O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado como um distúrbio no desenvolvimento que gera déficits na comunicação oral e prejudica, de acordo com cada nível, habilidades para desenvolver, manter e compreender as relações em sociedade.
Muitas pessoas diagnosticadas com autismo apresentam diferenças ou prejuízos nas linguagens verbal e não verbal, expressões faciais e símbolos. Outros sintomas relatados e observados em autistas são seletividade alimentar, sensibilidade à luz e sons altos e movimentos repetitivos. O aparecimento dos sintomas acontece geralmente nos primeiros anos da infância.
Os níveis do Transtorno do Espectro Autista (TEA)
De acordo com a Revista Autismo, periódico nacional dedicado as informações sobre o autismo no país, não existe estudo estatísticos de quantas pessoas foram diagnosticadas com autismo no Brasil. Nos Estado Unidos, uma pesquisa do Centro de Controle de Doenças e Prevenção (CDC), divulgada em dezembro de 2021, estima-se que são mais de dois milhões de casos diagnosticados, com uma a cada quatro crianças, com idade até os oito anos que apresenta o espectro. O diagnóstico de autismo é feito geralmente antes dos três anos de idade, e a partir daí o tratamento é o grande aliado para a saúde mental da pessoa.
O autista apresenta comportamentos como gressão, automutilação, choro, falta de contato visual, gritos, hiperatividade, imitação involuntária dos movimentos de outra pessoa, impulsividade, interação social inadequada, irritabilidade, movimentos repetitivos, repetição de palavras sem sentido, repetição sem sentido das próprias palavras ou repetição persistente de palavras ou ações. O autismo apresentam três níveis e o terceiro é caracterizado como o mais grave. Neste geralmente o paciente apresenta depressão ligada ao distúrbio e é preciso um cuidado maior com as ações e o pessamento dele.
A estudante de Farmácia da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) Eloísa Helena de Moura, 19, foi diagnosticada com autismo aos 17 anos. A mãe Elizandra de Moura, 48, explica que Eloísa Helena sempre apresentou sinais da doença, o diagnóstico tardio se deu pela falta de especialistas acessíveis em Campo Grande, MS, na época. “Nós começamos a investigação com ela antes dos dois anos de idade, ela foi assistida por uma neuropediatra e depois foi feito um mês de observação por estudantes de psicologia de uma universidade privada aqui da região.” A mãe explica que a Eloísa Helena foi diagnosticada com ansiedade, "e mesmo assim foi prescrito para ela o medicamento neuleptil, próprio para autismo, o que controlava seu sono e ansiedade".
Elizandra de Moura fala que durante o uso do medicamento neuleptil não houve um acompanhamento terapêutico. Após o diagnóstico, “a Elena fez algumas sessões de terapia com a neuropsicóloga, foi para alguns psicólogos algumas vezes, mas precisou ter algumas trocas”. Ela explica que ainda não conseguiram achar um especialista, o que causa aumento na ansiedade e dificulta o sono da sua filha, “agora com ela na faculdade, a mudança de ambiente e a cobrança afetam ela, nisso é necessário um profissional que saiba lidar com uma pessoa já adulta, e a maioria cuida de crianças e adolescentes”.
Eloísa Helena fala que em nenhum momento da vida escolar teve um professor de apoio, e que o auxílio de um tutor começou apenas agora na faculdade. “Agora na faculdade, a UFMS me disponibilizou um apoiador, tutor, e ele sempre me ajuda quando eu preciso perguntar alguma coisa para o professor ou mandar email para o professor, ele até disponibiliza o notebook dele para eu estudar”.
O Instituto NeuroSaber classifica os níveis do autismo. As pessoas no Nível 1, considerado autismo leve, são pessoas com dificuldades em situações sociais, comportamentos restritivos e repetitivos. Elas conseguem executar atividades diárias sem auxílio direto de outra pessoa, no entanto, possuem dificuldade em manter uma conversa e amigos. São capazes de se comunicar verbalmente, e se sentem desconfortáveis com mudanças e situações que fogem do seu controle e da rotina.
No Nível 2, autismo moderado, o autista passa precisar de suporte para participar de atividades sociais, como se comunicar, nesse caso as conversas são mais curtas ou sobre assuntos específicos. Elas possuem dificuldade em permanecer em contato visual e expressar emoções pela fala ou por expressões faciais, apresentam comportamentos restritivos e repetitivos, e os sinais de desconforto quando há mudanças de rotina são mais intensos do que no Nível 2.
