Por Jean Celso
A prevalência geral de insônia nos adultos residentes em Campo Grande é de 19,1%, segundo estudo realizado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp). Ainda de acordo com o levantamento, as mulheres e as pessoas com menor nível de escolaridade são as que mais sofrem com o distúrbio. Segundo pesquisa global realizada em 12 países pela Royal Philips, 76% dos adultos em todo o mundo possui alguma condição que afeta o sono. Entre as principais condições de saúde que influenciam na qualidade do sono estão a insônia (37%), o ronco (29%) e a apneia do sono (10%).
Fatores cotidianos também são responsáveis por afetar negativamente o sono da população. A pesquisa da Philips ainda aponta que 54% das pessoas têm problemas para dormir devido ao estresse e preocupação ocasionados pelo volume de atividades realizadas e o ritmo acelerado da vida urbana e 22% têm seu sono afetado pelo ronco do cônjuge.
Os resultados no Brasil mostram que 69% dos adultos entrevistados pela pesquisa, acreditam que uma noite de sono bem dormida afeta a saúde e a qualidade de vida. Mesmo com este indicativo, 36% dos brasileiros apresentam a insônia e 52% dorme mais do que o normal durante os finais de semana para “repor o sono”.

Segundo o relatório da Philips, 40% das pessoas dizem que o ambiente em que dormem interfere na qualidade do sono que têm. De acordo com o neurologista, especialista em medicina do sono pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e Associação Brasileira do Sono (ABN), Marcílio Delmondes fatores físicos do ambiente podem sim interferir na hora do sono. “A claridade, ruídos, temperatura tudo isso pode ser considerado fator importante para uma boa qualidade [de sono] ou uma piora”.
Anatomia do sono
Estudos publicados na área neurologia e da medicina do sono afirmam que dormir gasta, em média, um terço da vida. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a expectativa de vida da população brasileira está em 76 anos, ou seja, dormir corresponde à 25 anos da vida.
Uma boa noite de sono é essencial para sintetizar as proteínas que expandem as redes neurais ligadas à memória e ao aprendizado. De acordo com estudo publicado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo o sono é um estado fisiológico que pode ser categorizado em cinco estágios fundamentais que, juntos, formam o ciclo do sono. O ciclo dura em média 90 minutos, e é repetido de cinco a seis vezes durante a noite.
O estudo mostra que o sono pode ser dividido em duas fases, com a denominação em inglês Rapid Eye Movement expressa pela sigla REM (Movimento Rápido dos Olhos) e Non-Rapid Eye Movement referente a sigla NREM (Sem Movimento Rápido dos Olhos). Em condições normais, uma pessoa inicia o sono noturno pelo estágio I que se trata da fase de sonolência, onde os primeiros sinais do sono começam a ser percebidos pelo corpo e a pessoa pode ser facilmente despertada. Após cerca de 10 minutos em sono I, há o aprofundamento para o sono II onde a temperatura do corpo e a atividade cardíaca são reduzidas e se torna mais difícil acordar a pessoa. Passados de 30 a 60 minutos instala-se o sono de ondas lentas e os estágios mais profundos NREM que são o III e IV estágio, respectivamente. Dados 90 minutos, acontece o primeiro sono REM, com duração média de 5 a 10 minutos, que completa o primeiro ciclo de sono.
Durante a saída do sono REM, é possível ocorrer micro despertares de 3 a 15 segundos, sem um despertar completo, e o ciclo se reinicia a partir do estágio I. Repetindo de cinco a seis vezes por noite. A desestruturação do ciclo do sono se caracteriza como insônia.

O que é insônia?
A insônia é um dos mais comuns distúrbios do sono e afeta 19,1% da população campo-grandense. Segundo o médico Marcílio Delmondes, ela se configura pela dificuldade na continuidade do sono, seja para começar, manter ou terminar sono. “A insônia pode ser aguda ou transitória – quando ela tem uma duração inferior a três meses ou insônia crônica – quando tem uma duração maior que três meses, tendo pelo menos três eventos de insônia ao longo da semana”.
