Por Rafaella Moura
A construção da fábrica de extração de celulose, denominada como "Projeto Cerrado" levou ao município cerca de dez mil novos moradores considerados "flutuantes". O crescimento populacional demonstrou que a cidade tem infraestrutura precária nos serviços de Saúde, Segurança Pública, Moradia, Saneamento Básico e no fornecimento de energia.
[primeiro bloco]
O Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indica que Ribas do Rio Pardo possui 23.150 mil habitantes. A cidade foi escolhida para a construção da fábrica de extração de celulose, denominada como "Projeto Cerrado". A fábrica pertence a empresa Suzano e possui o investimento estimado em R$ 22,2 bilhões. As obras de construção da fábrica iniciaram em 2021 e levaram ao município cerca de dez mil trabalhadores. A infraestrutura do município estava inadequada para o crescimento populacional que ocorreu em curto período de tempo.

Segundo o diretor de Engenharia da Suzano, Maurício Miranda a previsão é que a fábrica seja concluída em julho de 2024, e opere com três mil trabalhadores. O geógrafo Marcelino de Andrade explica que o crescimento populacional em Ribas do Rio Pardo ocorre devido as oportunidades de emprego e perspectiva de "melhoria de vida".
A doutora em Geografia e mestre em Engenharia Urbana, Rafaela Fabiana Ribeiro Delcol explica que a migração gera consequências diferentes para os migrantes, a depender da classe social e função que desempenham. "A população se vê rodeada de pessoas diferentes das que estão habituadas, com sotaques, costumes, modos de vida diferentes, isso pode causar um certo estranhamento, um certo medo e em casos mais drásticos até xenofobia". Rafaela Delcol destaca que as pessoas que migram para o municipio para trabalhar, possivelmente, estarão desqualificadas para utilizar equipamentos da fábrica. "Nem todos serão absorvidos nas vagas que demandam pouca qualificação técnica".
De acordo com o professor Marcelino de Andrade, a construção da fábrica causará o aumento no custo de vida, problemas de saneamento báscio, segurança pública entre outros. Para a pesquisadora Rafaela Delcol, a curto prazo, o crescimento populacional afeta os moradores de Ribas do Rio Pardo no serviço de Saúde, Habitação, Transporte e Comércio. "No médio prazo, há a perspectiva de continuidade ao processo de construção de novas, casas, bairros e ampliação da cidade como um todo, para absorver tanto os trabalhadores vinculados à fábrica".
O prefeito de Ribas do Rio Pardo, João Alfredo Danieze afirma que a chegada da fábrica da Suzano na cidade se tornou uma "euforia". Danieze afirma que a transformação tem "seus lados positivos e negativos", um dos pontos mais impactados foi a política habitacional. "Aquele assalariado que pagava um aluguel entre 600 e 700 reais, se viu na obrigação de deixar sua casa e passou então a ocupar áreas públicas, o que gerou problemas sociais".
O corretor de imóveis Linto Wilmar Ferreira relata que os preços dos alugueis estão "alarmantes" na cidade. Segundo Ferreira, o que explica o cenário é a lei da oferta e da procura. O corretor explica que os moradores de Ribas do Rio Pardo se mudaram para Campo Grande. "Antes, o aluguel de um imóvel mais simples girava em torno dos R$400,00, hoje este valor saltou para até R$1.800,00. Muitas pessoas estão indo para a Capital e alugando suas casas aqui por um preço muito maior". Segundo Ferreira, os preços devem normalizar após inauguração da fábrica, que está prevista para junho de 2024.
O jornalista e morador do município de Água Clara, Lucas Silva relata que o valor dos alugueis em Água Clara, Inocência e Campo Grande aumentaram devido a construção da fábrica. Segundo ele, o valor aumentou em R$400,00. De acordo com Silva, a estrutura de Ribas do Rio Pardo comporta um número pequeno de pessoas, o que aumenta a procura por residências. "A cidade de Água Clara também passou por essa transformação, já era uma cidade cara e hoje se torna ainda mais cara, tanto nos serviços essenciais como o comércio, quanto no aluguel". Silva também afirma haver fila de espera nas corretoras de imóvel.
[Bloco ambiente]
O levantamento Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que Mato Grosso do Sul possui 1,18 milhões de hectares de eucalipto plantados e está em segundo lugar no ranking de estados brasileiros com maior área plantada. O diretor de Engenharia da Suzano, Maurício Miranda destaca que a empresa possui 600 mil hectares plantados no estado.
De acordo com Maurício Miranda a empresa realiza o plantio de 1,2 milhões de árvores por dia. Miranda explica que a técnica utilizada é de manejo florestal, na qual as condições do solo e condições hídricas são consideradas ao planejar o plantio. "A gente estabelece uma planta próxima da floresta, e essa floresta é renovada a cada sete anos".
