Por Giovanna Cristina Da Silva
A população brasileira envelhece em ritmo acelerado, a expectativa de vida no país aumentou para 76,6 anos em 2019. A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que em 2050, a população idosa de Mato Grosso do Sul chegue a 19,7%, o que ultrapassará o total de crianças entre zero e 14 anos, estimada em 17,61%. O aumento da população idosa reforça a necessidade de meios que promovam o envelhecimento saudável e de qualidade, com a introdução da prática de atividades físicas, atividades de lazer, alimentação saudável e redução do consumo de substâncias tóxicas.
Segundo o documento da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), vivemos a "Década do Envelhecimento Saudável" que abrange o período de 2020 a 2030. O envelhecimento ativo consiste em otimizar as oportunidades de saúde, participação e segurança com o objetivo de aumentar a expectativa de uma vida saudável e com qualidade para quem está em transição para a terceira idade. O Estatuto do Idoso assegura que é obrigação do Estado efetivar políticas públicas que garantam o envelhecimento de qualidade da população.
INFOGRÁFICO DADOS
Para a médica Geriatra Ana Paula Penaforte o envelhecimento saudável e ativo é importante para evitar problemas de saúde, como a perda muscular, perda de força e energia. Ela ressalta que manter a boa movimentação do corpo e se manter ativo é o que determina a qualidade de vida. “Eles podem optar pela academia ou atividade física e também algum tipo de trabalho como o artesanato e algum talento descoberto após a aposentadoria. Tem muita importância a manutenção da boa atividade com a qualidade de vida”. De acordo com Joana Mangini, 73, aposentada "a transição para a melhor idade foi tranquila", ela afirma que se mantém ativa. “A minha rotina é uma rotina de atividade física, não paro não, faço caminhada. Eu estou no envelhecimento saudável, porque eu faço atividade física”.
ÁUDIO ANA PAULA SOBRE CUIDADOS
Um fator importante na promoção do envelhecimento saudável e ativo é a alimentação. De acordo com a nutricionista da Casa de Repouso "Salmos 23", Pâmela Leal para que haja um bom processo de nutrição, é necessário que o corpo se movimente de forma regular. “É muito importante manter o movimento corporal porque isso ajuda na absorção dos nutrientes. O idoso precisa da dieta, mas sem o movimento do corpo é difícil que a dieta funcione”. A nutricionista realiza atendimento com idosos em Campo Grande há 11 anos e relata que casos de desnutrição e desidratação são os mais comuns.
VÍDEO PAMELA SOBRE DESNUTRIÇÃO
Erson Wolff, 64, aposentado relata que trabalhou em seu processo de envelhecimento durante muito tempo. Para ele, é importante buscar informações e cuidados, de modo a se preparar para quando a terceira idade chegar. “Eu busquei informações por meio de leitura e relatos pessoais de pessoas próximas que tinham entrado nessa fase. Foi com essa busca que eu consegui ver uma luz no final do túnel para me direcionar”. Para Rui Minoru, 70, aposentado a chegada do envelhecimento foi um processo natural. Ele relata que tinha poucas expectativas sobre a terceira idade e que esperava que houvesse um decréscimo em suas atividades. “É preciso deixar de se lamentar que agora está velho e aproveitar muito bem a terceira idade, porque ela é ótima”.
VÍDEO ERSON IMPORTÂNCIA ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL
Silvana Melo, 65, aposentada ressalta o preconceito da sociedade com as pessoas da terceira idade porque elas deixam de trabalhar e "aos olhos do sistema capitalista, tornam-se improdutivas". Para Minoru deixar de trabalhar de forma acelerada é uma vantagem da "melhor idade", “sempre trabalhei com vendas e tinha na cabeça que precisava matar um leão por dia, me preocupava muito se ia ter dinheiro para pagar as contas fazendo o meu trabalho e a preocupação era muito desgastante”. De acordo com Joana Mangini, 73, aposentada as atividades físicas que realiza tornaram o envelhecimento "mais interessante e confortável". "Eu faço academia, faço dança, faço caminhada, faço um monte de coisa, na verdade. Tem que se manter saudável, eu não sinto como se eu tivesse a idade que eu tenho. Por isso, é muito importante estar ativo e saudável na nossa idade”.
