Por Larissa Adami
Trânsito para motociclistas
A maior parte dos atendimentos diários da Santa Casa de Campo Grande é de vítimas de colisão com motocicletas. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, Mato Grosso do Sul é o terceiro estado no Brasil com maior taxa de internação de condutores de motocicletas. Os motociclistas enfrentam uma série de dificuldades no trânsito que podem resultar em acidentes graves ou até mesmo fatais, desde a falta de proteção física até a negligência de outros condutores.
O tenente-coronel do Batalhão da Polícia Militar de Trânsito (BPMTran), Élcio Almeida explicou que 27 motociclitas morreram nos primeiros cinco meses de 2023 vítimas de acidentes no trânsito de Campo Grande. O número de vítimas fatais em todo 2022 foi de 76. O número registrado de janeiro a maio deste ano corresponde a 35,52% das mortes registradas em todo ano passado.
O tenente-coronel define os acidentes de trânsito como um problema de segurança, saúde e infraestrutura pública. Segundo levantamento realizado pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-MS), Mato Grosso do Sul possui 377.719 motocicletas em circulação no Estado e 816.719 carros.
O chefe da Divisão de Estatísticas e Sinistros de Trânsito da Agência Municipal de Trânsito (Agetran), Renan Soares Júnior explicou que a maioria dos óbitos registrados por acidentes de trânsito são de motociclistas em decorrência do aumento da frota de motocicletas em Campo Grande. "Na quantitativa de sinistros que ocorrem na Capital, por exemplo, entre janeiro e abril deste ano foram mais de 1.200 casos envolvendo motociclistas, dos quais mais de 1.100 tiveram vítimas ou vítimas fatais. Ou seja, em poucos casos os sinistros não vão ter vítimas".
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O Ministério da Saúde lançou em 27 de maio deste ano o Boletim Epidemiológico que descreve o cenário brasileiro das lesões de motociclistas no trânsito entre 2011 e 2021. Mato Grosso do Sul apresenta a maior taxa de internações de motociclistas após acidentes de trânsito, com média de 12,3 acidentes a cada 10 mil habitantes. A média nacional é de 6,1 pelo mesmo número de habitantes.
O motociclista Gabriel Kimura relata que presenciou muitos acidentes com outros motociclistas ocasionados pela negligência no trânsito de outros motoristas de veículos maiores, o que impacta na mobilidade diária dele. “Alguns motoristas não dão a devida atenção aos motociclistas. Presenciei muitos condutores que desrespeitam a distância segura, alguns até realizam ultrapassagens perigosas e não sinalizam adequadamente quando realizam conversões ou mudança de faixas”.
O tenente-coronel do BPMTran, Élcio Almeida aponta crescimento de 9,8% no registro de acidentes de trânsito com vítimas motociclistas entre os anos de 2021 e 2022. De acordo com o artigo 203 do Código de Trânsito Brasileiro, a multa para ultrapassagem indevida é de R$ 293,47, além de sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e ter seu direito de dirigir suspenso. “Muitos acidentes decorrem da condução perigosa de motociclistas devido às manobras arriscadas e excesso de velocidade. As orientações que nós repassamos a todos os condutores é sempre respeitar o limite de velocidade da via, a sinalização e usar mais as técnicas de direção defensiva. Os condutores defensivos colaboram muito no trânsito”.
O chefe da Divisão de Estatística e Sinistros de Trânsito da Agetran, Renan Soares informa que os motociclistas estão mais vulneráveis a acidentes do que motoristas de veículos maiores, o que contribui para os altos registros de vítimas graves e fatais em Campo Grande . "O motociclista por si só já está em questão vulnerabilidade por transitar em motocicleta. Não significa que os que morrem, morrem porque são imprudentes".
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Fabiano Ribeiro da Silva é motociclista e foi vítima de acidente de trânsito em Campo Grande no ano de 2019. O condutor de motocicleta relata que foi atingido por um carro em uma via sem sinalização, o que prejudicou a dinâmica da mobilidade no local. “Eu saí de uma avenida movimentada, a Tamandaré, para uma rua à esquerda sem sinalização. Não tinha nenhum quebra-molas nem placa de trânsito. Como não tinham esses indicativos, não consegui frear a motocicleta, acabei atingido por um carro e fui ao solo com o impacto”.
