ADOLESCêNCIA

Maternidade precoce

A gravidez precoce rompe uma série de processos de desenvolvimento e oportunidades de futuro de quase meio milhão de adolescentes no Brasil. Em Mato Grosso do Sul, 6.495 meninas entre 12 e 19 anos engravidaram em 2018

Por Amanda Franco

A gravidez precoce afeta a saúde física e mental da adolescente e poder trazer riscos para o desenvolvimento do feto. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (SES), o número de adolescentes grávidas na faixa etária entre 12 e 19 anos diminuiu 2,22% em relação ao ano de 2017 em todo o estado. Em 2018, 43 mil partos foram registrados e desse total, 6.495 (16,74%) eram de adolescentes. A projeção para 2019 indica uma redução de 0,74% em relação ao ano anterior. 
 
De acordo com relatório da Sociedade Brasileira de Pediatria, 400 mil adolescentes engravidam todos os anos no Brasil e cerca de 68% param de estudar após engravidar. A cada cinco bebês que nascem, um é filho de mãe adolescente. Em 2006, o número de adolescentes grávidas foi de 632 milhões e em 2016, de 501 milhões. Apesar da queda de 20%, o Brasil é o país com o maior número de jovens grávidas da América Latina. A região Nordeste apresenta a maior taxa do país, com 33,5%, seguido do Sudeste, com 31,2%, Norte, com 15,2%, Sul, com 11,2% e Centro-Oeste, com 8%.
 
Um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre 2011 e 2012, revelou que as mães brasileiras são majoritariamente jovens, de cor parda e preta (65%) e com escolaridade mediana (40% tem ensino médio). Mais da metade pertence à classe C e cerca de 40% possui trabalho remunerado. Desse perfil, 80% tem companheiro e 80% é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Intitulada “Nascer no Brasil: perfil da mortalidade neonatal e avaliação da assistência à gestante e ao recém-nascido”, a pesquisa teve como objetivo analisar a atenção à gestação e ao parto no país. A conclusão aponta que a gravidez na adolescência ocorre com maior frequência nas camadas mais pobres da população e que as jovens apresentam maiores riscos obstétricos e maior percentagem de filhos prematuros. 
 

 
Michele Azevedo, 19, é mãe do Gustavo, 1 ano e 6 meses, e está grávida de 7 meses. Ela explica que a primeira gestação indesejada foi aos 17 anos e que descobriu por meio de um exame de sangue. “A minha reação foi querer abortar no começo mas eu falei para o pai da criança que não iria fazer isso. Como era meu primeiro filho, mesmo eu não querendo e não tendo paciência para criança, eu continuei a gestação. Meu pai quis me mandar embora, mas minha mãe não deixou”.
 
A jovem estava no primeiro ano do ensino médio e continuou a frequentar as aulas até duas semanas antes do nascimento do bebê. Ela relata que recebeu apoio e elogios dos professores por ter prosseguido com os estudos, ao contrário do que ocorreu com três meninas da mesma escola, que tiveram vergonha de ir para as aulas. “Eram quatro meses de licença maternidade e eu peguei só em novembro e dezembro. Mas eu batalhava para ter nota, e os professores me ajudaram no comecinho de dezembro para poder finalizar o ano letivo”. Michele ressalta que o pai de seu filho esteve ausente no acompanhamento da gestação, e que ele apenas paga a pensão de Gustavo e fica meses sem visitar o filho. 
 
O pré-natal começou no terceiro mês de gravidez e a jovem quase perdeu o bebê devido à uma briga com seu pai, que resultou em perda de líquido. Algumas complicações também ocorreram no parto, pela falta de oxigênio do bebê. “Foi cesárea por questão de deslocamento de placenta. Ele estava encaixado para nascer normal, eu estava tendo dilatação, só que se nascesse normal, ele iria morrer”. Após o nascimento de Gustavo, ela teve transtornos psicológicos e ressalta que até hoje sua família a julga por ter engravidado cedo. 
 

