Mato Grosso do Sul é um estado fronteiriço. Faz fronteira com Paraguai e Bolívia em toda a extensão que abrange toda a costa oeste. O estado faz divisa também com cinco unidades federativas: Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Somente MT supera MS em divisas. Todo o benefício geográfico ajudou o estado a construir sua cultura com influências de diversos lugares. A maior área de ‘contato’ é com o Paraguai.
A troca com o Paraguai acontece de forma pulsante. A influência que vem da fronteira com os chacos é muito maior que a dos andinos. A culinária presente em Campo Grande traz mais exemplos de chipas e sopas paraguaias do que saltenha. As músicas também estão mais próximas do cone sul da América do Sul.
A chipa é um pão de origem paraguaia que tem o queijo como base. Esse alimento surgiu por volta do século XVI e tem sua presença registrada por todos os lados de Campo Grande. Segundo relato do dono da lanchonete Dona Chipa, localizada no bairro Pioneiros na Capital, Anderson Marques, ele tem conhecimento de três estados com a iguaria paraguaia, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraná. A unidade federativa da região sul também faz fronteira com o país guarani.
Marques ressalta que sua inspiração para trabalhar com chiparia veio de herança familiar. Sua bisavó era da província de Corrientes, Argentina. Esse território antes da Guerra da Tríplice Aliança pertenceu ao Paraguai e hoje faz parte das 24 províncias argentinas, que são equivalentes aos estados brasileiros. O nordeste portenho tem uma proximidade cultural grande com os paraguaios.
O dono da chiparia destaca que é difícil um campo-grandense ou sul-mato-grossense não conhecer o que é uma chipa. Ele assume que há diferenças entre a receita tradicional feita no Paraguai em relação ao produto feito em seu estabelecimento. “Veio do Paraguai e aqui na nossa cidade foi readaptada. A chipa paraguaia é feita com banha de porco, erva doce e outros ingredientes e bem dura. O pessoal aqui da cidade prefere bem molinha. Ela foi readaptada, mas a essência é a mesma, que é o queijo”.
Esse produto por estar praticamente presente somente na região fronteiriça com o Paraguai se confunde com um alimento brasileiro, que vem dos sertões, o pão de queijo. A base de ambos é a mesma, o queijo curado, ou seja, mais seco, firme e com a casca amarelada. A diferença citada por Marques está no preparo e nos ingredientes da massa. A chipa tem uma massa mais simples de manusear que o pão de queijo.
ÁUDIO SOBRE DIFERENÇA ENTRE CHIPA E PÃO DE QUEIJO
A adaptação que Marques disse envolve também o incremento de variações na receita original do alimento. A influência paraguaia trouxe a chipa para Campo Grande e a competitividade fez a criatividade aflorar. Os tipos presentes na lanchonete são dois, a tradicional e as recheadas. Essas que têm recheios de goiabada, doce de leite e chocolate. Segundo informações relatadas por ele, saem oito chipas tradicionais para duas recheadas mesmo com a variedade.
A lanchonete está na Rua Ana Luíza de Souza, a cerca de duas quadras da Associação Colônia Paraguaia. A região do bairro Pioneiros, que fica próximo ao Terminal Rodoviário de Campo Grande, tem uma população mais velha e construções que superam os 40 anos. Marques sintetiza que há “uma influência muito grande da cultura paraguaia na região e que a boliviana é quase nula”.
A Rua oferece outras opções de alimentos paraguaios como a sopa paraguaia e a erva-mate para o tereré. A história desses dois itens têm raízes na cultura guarani. A sopa paraguaia tem inúmeras receitas e sua origem é um mistério. Três versões são contadas pelos livros.
A primeira envolve o primeiro presidente do Paraguai, Carlos Antonio López. O mandatário amava sopa e um dia o chefe de cozinha errou a receita ao colocar mais milho que o costumeiro, o que deixou o cozido sólido. A segunda versão envolve a Guerra da Tríplice Aliança em que os soldados paraguaios colocavam mais milho para facilitar o transporte da sopa. A outra versão é relatada pelo professor e antropólogo Álvaro Banducci. A origem estaria no significado da palavra sopa no espanhol, que é cozido ou mistura. Assim, a mistura paraguaia veio para o Brasil como sopa paraguaia e se popularizou com o nome.