Segundo Maurício Miranda, o manejo florestal é positivo para o solo, pois as florestas de eucalipto removeram 22 toneladas de dióxido de carbono da atmosfera e pretendem retirar 40 toneladas até 2025. O engenheiro Agrônomo Rodrigo Bernardes explica que a poluição do ar é um dos problemas das fábricas de Mato Grosso do Sul. "O impacto é direto na biodiversidade local. O desmatamento e a poluição resultante [de uma fábrica] causa um desequilíbrio ambiental nessa região, levando inclusive a extinção de algumas espécies vegetais e animal".
Segundo o geógrafo Marcelino de Andrade as empresa tem em Mato Grosso do Sul potencial de extração de recursos naturais e alta produção. Andrade comenta que "uma fábrica atrai a outra". Ele reforça que "com a quantidade de desmatamento e produçao realizada pelas fábricas, quando a gente for ver não vai restar mais biodiversidade no estado".
O diretor de Engenharia da Suzano, Maurício Miranda explica que a empresa arrenda terras improdutivas degradadas pela pastagem. "O próprio plantio florestal que realizamos acaba regenerando praticamente de forma natural [a terra] e aí entramos no ciclo de manejo, de cuidado". Miranda ainda destaca que a empresa possui selos internacionais que certificam a produção.
O prefeito de Ribas do Rio Pardo, João Alfredo Danieze explica que a Suzano comprou o projeto da fábrica, a planta e a licença em 2021. Segundo Danieze, a empresa encontrou no município um diferencial das fábricas de Três Lagoas devido a geolocalização. "A fábrica de Três Lagoas tem um circulo de 180° porque tem o Rio Paraná, que divide o estado de São Paulo com o Mato Grosso do Sul e as terras de São Paulo são carissímas e aqui são muito mais em conta".
[Infraestrutura de Ribas]
Análise realizada pela doutora em Geografia, e mestre em Engenharia Urbana, Rafaela Fabiana Ribeiro Delcol e o pesquisador e mestre em Geografia, Samuel da Silva Heimbach destacou que a estrutura econômica de Ribas do Rio Pardo se alterou nos últimos anos. O principal modelo de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) no municṕio, em 2001, era a agricultura e pecuária, com 86%, enquanto que o comércio, indústria e serviço totalizava 14% da arrecadação total.
O cenário econômico do município mudou em 2019, com o aumento da arrecadação do ICMS nos setores de Indústria e Comércio. A Agricultura declinou de 24,7% de arrecadação para cerca de 5%. A pesquisadora Rafaela Decol destaca que a mudança no cenário econômico continua em 2021, "os quais o comércio tem relativa queda com 14,2%, a agricultura permanece em queda com 3.8% e a indústria se amplia para 19,4%".
O diretor de engenharia, Maurício Miranda explica que os estados realizam uma "política de atração" para o investimento empresarial. Segundo Miranda os benefícios são para a implantação do empreendimento. "Além de ter alguns benefícios fiscais, ele coloca o tipo de estrutura que esse empreendimento necessita para ser instalado. Quando fizemos a primeira fábrica em Três Lagoas o nosso impacto foi de 13% no Produto Interno Bruto (PIB) do Mato Grosso do Sul. O impacto de arrecadação no município foi na ordem de 300%".
Miranda comenta que há um termo de cooperação entre a empresa e o Governo do Estado com entendimentos e protocolos a serem cumpridos. "É feito um ambiente colaborativo, por exemplo, o governo ampliou a parte estudantil e falou para auxiliarmos de alguma maneira na parte de estruturação, e aí entramos com o programa Suzano Educação". O diretor de engenharia destaca que há outras obras de infraestrutura, como a construção de ponte rodoviária sobre o Rio Pardo, construção de posto de saúde, casa de acolhimento de transeuntes, delegacia de Polícia Civil e posto da Polícia Rodoviária Federal.
O prefeito de Ribas do Rio Pardo, João Alfredo Danieze afirma que a Suzano investiu R$ 48 milhões na infraestrutura da cidade. "Só que os R$ 48 milhões no fritar dos ovos hoje ultrapassam os R$ 80 milhões porque o custo desse valor em 2021 não é o mesmo de hoje e nós brigamos por isso. Eles não queriam dar um centavo a mais do que os R$ 48 milhões combinados em 2021".
O prefeito de Ribas do Rio Pardo, João Alfredo Danieze afirma que houve problemas no fornecimento da energia elétrica após o início da instalação da fábrica Suzano. Segundo Danieze, com a criação de novos bairros, a energia gerada pelos transformadores era insuficiente para abastecer as novas residências. "Os geradores sobrecarregavam e paravam de funcionar". Danieze relata que as oscilações de energia prejudicavam residências e serviços públicos. Para solucionar o problema, o prefeito se reuniu com representantes da Energisa para iniciar uma força-tarefa.
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