 
A jovem pensava em ter outro filho somente depois que fizesse faculdade e engravidou novamente no ano passado. “Só que mesmo assim também não foi um empecilho nos estudos. Está dificultando agora que estou no terceiro ano e vou ganhar o bebê em julho”. Ela relata que o pré-natal começou tardio, no sexto mês de gravidez, devido à rotina corrida e a falta de tempo. A jovem acorda todos os dias às 4h para levar Gustavo à creche e ir para a escola, e chega por volta das 15h em casa. “Saio 12h10 do colégio, busco ele, do lado da minha vó, que é perto da Moreninhas. Vou de ônibus, pego dois, três ônibus para ir e voltar”.
 
Michele Azevedo está em um relacionamento sério com o pai do filho que espera e ressalta que ele é ausente no acompanhamento do pré-natal e na compra do enxoval para o bebê. “Ele fala que vai comprar as coisas, que isso e aquilo, só que muitas vezes isso não acontece. Acho que por causa da mentalidade ou porque é a primeira vez que ele vai ser pai, fica muito difícil”. Ela explica que recebe auxílio somente dos pais e de uma prima.
 
Ela afirma que desistiu de cursar uma graduação e tem dificuldade em arrumar um emprego por ter dois filhos. “As pessoas julgam muito assim ‘você tem que trabalhar de faxineira, não sei o que pra se sustentar’ e fico muito mal com isso. Penso muito, queria fazer uma faculdade de agronomia, mas só que não vou ter condições depois de ter dois filhos. Mas estou concluindo os estudos”. 
 
POLÍTICAS PÚBLICAS 
 
Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (Sesau) trabalha em conjunto com as Unidades Básicas de Saúde (UBS) para oferecer um atendimento especializado às adolescentes no período da gestação. Segundo a técnica da Atenção Básica de Saúde, Indianara Oliveira, algumas unidades possuem um Núcleo de Apoio a Saúde da Família (Nasf), com profissionais como ginecologistas, pediatras, fonoaudiólogos, nutricionistas, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, que trabalham por meio de consultas compartilhadas para atender todas as necessidades da adolescente. O Nasf também possui um grupo de apoio formado por gestantes. A técnica explica que a ideia é que todas as UBS ofereçam esses serviços. “A gente incentiva que na unidade básica tenha um grupo de gestantes, para que elas possam contribuir com suas experiências, e as que não tem experiência possam falar de seus medos e anseios, tudo que as espera durante a gestação, para que se sintam seguras”.
 
Indianara Oliveira explica que o corpo de uma adolescente ainda está despreparado para uma gestação e isso pode ocasionar um alto risco à saúde tanto da mãe quanto do bebê. “Sabemos através da ciência, que a mulher está pronta para uma gestação a partir dos dezenove anos, mas vemos adolescentes engravidando com onze anos, sem ter uma formação metabólica e hormonal, então precisamos ter um olhar muito preciso para elas, para que não ocorra nada de mal”. Para a técnica, o alto índice de gravidez precoce está relacionado aos fatores sociais em que essas adolescentes estão inseridas, como estrutura familiar, baixa renda e o nível de educação. “Precisamos orientar essas meninas porque além da gravidez, tem as doenças sexualmente transmissíveis, então precisamos dar as mãos à comunidade no geral, para orientar da melhor forma possível essa população mais jovem.” 
 

 
Outro fator de risco na gestação é o pré-natal tardio. De acordo com Indianara, muitas adolescentes costumam esconder a gravidez da família por medo e receio de serem julgadas, e por esse motivo realizam o acompanhamento após o primeiro trimestre gestacional. Ela complementa que o pré-natal é essencial para um bom desenvolvimento da criança e que deve ser iniciado assim que descoberta a gravidez. “A adolescente inicia o pré-natal, agenda a primeira consulta com um enfermeiro e então pedimos todos os exames para poder qualificar o atendimento”. Na primeira consulta é feito o teste rápido de HIV,  sífilis, hepatite B e C, e uma triagem pré-natal, com cerca de quinze exames laboratoriais, entre eles hemograma, tipagem sanguínea, fator RH, exame de urina e ultrassonografia. 
 
O Programa Saúde na Escola (PSE) é uma política intersetorial do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação, instituído em 2007, que visa a integração permanente entre educação e saúde por meio de ações de prevenção. O programa é voltado a crianças e adolescentes da educação pública brasileira e está presente em todos os estados brasileiros. Em Mato Grosso do Sul, 65 municípios participam do PSE. 
 
