REPORTAGEM ESPECIAL

Uma fauna ameaçada

Pesca predatória, caça ilegal, desmatamento irregular e atropelamentos nas rodovias do estado de Mato Grosso do Sul estão entre os principais fatores de ameaça para a conservação da fauna do Pantanal sul-mato-grossense

Por Anna Luiza Petermann

Introdução: Pantanal diverso, fauna diversa

O Pantanal abriga em sua extensão territorial uma biodiversidade superior a diferentes países do mundo, uma vez que a região é o encontro de cinco diferentes biomasCerrado, Amazônico, Chaco, Mata Atlântica e Bosque Seco Chiquitano. Segundo dados da Organização Não Governamental (ONG) SOS Pantanal, o bioma possui cerca de 3.500 espécies de plantas, 650 de aves, 124 de mamíferos, 80 de répteis, 60 de anfíbios e 260 espécies de peixes. A conservação desses animais depende de diversos aspectos, dentre eles os principais são os climáticos e os humanos.

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçada da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) avaliou alguns animais da fauna do Pantanal como 'vulneráveis', como a Onça-pintada, o Tamanduá-bandeira, o Cervo-do-Pantanal, o Tatu-canastra e o Udu-de-coroa-azul. A UICN também classificou algumas espécies 'em perigo', como a Anta, a Ariranha, o Jacu-de-barriga-castanha e o Gato-maracajá. As queimadas no Pantanal, caçadas ilegais, atropelamentos, tráficos e domesticações dos animais silvestres nativos são listados pela UICN como os principais fatores responsáveis pela extinção de espécies de animais silvestres.

A preservação do habitat natural é fundamental para diminuir o risco de extinção dessas espécies. A ONG Ecologia e Ação (Ecoa), fundada  em 1989 na capital sul-mato-grossense, reúne biólogos, cientistas sociais, arquitetos, engenheiros e comunicadores que desenvolvem  projetos e incentivam políticas públicas para a conservação ambiental e a sustentabilidade nas áreas rural urbana. A vertente de trabalho valorizada pela ONG é trabalhar com os povos tradicionais do Mato Grosso do Sul e compreender as suas relações com a fauna e flora do Pantanal.

O biólogo e ex-diretor presidente da Ecoa, André Siqueira afirma que todas as ações da ONG impactam a proteção da fauna. "Na Agenda de Conservação e Desenvolvimento do Pantanal no Cerrado a gente trata desde a criação de áreas protegidas, gestão de áreas protegidas, ao trabalho diretamente com os grupos extrativistas, povos e comunidades tradicionais, todos eles manejam espécies das mais diversificadas possíveis." O habitat natural dos animais silvestres deve ser preservado para que a vida das espécies de animais silvestres sejam protegidas e o equilíbrio do ecossistema preservado.

Áudio Ecoa

Siqueira evidencia que a biodiversidade da flora do Pantanal contribuiu diretamente para a quantidade de espécies animais naturais do bioma. O biólogo afirma que o desmatamento não influencia apenas na preservação da fauna como também  no turismo do Pantanal. "É extremamente prejudicial para a área o desmatamento e a alteração do solo para a agricultura".  André Siqueira reitera a importância da fiscalização de órgãos governamentais e das polícias Militar Ambiental e Federal para garantir o cumprimento da lei quanto a preservação do bioma e o bem estar dos animais.

A existência de iniciativas que estudam a fauna do Pantanal e auxiliam no cuidado e preservação das espécies se tornado necessária. O Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) é uma organização sem fins lucrativos, que se dedica à conservação da biodiversidade, por meio de estudos e projetos. O Instituto ICAS, localizado em Campo Grande, tem como principal objetivo a conservação de duas espécies "icônicas" da fauna pantaneira, o Tatu-Canastra e o Tamanduá-Bandeira, por meio dos projetos 'Tatu-Canastra' e 'Bandeiras e Rodovias'.