Bem estar físico e mental na terceira idade
De acordo com o psicólogo Brendon Henrique Ramos, o atendimento psicológico na terceira idade é fundamental, uma vez que os idosos passam por diversas perdas, seja em relação à saúde física e à saúde mental quanto em relação aos laços afetivos. “O idoso passa por uma série de perdas e o acompanhamento psicológico é importante para validar o idoso e aquilo que ele sente. As perdas geram sentimento de frustração, ansiedade, angústia e sentimento de solidão e a psicoterapia pode trazer ao idoso uma perspectiva, um olhar diferente para a vida”. O psicólogo ressalta que a falta de informação, de condições financeiras e de apoio familiar são as principais causas que impedem o idoso de procurar auxílio psicológico. Para a nutricionista Pâmela Leal o idoso deve ser ouvido, ela afirma que, muitas vezes, profissionais e familiares deixam de se importar com o que os idosos querem falar ou se expressar. “Quando eu atendo, eu escuto, como nutricionista eu presto muita atenção na fala do meu paciente, o que ele está me falando e muitas vezes através da fala sei o que está o afligindo”.
ÁUDIO BRENDON O QUE ACONTECE É QUE NAO HA INFORMAÇÃO
Segundo o psicólogo Brendon Henrique Ramos o que causa resistência em alguns idosos a procurarem por atendimento psicológico, é a falta de informação e de conhecimento sobre o que consiste a psicoterapia. Promover o conhecimento por meio de campanhas, programações e informativos públicos, são meios de estimular os idosos a procurarem auxílio psicológico. “Hoje nós temos um alto índice de idosos em depressão e com ideação suicida, então é necessário falar para o idoso os benefícios de sair, de lidar com a depressão, ansiedade, com a angústia e com as perdas”. Para Rui Minoru, 70, aposentado é necessário exercitar a mente com comandos ativos, sem se intitular como “velho”. “Aquele que acha que a vida terminou, que é velho, sem energia, sem saúde e paciência, com certeza a vida dessa pessoa acabou, agora se você resistir e manter sua mente saudável, sua saúde será controlada. Uma coisa que acho fantástico nessa idade é saber dosar”.
FOTO RUI
O psicólogo Brendon Henrique Ramos ressalta que nós somos seres sociais e necessitamos de atividade física e convívio social. Segundo o profissional de educação Física José Benedito da Silva é importante que o idoso mantenha uma rotina de exercícios físicos para estimular a capacidade funcional, pois o envelhecimento pode afetar a mobilidade corporal e ressalta que o convívio e o contato com outros idosos contribuem para a sociabilidade e manutenção da saúde mental. O profissional de educação Física Wanderley Bida ressalta que o planejamento físico de exercícios para os idosos é feito mediante uma anamnese com o aluno paciente, onde as atividades são idealizadas de acordo com as condições físicas e clínicas de cada idoso.
ÁUDIO BRENDON AQUI NÓS TEMOS O VOVÓ ZIZA
O educador físico José Benedito da Silva ressalta que quando os idosos procuram por atividades físicas, os problemas vão além das limitações físicas. “Dores musculares e nas articulações são as principais queixas dos idosos no momento em que procuram pelos exercícios, mas a maior dor é a do abandono e a discriminação social. Com as aulas nas academias ao ar livre eles se soltam, são ouvidos e talvez esse seja o melhor momento do seu dia”. A médica geriatra Ana Paula Penaforte destaca que, muitas vezes, faltam espaços preparados para a população idosa nas cidades. “As cidades, no geral, não são muito bem preparadas para os idosos. Não existe uma facilidade de deslocamento, de acesso, e de coisas em geral, para aqueles que têm alguma dificuldade. Então isso por si só já é um empecilho”. A nutricionista Pâmela Leal ressalta que o idoso precisa receber acompanhamento de profissionais capacitados e de uma equipe multidisciplinar ao longo do tratamento. “Você trabalhar com a equipe multidisciplinar é muito importante, porque todo paciente é diferente. Um técnico de enfermagem interessado, um médico, um fonoaudiólogo, faz diferença”.
O papel da família no envelhecimento saudável
A presença e o apoio familiar são muito importantes na transição da fase adulta para a terceira idade. Segundo a médica geriatra Ana Paula Penaforte o papel da família é crucial e fundamental na vida do idoso. “Aqueles que têm uma família pró-ativa, presente e que vive junto ou ao menos exerce o convívio regular, são os que vão ter um suporte muito melhor”. A nutricionista Pâmela Leal destaca que a presença dos familiares nas atividades diárias dos idosos acamados são essenciais, principalmente durante os atendimentos médicos. “No momento que o fisioterapeuta começa a movimentar o braço, perna do seu avô, você também pode fazer isso. Você como filha, filho, neto, né? Você pode mexer a mãozinha, o bracinho da sua vó. Esses momentos são muito importantes”.
