REPORTAGEM ESPECIAL

Falsa Mobilidade

A capital sul-mato-grossense está despreparada para atender os 916 mil habitantes, que reclamam de falta de acessibilidade, estrutura precária da malha viária, transporte público ineficaz e escassez de ciclovias

Por Morris Fabiana

Campo Grande (MS) tem Cerca de 900 mil pessoas que circulam de carro, ônibus, bicicleta ou a pé, pelas ruas, calçadas e ciclovias, da capital. O plano diretor de mobilidade urbana lançado 1995, antes de ser uma exigência para todos os municípios por meio do Estatuto das Cidades e a Lei Nacional de Mobilidade Urbana, está em desenvolvimento até hoje. A capital sul-mato-grossense permanece despreparada para atender os 916 mil habitantes, que reclamam de falta de acessibilidade, estrutura precária da malha viária, transporte público ineficaz e escassez de ciclovias.

MOBILIDADE OBSOLETA

A lei municipal nº 2909 de 28/07/1992  determina que é responsabilidade do proprietário do terreno a construção e manutenção das calçadas. O decreto municipal nº 14.467, de 2020, alterou a lei municipal de 1992,  e estipulou obrigatoriedade de padrões de acessibilidade, como piso tátil e rampas. A prefeitura é responsável pela fiscalização e solicitação de reformas em casos de irregularidades.

A jornalista Bianca Bianchi, de 35 anos, precisa ajudar a mãe cadeirante, Sandra Bianchi, de 67 anos, todos os dias a se locomover pela cidade. A idosa tem demência há sete anos e há dois, precisa andar de cadeira de rodas. O ato de passear pelo bairro tornou-se um problema para a família, que mora no Jardim Leblon há 28 anos. Bianca Bianchi relata que como o bairro é antigo, a mobilidade da região se tornou obsoleta.

Tomar sol faz parte da rotina de Sandra Bianchi, que faz isso com ajuda da filha ou da cuidadora. Bianca Bianchi explica que o caminho feito com a mãe é sempre pelas ruas. “As calçadas são irregulares e se você sobe não consegue descer. Nas movimentadas avenidas do bairro, por conta das calçadas sem rampas de acesso e os carros estacionados, andamos praticamente no meio da rua correndo o risco de sofrermos um acidente”

Bianca Bianchi decidiu contratar um veículo especial com rampa para realizar a locomoção de Sandra Bianchi para as consultas médicas ou passeios, após viver uma situação considerada traumática para a família, na qual precisou interditar uma via para retirar sua mãe do carro.O Táxi Adaptado possui o mesmo sistema dos ônibus com rampas de acessibilidades, permitindo com que cadeirantes entrem sem precisar ser retirados de suas cadeiras.

(box) A passagem de ônibus em Campo Grande custa R$ 4,65 e o Taxi Adaptado, em média, R$ 150,00 por viagem. 

Vídeo da Sandra sendo colocada no carro ideia diagramação: como o vídeo está na vertical colocar ele na lateral próximo ao parágrafo de cima 

ÁUDIO 1 - BIANCA - 5:12 - 6:07

De acordo com Bianca Bianchi, o problema da mobilidade urbana da capital é o planejamento favorável aos automóveis . “Sendo uma pessoa que foi usuária do transporte coletivo, hoje tem carro próprio, é pedestre e ainda tem as dificuldades com a mobilidade da minha mãe, eu planejaria a cidade priorizando as passarelas para os pedestres, as fiscalizações nas rampas, para que os carros não estacionem em lugares errados e investiria em educação do trânsito, pensado menos em carros e mais nos outros meios de locomoção”.

CAPITAL DO RODOVIARISMO

De acordo com pesquisa realizada pelo Mobilize, o transporte coletivo em Campo Grande (MS) é realizado por ônibus, essa característica é denominada como “rodoviarismo”. A frota de ônibus é disponibilizada pelo consórcio Guaicurus, e o valor para as passagens está em  R$ 4,65.

Kewer Gabrielly é estudante do curso de Nutrição da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), e mora no bairro Bosque Santa Mônica.

INFOGRÁFICO 

ÁUDIO DA KEWER 

A diretora Adjunta da Agência Municipal de Transporte e Trânsito (AGETRAN) , Andréa Figueiredo, relatou que há planejamentos para futuras obras nas vias de Campo Grande. Ela explicou que a Agetran realiza manutenção das sinalizações horizontais e verticais nas vias pavimentadas da cidade, como implantação de quebra molas e travessias elevadas.

