Por Gabriela Baldi Longo
DEFINIÇÕES
O conceito de gênero trata de um conjunto de seres que possuem características em comum, segundo o dicionário Michaelis. Sexualidade é o aspecto da vida que engloba os fenômenos da vida sexual, ainda conforme o dicionário. O cientista político e coordenador do Impróprias grupo de pesquisa em gênero, sexualidade e diferenças da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Tiago Duque afirma que os conceitos de gênero e sexualidade estão interligados por constituírem a identidade de todo e qualquer indivíduo na cultura da sociedade e é necessário também tratá-los de forma separada por representarem necessidades humanas diferentes. A identidade de gênero diz respeito a maneira como o ser humano se percebe na sociedade, por meio de múltiplas identificações entre masculinidades e feminilidades, por exemplo, ao passo que sexualidade refere-se ao desejo afetivo-sexual manifestado pela homossexualidade, heterossexualidade, bissexualidade, assexualidade ou pansexualidade.
A pesquisa Juventudes e Sexualidade da UNESCO revela que o processo de iniciação da vida afetiva-sexual do jovem perpassa por modelos de “feminilidade” e “masculinidade” de modo a determinar seu comportamento. O jovem passa a se encontrar em novos papéis ao socializar com seus parceiros e exercer sua sexualidade, o que influencia na construção de sua identidade, que se constrói por meio da dialética, isto é, confronto com seus valores e crenças. Jovens do sexo masculino iniciam a vida sexual na faixa etária entre 10 e 14 anos e do sexo feminino entre 15 e 19 anos, de acordo com dados coletados pela pesquisa. As escolas iniciaram o debate de gênero e sexualidade por serem instituições sociais que integram a vida dos adolescentes em sua fase de iniciação sexual.
AMBIENTE ESCOLAR
A diretora pedagógica da Escola Municipal José Dorilêo de Pina, Maria de Fátima Ardaia explica que a escola realiza, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SEMED), ações em sala de aula com o objetivo de incentivar o respeito à diversidade. “É uma questão de respeito pelo outro e pela escolha do outro. Em 2017 nós trabalhamos um ano inteiro com os professores sobre gênero e diversidade de gênero e todas as nossas formações foram voltadas nesse sentido”. A escola presta auxílio a jovens em processo de questionamento de gênero e sexualidade e faz o intermédio entre estudantes, familiares, Conselho Tutelar, Defensoria Pública e o Sistema Público de Saúde (SUS). A instituição possui acompanhamento psicológico disponível para alunos e familiares neste processo.
O estudante do curso de Ciências da Computação do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), Felipe Dias relata sua experiência como homem gay e explica que se sentiu de fora dos padrões que aprendeu. "Minha visão de ver as garotas era diferente dos outros, eu brincava de boneca, mas sabia que era diferente dos exemplos que me ensinavam, só que não entendia o que eu sentia. A escola me influenciou bastante pela forma que me comportava, me anulei e retraí várias vezes dentro da escola com medo e, depois da escola, consegui ser mais confiante e me libertar”. Maria de Fátima Ardaia enfatiza que deve haver o acompanhamento da escola em questões de gênero e sexualidade para evitar casos de bullying. “Em casos de bullying nós intervimos com os pais dos alunos, relatamos os fatos, fazemos trabalho em sala sobre preconceito. É um momento que temos que estar ali, próximos”.
“Em 2017 acabei efetivamente trabalhando com a área de sexualidade e gênero, muito por observar algumas situações que aconteciam dentro da escola, de preconceito em relação a alguns colegas tanto da minha sala como de outras”. O relato é do pesquisador da UFMS Fabrício Pupo, integrante do grupo Impróprias, que aos 15 anos desenvolveu uma análise da obra “Garota Dinamarquesa”, com viés de gênero e sexualidade. Em 2021, Pupo tem três estudos distintos na área. “Acredito que o que tenha me chamado mais atenção foram os apontamentos feitos pelos jovens de ações que as escolas já estão adotando, como a autorização do uso do banheiro pela identidade de gênero com qual a pessoa se identifica, o próprio uso do nome social nas provas e chamadas que algumas escolas têm adotado e principalmente as discussões promovidas pelos professores”.
A Liga Acadêmica Multidisciplinar em Saúde do Adolescente (LAMSA) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) trabalha com pautas de educação e saúde sexual para adolescentes em diversos espaços, inclusive nas escolas, com ações educativas e debates com os alunos. A diretora da LAMSA, Soraya Solon explica que as ações nas escolas acontecem em parceria com a coordenação pedagógica e se adapta às regras colocadas por cada uma delas. Dessa forma, pode ocorrer durante um período maior ou menor de tempo, em grupos que se conhecem ou não se conhecem e com diferentes linguagens conforme a idade dos participantes.