A gerente da Saúde do Adolescente e do PSE, Vera Lúcia Ramos explica que um dos principais objetivos do programa é a prevenção à gravidez na adolescência, e trabalha tanto na escola por meio de orientações e palestras preventivas, quanto no serviço de saúde, com o atendimento especializado ao adolescente. “O PSE começa na escola, lá se faz orientações e gera uma demanda para o serviço de saúde. Aí a adolescente vai a Unidade Básica de Saúde, faz uma consulta e busca seus métodos contraceptivos”. 
 
Vera Lúcia relata que muitos adolescentes têm vergonha de falar sobre sua vida sexual e buscam informação em redes sociais, o que, segundo ela, é perigoso porque nem sempre as informações que encontram estão corretas. “Muitos adolescentes aprendem de uma maneira errada e ficam muitas dúvidas. Grande parte não tem diálogo com os pais e ainda hoje as meninas não sabem tudo nem sobre sua menstruação.” O programa busca levar informação de forma acessível por meio de oficinas e palestras.
 
Ela ressalta que todo adolescente tem assegurado o direito à consulta em uma Unidade Básica de Saúde sem estar acompanhado dos pais, no entanto, grande parte da população ainda desconhece esse direito. “O adolescente pode exigir que o atendimento seja confidencial. O Estatuto do Adolescente ampara essa privacidade do atendimento, caso ele não queira comunicar a ninguém, mesmo seus pais.” 
 
Para Vera Lúcia Ramos, um dos fatores que contribui para o aumento no número de gravidez na adolescência é o casamento precoce, prática que segundo ela, ainda é comum, principalmente nas cidades do interior do estado, onde muitas meninas escolhem se casar cedo para sair da casa dos pais e terem mais liberdade. “Antigamente, não existia informação, as meninas quase não estudavam e era comum se casar com 15 anos, mas ainda tem gente que conserva esse pensamento, de que elas precisam se casar cedo, inclusive para não ter filho solteira, como se isso fosse base para felicidade delas”. 
 
Janela: “O domínio masculino ainda é uma coisa muito comum, a adolescente sai do domínio dos pais e entra no domínio do marido”
 
Uma das consequências da gestação precoce apontada pela gerente do PSE é o pós-parto, que exige cuidados específicos para evitar complicações. “Nós recomendamos desde a entrada na maternidade, um atendimento diferenciado para essa adolescente. Durante o parto se possível, ficar em enfermaria separada, e após a alta, o cuidado e o apoio familiar e do companheiro é essencial.”
 
O Ministério da Saúde lançou em 2008 a Caderneta de Saúde do Adolescente, recomendada para adolescentes entre 10 e 19 anos. O material reúne informações sobre cuidados básicos à saúde, vacinas e transformações do corpo, além de orientações sobre doenças sexualmente transmissíveis e prevenção à gravidez na adolescência. A caderneta possui versões diferentes para meninos e meninas. Em março deste ano, o presidente Jair Bolsonaro recomendou que a caderneta fosse retirada de circulação por conter imagens consideradas por ele inapropriadas para a faixa etária em que era destinada.
 
A Liga Acadêmica Multidisciplinar em Saúde do Adolescente (LAMSA) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul foi criada em 2017, com o intuito de integrar acadêmicos de diversos cursos da área da saúde com a comunidade externa. Cerca de 30 acadêmicos dos cursos de Fisioterapia, Enfermagem, Medicina, Nutrição, Educação Física, Odontologia e Pedagogia realizam, por meio de oficinas, ações de prevenção para a população, sobre diversos temas como sexualidade, doenças sexualmente transmissíveis (DST) e gravidez na adolescência.
 
O acadêmico do 7º semestre do curso de Enfermagem, Carlos Eduardo dos Santos é membro da Lamsa e conta que as oficinas preventivas são feitas por meio de seis fascículos, que foram disponibilizados pelo Programa Saúde na Escola (PSE). “Nas oficinas usamos metodologias ativas porque nosso público é o adolescente. Se realizamos uma palestra, eles se dispersam facilmente, então é uma forma de prender a atenção fazendo eles participarem”. 
 
