VÍDEO EDSON
O jornalista Edson Silva é negro, de estatura média e cabelos grisalhos aos seus 65 anos. Sempre combateu preconceitos durante a sua trajetória de vida, principalmente devido a sua cor e etnia. Ao descobrir que será pai de um novo filho neste ano de 2022, mais um enfrentamento entrou para a lista, desta vez relacionado à idade da nova paternidade.“Existe o preconceito etário. Pessoas próximas me falam ‘nossa, quando seu filho completar 15 anos, você terá 80’, mas e daí? É uma experiência que me empolga muito poder cuidar de mais uma criança, pegar no colo, dar banho, criar com amor. Me sinto pronto para isso, sem nenhum impedimento”.
Diferente do que dizem alguns preconceitos do senso comum, envelhecer não determina a exclusão de pessoas idosas de práticas relacionadas à sexualidade, as mudanças fisiológicas que acontecem nessa fase da vida são naturais. O avanço na gerontologia e o aumento na expectativa de vida transformaram a vida de quem vive a velhice, que por décadas foi entendida como a fase terminal da vida. Atualmente, chegar aos 60 anos também é sinônimo de sonhos e planejamentos. Mais do que contar, essas pessoas têm muitas histórias para viver.
É possível que algumas pessoas restrinjam o entendimento da sexualidade ao ato sexual. Para o cientista social Guilherme Passamani, a sexualidade é uma combinação de práticas, relacionamentos e comportamentos. Passamani explica que a principal questão a ganhar evidência é que os idosos vivem a sexualidade, cada um da sua maneira, e por muito tempo a nossa cultura acreditou no contrário.
AUDIO PASSAMANI
A individualidade da sexualidade também inclui pessoas que se sentem felizes com a abstinência do ato sexual. Esse é o caso de Maria Iglesias, de 83 anos. “Fui completamente realizada dos meus 20 anos até os 73, quando perdi meu marido. Hoje não sinto mais falta. Estou focada na minha família, nos meus netos e nas minhas amigas. Vou viver solteira até Deus me levar!”.
Para Martinho Pires, de 77 anos e também viúvo, namorar faz parte da sua realidade. Atividades promovidas pelo Centro de Convivência do Idoso Vovó Ziza, local que frequenta há 11 anos, permitiram que ele conhecesse as duas últimas namoradas. “Aqui nós somos livres para demonstrar amor e carinho quando arrumamos alguém, andar de mãos dadas... Só não pode virar bagunça”.
AUDIO MARTINHO FALANDO SOBRE ENCONTRAR OUTRA MULHER PARA FICAR A NOITE TODA CONVERSANDO, E SE SENTIR REALIZADO
O Centro Vovó Ziza é administrado pela Prefeitura de Campo Grande, por meio da Secretária Municipal de Políticas e Ações Sociais e Cidadania (SAS). O local oferece atividades para idosos como ginástica, dança, oficinas e hidroginástica. Segundo a educadora física e coordenadora do Vovó Ziza, Maria Lúcia Alencar 1200 idosos estão cadastrados e a pandemia causou queda no número de frequentadores, que aumenta progressivamente após o avanço da vacinação.
Idosos que vivem na Instituição de Longa Permanência (ILP) Sirpha Lar do Idoso em Campo Grande tem a sexualidade tratada como natural pela gestão. Para a coordenadora da Sirpha, Maria Cristina Oliveira os casos de abandono e vulnerabilidade que levam essas pessoas a viverem na ILP influenciam a busca de relacionamentos dentro da instituição. “Quando encontram parceiros e isso os faz felizes, é gratificante estimular essas relações. Também promovemos ações e conversas sobre infecções sexualmente transmissíveis com os idosos sempre que é possível. Vários casais já se formaram e inclusive se casaram dentro da Sirpha, e podem perfeitamente dividir o mesmo quarto se for da vontade deles”.
Para o cientista social Eduardo Meza, a sexualidade é pouco debatida e negada, assim como diversos assuntos na sociedade. A ausência ou baixa presença de casais idosos em filmes, novelas e propagandas contra Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST) impacta a compreensão da sexualidade por esse grupo. “A grande mídia trabalha outras questões, mas a sexualidade é escondida. Estamos dentro de uma sociedade que tem uma cultura, e essa cultura produz os sujeitos. Como a mídia está dentro da cultura, ela opera um elemento importante, tendo efeito na construção de pensamentos e ações de cada pessoa”.
