Por Idaicy Solano
INTRODUÇÃO - O crescimento da atividade comercial em bairros afastados da região central de cidades-capital acontece porque a população busca facilidade de acesso aos produtos e serviços. Este conceito é conhecido como “Cidade dos 15 Minutos”, fenômeno prevê que as atividades cotidianas sejam realizadas em cerca de 15 minutos, sem a necessidade de sair do bairro e ir à região central.
UNIDADE UM - ALUGA-SE CENTRO
Os comerciantes da região central da capital de Mato Grosso do Sul têm desafios com a concentração de usuários de drogas em situação de rua, que cometem pequenos furtos e afastam a clientela; a ausência de estacionamentos e aluguéis caros. A situação envolve a segurança pública e a necessidade de atenção às pessoas em situação de rua que margeia as principais ruas e avenidas da cidade.
Ns ruas Barão do Rio Branco, Dom Aquino, 14 de Julho, Rui Barbosa e 13 de Maio mais de 10 estabelecimentos estão abandonados ou de portas fechadas, com placas de "Aluga-se". Os comerciantes do centro relatam que muitos desistiram dos empreendimentos devido ao alto custo do aluguel e a falta de clientela, ocasionadas pela presença de usuários de drogas.
Fotos: aluga-se centro (lojas de porta fechadas/abandonadas)
A economista da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado de Mato Grosso do Sul (Fecomércio/MS), Regiane Dedé de Oliveira explica que Campo Grande é a segunda capital com maior valorização de imóveis e a região central é a segunda com o maior valor por metro quadrado.
Infográfico: valores do m² no centro
O comerciante Sérgio Bauer, 55 anos, administra uma lanchonete na rua Rui Barbosa há 12 anos, e destaca que houve diminuição no fluxo de clientes após a revitalização na região central. O comerciante afirma que as obras implicaram na valorização dos imóveis, o que gerou aumento no aluguel. "Houve melhorias no asfalto e na acessibilidade, porém a clientela diminuiu e o lucro não acompanha o valor atual do aluguel".
Vídeo: Sérgio explica como as revitalização do centro afetou o aluguel (7:10min até 8:44min)
O comerciante diz que a possibilidade de realizar pagamentos via internet também reduziu a movimentação na Casa Lotérica, localizada ao lado da lanchonete, que também atraía clientes para seu comércio. "Não tem o interesse nem objetivo de passar aqui. Nós tínhamos um movimento na lotérica, pelo menos até o dia 12 [do mês], tinha fila direto. Hoje nós temos a facilidade de fazer o pagamento pela internet, isso também afastou o número de pessoas daqui".
vídeo: Sérgio explica a desvalorização comercial da calçada (0:47min até 2:11min)
O empresário Daniel Fernandes de Oliveira administra uma loja de locação de roupas na região central há 19 anos, e relata que teve a vitrine danificada após ação de vandalismo. O painel de vidro foi quebrado, e atualmente é coberto por tijolos e cimento. De acordo com o empresário, o objetivo dos criminosos era furtar a loja. Oliveira relata que eles também tentaram acessar o interior da loja pelo do teto. "Só no meu comércio aqui foram três vezes em um período de 15 dias. A gente se sente abandonado em relação a esse tipo de serviço".
áudio ou vídeo: Daniel relata quais as maiores dificuldades de manter o empreendimento em funcionamento (1:22min até 2:57min)
Policiamento
O patrulhamento na região central é feito no período diurno, por meio das viaturas operacionais do 1º Batalhão de Polícia Militar e das Unidades Especializadas do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), entre outros.
Atendimento às pessoas em situação de rua
A Secretaria de Assistência Social (SAS) é responsável por oferecer acolhimento às pessoas em situação de rua e fica a critério do indivíduo aceitar o serviço. A Secretaria possui grupos técnicos que realizam busca ativa nas sete regiões da capital.
UNIDADE DOIS - MORENINHAS
A rua Anaca fica no centro comercial do bairro Moreninha, localizado na região sul de Campo Grande. No bairro os moradores encontram lojas que oferecem "quase tudo" aos clientes, até as marcas famosas e globalizadas.