As ações da Lamsa são realizadas em regiões da cidade onde há uma maior número de casos de gravidez na adolescência e infecções sexualmente transmissíveis (IST), como nos bairros São Conrado, Jardim Los Angeles, Parque do Sol, Nova Lima, Iraci Coelho e Macaúbas. Carlos Eduardo explica que as ações são focadas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e que além das oficinas, são feitas capacitações com agentes de saúde para que estes possam orientar os adolescentes a procurar as UBS. O acadêmico conta que a liga também faz oficinas em locais onde há uma maior concentração de adolescentes como em Organizaçãos Não Governamentais (ONGs), Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e escolas. “Nós tentamos trabalhar com adolescente a partir dos 14 anos, porque as pesquisas mostram que nessa faixa etária que começam a ter uma vida sexual ativa, mas por outro lá no Bairro Los Angeles temos adolescentes com 11, 12 anos, grávidas”. 
 
A educação sexual fora do ambiente familiar ainda é vista como um tabu na sociedade, por esse motivo Carlos Eduardo ressalta que a liga encontra algumas dificuldades na aplicação das oficinas.“Por se tratar de sexualidade as pessoas ficam receosas, tem essa barreira, que são os pais, que acham que não se pode falar sobre sexualidade com sua filha de 10 anos, mas mesmo assim a gente tenta orientar os pais da melhor forma possível”. O acadêmico complementa que é importante realizar essa educação permanente, por meio de oficinas, para que os adolescentes se sintam mais seguros na hora da relação sexual e busquem se proteger.  
 
Janela: “É um trabalho contínuo no território, primeiros eles ficam receosos mas a gente vai criando laços e eles vão se abrindo mais. No segundo, terceiro encontro já está chamando a gente de tio.”
 
 
SAÚDE FÍSICA E MENTAL
 
A gravidez precoce pode causar diversos problemas, tanto para a adolescente como para o feto. Essas complicações podem ser relacionadas ao corpo da menina, que ainda está em processo de formação hormonal. Adolescentes com idade abaixo de 15 e 16 anos possuem gravidez consideradas de alto risco. De acordo com a ginecologista Liliam Maksoud Gonçalves, os maiores riscos dessa gestação são ligados à pressão arterial e prematuridade do bebê. 
 
A ginecologista relata que as complicações são frequentes pelo fato das adolescentes tentarem esconder a gravidez da família e que uma forma de evitar tais problemas é um bom acompanhamento logo no início da gestação. “O que eu aconselho é o seguinte, suspeitou da gravidez, procure um médico para ter toda a orientação, porque na realidade não é mais só um coração batendo, são dois, então tem que cuidar direito”.
 
Um passo muito importante para a saúde da mãe e do bebê é o pré-natal, que pode rastrear possíveis problemas e evitá-los. Liliam Maksoud Gonçalves explica que o acompanhamento deve iniciar antes da 12ª semana de gestação. A adolescente faz uma consulta com o médico obstetra, para a identificação da situação pregressa da paciente e a realização de exames como o hemograma, dosagem de açúcar e de doenças de transmissão vertical, que podem ser passadas da mãe para o feto. “A primeira consulta normalmente, é uma conversa com a paciente, para saber se ela tem alguma doença, se já foi operada de alguma forma, se na família tem antecedente de pressão alta, diabetes, se ela tem alergia, se tem má formação fetal, entre outras doenças”.
 
A ginecologista ressalta que após esse rastreamento inicial é feito um acompanhamento mensal e são receitados ácido fólico, para prevenir a má formação no cérebro e na coluna do feto, e polivitamínicos. Serão realizados os ultrassons preestabelecidos, para verificar a posição do feto e a funcionalidade dos ovários da mãe para sustentar a gravidez, e a translucência nucal, procedimento para averiguar a presença de Síndrome de Down e cardiopatias congênitas no feto. “Às vezes a paciente quer ver o sexo, esse ultrassom é feito entre a 15ª, 17ª semana. Entre a 22ª e a 26ª, ela faz um exame morfológico, que é para ver todos os órgãos possíveis do bebê, para ver se está tudo bem”.
 