O último nível, Nível 3, conhecido como autismo severo, caracteriza as pessoas com grande dificuldade na comunicação e socialização, o funcionamento independente nas atividades cotidianas é comprometido. Muitos não falam ou não conseguem organizar suas ideias para se comunicar, o que os tornam na maioria das vezes incompreendidos, além disso, são sensíveis a determinados estímulos sensoriais. O balanço e a ecolia também caracterizam o autismo severo.
Eloísa Helena afirma que a principal característica que permanece desde sua infância até o momento é a estereotipia, que são comportamentos motores ou verbais repetitivos. “É algo que parece que até se agravou conforme minha ansiedade foi aumentando”. O comportamento social também tem interferência na vida da Eloísa Helena “tem muitas coisas que eu não sei fazer, por exemplo, alguém faz uma piada e eu acabo levando aquilo pro literal”. A mãe Elizandra de Moura conta que sempre precisa explicar quando algo é sarcasmo ou brincadeira “são coisas que só quem convive com ela e conhece ela sabe”.
Terapias como ferramenta para o desenvolvimento social
O tratamento do autismo é capaz de aumentar a qualidade de vida, melhorar a concentração, comunicação e redução de movimentos repetitivos. É indicado que o autista tenha o tratamento por uma equipe composta por médicos, psicoterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo e fisioterapeuta. Os profissionais devem indicar as terapias específicas para o paciente. Atividades de musicoterapia e equoterapia também podem contribuir para a melhora dos sintomas.
A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) busca trabalhar o impacto da condição autista em situações reais. O terapeuta ocupacional (TO) Alexandre Lopez explica que esse tratamento é a habilitação e reabilitação de perdas, por meio de atividades humanas. No espectro autista, o TO convencional trabalha as habilidades da criança do cotidiano, como resistência para colocar um calçado e de interagir socialmente. Enquanto o TO especializado com Integração Sensorial de Ayres, trata disfunção sensorial, que inclui dificuldades tátil, alimentação e até mesmo tapar o ouvido após ouvir um barulho que incomoda.
“Esse fator ambiental atrapalha o autista no dia-a-dia com a mania de ficar chacoalhando as mãos, por exemplo. Então, a gente faz essa reorganização sensorial para ele conseguir se regular. Temos equipamentos adequados e uma sala de integração social, onde trabalhamos estímulos táteis, sistemas aéreos, de força, de visão e audição. Possuímos equipamentos para todos os sentidos, específicos para cada caso”. O terapeuta afirma que o tratamento varia de acordo com o nível do espectro autismo. “Em alguns casos o tratamento é leve, a criança recebe alguns estímulos e não precisa mais da terapia. Já nos casos moderados e severos, a criança precisa de uma auto regulação, então o tratamento pode ser para o resto da vida”.
De acordo com a coordenadora da Associação de Pais e Amigos do Autista (AMA), Arlete Pereira Alonso no total são 25 profissionais que criam o cronograma de cada paciente do instituto e elaboram as atividades de acordo com as necessidades. “Às vezes o cronograma é montado em grupo ou de forma individual entre os professores. Essas oficinas trabalham com projetos, dentro deles a gente elabora as atividades, que são de acordo com as maiores necessidades. Aí monto os horários, onde eu tento organizar por faixa etária”. Além dos profissionais indicados, também são oferecidos serviços de nutrição, dentistas, oficinas, educação física e atendimento educacional especializado (AEE), são atendidas desde crianças até adultos no instituto.
Mariana de Castro conta que o papel da família é fundamental para o tratamento, que será mais eficiente se tiver continuidade em casa. Por isso, os profissionais instruem os pais, por exemplo, a pedir para a criança falar quando quiser algo. Assim, ela terá essa modelação no ambiente terapêutico e também fora dele, o que torna as chances de melhoras maiores. A escola também complementa o tratamento, pois há alguns modelos de intervenção que são próprios para o autismo, como terapias e o ABA. “A escola exerce um papel fundamental no autismo, que é justamente a interação social, da troca. Também é nela que se cria habilidades que são parte do amadurecimento comportamental. O autista tem que estar inserido em todos os lugares e um deles é a escola”.
