REPORTAGEM ESPECIAL

Embarque no Tempo

O complexo da Antiga Rodoviária de Campo Grande, localizada no bairro Amambai, foi o principal centro comercial da cidade na década de 80 e viveu seus anos de glória entre as décadas de 80 e 90.

Por Idaicy Solano

Introdução - O complexo da Antiga Rodoviária de Campo Grande, localizada no bairro Amambai, foi o principal centro comercial da cidade e viveu seus anos de glória entre as décadas de 80 e 90. Entre as plataformas de embarque urbano e interbano, as mais de 200 lojas do Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste concentrou uma forte atividade comercial, até a rodoviária ser transferida para a saída de São Paulo, no ano de 2010. Treze anos depois, o complexo se tornou abrigo para pessoas em situação de rua e usuários de drogas, que convivem em meio aos poucos comerciantes que ainda resistem na região.

UNIDADE I - Estação do Abandono 

A antiga rodoviária da cidade ficava no centro de Campo Grande, entre as ruas Dom Aquino, Barão do Rio Branco, Vasconcelos Fernandes e Joaquim Nabuco. O edifício imponente, que ocupa a quadra inteira, possuía centenas de comércios e um movimento intenso de pessoas. Atualmente o local está com diversos estabelecimentos abandonados e transformou-se em um espaço predominado por usuários de drogas. 

Os comerciantes relatam que se sentem inseguros. Os poucos empreendedores que continuam na região dizem que muitos empresários desistiram dos empreendimentos devido à falta de clientes ocasionadas pela presença de pessoas em situação de rua e usuários de substâncias psicoativas ilícitas.

Galeria de fotos: lixo, usuários, lojas fechadas, situação de abandono.

O empresário Júlio Galeano, proprietário de uma churrascaria na região há 47 anos, afirma que o problema é crônico. Ele relata que “a presença de usuários é comum, abordam os clientes constantemente e os intimidam na frente do estabelecimento.  Isso é ruim, pois esse cliente não volta e impacta não só o meu comércio, mas toda a região”.

Vídeo: Júlio Galeano relata as dificuldades enfrentadas pela falta de segurança.

A proprietária do edifício onde funciona o Hotel Iguaçu, Nélia Menezes Tortorelli considera que a insegurança é reflexo da saída do terminal rodoviário da região central e que a prefeitura deve ter um olhar mais atento ao serviço social. “A venda de drogas é o pior. A comercialização era aqui e víamos muitas pessoas vir comprar. Hoje dispersaram, mas a situação ainda não é boa. A iniciativa privada trabalha na revitalização da região, mas tem que ter a parte do poder público". 

Infográfico: números de pessoas em situação de rua na região central.

A presidente do bairro Amambai, Rosane Nely Lima declara que, antes mesmo da retirada do terminal rodoviário, alertava sobre os impactos negativos na região caso a transferência acontecesse sem planejamento. Rosane Lima afirma que fazia campanhas, reuniões e buscava ações para a ocupação do prédio desde 2005, época em que era síndica do Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste. “O objetivo era que tivéssemos um projeto para ser implantado imediatamente após a saída da rodoviária como alternativa ao vazio deixado pela prefeitura”.

Vídeo: Rosane Lima explica os impactos logo após o fechamento da rodoviária.

Rosane Lima reconhece que a presença de usuários de drogas e pessoas em situação de rua é um problema social antigo, de antes do encerramento das atividades interurbanas. "A região sempre teve um número alto de pessoas de fora. Muitos vinham a procura de emprego e não tinham onde morar. Enquanto buscavam algo, ficavam nas ruas do entorno".

O arquiteto e urbanista Ângelo Arruda diz que a presença de pessoas em situação de rua é inevitável a partir do momento em que o espaço arquitetônico e urbanístico se torna decadente. Para o arquiteto é preciso requalificar todo o espaço urbano e apoiar as populações vulneráveis para que o problema se resolva.