ANDERSON MARQUES E CARIOCA FALANDO DE SOPA PARAGUAIA
A erva-mate era um costume feito pelos indígenas paraguaios e o produto que hoje é identidade de Mato Grosso do Sul se restringia às classes econômicas mais baixas. Há vários estabelecimentos ao longo da rua Ana Luíza de Souza que vendem a erva. Todos os mercados visitados também tinham ao menos uma opção do produto base do tereré.
MAPA INTERATIVO
UNIDADE 2
Capital do Chamamé
O Chamamé é um estilo musical que surgiu na província de Corrientes e tem inspiração em outros ritmos paraguaios como a Polca e a Guarânia. A província argentina antes da Guerra da Tríplice Aliança era um território paraguaio e a proximidade entre o sul paraguaio e o nordeste argentino é grande por conta das relações históricas. A diferença entre os três estilos musicais está na velocidade do ritmo. Ambas são músicas de compasso com a melodia dividida em partes e com violão, bandoneón e sanfona como os principais instrumentos.
A Polca tem o ritmo mais rápido e alegre que as demais, a Guarânia é mais lenta e o Chamamé se coloca no centro entre as duas. Os dois primeiros têm origens autenticamente paraguaias e o terceiro estilo é um precursor dos outros. O nome Chamamé veio do cantor paraguaio Samuel Aguayo.
ÁUDIO DA MÚSICA DE CHAMAMÉ
A entrada desse estilo no Brasil e no território que compõe o Mato Grosso do Sul veio da corrente migratória paraguaia para o solo brasileiro. Campo Grande, que se tornou capital após a divisão de Mato Grosso, é um dos principais destinos. Segundo informações do radialista e produtor do programa A Hora do Chamamé, Orivaldo Mengual, a Capital tem mais de 50 grupos chamamezeiros.
Mengual afirma que o estilo musical faz parte das raízes sul-mato-grossenses. Ele é um dos que fomenta essa cultura no âmbito local. O seu programa ‘A Hora do Chamamé’ tem mais de 25 anos no ar e esteve à frente da organização de festivais chamamezeiros, como o 2º Encontro do Chamamé. A edição de 2022 aconteceu entre os dias 3 e 5 de junho no estacionamento da Feira Central, em Campo Grande. “Chamamé faz parte das nossas raízes e tradições que herdamos dos nossos antepassados. Você vai a um baile em Campo Grande e vemos um grupo de Chamamé”.
O radialista ressalta que a influência para produção dos eventos e do programa vem de sua herança paraguaia. Ele tem família tanto na Argentina quanto no Paraguai. “Eu tenho uma relação desde a minha infância, eu cresci ouvindo Chamamé. Minha família é de origem paraguaia e também argentina”.
A inspiração de Mengual para divulgar o Chamamé localmente e renovar os ouvintes do Chamamé. O Encontro do Chamamé tinha seu público com mais idosos e poucas crianças. “A inspiração vem do amor a essa cultura que eu tenho, é uma cultura da minha avó, do meu avô. Eu faço A Hora do Chamamé há mais de 25 anos. Procuramos fazer esse resgate da música da fronteira. O nosso público se você perceber é velho, precisamos renovar esse público”.
O motorista David Campos esteve presente no festival de Chamamé e relatou que sempre que tem uma festa com o estilo frequenta. A relação dele com o estilo assim como Mengual vem dos primeiros anos de vida. “Minha relação com o Chamamé é praticamente desde os cinco anos de idade. Eu arranhava uma sanfona que ganhei do meu pai e mãe. Eu não tive a oportunidade de crescer devido às condições financeiras. Eu sempre cultivei isso”.
“Para mim fronteira é ligação” – David Campos
Campos relata que as músicas mais tocadas em sua casa são de origem fronteiriça como o Chamamé, a Polca, Guarânia e o Sertanejo. Essa ligação com o Chamamé inspirou o músico David Campos Filho a seguir carreira no estilo musical. “O Chamamé é hoje a minha vida, desde pequeno escuto por influência do meu pai. Atualmente sou um dos que carregam a bandeira do Chamamé, tanto pelo instrumento, quanto por gostar muito do Chamamé. Escuto todo dia, meu dia a dia é 24 horas”.