A nutricionista, Alyne de Almeida é mãe da Helena, seis anos, e revela que descobriu o quadro grave de autismo da sua filha após os primeiros exames. “Ela estava com 2 anos e 7 meses, mas falas de uma criança de 9 meses. A evolução dela com o tratamento foi absurda. Às vezes temos um tratamento com ganho muito grande e outras vezes para e perde um pouquinho da evolução. Então é sempre uma luta, mas comparado a antes, a diferença é absurda”.
A taxatividade do rol da ANS
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) uma das discussões que envolvem terapias para o Tratamento do Espectro Autista. A votação sobre o rol de obrigatoriedades dos procedimentos listados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) se concentra na determinação entre taxativo ou exemplificativo. Na prática, o rol exemplificativo confere flexibilidade para os usuários do plano de saúde privado, pois os itens da lista não são fixos, outros procedimentos podem ser adicionados conforme a necessidade do paciente e o plano deverá conceder o tratamento. O rol taxativo estabelece uma lista imutável, sem possíveis adições e o usuário terá que recorrer a um pagamento privado ou ao Sistema Único de Saúde (SUS) para conseguir procedimentos fora da lista. A advogada e especialista em direito médico e da saúde Karen Chaves explica que pacientes entraram na justiça para conseguir tratamentos fora da lista. “Na prática, atualmente o plano de saúde nega administrativamente o procedimento, mas, após pleitear judicialmente, o beneficiário do plano de saúde consegue acesso ao tratamento para sua doença”.
O Congresso Nacional aprovou a Medida Provisória 1.067/2021, em fevereiro deste ano, que altera a Lei º 9.656, de 3 de junho de 1998, e atualiza as coberturas da saúde suplementar. A Medida Provisória se converteu na Lei nº 14.307, em 3 de marçi de 2022 e alterou a obrigatoriedade no custeio de tratamentos orais e domiciliares para pessoas com diagnóstico de câncer, determinou que o prazo para análise e incorporação de novos procedimentos deve ser de 180 dias e tornou obrigatório a inserção nos planos de saúde privados, de procedimentos que são obrigatórios pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Karen Chaves comenta que outra alteração benéfica para o consumidor que possui plano de saúde foi a inclusão de novas tecnologias no rol de procedimentos. “Quando houver tecnologia nova recomendada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), esta deverá (e, portanto, não é opcional) ser incluída no rol de procedimentos da ANS em até 60 dias. Por exemplo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) anuncia a incorporação de um medicamento para tratamento de atrofia muscular espinhal (AME) ao SUS. Medicamento que custa em média quarenta mil reais o frasco. Uma vez incorporado o medicamento ao SUS, este deve ser incorporado também ao rol da ANS”. Nos artigos da nova lei, a taxatividade do rol de obrigatoriedades não é mencionada.
De acordo com a Resolução Normativa nº 465 de 24 de fevereiro de 2021 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o rol é considerado taxativo pela agência, ou seja, a cobertura serve apenas para os procedimentos que estão na lista da agência. A ANS é o órgão que regula o setor de saúde suplementar, o serviço de saúde promovido pelo setor privado. De acordo com dados coletados em dezembro de 2021 pela ANS TabNet, o sistema de tabulação de dados da ANS, o número de beneficiários de Mato Grosso do Sul de assistência médica segundo competência chega a 615.083 pessoas, incluido os beneficiários que contém mais de um vínculo por plano.
Desde o ano passado, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julga a taxatividade do rol de coberturas obrigatórias da ANS e não concluíu o processo pois ainda falta o voto de ministros do Superior. Essa votação pode definir se os planos de saúde privados serão ou não obrigados a cobrir procedimentos que não estão incluídos na lista da agência. Nessa lista estão inclusos atendimentos, remédios e cirurgias. A última audiência de votação foi feita em 22 de fevereiro com o voto da ministra Nancy Andrighi, que votou a favor do rol de obrigatoriedades ser exemplificativo. O ministro e relator, Luis Felipe Salomão foi o primeiro a votar e expressou opinião contrária a da ministra Nancy Andrighi, com voto a favor da taxatividade.
Tratamentos médicos essenciais para o autismo poderão ser negados pelos planos de saúde privados se o rol for caracterizado como taxativo. A assessora de comunicação da Unimed Campo Grande, Evllyn Rabelo informou que a cooperativa de saúde está no aguardo julgamento do STJ e o posicionamento oficial da ANS para “planejar e oferecer a assistência necessária dentro de nossos recursos próprios para os beneficiários”. Outros planos como a Caixa de Assistência dos Servidores do Estado de Mato Grosso do Sul (Cassems) e o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (IMPCG) não apresentaram posicionamento em relação à votação do rol . Com a votação em andamento do STJ, a ANS divulgou em 24 de fevereiro de 2022, nota de esclarecimento sobre o rol de coberturas obrigatórias e alegou que atualmente o rol é taxativo.
