REPORTAGEM ESPECIAL

Vista-se de sustentabilidade

A adesão a compra de roupas usadas está em ascensão em Campo Grande desde a pandemia, novos brechós surgiram e eventos para o garimpo são realizadas para o repasse de roupas e divulgação desses brechós e assim promover a sustentabilidade.

Por Victoria Heloisa Amorim

Vista-se de sustentabilidade

Moda sustentável é a forma de produção e consumo de vestimentas que tem como objetivo mitigar o impacto de resíduos têxteis no ambiente, de maneira a instigar as pessoas a considerar e respeitar a vida útil das peças de roupas. A adesão a compra de roupas usadas está em ascensão em Campo Grande desde a pandemia, novos brechós surgiram e eventos para o garimpo de roupas são realizadas para o repasse de roupas e divulgação desses brechós.

Necessidades e vantagens do consumo sustentável

Dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), foram produzidas 9 bilhões de peças de roupas em 2019, uma quantia anual que pode vestir toda a população mundial, que corresponde a 7,8 bilhões de pessoas. O consumo de roupas é uma condição necessária na vida das pessoas para proteção do corpo e se transformou em um padrão cultural que caracteriza a sociedade. Mais do que se vestir, as pessoas buscam se vestir bem, por isso, existem casos onde o consumo de vestimentas excede a necessidade e impulsiona a produção de resíduos têxteis.

O geógrafo e gestor de resíduos têxteis Frederico Gambardella, afirma que a maioria das empresas brasileiras processam o lixo de forma adequada sob pena. A Lei Federal nº 12.305/2010 considera crime ambiental o descarte incorreto de resíduos têxteis.

O relatório Fios da Moda realizado pelo Instituto Modefica em 2021, as fibras mais usadas na confecção de peças são poliéster, algodão e viscose. As informações do relatório mostram que o poliéster se decompõe em cerca de 200 anos e é um material poluente. O algodão, que é uma fibra natural, se torna poluente devido às transformações durante o cultivo com agrotóxico, e os processos industriais de tingimento e secagem, e pode demorar de 5 meses a 20 anos para se decompor. O relatório revela que aproximadamente 30% da viscose é extraída de árvores ameaçadas de extinção.

Segundo Gambardella, a sociedade adquire aos poucos a preocupação sobre a geração dos resíduos que demoram anos para se decompor e ocupam muito espaço. Gambardella enfatiza que existem pesquisas acadêmicas, grandes empresas e, inclusive, vendedores locais na busca de adequar desde a industrialização até o consumo, disposição e descarte das roupas. “Nós temos várias pequenas empresas artesanais que substituem com maestria esses produtos e também é interessante elencar as pessoas que utilizam esse material, como os brechós ou customizadores, de forma a evitar que os resíduos acabem e aterros".

De acordo com a pesquisa realizada pela equipe de reportagem, em um formulário da plataforma Google, em Campo Grande 88,9% das pessoas optaram alguma vez na sua vida por comprar em brechó. A pesquisa afirma que 86,3% a economia é um fator que leva pessoas a optarem pelo comércio de roupas usadas. A estudante do curso de Psicologia da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e cliente frequente de brechós de Campo Grande, Giovanna Brandão relata que é preciso pesquisar onde estão e quais são os brechós que se enquadram no orçamento e estilo de cada cliente.

A cliente Renata Teodoro também optou pela compra em brechós para economizar, “sendo sincera, foi principalmente pela economia, mas, depois de ver o atendimento especial e personalizado das vendedoras, passei a comprar também para ajudar e valorizar os comércios pequenos e locais. Com 50 reais eu consigo comprar duas blusas, dois tops e, dependendo do que eu for comprar, quem sabe outra peça. Se eu fosse em uma loja grande de departamento, 50 reais seria apenas uma parcela de uma peça”. Renata Teodoro afirma que os brechós contribuem para o consumo sustentável a partir do comércio e também ao disseminar informações que conscientizam os clientes sobre os impactos da indústria têxtil.

Giulia Fonseca alerta que o consumo sustentável precisa ser controlado independente do lugar onde você compra. Giulia Fonseca, que acompanha e gosta de moda, relata que ficou viciada em compras em um momento da sua vida e que precisou controlar seu consumo, “eu posso consumir de uma fast fashion, mas o quanto eu estou consumindo? Eu posso consumir do brechó, mas o quanto eu vou estar consumindo do brechó? Será que eu não estou substituindo um consumismo por outro? Só porque é barato comprar várias coisas que eu não preciso?”.

Embaixadoras da moda sustentável

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relatório produzido pela Global Fashion Agenda, organização sem fins lucrativos, mostra que mais de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis foram descartados nos últimos anos, e que a projeção é de um aumento de 60% nos próximos oito anos. As roupas são descartadas de forma incorreta, o que impulsiona os impactos ambientais e o desperdício de água.

O relatório da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostra que os resíduos deixados pela indústria de produção de roupas em escala, como roupas velhas, retalhos e peças de couro, compõem as mais de quatro milhões de toneladas de resíduos têxteis descartados por ano no Brasil, e isso corresponde a 5% de todos os resíduos produzidos no país.

A pesquisadora nas áreas de Direito Empresarial Ambiental e fashionlaw, Flávia Nascimento afirma que a sustentabilidade na indústria da moda precisa ser aplicada de maneira ampla, "porque a sustentabilidade não é apenas sobre o resíduo, mas também da utilização de tecidos, de colorações, de insumos sustentáveis e também da utilização de um trabalho digno dentro dos parâmetros humanistas". Flávia Nascimento enfatiza o papel do consumidor para sustentabilidade, é necessário a conscientização e educar as pessoas a sustentabilidade ser considerada.