O secretário municipal de Inovação e Desenvolvimento Econômico, Adelaido Vila explica que a aceleração do fenômeno da "cidade dos 15 minutos" em Campo Grande acontece com o crescimento populacional e desenvolvimento da cidade.
Áudio - Adelaido explica o fenômeno da cidade dos 15 minutos
Infográfico - Trajéto do bairro até o centro (ônibus, carro e carro particular)
O presidente da Associação de Moradores dos Bairros Moreninha I e II, e Nova Conquista I e II, Valmir de Jesus Lopes nasceu e cresceu no bairro Moreninha, um dos mais populosos da capital. "Aqui é um município não emancipado. Maior que muita cidade do interior. É difícil encontrar alguém que você não conheça".
VÍDEO VALMIR SOBRE OS PRÍNCIPAIS PONTOS COMERCIAIS DAS MORENINHAS
O comerciante Valdomiro Passos gerencia uma loja de utilidades domésticas e materiais de construção na Moreninhas II e tem clientes que há cinco anos frequentam o comércio local. "Muitas lojas grandes estão vindo para o bairro. Temos bancos, lotéricas e uma grande diversidade de produtos. Isso faz com que as pessoas fiquem mais por aqui e não desloquem para cidade, o que é muito bom para nós".
VÍDEO VALDOMIRO SOBRE A HISTÓRIA DA LOJA E SUAS IMPRESSÕES SOBRE AS MORENINHAS
Paulo Volpe é proprietário de uma loja de roupas no bairro, há pouco mais de um ano. Ele migrou do Aero Rancho e explica que os habitantes dessa região costumam ir com frequência ao centro. "Lá as pessoas iam muito ao shopping, aqui nas Moreninhas elas ficam no bairro. O dinheiro circula aqui dentro e ajuda os comerciantes".
Volpe destaca que o principal motivo para empreender longe do centro é o aluguel . "Quando eu pesquisei um espaço parecido com esse na região central o valor chegava a 30 mil reais. Aqui eu pago R$1,5 mil por mês".
O diretor de Locação do Sindicato dos Corretores de Imóveis de Mato Grosso do Sul (Sindimóveis/MS), Celso Barros explica que o preço médio de uma sala comercial na rua principal do bairro tem o valor bem próximo às áreas centrais. Barros diz que isso ocorre devido o "movimento de instalações de grandes comércios nessas regiões periféricas, onde temos o comércio e serviços públicos chegando a áreas mais populosas e facilitando o acesso a produtos e serviços dessa população, sem que haja necessidade de um deslocamento maior". O diretor explica que o valor do aluguel chega a até 1,2% do valor do imóvel, em que média seria em torno de 0,7%, de acordo com a demanda de mercado existente na região.
Infográfico com a média de preço por metro quadrado nas moreninhas
UNIDADE TRÊS - AERO RANCHO
Situado na região sul, o bairro Aero Rancho é o mais populoso da capital. Conforme dados do censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bairro possui 36.067 mil moradores. A região tem uma ampla variedade de estabelecimentos comerciais que atendem os moradores e bairros vizinhos e fica a 10 quilômetros de distância da região central.
De acordo com a economista da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado de Mato Grosso do Sul (Fecomércio/MS), Regiane Dedé de Oliveira a demanda de consumo local é uma tendência natural a partir do crescimento populacional das regiões periféricas. "As pessoas optam por consumir onde estão, economizando tempo e dinheiro. Isso ocorre juntamente com as estratpegias comerciais".
Áudio: Regina comenta a valorização comercial nos bairros asfatados da periferia
O empresário Dion Anastácio Cunha e morador do bairro, administra uma loja de utilidades domésticas na Avenida Raquel de Queiroz há 18 anos. Cunha relata que no início a única opção dos moradores era se deslocarem até o centro, pela falta de variedade no comércio. O empresário afirma que os estabelecimentos do bairro oferecem preços acessíveis e que "o comércio vem se expandindo e a tendência é que cresça ainda mais. Quando se compra no bairro, se movimenta a economia local e a região toda cresce".