A partir do 8º mês de gestação, as consultas passam a ser realizadas quinzenalmente. Nesse período, é feita uma ultrassonografia com doppler para verificar possíveis problemas de pressão e a vascularização da placenta. Por fim, no 9º mês é feito um ultrassom para verificar as condições para o parto, como a posição do bebê e o tipo de procedimento, normal ou cesárea.
 
De acordo com Liliam Maksoud, é comum ocorrer o aborto espontâneo em meninas que engravidam na adolescência. Este aborto é a interrupção prematura de uma gravidez antes que o bebê tenha condição de sobreviver fora do útero e pode ocorrer até a 12ª semana de gestação. A ginecologista explica que as causas são indefinidas e que a falta de hormônios e a má formação da adolescente podem resultar em um aborto espontâneo.
 

 
Liliam Maksoud ressalta que é muito importante consultar um ginecologista antes do primeiro ato sexual para ter uma orientação, fazer exames de sangue e avaliar os hormônios. Além da camisinha masculina e feminina, existe uma variedade de métodos contraceptivos, como o diafragma, o dispositivo intrauterino com cobre (DIU T Cu), a pílula combinada, o anticoncepcional de emergência e o injetável mensal e trimestral. A maioria desses métodos são hormonais e desaconselhável para adolescentes. “Se a menina começar a ter relações seuxais com uns 12 anos, antes até de menstruar é perigoso. Então ela tem que olhar como está os hormônios dela, como está o ovário. Tudo isso para que não a afete futuramente, quando ela resolver realmente engravidar”. 
 

 
Ela explica que é necessário um acompanhamento e uma orientação sexual feita pelas escolas e pelos pais, para que o sexo seja feito com responsabilidade. Além disso, indica uma orientação psicológica para essas adolescentes. “Já tive gestante de 12, 14 anos. O sonho da jovem é fazer faculdade, ir para balada e com a gravidez ela corta certas etapas da vida. Tem mudanças no corpo, está adquirindo uma responsabilidade e a maioria das vezes essa responsabilidade é sozinha. Então ela precisa realmente de apoio familiar e um bom acompanhamento psicológico”.
 
A psicóloga Maria Helena do Espirito Santo Coelho afirma que prever as consequências psicológicas de uma gravidez precoce é difícil e inadequado, pois cada pessoa é diferente e reage às situações de uma forma particular. Para a psicóloga, a gravidez é algo muito complexo para qualquer mulher, e a menina que engravida precocemente desconhece as consequências que podem afetar a vida dela. “Tem adolescentes de 14 anos que são muito responsáveis, muito amadurecidas para a idade e tem adolescentes que são muito infantis, então é impossível prever”.
 
Quando a gravidez gera uma mudança psicológica na adolescente, em que ela se sente triste ou depressiva, e há um diagnóstico, é possível fazer um tratamento com medicamentos e psicoterapia. Os tratamentos são individualizados, com um acompanhamento psicológico e, se necessário, psiquiátrico. “Não existe um tratamento generalizado em psicologia, os tratamentos que se colocam como servidor para qualquer pessoa geralmente não são muito bons, muito efetivos”.
 
De acordo com Maria Helena Coelho, a depressão nessas jovens pode ser devido a falta de um parceiro ou do apoio da família, fundamentais para que a adolescente se sinta preparada o suficiente para criar um bebê. Ela ressalta que qualquer criança precisa de cuidados básicos como alimentação, higienização, carinho e atenção, e se a mãe ficar sem receber apoio se sentirá incapaz de cuidar do filho. “Criar um filho é algo complexo, não é uma coisa simples que uma só pessoa resolva. Quanto menos ajuda tiver no processo, pior. A criança que vem ao mundo com mais pessoas em volta, tem chances maiores de ter uma desenvolvimento psicológico melhor”.
 
Maria Helena Coelho explica que crianças que são fruto de gestação precoce têm chances maiores de ter problemas no desenvolvimento. Muitas dessas adolescentes possuem famílias que desaprovam a gravidez e são ausentes no acompanhamento da gestação. Sem o apoio de pessoas mais velhas e experientes, a jovem é desprovida de uma base para educar o filho, o que pode causar problemas de comportamento futuros para a criança, que fica desorientada e sem saber como agir.
 
