Por Beatriz Brites
A história de Campo Grande se confunde com a chegada do trem e a inauguração da Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). Entre um dos braços do Córrego Prosa e a Esplanada Ferroviária se desenvolveu a Avenida Calógeras com o Hotel Gaspar e o comércio local. Atualmente patrimônio histórico e memória se confundem entre ex-ferroviários e comerciantes que ainda persistem na região.
A Vila dos Ferroviários
O Conjunto Ferroviário, mais conhecido como Esplanada Ferroviária localizado na cidade de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul é originário da Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), inaugurada em 14 de outubro de 1914.
A Vila dos Ferroviários começou a ser construída nos anos seguintes à sua inauguração nas ruas Dr. Ferreira, Dr. Temístocles e Avenida Calógeras. Edificada ao lado da Estação Ferroviária, a vila começou a ser construída com o objetivo de agregar moradia aos funcionários e seus familiares.
INFOGRÁFICO
Na vila ainda moram os últimos ferroviários aposentados que, com o encerramento das atividades da ferrovia, se organizaram na Associação dos Ferroviários, Aposentados, Pensionistas, Demitidos e Idosos de Mato Grosso do Sul (Afapedi MS) e administram o Museu Ferroviário, no complexo do Armazém Cultural.
Os imóveis que compõem o complexo ferroviário da capital sul-mato-grossense começaram a ser tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2010. A intenção do tombamento é garantir que a história seja revivida e recontada a partir de um acervo original.
O arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), André Vilela explica como funciona o processo de tombamento junto à instituição.
ÁUDIO PERGUNTA 3 - 4 ANDRÉ IPHAN (00:00 - 02:07)
a Vila dos Ferroviários Em 1996, foi tombada como patrimônio histórico pela Prefeitura Municipal de Campo Grande. Em 1997 pelo governo de Mato Grosso do Sul. Já em 2014, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Depois do fim da Noroeste do Brasil, foi privatizado e pertenceu à Novoeste e depois à América Latina Logística S/A (ALL) até ser devolvido ao município.
André Vilela esclarece que "o que define se o tombamento será feito por uma ou por outra instituição - município, estado ou união - são os valores culturais a serem identificados". Além disso, ele relata quais são os fatores determinantes para o tombamento. O tombamento dos imóveis pode ser feito pelo poder Municipal, Estadual ou pela União.
ÁUDIO PERGUNTA 5 ANDRÉ IPHAN (01:09 - 02:39)
O presidente da Associação dos Ferroviários, Aposentados, Pensionistas, Demitidos e Idosos (Afapedi MS), Nelson Pereira de Araújo fala sobre a importância da Vila dos Ferroviários como patrimônio histórico de Campo Grande.
VÍDEO PERGUNTA 1 NELSON (00:45 - 00:54 junta com 01:32 - 02:11)
Nelson Pereira nasceu no município de Água Clara, no interior do Mato Grosso do Sul, vem de uma família de ferroviários e mudou-se para Campo Grande em 1965 para ser maquinista. Atualmente mora na Vila, preside a Afapedi MS e cuida do Museu dos Ferroviários.
Diante desse cenário, o ex-maquinista afirma que os trens, que no passado trouxeram o progresso para Campo Grande, foram esquecidos junto com a Vila, e que conforme o tempo passa, os moradores se sentem abandonados pelo Estado.
ÁUDIO PERGUNTA 1 NELSON (02:11 - 03:17)
A gerente de Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECTUR), que responde pelo Arquivo Histórico de Campo Grande (ARCA), Joelma Arguelho relata que "a ferrovia é tida como um símbolo, de modernidade e de progresso, onde distancia tudo aquilo que era atrasado ou arcaico, nessa fala a gente reconhece Campo Grande, que se soma a tantas outras cidades do Brasil, em que o desenvolvimento veio por meio do progresso e da riqueza da herança dessa era industrial, que o trem proporcionou e causou e todo o país".
Joelma Arguelho certifica que manter um patrimônio histórico vivo é garantir que a história da cidade e do povo seja sempre lembrada.