Assistência durante e após o acidente
O atendimento prestado no momento do acidente desempenha papel crucial na estabilização e no encaminhamento adequado do motociclista vítima de acidente de trânsito para um centro de saúde. Equipes de resgate do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) são orientadas pelas Corporações a fornecer os primeiros socorros, como imobilização de fraturas, controle de hemorragias e suporte respiratório, no local do acidente. A rápida intervenção desses profissionais faz a diferença na sobrevivência e no prognóstico dos motociclistas. Posteriormente, as vítimas são encaminhadas a hospitais para receberem atendimento médico especializado.
A Santa Casa de Campo Grande é o principal hospital público do município a receber vítimas de acidente de trânsito. Segundo informado pela Assessoria de Comunicação do hospital, a equipe da Santa Casa atendeu 1.191 motociclistas acidentados nos quatro primeiros meses de 2023. Desses, 120 foram vítimas de acidente entre carro e motocicleta, 26 de motocicletas, e seis motociclistas estavam envolvidos em sinistros com caminhão.
Conforme o tenente-coronel do Batalhão da Polícia Militar de Trânsito (BPMTran), Élcio Almeida, grande parte dos acidentes de trânsito deixa vítimas com ferimentos e os motociclistas chegam a morte nos casos mais graves. “As principais condições da vítima são justamente as lesões corporais, geralmente graves. Em alguns casos, não ocorre o óbito no próprio local do acidente, e o motociclista pode vir a falecer no hospital. Se o óbito ocorrer dentro de 30 dias, o motociclista ainda é considerado uma vítima fatal”.
A diretoria da Santa Casa de Campo Grande anunciou cinco dias de superlotação de pacientes no pronto-socorro no mês de maio. O diretor-técnico do Hospital, Willian Leite explica que os acidentes de trânsito são os maiores atendimentos diários na unidade hospitalar. “Quando eu superloto, ultrapasso minha capacidade de atendimentos, ou seja, entro numa escassez de materiais, instrumentos, equipe e equipamentos. Com isso, dependendo da gravidade do paciente que chega, especialmente motociclistas, porque às vezes dão entrada com quadro politraumatizado e precisam de ortopedia, neurocirurgia, cirurgia torácica, outros pacientes podem ter o atendimento postergado”.
A assistência aos motociclistas acidentados inclui a reabilitação e a Fisioterapia. Segundo o diretor-técnico da Santa Casa, alguns motociclistas enfrentam lesões graves, como fraturas, amputações e lesões na medula espinhal, que requererem um processo prolongado de reabilitação, nesse caso, alguns profissionais atuam na recuperação física, emocional e social dos acidentados. “Nós temos no nosso Hospital do Trauma um setor de reabilitação, fisioterapeutas intra-hospitalares, que após todo esse período crítico de internação vem nossa equipe multifuncional, também formada por psicólogos e fisioterapeutas”.
Vítimas acidentadas e familiares muitas vezes mobilizam profissionais da Psicologia. Os sinistros, em alguns casos, deixam traumas emocionais nos motociclistas e em pessoas próximas a eles. O diretor-técnico Willian Leite explica que a dificuldade de reinserção no mercado de trabalho e amputação de membros afetam o emocional de motociclistas, que precisam de atendimento psicológico. "Alguns motociclistas, especialmente aqueles que têm traumas de alto impacto, ficam com sequelas. Elas muitas vezes podem ser uma paraplegia, uma dificuldade de locomoção, alguns motociclistas não conseguem retornar ao mercado de trabalho, há sequelas neurológicas também".
A Agência Municipal de Trânsito realiza desde 2011 o projeto "Vidas no Trânsito" para combater acidentes no trânsito em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde e mais 43 entidades governamentais e não-governamentais.
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O representante do Sindicato dos Condutores em Motocicletas, Entregadores Similares e Autônomos Individuais Sobre Duas ou Três Rodas de Mato Grosso do Sul (Simpromes-MS), Manassés Alves da Silva explicou que o Simpromes-MS assiste os motociclistas com plano de saúde e seguro de vida. Estes são acordados coletivamente com as empresas contratantes e deixam os motoentregadores de aplicativo de fora do acordo. “Não tem como oferecer essa assistência aos entregadores de aplicativo acidentados, porque a maioria está informal, ou seja eles não tem acordo coletivo junto à empresa”.