Áudio:  Ângelo Arruda relata que os problemas sociais da antiga rodoviária são antigos.

O secretário municipal de Assistência Social da Prefeitura de Campo Grande, José Mário Antunes explica que o órgão possui um serviço especializado de assistência para atender as pessoas em situação de rua. “Infelizmente as pessoas que estão na rua não é por falta de abrigos. Possuímos acolhimentos suficientes para recebê-las. O problema é que elas não querem”.

Vídeo:  Secretário de Assistência Social explica o processo de acolhimento das pessoas em situação de rua.

UNIDADE II - Estação das Promessas 

O Terminal Rodoviário Heitor Eduardo Laburu foi ponto oficial de embarque e desembarque para ônibus de viagens em Campo Grande, nas décadas 1970 e 1980. A antiga rodoviária funcionou até 31 de janeiro de 2010, quando um novo espaço foi construído pela Prefeitura Municipal, próximo à saída para o estado de São Paulo. Desde então, os moradores e comerciantes da região do antigo terminal vivem com promessas e expectativas de revitalização e aproveitamento do espaço, que já foi importante no cenário econômico da capital sul-mato-grossense.

Nenhum projeto foi finalizado na antiga rodoviária nos últimos 13 anos, e diferentes gestões do poder público tiveram, ao menos, 30 anos para evitar o cenário atual de abandono na região. O primeiro projeto para a construção de uma nova rodoviária é de 1991. Moradora da região por 25 anos, a vereadora de Campo Grande, Luiza Ribeiro relata sensação de abandono pelo poder público. “Sabemos que a Prefeitura recebeu recursos do Governo Federal e do Governo do Estado, mas ninguém consegue entregar a obra. São, pelo menos, quatro anos de discursos, de diferentes prefeitos e candidatos, e nenhum resultado“.

Áudio - Luíza Ribeiro 

O síndico do Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste Paulo Pereira, a mudança do terminal rodoviário foi crucial para vários comércios fecharem. Há mais de 40 anos na região, Pereira diz que seu comércio continuou, mas outros foram mais afetados. “Aqui tinha muitos bares que dependiam do fluxo de pessoas gerado pelos ônibus. Esse tipo de comércio até acabou”.

[FOTO FACHADA DE LANCHONETE FECHADA]

Desde o encerramento oficial das atividades do Terminal Rodoviário Heitor Eduardo Laburu em 2010, projetos de revitalização do prédio ocuparam espaço em diversas campanhas, em diferentes eleições para a Prefeitura Municipal, além de debates na Câmara Municipal de Campo Grande. No dia 01/07/2022, a prefeita da capital, Adriane Lopes (Progressistas) anunciou o investimento de R$ 16,5 milhões para a reforma do espaço, em solenidade realizada com a presença de seu secretariado. “Este é um dia histórico”, disse Adriane Lopes ao anunciar 360 dias de prazo máximo para a execução da obra. A obra segue em andamento até a publicação desta reportagem.

[GALERIA DE FOTOS DA RODOVIÁRIA EM OBRAS]

A obra gera expectativas e frustrações também em comerciantes da região. O proprietário de uma churrascaria no bairro Amambai, Julio Galeano relatou que a antiga rodoviária era como um shopping para Campo Grande. Ele diz que todo o entorno do prédio era ativo de vários comércios, do dia à noite, inclusive a churrascaria da família, localizada há 47 anos na Avenida Afonso Pena. “Hoje mesmo nós só abrimos no almoço. Naquela época abríamos no jantar também, pois tinha movimento. Hoje é uma situação insegura“.

Julio Galeano espera, sem esperanças, que a reforma seja entregue para reviver o bairro Amambai. “São pelo menos 15 anos de 'vai acontecer', e nada ainda”. Procurado a respeito das obras, o assessor de comunicação da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (SISEP), Paulo Yafusso informou que "a SISEP está em mudança de secretário e deve ter trocas nos cargos de chefia”.

