço bem mais baixo por conta da quantidade que eles têm. É uma exploração dessas pessoas”. 

 

~ÁUDIO DO FREDERICO~

 

Moraes destaca que o perfil dos trabalhadores de reciclagem é marcado por pessoas de baixa escolaridade, com idades entre 18 a 75 anos e em sua maioria mulheres que trabalham para sustentar suas famílias.  

“A gente não pode dizer que essas pessoas vivem da reciclagem, e sim sobrevivem do que hoje ainda é um trabalho que deveria ser melhor remunerado e melhor reconhecido”. 

A catadora de recicláveis Maria Célia Fonseca de Sena, de 65 anos, é uma trabalhadora informal que utiliza a reciclagem como forma de renda a curto prazo, para pagar despesas e se alimentar, e não possui seguridade social. “É a minha renda, crio um neto especial e não posso dar tudo para ele. A renda é muito pouca, vendo um monte de materiais, latinhas, pet, ferro e uns alumínios que dão menos de 180 reais”.

 

~ ÁUDIO  DA MARIA CÉLIA~

 

 “A minha vida é uma luta” - JANELA

 

Segundo Maria Fonseca a sua rotina é “monótona”, e precisa cumprir uma carga horária de 16 horas de trabalho por dia para coletar o máximo de materiais que tem um maior valor agregado. “A comida para mim é sagrada (almoço e janta). Não como nada cedo porque às vezes não tem mesmo o que comer. Não é todo dia que tem o que comer, vou para rua sem comer, só tomo meu cafezinho mesmo”.  

 

COOPERATIVISMO  -  Unidade 2

 

De acordo com a engenheira ambiental Marjolly Shinzato toda a coleta seletiva de Campo Grande é doada para cooperativas de catadores que efetivam o trabalho de separação, prensagem e venda de materiais recicláveis na Usina de Triagem de Resíduos Sólidos (UTR). A engenheira ambiental destaca que os principais desafios para a implementação de uma política de reciclagem efetiva no estado requer identificar quem são os trabalhadores e porque é preciso separar corretamente os resíduos, assim como é preciso fazer a humanização dos catadores de materiais recicláveis. 

“Desde a pandemia aumentou muito o número de pessoas que catam recicláveis das lixeiras dos bairros para vender. Logo eles tiram seu sustento e isso reduz a renda dos catadores que trabalham na UTR de Campo Grande que são por volta de 160 famílias”.  

 

— ÁUDIO DA AMBIENTAL FALANDO SOBRE AS COOPERATIVAS —

 

As usinas de Triagem de Resíduos Sólidos são locais onde a prefeitura oferece infraestrutura para catadores associados a cooperativas realizarem o trabalho de separação e venda de resíduos. A prefeitura é responsável exclusivamente pelo transporte dos materiais por meio da coleta seletiva. O vínculo empregatício inexiste e não há qualquer interferência do governo no trabalho que os catadores executam é inexistente nesse contexto. 

De acordo com o geógrafo Marcelino de Andrade, a relação entre os catadores e as prefeituras é “problemática”, porque o município deixa de considerar que o serviço de separação e prensagem deveriam ser remunerados. "A prefeitura diz ‘não, a gente tá dando gasolina para o caminhão, eles vão separar e o que eles venderem é deles’; só que quando o preço cai ou não tem volume suficiente, literalmente as pessoas passam fome".

A presidente da Associação dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis dos Aterros Sanitários de Mato Grosso do Sul (Atmaras/MS) e representante feminina do Movimento Nacional dos Catadores no Mato Grosso do Sul, Gilda Macedo relata que a reivindicação da classe é que o governo municipal reconheça o serviço prestado e remunere os catadores pelo serviço realizado. "Nosso salário é totalmente pela triagem e a comercialização dos recicláveis. Tiramos os gastos e as despesas, que são bastante, para pagar EPIs, uniformes e etc, e com a sobra é feito o rateio com todos os cooperados”.

O diretor da Associação dos Recicladores de Resíduos Eletrônicos (Recic.le), Edilson Paulon explica que o sustento dos catadores e catadoras só é possível porque a Associação não tem fins lucrativos e o valor agregado dos materiais, após desmontados, é mínimo e pouco lucrativo. O diretor comenta que a Associação utiliza mão de obra de detentas do regime semiaberto e foi uma parceria importante pela necessidade de trabalhadores de reciclagem na capital. “Em três anos recolhemos mais de 500 toneladas de lixo eletrônico só dentro de Campo Grande e se não estivéssemos aqui para onde iria todo esse material? Isso estaria tudo engavetado nos armários ou jogado nos aterros”. 