ÁUDIO ANA PAULA VERMELHO ESCURO
Para Erson Wolff, 64, aposentado a presença familiar o ajudou na busca de informações sobre a fase da terceira idade. Ele ressalta que a troca de ideias com as pessoas à sua volta o ajudou com dúvidas e anseios durante o processo de envelhecimento e que foram mais relevantes do que as respostas encontradas em livros ou vídeos. “A presença familiar me ajudou muito, tanto no aspecto funcional como no cognitivo. Me fazia ter ideias, fornecia sugestões e isso me proporcionou uma melhor condição de vida”. Joana Mangini, 73, aposentada ressalta que o apoio familiar foi essencial em seu processo de envelhecimento. “A família é importante, a minha é reduzida, só tenho uma filha. Mas a presença dela e dos meus três netos são fundamentais para mim”.
VÍDEO ERSON VERDE ESCURO
Segundo a nutricionista Pamêla Leal o papel da família no processo de envelhecimento é de estímulo e de apoio. Ela ressalta que é importante mostrar para o idoso que ele pode ter autonomia nas tarefas diárias. “Algumas famílias pensam “nossa, ele trabalhou muito então não precisa fazer o almoço, vou deixar ele quietinho na sala” e isso é um engano que nós praticamos. Pode ser só cortar uma cebola ao invés do almoço todo, isso mostra para o idoso o que ele ainda consegue fazer. É muito importante a colaboração principalmente na alimentação”. Rui Minoru, 70, aposentado ressalta que soube aproveitar seu tempo livre, que se considera ativo e mantém em mente quais são as suas limitações. “Quando percebi que não tinha mais obrigações, eu ia em um pesqueiro todo final de semana e ficava de sexta a domingo lá. Temos que saber aproveitar a terceira idade, mas sempre conhecer os limites”.
FOTOS QUE A NUTRI MANDOU
Pandemia e envelhecimento ativo
FOTOS QUE O EDUARDO MANDOU
Segundo a professora do curso de Fisioterapia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e pesquisadora do envelhecimento saudável, Suzi Rosa Miziara Barbosa a pandemia impactou negativamente o envelhecimento. Para ela, o isolamento social restringiu a mobilidade dos idosos, o que refletiu nos sistemas funcionais e fisiológicos do corpo, ela acredita que o atual momento da pandemia possibilita a retomada gradativa das atividades presenciais, apesar da pouca adesão. “Observamos que muitos idosos ou seus familiares apresentam restrições pessoais quanto à participação nas atividades sociais”. Para Rui Minoru, 70, aposentado a pandemia afetou sua rotina diária de atividades, ele ressalta que procurou manter a mente sã. “No dia a dia afetou, mas não fiquei depressivo, deprimido. De vez em quando eu faço uns bicos de vendas e esse meu trabalho não me obriga a estar lá, eu encaro esse negócio de comercializar com prazer, as vezes quando não tenho o que fazer eu saio com a minha sacola e vendo. Você percebe que atividades como o tricô, deixam o coração e a mente ativa, nós somos uma máquina e a mente e o coração precisam estar ativos”.
FOTO RUI
Segundo Joana Mangini, 73, aposentada o auge da pandemia trouxe impactos à sua rotina de exercícios físicos, que se normalizou quando a pandemia atingiu a fase de controle. “Durante o momento de pico da pandemia fechou tudo, você não podia fazer nada de atividade extra fora de casa. A academia fechou e eu fiquei sem ir e depois voltou, eu voltei a fazer caminhada para me manter ativa”. De acordo com Erson Wolf, 64, aposentado a pandemia impactou alguns aspectos da sua rotina. “Eu deixei de participar das aulas presenciais da Universidade Aberta para Pessoas Idosas (UnAPI), por questões de saúde, precisei me deslocar e ajudar alguns familiares pela dificuldade que estavam passando. Meu irmão adquiriu a Covid-19 e quase chegou ao estágio da intubação e isso requer disponibilidade, então tive dificuldade para assistir as aulas online”. Erson Wolf ressalta que deixou de realizar atividades físicas devido às recomendações da Secretaria de Estado de Saúde para que, principalmente os idosos, permanecessem em casa. “Deixei de realizar as atividades que eu exercicia, que era muito bom, tive que me restringir e seguir as orientações para o meu próprio cuidado e para o próprio cuidado da minha esposa. Nós temos a consciência tranquila que fizemos o que estava ao nosso alcance, o que obviamente interferiu na minha sequência de vida”.