A presidente do bairro Amambai, Rosane Nely Lima relata que acompanhou de perto o lançamento da obra de revitalização do local em 2021, e lamenta que o processo esteja atrasado. A representante dos moradores busca se atualizar do andamento da obra e tem expectativa de que ela seja concluída. 

Vídeo - Rosane Nely comenta sobre a esperança da obra ser concluída. 

UNIDADE III - Estação das Memórias 

Terminal Rodoviário Heitor Eduardo Laburu foi inaugurado em 14 de janeiro de 1973 e encerrou suas atividades em 2010. O prédio está localizado no quadrilátero das ruas Dom Aquino, Barão do Rio Branco, Vasconcelos Fernandes e Joaquim Nabuco, no bairro Amambaí, e foi o principal centro comercial da cidade na década de 80. A estação era cartão-postal da cidade e foi considerada o primeiro “shopping” de Campo Grande, devido à atividade comercial no local. 

De acordo com relato do arquiteto e urbanista  Ângelo Arruda os passageiros aguardavam para viajar de ônibus ao lado do Hostel Gaspar, na Avenida Calógeras, próximo à Estação Ferroviária de Campo Grande, na década de 1950. O andar térreo do hotel servia como recepção, banheiro e os transportes ficavam enfileirados na avenida. O cenário se transformou após os irmãos Heitor Eduardo e Luiz Alberto Laburu vencerem a licitação para a execução da obra da rodoviária de Campo Grande em dezembro de 1967. 

Áudio -  Ângelo Arruda explica a linguagem arquitetônica do edifício  

No prédio funcionavam dois terminais de ônibus, urbano e interurbano, o que tornava o fluxo de pessoas constante. Bares, cafés, pizzarias, agências de viagens e dezenas de setores comerciais funcionavam no Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste, que possui 235 salas comerciais e duas salas de cinema e fica entre as duas plataformas. A atividade comercial se extinguiu após a rodoviária ser transferida para a saída para o estado de São Paulo, na Avenida Gury Marques, após 37 anos de funcionamento na região central da cidade. O terminal de ônibus urbano também foi desativado, o que contribuiu para diminuir o fluxo de pessoas que passavam pelo local.

Vídeo - passagem do repórter + imagens do centro comercial atualmente 

CITAÇÃO ESPECIAL

“A rodoviária viveu seus anos de glória, tem o seu lugar na história. Mas essa história é muito triste, porque ela mostra que quando o poder público se afasta de uma área, a decadência vem e é preciso muita grana para recuperar esse espaço todo. Se você for coletar fotos da década de 60, começo de 70, você vai achar bares, cafés, cinemas. Os dois cinemas da Rodoviária eram muito legais, tinha uma bela rampa para subir”. - Arquiteto e Urbanista Ângelo Arruda 

GALERIA DE FOTOS (arquivo da rodoviária antiga)

A presidente do bairro Amambaí, Rosane Nely Lima opina que a decisão de transferir a rodoviária para a saída de São Paulo foi "um ato político feito às pressas, sem planejamento". De acordo com a representante da associação de moradores, o centro comercial ainda possui potencial para voltar a exercer uma atividade comercial significativa para a cidade, e precisa de investimento. "Quem tem que puxar a fila é o poder público, ele é o indutor do progresso e ele quem causou tudo isso". 

VÍDEO - Rosane Nely comenta os impactos causados no bairro quando a rodoviária foi fechada

O arquiteto e urbanista Ângelo Arruda explica que com o crescimento populacional, a falta de investimento nas atividades comerciais e a ausência do poder público, a rodoviária antiga passou a decair. “Aquele lugar que foi, 30 anos antes, de muito sucesso, 30 anos depois já não atendia as necessidades da cidade com mais de meio milhão de habitantes. Era importante ter um lugar mais moderno, contemporâneo, mas também ninguém pensou o que fazer com aquele lugar quando se fizesse uma nova Rodoviária”. 

Áudio -  Ângelo Arruda explica a tomada de decisão para a retirada da rodoviária do centro

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