Delmondes salienta que grande parte dos eventos de insônia são provocados por fatores de outra natureza. “[A insônia] pode ser secundária a uso de medicamentos, uso de estimulantes em horários inadequados, indisciplina de horários para dormir, uso de aparelhos eletrônicos no início da noite até a madrugada, dores crônicas e doenças clínicas, neurológicas e reumatológicas”.
Uso de eletrônicos
O psiquiatra e doutor em saúde mental especializado em medicina do sono, José Carlos de Souza explica que a manutenção deste ciclo de sono é possível em ambientes propícios. “É recomendado que a pessoa durma sempre no mesmo horário, acorde no mesmo horário, em um quarto escuro, silencioso e sem fatores de distração”.
Souza afirma que o uso de dispositivos eletrônicos como celulares, computadores, televisão, fones de ouvido entre outros, próximo ao horário de dormir, são prejudiciais à qualidade do sono, pois dificulta a produção do hormônio do sono, denominado melatonina.
Uso de estimulantes
Substâncias estimulantes como o café e derivados, guaraná, refrigerantes derivados de noz-de-cola, nicotina e corticoides em geral (usados no tratamento de doenças inflamatórias, reações alérgicas dérmicas ou respiratórias) são um dos principais inimigos de um ciclo "higiênico" do sono, exatamente por fazerem parte do dia a dia.
De acordo com José Carlos de Souza, a cafeína permanece em média 16 horas no organismo e a cafeína presente na erva do tereré - bebida gelada de origem paraguaia consumida no Mato Grosso do Sul - apresenta níveis superiores ao do café preto em pó bebido diariamente por brasileiros.
O médico afirma que embora atividades físicas regulares no período diurno sejam recomendadas para a conservação de um sono saudável, quando praticadas durante a noite acabam por surtir o efeito contrário. "O ideal é que atividades físicas nunca sejam praticadas pelo menos três a quatro horas antes do horário de dormir, visto que ela aumenta a temperatura corporal interna e pode vir a prejudicar o sono do indivíduo”.
Relação com doenças
De acordo com o médico Marcílio Delmondes, situações como ansiedade e depressão podem atrapalhar na indução, manutenção e término do sono. Além disso, dores crônicas como artrite, artrose, fibromialgia e outros problemas relacionados a dores na coluna também podem interferir na qualidade do sono.
O tratamento, muitas vezes, ocorre de forma associada quando observado o motivo do problema do sono. O médico explica que em casos de depressão e insônia, são utilizados medicamentos de duplo efeito. “Quando tem componentes de distúrbios de humor, principalmente a insônia, é realizado o tratamento psicoterápico. Muitos antidepressivos podem tratar ambas causas”.
Distúrbios hormonais como distúrbio tireoidiano e hipertireoidismo podem provocar insônia e hipersonia, respectivamente. De acordo com Delmondes, hipersonia é um distúrbio caracterizado pela sonolência e fraqueza durante o dia. “A gente sempre avalia casos de pessoas que aparentemente possuem sono normal, não têm dificuldades para pegar no sono, mas que no outro dia tem a sensação de que não teve um sono reparador. Muitos fatores podem interferir na ruptura da qualidade”.
Delmondes afirma que a população tem dormido menos nos últimos anos e se preocupado mais com questões relacionadas a trabalho, família e futuro e que essa diminuição das horas de sono interfere na imunidade e também acelera o processo de envelhecimento. “A capacidade cognitiva é alterada. É durante o sono que o desgaste do dia é recuperado e é possível conservar as energias”.
Diagnóstico e Tratamento
Para o diagnóstico são usados rastreamentos da origem e causa da insonia. Doenças crônicas, processos alérgicos, uso de medicamentos, padrão genético do histórico familiar e uma série de outros fatores são avaliados durante o diagnóstico.