Quando engravidam, a vida dessas mães passa a ser restrita ao cuidado do bebê. A psicóloga afirma que por vezes, as adolescentes param de frequentar a escola, e consequentemente carecem de uma profissão especializada. “Ela vai abrir mão da vida dela para ficar cuidando daquela criança. Então realmente no futuro ela talvez culpe essa criança por não ter uma profissão, não ter sido mais feliz na vida dela”.
 
JOVENS MÃES
 
A estudante Luana de Lima Alencar, 17, engravidou aos 16 anos, quando estava no segundo ano do ensino médio. Ela explica que, na época, tomava anticoncepcional e parou um mês antes de engravidar, devido ao enjoos que o medicamento lhe causava. “Eu estava namorando e não me cuidei. Depois que tive a relação, tomei a pílula do dia seguinte mas mesmo assim não fez efeito. Descobri porque minha menstruação tinha atrasado um mês e quando fiz o teste, já tinha dado positivo”.
 
Luana Alencar relata que, ao descobrir a gravidez inesperada, ficou sem reação e expressão por alguns dias. “Quando minha mãe soube, ela chorou muito porque não era o que ela queria. O meu pai também, ele ficou bem chateado. Tanto que teve um tempo que ele ficou uns três meses sem olhar na minha cara. Só depois de um tempo que ele começou a falar comigo de novo”.
 
A estudante ressalta que em momento algum pensou em abortar o filho e sabia que poderia haver críticas e julgamentos por parte da sociedade. Ela complementa que por ter decidido terminar o relacionamento de 6 meses, o pai da criança esteve ausente no acompanhamento da gestação. No primeiro mês de gravidez, a mãe da adolescente a levou ao hospital para iniciar o pré-natal. A jovem afirma que a todo momento havia alguém por perto para poder ajudá-la. “Foi tudo tranquilo, não teve nenhuma complicação durante todo o acompanhamento. Minha mãe sempre estava do meu lado. Quando não era ela, era minha sogra ou minha tia”.
 

 
A adolescente entrou em licença maternidade e devido às complicações que teve no parto, desistiu de estudar no terceiro ano do ensino médio. Ela relata que após o nascimento do bebê, conseguiu amadurecer e passou a ver a vida de outra forma. “Não quero cometer de novo o mesmo erro. Muitas coisas mudaram. Faço tudo pensando nele”. Este ano, Luana voltou a frequentar as aulas no período noturno para concluir seus estudos. Ela mora com a mãe, que a auxilia no cuidado com a criança, e três irmãos.
 
A estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Karine Gonçalves Santos, 19, engravidou aos 18 anos. Ela explica que ficou surpresa quando soube e que foi um momento difícil para ela e a família. “Eu não queria aceitar de forma nenhuma, ninguém queria aceitar na minha volta, menos o pai da criança que ficou muito feliz e eu fui muito surpreendida por causa disso. Ele foi uma das pessoas que mais me deu força para continuar”.
 
Karine Santos relata que a família é muito religiosa e que apesar de ter pensado em abortar o bebê, a situação ficou tranquila após aceitar a gravidez. A estudante começou o pré-natal no segundo mês de gestação e fez o acompanhamento todos os meses, com um médico que era da família. Ela continuou os estudos e entrou em licença maternidade por 4 meses. Durante esse período, Karine Santos afirma que perdeu diversos conteúdos e que só teve direito a fazer as disciplinas teóricas em um semestre no qual as disciplinas práticas eram predominantes. Após o término da licença, voltou a frequentar as aulas da faculdade.
 
A jovem complementa que vomitava muito e perdia líquido no início da gestação. “Isso não prejudicou em nada, a gravidez foi muito tranquila. No final, era para o bebê ter nascido de parto normal, mas acabou que tinha muito líquido. Fiz um exame na hora e teve que ser cesárea por conta da emergência”. Hoje, Karine mora com o pai de seu filho, juntos conseguem sustentá-lo e por vezes recebem ajuda ou presentes da família.
 

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