“A cultura paraguaia influencia diretamente porque existe muita população paraguaia aqui em Campo Grande e no Estado”. - David Campos Filho
Campo Filho informa que o público ouvinte de Chamamé é adulto e cita que ele se considera uma exceção por ter 27 anos. “O perfil desse público é mais seleto, digamos assim. Ele abraça um pouco o povão, mas vejo que a média de idade é de 35 anos para cima. Dificilmente vejo alguém com menos de 30 anos que goste de chamamé”.
IMPORTÂNCIA DO ESTILO PARA MATO GROSSO DO SUL – DAVID CAMPOS FILHO
A cultura chamezeira segundo Campos Filho está enraizada em Campo Grande. “A relação passa de avô para filho e depois para os netos”. A cultura boliviana está em menor evidência também na música. Ele cita que os pedidos de canções quando se apresenta quase inexistem músicas bolivianas. “A cultura paraguaia influencia diretamente porque existe muita população paraguaia aqui em Campo Grande e no Estado. Mesmo aqueles que não são paraguaios diretamente escutam e conhecem as músicas paraguaias. Então, influencia diretamente porque eu tenho que tocar, algum pedido vai sair de uma música paraguaia. Já a boliviana muito pouco, praticamente 1%”.
Tamanha é a relevância do Chamamé que Campo Grande é a Capital Nacional do Chamamé. O reconhecimento veio pela Lei Federal 14.315, de 28 de março de 2022. O estilo também é considerado patrimônio imaterial de Mato Grosso do Sul. O Estado também tem o Dia do Chamamé, comemorado em 19 de setembro, mesma data na Argentina, pela Lei Estadual 3.837, de 23 de dezembro de 2009.
UNIDADE 3
Fronteiras são demarcações político-geográficas instituídas para o estabelecimento da ordem territorial. Estabelecer limites físicos não implicam na divisão cultural. As fronteiras são complexas de serem traçadas quando múltiplas identidades convergem. É preciso retornar ao passado e compreender a formação das divisões territoriais entre Brasil, Paraguai e Bolívia para entender as intersecções culturais em Mato Grosso do Sul.
O primeiro marco para a divisão territorial nacional foi o Tratado de Tordesilhas. Acordo estabelecido entre Portugal e Espanha, em 1494, no período das grandes navegações. O acordo estabeleceu uma linha imaginária a oeste do arquipélago de Cabo Verde. As terras a leste do marco pertenciam aos portugueses enquanto o oeste era dos espanhóis. A doutora em Geografia e docente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Ana Paula Correia de Araújo comenta que “esse tratado não foi muito bem respeitado por Portugal”.
[MAPA COM A DIVISÃO DOS TRATADOS]
O Tratado de Madri surgiu, em 1750, depois que o de Tordesilhas se mostrou ineficaz. O novo acordo era baseado no princípio de “uti possidetis, ita possideatis”, ou seja, aquele que ocupa o território tem sua posse. O último marco importante para a criação das fronteiras brasileiras com o Paraguai e a Bolívia foi o Tratado de Petrópolis. O acordo que criou o estado do Acre foi importante para estabelecer limites com os bolivianos. Cada uma dessas fronteiras possui particularidades em sua criação, mesmo com os acordos emblemáticos.
Ana Paula aula Correia comenta que a formação da fronteira do Brasil com o Paraguai tem uma história própria e influência de conflitos armados e pecuária.
“Teve todo um processo de ocupação do território litorâneo, primeiro com o pau brasil, mas sobretudo com a cana de açúcar. Depois houve uma produção de gado e isso foi se interiorizando pelo Brasil. O gado foi o grande fator de ocupação dessa parte do território. Já no tratado de Madri é revisto esses limites territoriais definidos pelo de Tordesilhas e absolve essa parte que é Mato Grosso, Rio Grande do Sul e pega partes do norte também. E partes do que vem a ser depois o Paraguai passa a se vincular ao território brasileiro em função do tratado de Madri. Já no século XIX tem a Guerra do Paraguai e a gente também anexa parte do território que hoje é chamado de Mato Grosso do Sul”.