De acordo com Karen Chaves, a lei pode facilitar o acesso ao tratamento multidisciplinar para o autista. “Apesar da Análise Aplicada do Comportamento (ABA) ainda não ter sido incorporada ao Conitec, já temos reconhecimento pelo Ministério da Saúde ao tratamento multidisciplinar para pessoas do TEA. Se associar esta informação às resoluções já existentes da própria ANS que trazem a cobertura obrigatória de número ilimitado de sessões de psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos para estes pacientes, me posiciono no sentido que a lei facilita o acesso ao tratamento multidisciplinar para o autismo. Entretanto, entendo que, ao menos por ora, ainda será necessário judicializar o pedido para a garantia do tratamento”.
O Diário Oficial de Mato Grosso do Sul publicou no dia 25 de abril uma medida que veta a limitação pelos planos de saúde a tratamentos para pessoas com o Transtorno do Espectro Autista. A medida é decorrente da Lei nº 5.863, de 20 de abril de 2022 e indica que a disponibilidade dos tratamentos fica à cargo de indicações médicas do responsável pelo tratamento do paciente. A lei ainda prevê penalidades para quem descumprir os termos, com multa de acordo com regulamentação própria. A multa será revertida para o Fundo Estadual de Defesa dos Direitos do Consumidor (FEDDC).
Os autistas e a Sociedade
“Há cada 44 crianças que nascem, pelo menos uma nasce com o Transtorno do Espectro Autista”. Essas são palavras da fonoaudióloga, especialista em linguagem, autismo e neurofuncional Marina de Castro Fregnan. Quando uma criança se comporta, e tem seu desenvolvimento diferente do das outras crianças, existe uma chance de a mesma ter autismo. O seu comportamento é diferente, um indício de que toda a sua vida terá distinção das pessoas que não apresentam o transtorno. Isso desde a infância até a vida adulta.
A realidade autista ganhou seu espaço no mundo. As pessoas convivem cada vez mais com indivíduos autistas e passam a saber mais sobre as dificuldades que eles passam. Aprendem que o autismo não tem rosto. Criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, que é celebrado anualmente no dia dois de abril, com o propósito de conscientizar a população a respeito do tema. O dia especial começou a ser comemorado em 2008. Em 2010, na data da comemoração, havia 70 milhões de pessoas autistas em todo o planeta.
Em Campo Grande, os responsáveis por celebrar o dia do autista é a Associação de Pais e Amigos do Autista (AMA), que em 2022 reuniu na Praça Ary Coelho, no centro da Capital, profissionais que trabalham na associação, pais e alguns alunos autistas, para distribuírem panfletos para as pessoas que por ali passaram.
A AMA é focada no Atendimento Educacional Especializado (AEE) para os autistas. Ela fica aberta para atendimento de segunda a sexta, manhã e tarde. Hoje, a associação oferece atendimentos com psicólogos, fonoaudiólogos, nutricionistas, dentistas, aulas de música, educação física e oficinas para crianças de três anos até adultos de 40. A coordenadora da AMA, Arlete Pereira fala sobre a importância da instituição para Campo Grande: “As famílias chegam aqui perdidas e a AMA vem para dar o apoio, dar o suporte e as orientação para essas famílias”.
Ao todo, a instituição conta com 25 profissionais para 120 pacientes atendidos, além da fila de espera de 360 autistas. Essa fila é proveniente do tamanho do prédio em que a AMA funciona, uma doação de um pai que é promotor de justiça. A associação vive de doações e eventos, como bazar e festa junina, para pagar as contas e o salário dos profissionais.
Para os autistas entrarem na AMA, é preciso que eles apresentem o laudo de Avaliação do Transtorno do Espectro Autista. Quando o indivíduo começa a frequentar o espaço da instituição, ele faz o tratamento ao longo da vida, e a menos que ele ou a sua família peça dispensa, o paciente não receberá alta e fará o tratamento, continuamente.