ÁUDIO EDUARDO SOBRE PQ É DIFÍCIL FALAR SOBRE A SEXUALIDADE DE IDOSOS02:12 - 03:11
Singularidade do envelhecer
O envelhecer é um processo natural, inevitável e complexo. As alterações fisiológicas, morfológicas, bioquímicas, funcionais e psicológicas são particulares em cada indivíduo. Fato é que todos irão envelhecer, ou ao menos devem ter direito à velhice. Segundo a psicóloga Rosimeire Aparecida, “geralmente as pessoas confundem envelhecimento com a velhice, então o envelhecimento é esse processo contínuo e a velhice é uma etapa, uma fase do desenvolvimento humano em que se dá esse processo de envelhecimento”.
A valorização da juventude faz com que o envelhecimento seja temido e rejeitado. Especialistas pontuam que o medo de ficar velho é influência do sistema socioeconômico atual, que privilegia a produtividade. O cientista social Guilherme Passamani afirma que “depois que o sujeito perde uma condição do que a gente chamaria de ‘mais ativa’, especialmente no mundo do trabalho, parece que essas pessoas não servem mais. São rejeitadas, apagadas da vida social”.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que em 2011 o número de idosos no país correspondia a 6,77% da população. Em 2020, esse grupo passou a representar 8,89%. No Mato Grosso do Sul a quantidade de idosos cresceu entre 2020 e 2021.
[INFOGRÁFICO- NÚMERO IDOSOS NO ESTADO]
O doutor em Enfermagem, Ramon Moraes Penha, explica que ao envelhecer há alterações em sistemas como o nervoso central, circulatório, respiratório, digestório, endócrino e imunológico. “Embora ocorram mudanças nos sistemas citados, elas não implicam no surgimento de doenças”. Novamente é notório que o envelhecer é experimentado de forma diferente por cada indivíduo.
“Falar sobre a sexualidade na velhice é debater o tema no sentido de reconstruir novas perspectivas frente a este mito, em especial às imposições socioculturais que determinam o envelhecimento como uma forma de renúncia às questões do mundo” - Ramon Penha
Um dos aspectos que perpassa a vida é a sexualidade e isso não é diferente para os idosos. O artigo de Kay Francis Leal Vieira, Maria da Penha de Lima Coutinho e Evelyn Rúbia de Albuquerque Saraiva evidencia que a sexualidade contribui para a qualidade de vida da pessoa idosa. “Trata-se de um processo natural que obedece a uma necessidade fisiológica e emocional do indívduo”.
Há tabus e estereótipos quando se trata do tema, principalmente durante a velhice. Há idosos que se relacionam de forma constante enquanto outros preferem evitar relacionamentos amorosos. Ser idoso não implica no esquecimento da sexualidade, mas cada idoso explora sua sexualidade de forma particular. Penha reforça que a sexualidade envolve “aspectos históricos, biopsicossociais, culturais, educacionais e religiosos”. O vice-coordenador do Programa Universidade Aberta à Pessoa Idosa (UnAPI), Eduardo Meza explica que tratar a libido como algo proibido na velhice faz com que seja difícil tratar do assunto.
[ÁUDIO EDUARDO SOBRE O PORQUÊ É DIFÍCIL FALAR SOBRE SEXUALIDADE NA VELHICE]
“Por não ser reduzida ao ato sexual, a sexualidade pode ser vivenciada por pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, papéis, comportamentos e relacionamentos” - Ramon Penha
[VÍDEO PASSAMANI]
Saúde mental e física na velhice
O indivíduo sofre diversas alterações fisiológicas, morfológicas, bioquímicas, funcionais e psicológicas desde o seu nascimento até atingir a velhice. Esses aspectos estão diretamente ligados à saúde e ao desenvolvimento social. Segundo o doutor em Enfermagem especialista em gerontologia Ramon Penha, “todos os sistemas são contemplados no processo do envelhecimento biológico. Observamos alterações no funcionamento dos sistemas nervoso central, circulatório, respiratório, digestório, geniturinário, endócrino, osteoarticular e conjuntivo, bem como o sistema imunológico”.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde é um estado completo de bem-estar físico, mental e social. A Organização também afirma que saúde não necessariamente implica na ausência de doenças ou enfermidades. O processo do envelhecimento não é responsável pelo surgimento de condições médicas, apesar das mudanças funcionais ocorrerem em todos os sistemas.
“Quando doenças estão presentes nas pessoas idosas, nós denominamos Senilidade (envelhecimento com doença). Há um outro grupo de pessoas idosas que vivenciam a idade madura sem doenças. A este processo nós denominamos Senescência (envelhecimento sem doença).” Ramon Penha
Para além dos tabus referentes à sexualidade, o sistema reprodutivo é um dos principais afetados na velhice. Nas mulheres, com idade entre 45 e 55 anos, ocorre o climatério e a menopausa. Esse período é conhecido pelas alterações hormonais, psicológicas e sociais, que são particulares em cada uma.