Os brechós são uma opção de moda sustentável e atraem o público pelos seus preços acessíveis. Segundo a pesquisa feita pela equipe de reportagem, em Campo Grande existem cerca de 80 brechós físicos e na Internet. A estudante do curso de Jornalismo pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e cliente de brechós há cinco anos, Giulia Fonseca acredita que a pandemia foi um fator que motivou o aumento no número de brechós na cidade.

O consumo descontrolado e a mudança de tendências da moda gerou o que é nomeado como Fast Fashion. Este é estilo de produção consiste na fabricação em larga escala de roupas baratas e de pouca duração, peças que são suscetíveis ao descarte em pouco tempo desde a confecção. Nesse sistema, o consumidor gasta pouco dinheiro, compra mais roupas do que usa e descarta suas peças mais rápido do que o indicado.

“Então foi principalmente pela economia, mas descobri a variedade de roupas, é muito difícil você ir em um brechó e encontrar roupas repetidas, isso é muito interessante”. Essa é uma vantagem que a cliente Renata Teodoro descobriu ao optar pela compra em brechós. A confecção em massa de roupas iguais é uma característica do fast fashion, que é reproduzido por lojas de departamento e empresas como a Shein e Shopee, e conforme relata Renata Teodoro “são roupas sem identidade e sem variedade de estilo”.

De acordo com o levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o manejo do descarte de resíduos têxteis no Brasil é majoritariamente insustentável. Quando a roupa deixa de ser utilizada, ocorre o descarte precoce, as pessoas jogam as vestimentas fora, que muitas vezes ainda estavam em condições de uso para comprar novas. O levantamento da Abrelpe também revela que, em 2018, foram produzidas cerca de nove bilhões de peças no país, o que representa mais de 40 unidades por habitante.

Segundo informações publicadas pelo relatório da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção (Abit), uma peça pode levar de 10 a 20 anos para se decompor na terra . Renata Teodoro afirma que "em uma alternativa mais sustentável, como os brechós, as peças que seriam jogadas no lixo tem uma nova vida. A roupa tem a oportunidade de ser usada novamente por outra pessoa, e inicia um ciclo de durabilidade muito maior para a peça. Um exemplo são as calças jeans, que gastam muita água para serem feitas e, devido aos processos de tintura, devem prejudicar o ambiente ao serem descartadas ainda em condições de uso".

Lais Dantas, dona do brechó Genuína, relatou que a adesão dos consumidores à moda sustentável é recente, e o cenário em Campo Grande está em transição desde a pandemia quando surgiram novos brechós na cidade. "Eu acredito que depois da pandemia os brechós ganharam força, antes existiam, mas durante 2020 e 2021 diversos brechós foram criados, as pessoas buscaram formas de repassar suas roupas e também procuraram novas formas de consumo. No brechó por ter peças mais específicas, mais únicas, as pessoas acabaram se encontrando".

Para Giulia Fonseca, comprar em brechós é combater o consumismo e "uma forma de se conhecer e encontrar um estilo próprio em peças únicas que foram usadas há anos, isso tudo a partir do uma moda sustentável". A vendedora e dona do brechó Meio-Fio, Angela Xavier afirma que os consumidores de Campo Grande optam por comprar em brechós pela economia e descobrem uma diversidade de peças de estilos diferentes e, dessa maneira, deixam de aderir todas as tendências momentâneas da indústria da moda.

Melissa Santos, dona de brechó Melissa Santos, relata que o preconceito com a venda e compra de roupas usadas prevalece. Melissa Santos relata que seus pais tinham aversão e não apoiavam sua iniciativa como vendedora e dona do brechó Repeat. "Quando eu abri o brechó todo mundo me desestimulava, falavam que não ia dar em nada, eu não tinha apoio. Mas comecei a garimpar e peguei algumas peças, embrulhei em uma sacola bonitinha, dei para meus pais e disse que era novo, depois de um tempo contei que o guarda-roupa deles era quase inteiro de brechó! Hoje em dia aceitam e até pedem para eu garimpar pra eles". Melissa Santos acredita que falta a disseminação de informação para que os brechós se tornem populares.

Moda inclusiva

O relatório setorial da Associação Brasil Plus Size (ABPS) de 2022, o mercado plus size brasileiro cresceu 75,4% nos últimos 10 anos. A modelo plus size, Talita Vieira relata que na cidade de Campo Grande o crescimento do mercado plus não é o suficiente para atender toda a procura, segundo ela, "por mais que a indústria de roupas plus size esteja aumentando, existe uma grande dificuldade de encontrar roupas acima do manequim 44".

A modelo Tatila Vieira destaca a indústria que a moda plus size no Brasil ainda é "muito difícil" e mesmo com o avanço e crescimento das lojas fast fashion. “Quando eu quero usar uma roupa mais da moda aqui no Brasil é sempre roupa de vó, que você olha e pensa em uma vó, já em lojas como a shein e shopee eu acho coisas diferentes e estilizadas, plus size”. As marcas que possuem opções que vestem até 50 e 52, fazem parte da moda fast fashion que causa um impacto muito grande ao meio ambiente.

Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), em 2018 o mercado de moda plus size movimentou 7 bilhões de reais no Brasil. A empreendedora Danielle Beltran percebeu a oportunidade de aplicar o conceito de uma moda sustentável especializada em roupa plus size. Danielle Beltran resolveu criar a própria loja com numeração de 44 até o 62, com objetivo de promover um consumo de moda mais sustentável pela dificuldade de encontrar roupas em brechós para o seu tamanho.

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