Cada paciente apresenta graus diferentes do Transtorno do Espectro Autista por isso, para cada um deles é feito um calendário específico, com base no seu laudo e nas suas necessidades. A coordenação faz o possível para que autistas de faixas etárias diferentes não façam aulas juntos.
Com a chegada da pandemia da Covid-19, as atividades da AMA passaram a ser remotas. Por causa da colaboração de uma voluntária, foi montado um plano de biossegurança que ajudou a associação a conquistar a autorização para retornar às atividades normais de forma presencial. Esse plano foi criado propriamente para a instituição, por isso só tem a versão a impressa. Algumas famílias voltaram a trazer os pacientes até a sede, todavia outras preferiram não se locomover por medo do vírus, e continuaram com os tratamentos à distância.
Todos os pacientes voltaram às atividades presenciais no inicio de 2022. Alguns dos autistas tiveram uma volta tranquila, os que apresentam o quadro mais grave tiveram um regresso no tratamento, e até relutam para entrar nas salas ou só querem realizar uma atividade específica.
Para a neuropedagoga e mãe de um autista de 26 anos, Maria Helena Miranda a associação é de total importância no desenvolvimento do seu filho. “Ele gosta muito de vir para a AMA. Ele não aceita fazer terapia em consultório particular, então quando ele sente que vem para a AMA, pela camiseta de uniforme, ele fica animado. Ele gosta de todas as atividades daqui”.
A comerciante e avó de um menino autista de oito anos Eliana Peixoto Barbosa revela que a maior diferença da AMA é o acolhimento, pois a associação se adapta ao paciente e as suas necessidades, diferentemente das outras instituições, que obrigam os autistas a se acostumarem com a rotina que seguem ali. As pessoas que apresentam o transtorno autista não gostam, que é seguir regras.
O neto de Eliana Peixoto Barbosa foi diagnosticado com dois anos, e com três anos o filho de Maria Helena Miranda. O laudo deles trouxe, além do medo de não saber como criar uma criança com o transtorno, muitas dificuldades perante a sociedade. Inclusive na hora de estacionar perto da AMA. A instituição fica localizada na Avenida Bandeirantes, no bairro Amambaí, e recentemente foi colocada a faixa amarela que proíbe os motoristas de estacionarem e até mesmo parar. Isso impede que os pais que levam os seus filhos para o tratamento estacionem próximo à associação.
Maria Helena Miranda relata as dificuldades para parar o carro próximo à instituição. “Nós temos que estacionar na outra rua e andar com eles até a AMA. Mas meu filho não tem autonomia de vir sozinho. A direção da AMA disse que já falou com várias autoridades e eles responderam que não podem fazer nada.”. O filho dela, uma vez, quase foi atropelado, pois ela estacionou o carro e ele correu em direção à instituição. Isso acontece porque eles não têm noção do perigo e são muito imperativos.
Além disso, a vida social dos autistas é restrita. Por exemplo, o jovem autista de 26 anos que é filho de Maria Helena Miranda, não gosta de lugares movimentados. A mãe procura levá-lo para sair,para locais que não tem muita gente, e em dias de pouca movimentação. E mesmo com idade adulta, o jovem não tem relações interpessoais, algo agravado pelo fato dele ser um autista não verbal, ou seja, ele não fala.
O neto de Eliana Peixoto Barbosa, ele encontrou dificuldades no ensino quando tinha apenas cinco anos e era matriculado em uma escola pública da cidade de Jardim, município do Mato Grosso do Sul. Ele foi convidado, pela diretoria da escola, a se retirar, pois segundo eles, o menino atrasava o aprendizado das outras crianças. A avó do menino foi ao Ministério Público da cidade, à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a um dos jornais do município para relatar o ocorrido. Após isso, o menino continuou frequentando a escola, por outro lado a coordenação não buscou melhorar a educação especial.
As mães afirmam que muitos lugares são propensos a desencadear uma crise nas pessoas autistas. Eliana Peixoto Barbosa explica como se planeja para passear com o neto. “Eles chegam e é muita informação, e eles não se organizam, querem isso e aquilo e não podem pegar ou comer tudo, e a gente não pode comprar tudo. Então agora eu só o levo em dias específicos. Agora nos shoppings existem dias especiais, como Páscoa e Natal que reservam um horário só para os autistas. E é assim, horários e dias específicos. Não vou por ali, vou pelo outro lado que é melhor”.