Segundo Cunha, a expansão do comércio poupa tempo dos moradores, pois o deslocamento até o centro, de transporte público, dura entre 30 minutos a uma hora. O comerciante também relata que a variedade no comércio local torna a ida ao centro "desinteressante para os consumidores".
Infográfico: Trajéto do bairro até o centro (ônibus, carro e carro particular)
VÍDEO DO COMERCIANTE EXPLICANDO O PORQUE AS PESSOAS NÃO VÃO AO CENTRO
A empresária Carla Nogueira administra uma confeitaria na Avenida Raquel de Queiroz, é moradora do bairro Parati e optou por abrir um comércio na região pela facilidade de acesso ao local. Conforme a empresária, o bairro tem disponibilidade de estacionamento, calçadas largas que facilitam o movimento.
A empresária relata que abriu seu empreendimento há três meses. Carla Nogueira diz que "possuía uma clientela fixa do Parati, mas desde a primeira semana veio muitos clientes que não conhecia, procurando os produtos, divulgando e indicando".
A presidente da Associação de Moradores do Jardim Aero Rancho, Jyeniffer Müller afirma que os moradores são beneficiados com a diversidade de estabelecimentos comerciais. A presidente relata que as pessoas do bairro procuram comprar cada vez mais no comércio local e buscam abrir seu próprio negócio. "Muitos moradores constroem um salão em frente à casa para alugar, pois é viável. O aluguel aqui é barato, muito mais em conta do que no Centro, e os comerciantes acabam vindo para o bairro pois vendem mais do que na região central".
VÍDEO: JYENIFFER FALA DAS VARIEDADES ENCONTRADAS NA REGIÃO E O QUE A FEZ MUDAR PARA O BAIRRO
UNIDADE QUATRO - NOVA LIMA
O bairro Nova Lima expandiu economicamente nos últimos anos e é exemplo da descentralização comercial na capital. Os quatro quilômetros de extensão da principal avenida do bairro, Jerônimo de Albuquerque, tem diversidade de lojas e serviços. Os comerciantes locais relatam que para a atividade comercial continuar a se desenvolver é necessário melhorar a acessibilidade, manutenção asfáltica e infraestrutura.
O proprietário do Lojão Marques, Alex Brandão Marques, 29 anos, herdou o empreendimento da família. A loja começou como uma bicicletaria e atualmente é uma loja de utilitários. Ele explica que a ampliação da variedade de produtos vendidos motivou a mudança do nome do empreendimento.
*[Vídeo Alex Brandão: 00:26 seg a 00:33 seg + 01:17 min a 01:46 min]
Marques explica que para obter sucesso nas vendas é necessário entender o perfil e as necessidades dos clientes. "Hoje as pessoas querem facilidade, elas querem as coisas perto delas. Você não vai querer sair daqui e ir lá [no centro], sendo que ao lado da sua casa é o mesmo valor ou até mais barato".
Infográfico: Trajéto do bairro até o centro (ônibus, carro e carro particular)
*[Vídeo Alex Brandão: 03:00 min a 03:20 min + 03:28 min a 03:59 min]
A comerciante Maria Cristina de Oliveira, 62 anos, abriu seu comércio após ser diagnosticada com depressão e ansiedade. A loja de roupas femininas Maria e Maria atende a população do bairro Nova Lima há quatro anos e trabalha com moda evangélica. "De início meu marido ficou receoso quando eu falei em abrir a loja, mas depois das minhas filhas e minhas irmãs conversarem com ele, a gente conseguiu pensar melhor no assunto".
*[Áudio Maria Cristina: 02:20 min a 02:50 min + 06:22 min a 6:45 min]
Segundo a economista da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado de Mato Grosso do Sul (Fecomércio/MS), Regiane Dedé de Oliveira a localização, segurança, infraestrutura, acessibilidade e desenvolvimento urbano são os principais fatores que levam uma área a ser valorizada. "Quando falamos em imóveis comerciais, esses pontos devem ser levados em consideração, pois são essas pessoas que movimentam o comércio".
Aúdio: Regiane explica o perfil da região com valor comercial
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