 

~VÍDEO DO DIRETOR DA RECIC.LE~

 

A catadora da Recic.le, Lucilene Tavares, é interna no Estabelecimento Penal Feminino de Regime Semiaberto da capital e nos 10 anos de Associação o seu trabalho de reciclagem constitui-se o desmonte de eletroeletrônicos, separação de plástico, ferro e cobre. “Para mim foi uma oportunidade muito boa. Agora trabalho, não fico mais no mundo errado e quando acabar minha pena quero continuar trabalhando aqui”. Lucilene Tavares comenta que ao trabalhar  na transformação dos resíduos consegue entender a importância do descarte e separação correta. 

~VÍDEO CATADORA DA RECIC.LE~

“Enxergo a reciclagem com outros olhos agora porque antes a gente não fazia isso, descartava em qualquer lugar, e é bom pela natureza e pela nossa saúde também. Tem muito material que é toxico, por isso a gente tem que trabalhar de luva”.    

O proprietário da empresa MSV Aço Metais e Alumínios, Matheus da Silva Vituriano relata que falta mão de obra para trabalhar em Campo Grande e o preconceito se torna um desafio. “Falta o entendimento da parte da reciclagem para muita gente, porque tem muitas pessoas que acham que a gente trabalha com lixo e não tem a visão da importância que a gente tem para o mercado”. 

 

ÁUDIO MATHEUS 

 

(DES)CONSCIENTIZAÇÃO - Unidade 3

 

Dados divulgados pela Solurb - Soluções Ambientais, no ano de 2023, os campo-grandenses descartaram 288.985 mil toneladas de lixo. Somente 6.616 mil toneladas foram recicladas, equivalente a 2,28%. Segundo a Educadora Ambiental da Solurb, Mara Calvis os ornamentos jurídicos para os resíduos sólidos estão prontos desde 2010 e na legislação consta que a responsabilidade do descarte de materiais é compartilhada. "Não adianta ter essa infraestrutura da solubr, a prefeitura fazer a distribuição de recursos para ter o serviço para a população se a população não usar isso de forma correta. O jogar lixo no chão para muitas pessoas é dar emprego para gari, e isso não existe ou não deveria existir". 

Repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar. A reciclagem é, ou deveria ser, a última ação para uma sociedade mais sustentável, antes de descartar os resíduos o consumo desenfreado e a vida útil dos materiais deveriam ser repensados. De acordo com o técnico ambiental Frederico Gambardella de Moraes, o primeiro passo é repensar a aquisição e gerar o menor volume possível de resíduos. “A reciclagem é apenas o ponto final ou um ponto e vírgula de uma ação que nós devemos estar conscientemente fazendo desde que saímos de casa. Então repensar a reutilização para tentar não fazer o descarte para a reciclagem”. 


 

INFOGRÁFICO SOBRE OS 52 DA RECICLAGEM

A sociedade ainda vai gerar lixo mesmo com as mudanças de hábitos e um consumo mais consciente dos materiais, e ele precisa ser reciclado adequadamente. O gerador do resíduo tem que dar a destinação correta aos materiais para que o ciclo da cadeia produtiva de reciclagem funcione. As embalagens devem estar limpas e sem restos orgânicos para não atrair bichos e mau cheiro. (Analisar na diagramação)

 

VÍDEO MARA CALVIS - 

 

“Metade do que levamos das 25 toneladas ainda vai como rejeito para o aterro. Chega no caminhão da coleta seletiva restos de comida, resíduo hospitalar, papel higiênico, fralda descartável e cachorro morto dentro do caminhão da coleta seletiva. Não é só separar, é colocar o resíduo certo para a coleta correta” Mara Calvis, educadora ambiental. 

A indústria da reciclagem visa o lucro. Segundo o geógrafo Marcelino de Andrade Gonçalves, a demanda das grandes indústrias estabelece o valor agregado aos materiais. “Quando a economia não vai muito bem, o primeiro que perde o valor é o papelão. Como vende pouco, precisa de pouca embalagem, então o movimento da reciclagem diminui, e o papelão começa a sobrar por aí, os catadores não pegam. Tudo bem, eles estão até afim de salvar a natureza , mas eles também querem comer, e se o pessoal não vai comprar, porque eles vão pegar?”. 

A reciclagem abrange o âmbito ambiental, social e econômico. Os catadores e catadoras alinham esses três pilares ao dar a destinação correta aos materiais e gerar renda com a venda dos recicláveis. A remuneração e a condição de trabalho devem ser dignas para que eles continuem exercendo essa função. Segundo a presidente da Associação dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis dos Aterros Sanitários de Mato Grosso do Sul (Atmaras/MS) e representante feminina do Movimento Nacional dos Catadores no Mato Grosso do Sul, Gilda Macedo, o serviço dos catadores merece reconhecimento pela sociedade. “O trabalho que nós fazemos é de suma importância, porque estamos protegendo a nossa biosfera e cuidando do nosso planeta. Nós catadores estamos tentando manter o equilíbrio entre o meio ambiente, a sociedade e a economia”. 

 

ÁUDIO GILDA MACEDO -

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