[VÍDEO ANA PAULA]
É preciso levar em consideração que a formação de uma região é dinâmica. A fronteira é marcada por múltiplas trocas culturais que se expandem além dos limites fronteiriços, a ponto de incidir em todo o estado sul-mato-grossense. Essa incidência se dá por meio da gastronomia, arte e comportamentos, por exemplo.
“São identidades que se misturam e que fazem parte de toda uma região. Isso não tem fronteira. Não tem limites para essas relações que se estabelecem e que ultrapassam as definições de estados nacionais.” - Ana Paula Correia
A fronteira é muito mais que uma linha divisória. A professora de espanhol, boliviana e moradora de Corumbá, Suzana Vinicia Mancilla Barreda, 61 anos, acredita que ser imigrante não é só estar fora do país, ou seja, demarcações geográficas não bastam quando se trata da diferenciação entre culturas.
“Acho que eu permaneço nessa condição estrangeira, essa condição estrangeira me acompanha. Porque no Brasil sou boliviana e na Bolívia não sou boliviana cem por cento, porque meu sotaque está carregado de português. Então é um jeito de ser imigrante permanentemente. Por isso não me catalogo como uma identidade única- não digo sou boliviana ou sou brasileira. Eu sou isso tudo. Então penso que ser imigrante não é só estar fora do país” - Suzana
Suzana Mancilla Barreda é filha de bolivianos. Seu pai, natural de Cochabamba, e sua mãe, nascida em La Paz, vieram para o Brasil na década de 50 e aqui tiveram seus três filhos. A docente de espanhol realizou inúmeras vezes o percurso entre Cochabamba e São Paulo com sua família. Em 2008, foi contratada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para lecionar no campus do Pantanal.
“Assim fui para aquela fronteira que atravessei inúmeras vezes na minha vida”
[ÁUDIO SUZANA]
Fronteira vivida e fronteira percebida
O geógrafo Ricardo Nogueira pesquisa sobre o tema e explica a existência de dois tipos de fronteira, a percebida e a vivida. A primeira é construída pela interpretação daqueles que vivem fora desses espaços e a segunda por quem mora neles. A fronteira é, na maioria das vezes, sinônimo de violência e perigo para aqueles que estão de fora. O entendimento desse espaço marcado pela convivência com o outro, que pode ser harmônica ou desarmônica, faz parte da vivência de quem vive nesses locais.
18 alunos do curso de Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) escreveram três palavras que associam às fronteiras quando pensam nesses locais. A dinâmica aconteceu durante a aula de Antropologia da Cultura Brasileira, ministrada pelo professor da UFMS e antropólogo Álvaro Banducci. O objetivo da dinâmica foi entender como esses espaços são entendidos por cada um.
[INSERIR NUVEM DE PALAVRAS]
As percepções mais comuns para os alunos da disciplina foram narcotráfico, contrabando e violência. Essas interpretações são influenciadas pelos meios de comunicação, que destacam situações violentas nas fronteiras e reforçam o lado negativo desses espaços. Buscar a palavra “fronteira” em cibermeios jornalísticos, por exemplo, resulta em centenas de matérias que abordam sobre narcotráfico, contrabando e violência. Pouco se encontra sobre outros aspectos, como trocas e conflitos culturais dessas regiões.
[mini vídeo pesquisando em cibermeios-com off]
O Tribunal de Contas da União (TCU) divulgou um relatório que aponta falhas na fiscalização das fronteiras. A falta de distribuição adequada de servidores e o alto custo para o treinamento de segurança e defesa são problemas que influenciam o aumento do tráfico de armas, drogas e do contrabando nessas regiões. O mesmo relatório também mostrou que falta investimento em segurança em todas as fronteiras terrestres do Brasil e que ainda não existe um plano nacional para promover o desenvolvimento, a segurança e a integração nas faixas de fronteira.
As cidades fronteiriças vivem situações de violência assim como em todos os municípios de Mato Grosso do Sul. As faixas de fronteira permitem diferentes relações, harmônicas e desarmônicas, que estão em constante construção. Retratá-las somente a partir da violência, deixa de lado trocas e conflitos culturais, identitários, econômicos e educacionais que acontecem nesses espaços e reforçam estereótipos.
[Encerrar com falas dos fronteiriços sobre como é viver em fronteira]
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