Maria Helena Miranda afirma que esses casos acontecem mais na infância. Quando eles crescem, essa imperatividade diminui por conta do crescimento e amadurecimento. “Eu nunca pensei que meu filho fosse assistir um jogo de futebol, e hoje ele gosta, senta e assiste”.
Os níveis do autismo são fatores determinantes de como os autistas se portam perante a sociedade. A estudante do curso de farmácia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Eloísa Helena de Moura (19) é um exemplo, que diferente do filho de Maria Helena Miranda, tem o laudo questionado pelo fato dela falar e se articular bem.
Quando tinha 17 anos, Eloísa Helena de Moura, foi diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela fala que esse diagnostico tardio pode ter acontecido pelo fato de ainda existir um preconceito com as meninas em relação aos meninos, que neles os exames são feitos mais rápido, enquanto que nelas os médicos têm uma série de dúvidas antes de constatarem o transtorno, em definitivo. A estudante de farmácia relata que o seu desenvolvimento ocorreu após a adolescência, pois antes ela usava fone de ouvido na maior parte do tempo, por causa dos barulhos. A mãe dela e também estudante do curso de farmácia na UFMS Eliandra de Moura sempre desconfiou do comportamento da filha por causa das crises de ansiedade, da repulsa ao barulho e por ela ter uma seletividade alimentar que se baseia na textura que as comidas apresentam, como a carne.
Atualmente, Eloísa Helena de Moura frequente bares, restaurantes e teve um namorado, o que aconteceu pelo seu esforço para se adaptar. A universitária revelou que frequenta o bar Escobar, que fica próximo a UFMS e a maioria das pessoas que vão até lá são os estudantes da faculdade. Em determinados momentos como, barulhos altos de veículos, a estudante se sente incomodada ao ponto de ter que tapar os ouvidos. Essa reação faz parte das características de pessoas diagnosticadas com autismo, que podem apresentar sensibilidade a sons.
Essa adaptação também aconteceu nos estudos. Elizandra de Moura revela que a filha passou a ter facilidade no aprendizado das disciplinas e de línguas estrangeiras. “Coloquei ela no curso de inglês, e ela aprendeu tão rápido que terminou o curso em meses”.
A estudante de farmácia é apreciadora das séries que retratam a realidade autistas, como Atypical e The Good Doctor. Eloísa Helena de Moura critica as tramas, pois é mostrado que os autistas são super dotados e com pouca capacidade de se relacionar. O que na verdade não é realista, pois nem todos os autistas fazem faculdade, e alguns se relacionam com facilidade como ela. Isso faz parte do senso comum que a sociedade tem em relação às pessoas com o transtorno. Além disso, o autismo não tem cara, e não é algo que é mostrado com facilidade como a Síndrome de Down.
Eloísa Helena de Moura revela um episódio que passou em um supermercado de Campo Grande. “Minha mãe e eu estávamos no supermercado, e eu já estava estressada porque passaram com o carrinho por cima do meu pé. Então nós fomos passar as compras no caixa preferencial e um rapaz com caixas de cerveja passou na nossa frente, e fui falar para o rapaz do caixa que eu era autista e ele não ligou. Com isso começou a me dar uma crise de ansiedade, e as pessoas que estavam no caixa ao lado deixaram a gente passar na frente”.
Após o episódio, Elizandra de Moura perguntou o nome do atendente do caixa e relatou o ocorrido para o gerente do supermercado. Cm esses casos de falta de empatia com as pessoas autistas, Eloísa Helena de Moura ingressou na faculdade, e conta que seus sonhos ainda não acabaram. “Quero namorar, casar, ter filhos e viver da profissão que eu escolhi”.
Na capital sul-mato-grossensse surgiram projetos voltados para crianças autistas. Como a Associação Flor de Cerejeira, criado pelo instrutor de judô Romeu Saravy Chita Junior, após o diagnóstico do seu filho como portador do Transtorno do Espectro Autista. O projeto foi inaugurado em 2018, sem fins lucrativos.
No início a Associação Flor de Cerejeira atendia somente oito crianças, número que cresceu e passou a abranger 44 assistidos. A atuação do projeto com as crianças que apresentam autismo é nas áreas de assistência social, educacional, amparo e serviço de proteção básica vinda do esporte. A associação busca desenvolver o estímulo dos sentidos e da socialização com outras pessoas. Além da concentração, algo de maior dificuldade para os autistas. Isso faz com que os alunos sejam mais independentes.
20220329-152400