Por Isabella Motta
PREÂMBULO:
O termo 'insegurança alimentar' é utilizado quando uma pessoa tem dificuldade de acesso regular e permanente a alimentos para a sobrevivência. Também está relacionado a variedade e a qualidade daquilo que é consumido. De acordo com os dados levantados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (RBPSSAN) em 2020, 19 milhões de brasileiros enfrentaram a fome.
PANDEMIA E A FOME:
Alimentação e nutrição são requisitos básicos para o desenvolvimento humano. A Lei de Direito à Segurança Alimentar e Nutricional assegura que é de direito de todos o acesso à refeição suficiente, adequada, saudável e nutritiva. A crise econômica agravada pela pandemia da Covid-19 impactou no aumento da pobreza, da escassez de alimentos e da insegurança alimentar grave.
A segurança alimentar e nutricional (SAN) pode ser definida como o direito ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. As escalas de percepção da insegurança alimentar são classificadas de acordo com a severidade, que pode evoluir do nível mais leve (ausência da fome) para o de maior gravidade (presença da fome).
A crise econômica, política e sanitária também afetou aqueles que não se encontravam em situação de pobreza. De acordo com os dados divulgados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (RBPSSAN) em 2020, 9% dos brasileiros sobreviviam com fome. Na região Centro-Oeste, 6,9% estavam em insegurança alimentar grave. Na pandemia, cerca de 116,8 milhões estavam em algum grau de insegurança alimentar leve, moderado ou grave.
A fome tem gênero, cor e grau de escolaridade. Segundo o cientista político João Lucas Moreira, a insegurança alimentar afeta principalmente os domicílios que são chefiados por mulheres, pessoas pretas e pardas, sem escolaridade. “O Estado de Mato Grosso do Sul tenta combater a insegurança alimentar com políticas públicas. Mas para ser efetivas, tem que abranger todas as pessoas e inseri-las na sociedade”. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018, apontam que mais de um terço dos domicílios em Mato Grosso do Sul se enquadram na faixa considerada de insegurança alimentar e 5% dos lares pesquisados vivenciam a insegurança alimentar grave.
POBREZA
Pobreza é a falta de acesso a serviços e bens materiais necessários para as condições básicas de vida, como saneamento básico, saúde, educação, energia elétrica e alimentos. O Banco Mundial considera extrema pobreza quem vive com menos de US$ 1,90 por dia e pobreza quem vive com renda entre US$ 3,20 e US$ 5,50 por dia. Em 2021, das 27 unidades da Federação, 24 estados aumentaram o índice de pobreza, em função da pandemia de Coronavírus.
De acordo com dados de 2021 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 12 milhões de pessoas que vivem na linha de extrema pobreza. Em Mato Grosso do Sul, o índice de pobreza aumentou de 17,9% para 20,4%. O economista Eugênio Pavão explicou que a pandemia da Covid-19 aumentou a inflação, e o poder de compra da população recuou. “As pessoas tiveram que ficar em casa e parar de produzir, isso levou à uma queda da oferta e uma demanda muito grande. Quando a demanda é maior do que a oferta, a forma de equilibrar é o aumento dos preços”.
O Brasil ocupa a 9º posição do ranking dos países com as maiores economias mundiais. Para o cientista político João Lucas Moreira, 29, o Brasil é considerado um país em que a população tem renda média baixa. “Em números brutos, o Brasil circula entre as maiores economias do mundo, mas quando falamos de renda média da população, vemos que não chega nem a ser um país de renda média, mas sim uma renda média baixa”.
A Organização Não Governamental (ONG) Ecologia e Ação (Ecoa) desenvolve projetos para a conservação ambiental e sustentabilidade, além de ajudar a comunidade com cestas básicas. O diretor-presidente da Ecoa, André Siqueira afirmou que os pedidos de ajuda aumentaram. “É unânime, todo mundo que ajudamos diz que a condição está muito difícil. É muito comum encontrar famílias que as cestas eram a primeira refeição do dia que eles teriam. Não me recordo em todos esses anos de ter visto algo semelhante”.
PERSONAGENS
Jardim Noroeste, baixa escolaridade, parda/preta, mãe solo e desemprego. Essas são as palavras que formam a identidade de Juliana Silva, Daiane Ferreira e Mariana Lencina. Três mulheres, de famílias diferentes, e com muito em comum, a falta de comida na mesa.