O tenente-coronel do BPMTran, Élcio Almeida explica que as principais orientações repassadas aos motociclistas e condutores no geral são relacionadas à direção defensiva.
Infraestrutura das vias
Buracos, desníveis, faixas escorregadias e obstáculos na pista podem levar a perdas de controle e quedas. As condições físicas das vias públicas também representam um perigo significativo para os motociclistas. A falta de manutenção adequada das estradas em regiões com poucos recursos agrava esses problemas.
A última morte de motociclista em Campo Grande em decorrência de problemas com a infraestrutura da via aconteceu em 12 de abril deste ano, quando Ryan Oliveira Souza foi atropelado por uma carreta ao desviar de um buraco na avenida Gunter Hans, no bairro Guanandi. De acordo com o boletim de ocorrência da Polícia Militar, a vítima perdeu o controle e se chocou contra a mureta de proteção de um terminal de ônibus que estava em construção, invadindo a faixa ao lado onde sofreu o atropelamento.
O representante do Sindicato dos Condutores em Motocicletas, Entregadores Similares e Autônomos Individuais Sobre Duas ou Três Rodas de Mato Grosso do Sul (Simpromes-MS), Manassés Alves da Silva indica alto número de reclamações relacionadas à infraestrutura. Segundo ele, a precariedade da sinalização interfere diretamente no trânsito seguro.
O motoentregador João Victor Ramires Lima informa que as principais dificuldades encontradas por ele no trânsito de Campo Grande são a grande quantidade de buracos e desníveis das ruas e várias obras presentes no meio das vias. Ele sofreu um acidente na mesma região que Ryan devido às construções.
João Victor Ramires Lima relata que o irmão tem a mesma profissão e se acidentou devido a problemas com obras e decadência de sinalizações. Segundo o motoentregador, as condições adversas das vias fazem com que os motoristas tomem medidas bruscas e rápidas, o que coloca em risco a locomoção dos demais meios de transporte no momento. Ele alerta para a necessidade da direção defensiva nessas situações.
“O que Campo Grande deixa muito a desejar é o asfalto. A minha moto é antiga, então eu tenho vários problemas quando acabo passando pelos buracos e desníveis da rua. Eu preciso arrumar a suspensão, amortecedores dianteiros e a caixa da suspensão devido ao impacto da moto com esses descasos na via. Sem falar na qualidade dos pneus que vão desgastando em pouco tempo de uso.” João Victor Ramires Lima.
A via em que Fabiano Ribeiro da Silva sofreu acidente em 2019 foi devidamente sinalizada. O motociclista relata que retornou ao local neste ano e encontrou um sinal de PARE e uma lombada instalada na rua. “Acredito que a sinalização desempenha um papel importante na visibilidade dos motociclistas. As placas de sinalização, como as de alerta e as de regulamentação, ajudam a chamar a atenção dos condutores para possíveis perigos”.
As motoentregas e a luta por direitos trabalhistas
Os motociclistas que trabalham com entregas em Campo Grande também estão sujeitos aos acidentes de trânsito. A alta demanda e necessidade de agilidade das entregas são fatores que contribuem para o aumento da periculosidade da rotina de trabalho dos motoentregadores. O representante do Simpromes-MS, Manassés Alves da Silva relata que os horários com maior fluxo de veículos nas ruas, conhecido como “horário de pico”, são os períodos com maior incidência de acidentes com os moto entregadores.
Segundo Renan Soares, transitar em zigue-zague na via e em velocidade acima do permitido são as principais motivações dos acidentes com motociclistas. O representante do Simpromes-MS explica que os motoentregadores são mais sujeitos por conta das avaliações que recebem pelas entregas dos pedidos, o que influencia no desrespeito às regras de trânsito.
A interseção entre as leis trabalhistas e as problemas do trânsito são fatores cobrados pela categoria. Manassés indica que a principal melhoria exigida pelo grupo é o reajuste por quilômetro rodado. A falta de uma legislação que integre os direitos dos motociclistas com as necessidades das empresas contratantes é um assunto de importância para o representante do Simpromes-MS.
Os motoentregadores representados pelo Simpromes-MS realizaram uma paralisação em janeiro deste ano. O grupo reivindicou direitos como o registro na carteira de trabalho, seguro de vida, garantia da periculosidade de 30% e pagamento de um aluguel pela motocicleta para reparos e manutenções diárias.
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