FOTO ERSON
Velhice e doença, antônimos
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a nova edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 11), que entra em vigor em 2022, incluirá o termo - velhice - como doença. O novo termo, sob o código MG2A, gerou críticas à Instituição. As opiniões são contrárias a adição do novo termo, que de primeiro momento pode ser considerado positivo porque motiva novos estudos sobre o envelhecimento. A inclusão da expressão pode reforçar estereótipos negativos já existentes contra a população acima de 60 anos.
INFOGRÁFICO SOBRE ENVELHECIMENTO ATIVO
A médica geriatra Ana Paula Penaforte é contrária à inclusão do termo na categoria de doença. “A velhice não é uma doença, o envelhecimento é um processo, uma etapa natural da vida, e ela não vem obrigatoriamente junto com problemas de saúde”. Representantes das instituições responsáveis pela promoção do bem estar da população idosa brasileira, como a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa divergiram sobre a inclusão do termo "velhice" como doença. Para eles, as causas de óbitos dos idosos serão generalizadas, o que gerará negligência e falta de investigação sobre a real causa.
Segundo a nutricionista Pâmela Leal a velhice é antônimo de doença e ressalta que o envelhecimento faz parte do ciclo natural da vida. Para ela, a inclusão do termo na categoria de doença é precipitada. “Vai ser um impacto nos programas de saúde, e também em como classificar algumas patologias que fazem parte do processo de envelhecimento”. De acordo com a nutricionista, os profissionais de saúde têm consciência que uma pessoa idosa sem comorbidades pode vir a óbito por causas naturais e é inapropriado a necessidade de um CID para descrever esta condição.
FOTOS
Como é ser idoso em Campo Grande
Exercícios físicos e mentais são recomendados para manter o corpo ativo e promover o envelhecimento saudável e bem estar do idoso. Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, existem opções que oferecem aulas de esporte, academias ao ar livre e universidades especializadas para a população idosa. A Universidade Aberta para Pessoas Idosas (UnAPI), vinculada a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) oferece atividades de extensão como cultura, esporte, prestação de serviços em assistência à saúde e orientação jurídica às pessoas idosas. Para Erson Wolf, 64, aposentado a UnAPI cita pontos importantes que muitos idosos desconhecem acerca de seus direitos. "Me recordo que nas aulas da UnAPI foi falado sobre o estatuto do idoso, poucas pessoas da minha turma de 54 idosos, tinham conhecimento básico sobre o estatuto”.
VÍDEO ERSON SOBRE CG E POLÍTICAS PÚBLICAS
De acordo com o profissional de educação Física Wanderley Bida a Fundação Municipal de Esporte (Funesp) disponibiliza vários programas de atendimento ao idoso, como academia ao ar livre e projetos de dança e zumba e ressalta que falta divulgação para que esses projetos alcancem o público alvo. “Tem várias academias ao ar livre nas praças dos bairros de Campo Grande direcionadas a esse público, também temos o Centro de Convivência do Idoso (CCI) "Vovó Ziza", com inúmeras atividades, natação, hidroginástica, dança, jogos de tabuleiro, culinária e outros”. Para o psicólogo Brendon Henrique Ramos, a cidade de Campo Grande possui um diferencial na promoção do envelhecimento ativo com o CCI "Vovó Ziza", com as praças que possuem atividade ao ar livre, com as unidades básicas de Saúde (UBS) que realizam atividades físicas com os idosos e com projetos em bairros periféricos.
ÁUDIO RUI SURPRESA QUE TEM BASTANTE COISA
Para Rui Minoru, 70, aposentado a Universidade Aberta à Pessoa Idosa (UnAPI/UFMS) é um local que oferece acolhimento e aprendizado. Ele ressalta que deveria ter mais divulgação sobre os cursos que são oferecidos, “eu não sei até hoje como um curso com tanto material, gratuito, com tanto networking que você pode fazer em cima disso, possui poucos alunos. Por exemplo, no curso de envelhecimento saudável somos só quatro alunos, e é pouca participação inicial, não é nem de desistência”. Minoru ressalta que é necessário aprimorar a divulgação das atividades oferecidas pela UnAPI, pois se fosse realizar esses cursos em um ambiente privado, haveria gastos. “Se fosse pagar por fora, você não acharia por menos de mil reais, os idosos representam um quarto da população brasileira e lá na UnAPI tem muito local vazio”.
VÍDEO RUI COMO DESCOBRIU A UNAPI
envelhecimento-saudavel-primeira-noticia