Marcílio Delmondes explica que em casos de insônia transitória são utilizados hipnóticos de ação curta por um curto período e em casos de insônia crônica são utilizados medicamentos com ação prolongada. “O medicamento é utilizado para melhorar a arquitetura do sono para depois de um período a medicação ser retirada sem apresentar quadros de dependência psíquica ou física”.
O médico esclarece que o uso excessivo de medicamentos pode causar transtornos hepáticos como a hepatite tóxica, por exemplo, pois as drogas são metabolizadas no fígado e no rim. “Mesmo sendo medicações seguras, se usadas sem critérios, indicação e acompanhamento podem provocar grandes transtornos, pois são medicamentos que interferem no cognitivo”.
Noites mal dormidas
Foto: Jean Celso - Edição: Leticia MarquineO estudante do curso de Gastronomia da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp), Teldo Neto, 24, está na lista dos 72 mil brasileiros que sofrem com insônia. Desde os 10 anos de idade, apresenta alguns sinais de problemas para dormir. “Na época, eu não sabia dizer que era insônia, mas eu sempre me achei alguém que funcionava melhor a noite”.
Durante a infância, Neto tinha hábitos fora do comum para crianças da idade dele. Jogar no computador até 23h à meia noite era algo recorrente. Ele afirma que quando era hora de dormir, desligava o computador, se deitava na cama e ainda assim tinha muita dificuldade. Nesse impasse, chegava às 2h, até 3h da manhã sem sentir sono. “No começo não tinha muito problema por que eu estudava à tarde, então eu tinha mais tempo para dormir. Só que pela quinta série, aos 11 ou 12 anos, começou a ter aula de manhã e ficou um pouco mais complicado”.
Ele relata que no primeiro período das aulas da manhã, apresentava dificuldade de concentração. O desgaste da noite anterior impactava no seu desempenho e gerava muito cansaço e Neto adormecia na escola. “Eu ia dormir 3h da manhã e acordar 6h30 para chegar ao colégio às 7h10, no máximo. O primeiro tempo era o pior, os professores não sabiam que eu tinha insônia, mas eu sempre dormia na aula”.
O problema se estendeu por anos até o ingresso de Neto na faculdade. Neste período, com o agravante da paralisia do sono. “É como se eu tivesse tendo um sonho, parecia que eu conseguia me ver em terceira pessoa. Eu sentia que estava ouvindo a aula, ouvindo o professor, ouvia que estava acabando a aula”. A condição crônica é caracterizada pela incapacidade temporária de se mover ou falar ao adormecer ou ao acordar.
De acordo com o psiquiatra José Carlos Souza, existem vários critérios para definir se uma pessoa tem insônia. A análise deve ser feita durante pelo menos três dias na semana por 30 dias. A insônia, segundo Souza, se subdivide entre dois tipos, a de quantidade e de qualidade.
A de quantidade diz respeito ao tempo que a pessoa dorme. “Se no último mês a pessoa tiver a dificuldade maior do que 30 minutos para adormecer, é chamado de insônia inicial. A insônia intermediária, três ou mais despertares na madrugada. E a terminal, que é o despertar mais cedo do que de costume e não dormir novamente”. E de qualidade, é relacionada a função reguladora do sono. “A pessoa acorda e parece que ela não dormiu nada”.
Após 14 anos, Neto percebeu uma mudança no comportamento do distúrbio. Segundo ele, no começo a dificuldade era para dormir, e agora o problema principal é para dormir durante a noite toda. “Às vezes eu deito duas da manhã e durmo, só que eu acordo de 40 em 40 minutos, e fica assim a noite inteira”.
O estudante faz graduação no período noturno e afirma que sua produtividade é melhor nesse horário. “Eu consigo estudar melhor a tarde, as provas a noite eu consigo ir bem. De manhã, eu só fico no piloto automático”. Apesar de todos os indícios apontarem para o distúrbio do sono, sem o diagnóstico de um profissional, Neto continua a sentir os sintomas, sem nenhuma resolução.
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O estudante no curso de Farmácia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Allan Abdala, 24, assim como Teldo Neto, afirma ter percebido indícios de insônia desde os dez anos de idade. "No começo parecia algo comum de criança, meu pai mandava eu dormir e eu reclamava de falta de sono, o que às vezes custava duas a três horas ou mesmo a noite toda até eu dormir".