ÁUDIO PERGUNTA 1 JOELMA SECTUR/ARCA (01:47 - 02:49)
Um representante dos ferroviários que acompanhou a expansão da ferrovia da NOB rumo ao interior do estado é o aposentado Joaquim Caldeira. Natural de Glicério, interior de São Paulo, Joaquim veio para Campo Grande em 1968 de trem e foi na ferrovia que encontrou emprego como supervisor da via permanente. Caldeira morou na Vila dos Ferroviários e dali foi com o trem trabalhar na expansão das linhas do trem em cidades como Corumbá e Ponta Porã.
VÍDEO JOAQUIM CALDEIRA / EX-FERROVIÁRIO
O patrimônio tombado na Vila dos Ferroviários e no complexo da Esplanada carrega nos imóveis parte da história da cidade. Os aposentados da ferrovia e suas histórias marcam o patrimônio imaterial da história de Campo Grande.
O Hotel Gaspar
O comerciante português Antônio Gaspar veio para Campo Grande em 1940, para vender dormentes que seriam utilizados na expansão da ferrovia. Com o tempo, acabou empreendendo na cidade: abriu um bar na Rua 14 de Julho e, anos depois, investiu em um terreno que ficava na esquina das Avenidas Mato Grosso e Calógeras.
Ali, ele decidiu construir o Hotel Gaspar, aproveitando a proximidade com a Esplanada Ferroviária e o comércio da Calógeras. O português iniciou as operações do hotel em 26 de agosto de 1954 e o administrou até sua morte, em 1989. Sua esposa, Mariana Gaspar, então, entrou em cena e esteve à frente do estabelecimento até 1999 quando a família decidiu arrendá-lo.
INFOGRÁFICO
Findado o contrato, os Gaspar voltaram a administrar o imóvel. Christian Gaspar, neto de Antônio e Mariana, ainda mora no local e relata sobre sua relação com o hotel.
VÍDEO CHRISTIAN GASPAR
O pedagogo César Braga foi gerente do hotel depois que a família reassumiu o imóvel em 1999. Ele é casado com Ana Paula Melim, irmã de Christian, e descreve como era gerenciar o estabelecimento.
ÁUDIO PERGUNTA 1 CÉSAR BRAGA
A história da família Gaspar se confunde com a trajetória do hotel. O imóvel que passou do construtor Antônio Gaspar para as gerações seguintes fez parte da infância e juventude de Christian Gaspar.
ÁUDIO PERGUNTA 3 CHRISTIAN GASPAR
Uma das lendas mais curiosas envolvendo os hóspedes do hotel é a de que Che Guevara teria se hospedado ali antes de partir para a Bolívia onde acabaria encontrando seu fim em conflito com o Exército Boliviano. A história nunca foi confirmada por fontes oficiais e segue sendo parte do folclore em torno do imóvel. César Braga comenta essa e outras histórias de seu tempo como gerente no hotel.
ÁUDIO PERGUNTA 3 CÉSAR BRAGA
O Hotel Gaspar era considerado parte importante do patrimônio histórico de Campo Grande. O passeio turístico da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur) fazia uma parada ali antes de seguir para a Esplanada Ferroviária. A gerente de Patrimônio Cultural da Sectur, Joelma Arguelho comenta a relevância do Hotel Gaspar para a história de Campo Grande.
ÁUDIO PERGUNTA 4 JOELMA ARGUELHO
No dia 15 de junho de 2020, o Hotel Gaspar encerrou suas atividades após 66 anos de funcionamento. Os herdeiros do imóvel venderam os móveis do hotel e colocaram o prédio à venda seis meses após o encerramento das atividades. César Braga relata sobre o fim das atividades e venda dos móveis.