A bióloga, doutora em Ecologia pela Universidade Federal de São Carlos e gestora ambiental do ICAS, Andréia Figueiredo atua como educadora ambiental desde 2009 e em 2018 entrou para a equipe do Instituto. "Eu acredito que quanto mais trabalhamos na área da conservação de biodiversidade, perde o sentido não trabalharmos os componentes de educação e políticas públicas que envolvem toda a área de educação ambiental". A bióloga afirma que o trabalho do Instituto acredita na coexistência pacífica entre "humano-fauna", e que seu objetivo é a conscientização da população sobre a necessidade desses animais para a manutenção do ecossistema. 

Áudio ICAS 

Andréia Siqueira afirma que "mediar os conflitos entre humanos e animais é uma das medidas encontradas pelo ICAS para auxiliar na preservação da fauna". O Tatu-canastra costuma derrubar caixas de colmeias para se alimentar das larvas de abelhas, o que gera prejuízo para os apicultores.  O Instituto criou o projeto 'Canastras e Colmeias' como forma de evitar que os apicultores façam mal a espécie, com a elaboração de materiais sobre como evitar o ataque desse animal, e a distribuição do selo 'Amigo do Tatu-Canastra' para agregar valor ao produto dos apicultores que aceitaram essa medida de mitigação e preservação da vida do animal. 

Seção 2: Pantanal resiliente


A doutora em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Mara Aline Ribeiro afirma que não é possível estabelecer uma única definição para o que é turismo, uma vez que esse conceito está ligado a diferentes vertentes relacionados à atividade humana. Mara Aline Ribeiro ressalta que é necessário “sempre ter em mente que as ações humanas interferem na produção turística. De acordo com a professora, o turismo é uma atividade que envolve “uma cadeia produtiva formada por homens, mulheres e crianças que vivem e produzem turismo".

Áudio 1 Mara Aline Ribeiro (1:28)


A organização histórica do turismo como atividade econômica em Mato Grosso do Sul acontece sobretudo a partir da década de 1980.  O Turismo de natureza é uma das principais atividades turísticas no estado, principalmente na cidade de Bonito, onde se localiza o Parque Nacional da Serra da Bodoquena (PNSBd). O parque foi criado no ano 2000 e está localizado entre as cidades do estado, como Porto Murtinho, Jardim, Bonito, Miranda e Bodoquena. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia ligada ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), é o responsável pela organização, regulação e fiscalização do Parque de Bodoquena, assim como de todos os territórios considerados unidades de conservação federais (UCs).

A bióloga e doutora em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Elizabete Costa afirma que conservação e preservação são conceitos diferentes nos estudos em Ecologia. Unidades de conservação são áreas que sofreram “algum grau de interferência”, enquanto “preservar é um conceito mais amplo”. A existência de espécies da fauna e flora que estejam em extinção ou que sejam espécies representativas de uma região, e conservar o perfil característico do bioma local, são elementos que determinam a criação de uma área de conservação. Segundo Elizabeth Costa, o desmatamento regular ou irregular, queimadas e a introdução de espécies exóticas são os principais fatores de risco à preservação do habitat e da vida dos animais silvestres do Pantanal. A ocorrência de ações humanas realizadas em regiões no entorno do Pantanal, como a construção de rodovias, atividade agropecuária e o assoreamento de rios, como o rio Taquari, são fatores que acarretam no desequilíbrio do ecossistema pantaneiro. 

Vídeo 1 Elizabete Costa (0:16 - 2:05)

Elizabeth Costa afirma que a formação do Pantanal como uma junção de diferentes biomas brasileiros, faz com que o Pantanal seja “muito resiliente” às alterações provocadas pela ação humana. Os impactos causados por atividades econômicas, precisam ser “bem pensados e estruturados”, para “saber quais lugares podem ser impactados” e para que ocorra um “retorno econômico para as populações ribeirinhas que moram no local”. De acordo com a bióloga, “o Pantanal está cheio de possibilidades de ter retorno econômico sem agressão, e fazendo isso, ao longo do tempo, o próprio Pantanal se restaura”. 

Vídeo 2 Elizabete Costa (5:44 - 7: 59)
 

Leia Também