A necessidade de estabelecer uma rotina evidenciou o seu distúrbio. "A noite foi se tornando um desespero, porque ia chegando a noite e eu ficava pensando o quanto eu precisava dormir para render nas aulas, o que eu acredito que me atrapalhou muito".
Tratada como indisciplina pela família, a insônia do estudante permaneceu frequente mesmo com tratamento com remédio controlado, iniciado em 2016, depois de um período de internação. O medicamento teve suas doses aumentadas e levou Abdala a abandoná-lo. Ele afirma que se sente mais produtivo durante a noite e apresenta dificuldades para dormir. Hoje, mesmo sem acompanhamento médico, ele faz uso esporádico de um medicamento à base de melatonina - hormônio natural do sono - e acredita que tem funcionado para ele*.
Incerteza da noite
O pastor e professor Cláudio Batista tem 55 anos e vive há 15 com um distúrbio do sono ainda sem identificação. O distúrbio é infrequente e sem causa observada para acontecer. Segundo Batista, o disturbio é irregular e acontece três vezes em um mês ou três vezes em um ano, em casa ou fora dela.
Batista tem dificuldades para explicar o que acontece quando há a sensação angustiante. O distúrbio, por ser infrequente e sem um diagnóstico, causa dúvidas que cercam e fazem parte do dia a dia do profissional que atua no administrativo-pedagógico em escolas da capital.
O distúrbio faz com que o professor emita um som alto e tenha dificuldade para respirar. Batista consegue ouvir as pessoas e fica incapaz de respondê-las. É preciso que lhe agitem por alguns segundos para que “volte ao normal”. No início, apenas a família estava ciente do problema. Com os anos, houveram ocorrencias de ataques em locais inesperados. “Uma vez aconteceu no ônibus quando eu estava indo para o Rio de Janeiro e a pessoa me acordou. Depois disso eu passei a avisar para todos: — Pelo amor de Deus, me acorda se acontecer algo”.
Sem observar interferências em sua rotina, Batista afirma ter medo de vir a óbito por causa do distúrbio. Ele procurou profissionais especialistas e realizou diversos exames e continua sem resposta para seu problema em clínicas de Campo Grande. Seus filhos sempre ficaram assustados com o problema do pai e passaram a pesquisar sobre os sintomas na internet. As informações que encontraram levam para o diagnóstico de apneia. Diagnóstico este, sem confirmação.
Segundo a otorrinolaringologista e professora do curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Neisa Alves apneia do sono é um distúrbio que provoca a parada ou diminuição da respiração enquanto dorme e acontece várias vezes durante a noite. O distúrbio acarreta uma fragmentação do sono. “A pessoa apresenta durante a noite sintomas como ronco, parada respiratória, engasgo e durante o dia isso vai repercutir como sonolência excessiva diurna, sensação de sono não reparador, além de distúrbios sociais”.
Neisa Alves explica que o diagnóstico da doença é feito por meio do exame chamado polissonografia que identifica se a pessoa tem apneia, se essa apneia é obstrutiva ou não-obstrutiva e o grau encontrado. A médica explica que a apneia aumenta cerca de três vezes o risco das doenças cardiovasculares, dificulta o controle de doenças como pressão alta e diabetes e também dificulta a perda de peso. “A apneia pode estar associada a quadros de pacientes com distúrbio de ansiedade, alterações de humor e depressão e também a pacientes que fazem dietas e não conseguem perder peso”
Com algumas semelhanças entre os sintomas, Cláudio Batista há alguns anos, busca de uma solução para o problema que lhe causa cansaço sempre após as crises. Para ele são muitas as dúvidas. “Afeta a saúde de alguma forma?”, “Provoca alguma doença grave?”, “Pode causar riscos permanentes?”, “Tem tratamento?”, “O que fazer durantes as crises?”, perguntas ainda sem resposta.
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