Soraya Solon esclarece que a metodologia utilizada pela Liga é participativa e reflexiva com base no projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE) instituído pelo Ministério da Saúde e Ministério da Educação. “Não é palestra, é um modelo de trabalho lúdico com poesia, com música, movimento, quebra-gelo no início, despedida no final, envolve afeto, olho no olho”. A diretora ainda relata que o SPE categoriza o assunto em oito folhetos e quatro deles permeiam as questões de gênero e sexualidade, entre eles gênero, saúde sexual reprodutiva, infecção sexualmente transmissível, diversidade sexual. A atuação da Liga atende as necessidades solicitadas por cada diretoria ou pelos adolescentes.
Soraya Solon cita os diferentes questionamentos levantados pelos adolescentes em salas de aula acerca do assunto de gênero e sexualidade, entre eles estão “qual é a definição de gênero?”, “qual é o significado de sexualidade?”, “em uma relação homossexual é necessário usar camisinha?”. A diretora da LAMSA afirma que as questões dos adolescentes são importantes, pois “fica claro o interesse dos alunos para a gente explicar o que é sexualidade e o que é gênero. É bom porque nós fazemos essa relação de que sexualidade é uma coisa, gênero é outra”.
Pupo ressalta a importância da escola adotar práticas positivas, por ser o primeiro local de convivência social fora de casa, ser apontada hoje como um ambiente hostil, além de ser um ambiente de transformação por meio da educação, e assim obter ações efetivas sobre o tema. “A grande questão para se resolver esse problema é que esse tema seja incluído na pauta didática, no posicionamento político da escola, no currículo didático. Só assim o professor terá uma base, algo para falar que esse tema está incluso no material didático e vai abordar porque é um tema visto como fundamental na sociedade brasileira”.
EXPERIÊNCIAS
A estudante do curso de Jornalismo da UFMS, Emily Lima é bissexual e relata que seu processo de questionamento acerca de sua sexualidade começou aos 11 anos de idade ao perceber que estava apaixonada por sua melhor amiga. “Foi muito confuso porque na época eu era bolsista de um colégio religioso e aquilo tudo era muito errado. Eu achava que eu era lésbica porque bissexualidade não era muito discutido na época então com 11 anos eu achava que eu era lésbica, era uma pecadora e que eu iria morrer no inferno. Foi só aos 15 anos que eu entendi que eu era bissexual”. O diálogo sobre sexualidade e as diferentes orientações sexuais que o ser humano pode ter ao se mudar para uma escola pública foi fator determinante para Emily Lima se entender como uma mulher bissexual na sociedade.
Emily Lima evidencia que a fase mais difícil de sua vivência escolar foi no decorrer do ensino fundamental, onde frequentava uma escola religiosa, vivenciou o preconceito e a homofobia enquanto uma adolescente assumida durante esse período. A estudante relata que era constantemente rotulada ao ficar com outras meninas e que levou um tempo para assumir sua sexualidade, mas durante seu ensino médio o cenário melhorou. “O ensino médio foi onde eu me senti mais acolhida, outras amigas também se descobriram. No meu terceiro ano, tive uma turma praticamente LGBT com muitas pessoas se descobrindo, se questionando (...) saí do ensino médio me assumindo como bissexual com as minhas causas”.
A estudante também afirma que ser bissexual na sociedade engloba o desafio de enfrentar a sexualização e o constante julgamento de que são pessoas confusas e promíscuas. “A bissexualidade, quando não é invisibilizada, sexualizada nessa cultura cis-heteronormativa e binária, é vista como uma orientação sexual duvidosa, que se encontra “em cima do muro”, ou seja, um estágio de desenvolvimento sexual”. Emily Lima ainda declara que esses discursos atrasam e dificultam o avanço do movimento LGBTQIA+.
A cientista Social Fernanda Campos relata as lembranças que teve no ensino médio em relação a sua sexualidade. “Lembro muito do ensino médio, que entrei namorando a distância e basicamente era a única menina lesbica assumida, não a única que beijava meninas, porque tinha uma amiga que era bi e devia ter outros perdidos ali, mas meu grupo de amizade era só entre meninas héteros, e lembro que era muito sedenta por um relacionamento, porque todo mundo namorava e chegava final de semana estava todos com seus respectivos cônjuges. E, não sei se naquela época por não existir muita menina assumida, eu acabei me relacionando com muita menina hetero e querendo ou não, afetou minha autoestima, segurança, pelas questões de não se assumir, como não me assumir, assumir um garoto e não me assumir".