[AUDIO RAMONA FALANDO QUE A MENOPAUSA NÃO A AFETOU]
O período do climatério não é sinônimo de redução da atividade sexual feminina e os sintomas podem ser amenizados. Para a psicologa Rosimeire Aparecida, o que acontece é que muitas vezes às mulheres não têm mais vontade de fazer sexo por outras razões e utilizam desse motivo como justificativa para seus parceiros e sociedade.
Visão conservadora
Os tabus são inerentes à sexualidade em todas as idades, desde a juventude, que perpassa pela vida adulta e especialmente na velhice. Muitas vezes a vivência sexual se associa somente ao processo reprodutivo e às relações heterossexuais, ou seja, entre homens e mulheres. O cientista social Guilherme Passamani diz que essa é uma percepção conservadora.
O caminho percorrido pelas pessoas ao longo da vida condicionam o pensamento ao final dela. O Brasil é um país de maioria cristã e Mato Grosso do Sul segue a mesma proporção. Passamani ressalta que o cristianismo promove uma desajuda quando se fala em sexualidade. “O Cristianismo nos deu essa ‘contribuição’ que não é exatamente interessante. Quando associa à sexualidade à reprodução, especialmente no que diz respeito às mulheres, o momento de fertilidade tem um prazo determinado”.
O doutor em Enfermagem especialista em gerontologia Ramon Penha destaca sete pontos relacionados à construção do chamado ‘Mito da Sexualidade’. A falta de um parceiro, estereótipos relacionados com a idade, crenças sobre impotência em homens mais velhos, falta de atratividade sexual em mulheres idosas, monotonia na rotina sexual, efeitos colaterais de remédios, problemas de saúde e demora para buscar ajuda profissional são os itens citados. “Falar sobre a sexualidade na velhice é debater o tema no sentido de reconstruir novas perspectivas frente a este mito, em especial às imposições socioculturais que determinam o envelhecimento como uma forma de renúncia às questões do mundo”.
Passamani ainda cita a falta de representações para idosos em produtos midiáticos como novelas, filmes, séries, livros e música. O professor acrescenta que o crescimento dos idosos no país é recente e que “do ponto de vista histórico, o processo de envelhecimento da população brasileira é muito recente. É um contingente que não para de crescer e, portanto, essas pessoas vão seguir consumindo e não vão seguir consumindo apenas remédio, vão consumir cultura, lazer”.
“Todos nós vamos envelhecer. Alguém de nós quer envelhecer como um objeto? Põe ali, tira dali, põe pra cá…Não. Temos desejos, temos vontades e sonhos.” - Eduardo Meza
O cientista social tem a convicção que o mercado cultural vai se adaptar às novas necessidades e explorar a vontade de consumo dos idosos que se interessam por esse tema. “O mercado vai ter que se reorganizar para que esses sujeitos caibam”. O processo de envelhecimento para ele é relação de troca de informação e as mídias cumprem a função de ajudar neste processo.
[ÁUDIO GUILHERME PASSAMANI MODELO ECONÔMICO]
O casal de idosos que se conheceu no Centro de Convivência do Idoso Vovó Ziza em Campo Grande, Ramona Rodrigues e Nilton Oliveira se sentem confortáveis em comentar sobre a sexualidade. A idosa de 66 anos ressalta o apoio da família em seu relacionamento. "Da minha parte não, se eu choro, eles choram também, se eu rio, eles riem também". Oliveira, de 79 anos, também tem o apoio de seus filhos com exceção de um. "O meu filho mais novo fica sem querer que a gente arrume outra, porque eu tive outros relacionamentos e não deu certo. Ele me cuida muito”.
[VÍDEO EDUARDO MEZA E A HISTÓRIA DE ASILOS EM RELAÇÃO AO ASPECTO DA SEXUALIDADE]
Gilda Pedroso, de 76 anos, frequenta o mesmo local. Ela relata que um dos filhos falou que seria contrário à idosa ter um relacionamento amoroso no momento. "Se um dia você aparecer com alguém aqui eu boto para correr".
A psicóloga Rosimeire Aparecida ressalta que a função diante de situações de idosos no relacionamento amoroso é a de valorização do mesmo. A especialista destacou que brincadeiras sobre esse tema prejudicam os idosos. "Nosso papel é possibilitar o compartilhamento e fortalecimento de vínculos que contribuíram para que essa pessoa não se sinta desvalorizada na sociedade".
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