(box) A Sinalização Vertical é realizada nas vias acima do chão, por meio de placas, transmitindo mensagens fixas ou eventuais com legendas e símbolos. E a Sinalização Horizontal é toda a marcação realizada no asfalto com as linhas e cores.
 

VÍDEO 1 -  ANDRÉA - 1:55 - 2:19

INFOGRÁFICO COM OS DADOS

A Câmara  Municipal promoveu debates sobre para utilização de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em 2012. O trajeto conectaria o Terminal Guaicurus ao Aeroporto de Campo Grande. A alternativa surgiu como pauta durante o planejamento da Copa de 2014 que aconteceu no Brasil, e quando seriam escolhidas cidades-sedes no país para atender a agenda de jogos e as exigências de estrutura de mobilidade da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA). Campo Grande foi excluída da relação de cidades sedes e o projeto de um novo transporte coletivo foi suspenso.

PARA QUEM É ESSA CIDADE QUE EU ESTOU? 

A mobilidade urbana sustentável é planejada para manter o equilíbrio entre o urbano e o natural, com a construção de modelos de transportes sustentáveis. Há também necessidade de considerar os fatores econômicos e sociais para que haja segurança e acessibilidade financeira aos usuários.

Nilcieni Maciel é natural de Camapuã, Mato Grosso do Sul e mudou-se para Campo Grande para estudar. No período da graduação ela utilizou o transporte coletivo pela facilidade do passe para estudante. Quando formou-se e começou a trabalhar precisou procurar outras formas de se locomover pela cidade, pois achava o transporte coletivo de alto valor e ineficaz, por não garantir qualidade e segurança.

AUDIO NILCIENI - 02:30 -  02:41

“Para mim a bicicleta é uma forma de perceber os meus limites. Eu digo que onde eu não posso ir de bicicleta não é seguro pra mim, na verdade não é seguro para ninguém

Ela iniciou seus trajetos principais com a bicicleta, se acostumando com distâncias curtas. Hoje, Nilcieni Maciel vai todos os dias para o trabalho de bicicleta e percebeu que dessa forma o trajeto é mais rápido do que com o transporte coletivo, a reduz é uma hora no tempo de locomoção.

VÍDEO 2  - NILCIENI 

Uma das queixas entre os ciclistas campo-grandenses é a ausência de ciclovias ou ciclofaixas que possibilitem a conexão entre os bairros e as avenidas principais. A pesquisa do  geógrafo Renato Saravy apontou que a principal característica dos ciclistas da cidade é o uso da bicicleta para trabalhar, seja para ir até o trabalho ou realizar tarefas, como entregas pela cidade.

AUDIO 2 - RENATO SARAVY - 7:36 - 8:05

“Com relação a fatores que são favoráveis ao ciclismo na cidade tem a questão da topografia que é planalto com fundos de vale, onde o córrego/rio segue, e geralmente essa área é mais plana. Então poderia ser usado as áreas de córrego em campo grande como ponto de escoamento de ciclistas.”

*MAPA DAS CICLOVIAS DE CAMPO GRANDE* 

https://sisgranmaps.campogrande.ms.gov.br/ 

As ciclorrotas são trajetos determinados e compartilhados por ciclistas, que nem sempre seguem as ciclovias ou ciclofaixas. Em Campo Grande é preciso que os ciclistas, pedestres, pessoas com deficiência e usuários de meios alternativos adaptem os caminhos e passem por ruas sem a correta sinalização, para chegar até seus destinos.

O professor e ciclista, Roberto checar sobrenome pratica o ciclismo como esporte há 27 anos, ele faz treinos dentro da cidade e participa de competições em Mato Grosso do Sul. Ele explicou que os grupos de ciclistas utilizam aplicativos para compartilhar rotas seguras dentro da cidade e  também nas rodovias. Dois exemplos desses aplicativos são o Strava, que funciona como uma rede social onde o usuário pode compartilhar sua rota com quem deseja; e o outro é o Garmin Connect, que funciona para o atleta monitorar a atividade física.

VIDEO DO ROBERTO 

O professor de autoescola e ciclista, José checar sobrenome também pratica o ciclismo como esporte há 10 anos. Ele relatou que evita pedalar dentro da cidade, pois se sente inseguro. Também observou que muitas ciclovias estão fora das rotas mais utilizadas pelos ciclistas. 

VIDEO DO JOSÉ 

 

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