ÁUDIO RESPOSTA 2 CÉSAR BRAGA
O Hotel Gaspar não é um imóvel tombado pelo Município nem pelo Governo Federal. A venda do prédio pode acarretar no fim do legado do imóvel como patrimônio histórico da Capital caso o novo proprietário decida demolir o imóvel. Para Christian Gaspar, é mais interessante que o poder público assuma o hotel e faça do prédio um centro cultural que o tombamento propriamente dito.
ÁUDIO RESPOSTA 5 CHRISTIAN GASPAR
Oficialmente não existe previsão de tombamento do Hotel Gaspar por parte da gestão municipal, de responsabilidade da Sectur, ou pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), na esfera federal. O prédio não faz mais parte do roteiro do passeio turístico da Sectur desde que foi colocado à venda no começo de 2021.
A Avenida Calógeras e seu comércio
A avenida Calógeras possui alguns dos prédios comerciais mais antigos de Campo Grande. A preservação da memória da Avenida também está ligada com a conservação do comércio local e as famílias que seguem administrando os imóveis. O patrimônio histórico da Calógeras começa na Esplanada Ferroviária, o principal fator de desenvolvimento do comércio da região desde sua fundação em 1914. A gerente de Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur) Joelma Arguelho descreve de que forma a chegada do trem auxiliou no desenvolvimento da região.
CITAÇÃO - JOELMA ARGUELHO
A Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) faz parte do desenvolvimento da capital e hoje serve principalmente para a preservação do patrimônio histórico e cultural da cidade.
ÁUDIO JOELMA SECTUR
A Estação Ferroviária trouxe imigrantes japoneses, libaneses, portugueses, povos de vários estados e nacionalidades. Muitos destes imigrantes abriram seus comércios na Calógeras, principalmente pela grande concentração de prédios comerciais na época.
ÁUDIO JOELMA SECTUR
O libanês Camille Abboud Obeid chegou no Brasil em 1981, na cidade de Goiânia. Em 1986 ele decidiu, com a família, migrar para Campo Grande, a mais nova capital do país até então, para investir no comércio de vestuário. Camille Obeid investiu na Calógeras comprando seus primeiros imóveis e hoje tem uma loja entre as ruas Barão do Rio Branco e Dom Aquino. A Casa do Camilo já foi literalmente a casa do proprietário que, com a pandemia, se mudou para um bairro de Campo Grande depois de 34 anos morando nos fundos do estabelecimento.
VÍDEO CAMILLE COMERCIANTE
O comerciante Camille Abboud desaprova o tombamento dos imóveis históricos na área comercial, caso ela ocorra um dia. Ele defende que a prefeitura poderia ter uma conversa prévia com os comerciantes para averiguar quem gostaria de manter o prédio e quem preferiria reformar.
ÁUDIO CAMILLE COMERCIANTE
A Selaria Florêncio fica na avenida Calógeras, entre a rua Maracajú e a avenida Mato Grosso. De toda a quadra, de ambos os lados, este é o único comércio aberto. Odimar Siqueira e o irmão Gilberto trabalham com artigos de couro e utensílios para uso no campo desde que herdaram o negócio do pai, Waldemar Siqueira. Trabalhar com artigos de couro e selaria é o único ofício de Odimar que, junto com o irmão, começou a frequentar a selaria do pai no fim dos anos 1960 quando trazia marmita para ele e outros comerciantes. A loja aberta em 1964 contava com grande movimento de pessoas pela região devido ao funcionamento da ferrovia.
VÍDEO ODIMAR COMERCIANTE
Odimar Siqueira manifesta preocupação com as dificuldades do comércio local nos últimos anos e a falta de apoio do poder público. O comerciante relata problemas com fiscalização e impostos municipais, enquanto lamenta a falta de acesso com estacionamento local e outros investimentos na infra-estrutura da Calógeras.
ÁUDIO ODIMAR COMERCIANTE
Os imóveis comerciais localizados na Calógeras entre as avenidas Mato Grosso e Afonso Pena não foram tombados pelo município ou Governo Federal. A conservação do patrimônio imaterial do legado da ferrovia para o comércio local ainda resiste nas figuras dos últimos comerciantes em atividade na Calógeras.
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