O desemprego e a inflação contribuíram para a situação de fome. Sem leite para dar aos filhos, Daiane Ferreira cozinha fubá no fogão improvisado feito com uma grelha e pedaços de madeira. Ela e seus quatro filhos vivem com o auxílio do Vale Renda e Auxílio Brasil. Na casa dela há necessidade de comida, cobertores e roupas de frio. Explica que é inviável sair de casa e ir à uma instituição governamental buscar ajuda. Daiane Ferreira tem 31 anos e relata que ela e seus filhos passam fome desde 2019.
Juliana Silva, 21, faz faxinas para alimentar os seus três filhos. Mora no Jardim Noroeste, vive em situação de vulnerabilidade social e acredita que a pandemia de Covid-19 piorou sua condição financeira. Ela improvisa e usar a criatividade para comer. Trabalha com limpeza de casa para ganhar dinheiro e recebe o valor por dia.
Mariana Lencina, 27, leva seus filhos para comer a sopa oferecida na igreja mais próxima. Alice Lencina e Yan Lencina ajudam a mãe a catar latinhas para vender e comprar alimentos. No período matutino eles tomam café na creche. "É um alívio ver os meus filhos alimentados". As doações aumentaram após aparecer em um cibermeio jornalístico, e a família continua em insegurança alimentar. “Várias pessoas de bom coração me ajudaram".
Luzinete Lino, 71, e José Hudson, 82, estão casados há 53 anos. Relatam que recebem ajuda com cestas básicas e isso os alimenta. Ana Vitória, 10, é a neta do casal e mora com os avós. Ela é integrante da ONG Maná do Céu, organização que auxilia mais de cinco mil pessoas em situação de vulnerabilidade social. O projeto ‘Família Protegida’ da Instituição leva cestas básicas para a comunidade.
Ela sente segurança ao saber que pode ser auxiliada pela Instituição. “Eu não sei o que eu faria sem essas cestas, só Deus mesmo, porque o dinheiro que a gente tem é para pagar as contas. As cestas foram uma benção em nossa vida. Criança depende de muita coisa, e graças a Deus, eles nos ajudaram muito”. Para participar do projeto é necessário um cadastro prévio no Instituto Maná do céu.
Ana Maria da Silva, 44, mora com o marido e os quatro filhos. Recebe o Auxílio Brasil, de R$ 400 reais, e o esposo é beneficiário do Auxílio da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), uma ajuda de um salário mínimo mensal. Ana Maria da Silva acredita que os preços dos alimentos aumentaram depois que a pandemia de Covid-19 começou. “Tudo aumentou, o arroz, o óleo, até o feijão, os legumes, a carne, o gás, misericórdia, tá um absurdo, foi no período da pandemia que as coisas aumentaram, as coisas apertaram mais nesse tempo.”
O Projeto Asas do Futuro, localizado no bairro Vespasiano Martins, ajudou Ana Maria por três meses com cestas básicas. "Às vezes tinha uma quantidade pequena de comida que eu deixava de comer, para dar para as crianças. Muitas vezes eu fui dormir com fome para não ver eles passarem necessidade". Ela relata que deixou de preparar alguns alimentos por causa da dificuldade financeira. “A gente deixa de assar bolo, pão, biscoito, por causa do gás que tá muito caro.” Ela recebe eventualmente cestas básicas do Centro de Referência de Assistência Social (Cras).
Fabiana Pereira, 48 anos, tem como fonte de renda o Auxílio Brasil e o marido trabalha esporadicamente como pedreiro. Fabiana Pereira tem câncer e ficou internada por causa de uma infecção nos rins. Os remédios que necessita comprar não tem nos postos de saúde. Inicia o mês com apenas uma unidade de arroz, feijão e óleo. “Isso vai ser durante o mês todo, tem que durar até o dia 25, esperar sair o próximo Auxílio, que aí eu vou comprar.”
O marido de Fabiana Pereira paga as contas com o Auxílio do Loas, e a renda é insuficiente para pagar as despesas e comprar alimentos. “Água eu nem pago mais, estamos tirando do poço. Tudo aumentou, arroz, feijão e a carne ficou esse preço absurdo. Eu nem como carne, como ovo e frango". Ela relata que escolhe entre uma coisa ou outra. “Não dá para conciliar tudo só com Auxílio Brasil. A comida está mais cara do que você recebe e vai viver do que. Passo apertado e tenho que decidir se eu como, pago as contas ou compro o gás".