A cientista também aborda os preconceitos que ainda existem, apesar de acreditar que as coisas evoluíram. “Ainda é melhor ser lésbica hoje, do que era ser a 20 a 30 anos atrás. Hoje tenho 24 anos, minha adolescência foi de 2010 pra frente, hoje é muito tranquilo até certo ponto, mas não é como se a gente não recebesse olhares feios na rua quando estamos de mãos dadas com as namoradas. Já perguntaram se eu e minha namorada somos irmãs, por mais que pareçamos um pouco, não é motivo para nos parar e perguntar, mas as pessoas não têm coragem de perguntar ‘vocês namoram?’. Então assim, ainda mais nesse momento, nesse contexto de governo que estamos vivendo, não é tão difícil, mas ainda não é fácil, principalmente se você considera os marcadores de cada mulher lésbica, como cor, raça e enfim. Mas acho que pra gurizada de hoje, é muito melhor do que na minha época, porque hoje existem muitas referências, Netflix tá aí com várias personagens, as coisas são mais divulgadas, discutidas, então talvez seria diferente”.
O estudante do curso de Design Gráfico da Universidade Federal de Goiás (UFG), Bell Amancio relata os desafios que permeiam a realidade de um homem trans na sociedade. “É dificil, a gente lida com muita coisa dificil, o Brasil ta ai sendo campeão de assassinatos de pessoas trans, mas ao contrário das mulheres trans, os homens trans tem muito menos visibilidade, é como se não existíssemos, é só olhar nos dados de assassinatos, quem eles mais matam é mulher trans, a porcentagem é muito baixa porque é como se a gente não existisse, pelo fato de tomarmos hormonios, passamos como homens cis, e isso é muito triste, porque não tem nenhum preparo pra lidar com a gente, em nenhum lugar, seja no ambiente médico, de trabalho, socialmente, as pessoas não sabem lidar, como se não existisse”.
A cientista social Giovanna Borges é assexual e relata que seu processo de questionamento acerca de sua sexualidade é recente, pois não conseguia definir o sentimento de atração. "Geralmente as pessoas que não são assexuais não precisam se perguntam "o que é atração sexual?" porque elas sempre sentiram aquilo, para elas é normal mas você se entender como assexual é um processo mais complicado por causa disso". Giovanna Borges também enfatiza que a assexualidade não é muito conhecida e comentada e que tal fator prejudica o processo de identificação "eu comecei com uma brincadeira falando "será que eu sou assexual?" fui ler e pesquisar sobre e percebi que sim, eu era". A cientista social evidencia que sua vivência na escola não afetou o aspecto da sua sexualidade, somente ao chegar a faculdade isso se alterou "quando as minhas amigas começaram a falar de relacionamento, sexo que eu comecei a perceber que talvez eu não me sentia da mesma forma que as outras pessoas".
A dificuldade da sociedade em abordar sexualidade e gênero nas instituições de apoio reafirmam a heterossexualidade compulsória como ideal. Conforme explica Cláudia Araújo de Lima em seu artigo Gênero e Sexualidade na Escola em Tempos de Globalização: Perspectivas e Culturas Adolescentes no Pantanal de Mato Grosso do Sul, “o modelo heteronormativo de educação e formação de professores, visto por muito tempo como única forma de entender o mundo, passa hoje pelo processo de modernização imposto pela sociedade”. Fabrício Pupo procurou investigar a atuação de docentes na questão de sexualidade e gênero em sua pesquisa mais recente, realizada com professores. “Tem inúmeros fatores que me chamaram a atenção, principalmente o fato de que ao longo dos últimos anos os professores têm sofrido diversos ataques de tentativa de censura com relação a esse tema, com a ascensão de grupos mais conservadores, principalmente nos últimos 2 ou 3 anos”.
APOIO À COMUNIDADE
A Casa Satine é uma Organização Não Governamental (ONG) que funciona como casa de acolhimento, clínica social e espaço cultural para pessoas LGBTQIA+ maiores de 18 anos que tiveram vínculos familiares rompidos e se enquadrem em situação de vulnerabilidade social. O único projeto social de Campo Grande voltado para suporte da comunidade LGBTQIA+.
lgbtqia-uma-sigla