VIDEO:
Maria Divino Delgado, 69 anos, mora com nove pessoas. Ela e sua filha de 49 anos recebem o Loas, destinado para sua filha que tem deficiência. Aluguel, água, luz, gás e o remédio da sua filha é pago com o Auxílio. Segundo Maria Divino, todo mês se esforçam para comprar comida e pagar as contas.“Temos que espremer o Auxílio para alcançarmos o final do outro mês”.
VÍDEO MARIA DIVINO
Olga Firmino, 83 anos, mora com a filha Delvina Firmino, 43 anos, e dois netos, de 15 e sete anos. Eles vivem com a aposentadoria e com o Benefício Loas, destinado para seu filho que tem deficiência. Segundo Olga Firmino, eles escolhem qual despesa será paga. Delvina Firmino afirma que todos os gastos são feitos com o Auxílio do seu filho e que não é possível pagar todas as dívidas. “É difícil mesmo, nossa fonte de renda é muito pouca. Apesar de ser só nós quatro, fazemos o possível para dar certinho, mesmo assim ficamos devendo”.
VÍDEO DELVINA | VIDEO OLGA
PROGRAMAS SOCIAIS E ONGs
Para o cientista político João Lucas Moreira, os auxílios assistenciais servem para que as pessoas tenham direitos básicos garantidos e não sofram com a exclusão social. O programa do Governo do Estado “Mais Social” entrou em vigor em 2021 para diminuir os efeitos da pandemia de Covid-19 e contempla 100 mil famílias em vulnerabilidade social, com R$ 300 mensais. O Benefício é para a compra de alimentos, higiene pessoal e gás de cozinha.
INFOGRÁFICO COM OS AUXÍLIOS “FEDERAL”
Outro programa assistencial do Governo do Estado é a entrega de cestas básicas mensais à população indígena. São 19.899 cestas alimentares entregues em 29 municípios onde estão localizadas 85 aldeias. Moreira afirma que o Programa do Governo do Estado se mostra eficaz em um vácuo deixado pelo antigo Bolsa Família, atual Auxílio Brasil. “Com os novos critérios inseridos, pessoas que ainda necessitam do auxílio foram cortadas e não recebem mais assistência”.
ILUSTRAÇÃO COM UMA MAPA INTERATIVO MOSTRANDO QUAIS OS 29 MUNICÍPIOS
ÁUDIO DO JOÃO LUCAS
Segundo o Índice de Preços dos Supermercados de 2022, apurado pela Associação Paulista de Supermercados (Apas), os preços dos produtos nos supermercados subiram quase 3% em março. Três alimentos consumidos pelos brasileiros tiveram alta de mais de 50% no valor final de venda. São eles o tomate (41,27%), repolho (34,24%) e cenoura (32,23%).
INFOGRÁFICO COM RELAÇÃO NUTRICIONAL DO QUE TEMOS QUE COMER E O VALOR COMPARADO AO SALÁRIO MÍNIMO
Grupos e ONGs investem tempo, dinheiro e recursos para combater a fome em Campo Grande. As Centrais de Abastecimento de Mato Grosso do Sul (Ceasa/MS) disponibilizam hortifrutis, verduras e legumes por meio do Fundo de Amparo às comunidades cadastradas. As centrais fornecem alimentos para mais de 120 entidades. Segundo o diretor de Mercado e Abastecimento e Mercado da Ceasa/MS, Fernando Begena o desperdício de alimentos nas Centrais é pouco, visto que as entidades cadastradas estão no local para recolher os alimentos que são reutilizáveis.
ÁUDIO
O diretor executivo da ONG Comitiva Esperança, João Marzini coordena a Entidade que promove ações de defesa do Pantanal e executam projetos que tem o objetivo de gerar renda de maneira sustentável. Marzini conta que investem e assessoram projetos comunitários, e que em dois anos de existência, a Associação levou cestas básicas e vale alimentação para mais de 30 mil famílias de Mato Grosso do Sul. As doações chegam na Comitiva por meio de ONGs parceiras, como a ECOA.
ÁUDIO:
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