Por Julisandy Ferreira
Transtornos mentais e comportamentais correspondem a 9% da concessão de auxílio-doença no Brasil, segundo dados do 1º Boletim Quadrimestral sobre benefícios por incapacidade, da Secretaria de Previdência Complementar. De acordo com o levantamento, a depressão é a principal causa do pagamento de subsídio, independente de acidentes de trabalho, que corresponde a 30,76% do total.
Dentre as doenças causadas ou agravadas pelo ambiente de trabalho, está a Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional, que tem como características principais a exaustão, dores de cabeça e musculares. De acordo com a pesquisa realizada pela International Stress Management Association (Isma), 30% dos mais de 100 milhões de trabalhadores brasileiros sofrem com o problema.
A assistente de sala Anelize Amaral Matos teve problemas emocionais graves devido as condições de trabalho. Inicialmente, Anelize cumpria uma carga horária de seis horas em sala de aula, e ao assumir o período integral, passou a ter crises de ansiedade e depressão. “Nem queria mais sair de casa. Trabalhar passou a ser um sério problema. Comecei um acompanhamento psiquiátrico, tomo ansiolíticos e faço terapia, isso tem me ajudado muito. Mas não consegui continuar trabalhando, pedi demissão e agora estou em outra escola”.
Leonardo* trabalha com serviços de protocolo de contratos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e atuou em três setores diferentes. Após quatro meses no setor de arquivos, desenvolveu ansiedade devido à carga de trabalho. “Era um setor em que a gente lidava com muito serviço e pouca gente. Duas pessoas para tomar conta de muitos contratos, contratos importantes, de valores muito altos e difíceis de serem gerenciados”. Falta de treinamento e inexperiência também são relatados pelo funcionário público como fatores que contribuíram para seu adoecimento.
Os nome Leonardo citado na reportagem é ficiticio para preservar a identidade da fonte, que preferem não ser identificada.
De acordo com a lei Nº 13.467 , no artigo 223-C, a honra, a imagem, a intimidade, a liberdade de ação, a autoestima, a sexualidade, a saúde, o lazer e a integridade física são bens protegidos e inerentes à pessoa física. Segundo o coordenador de Prática Jurídica da UFMS, Aurélio Tomaz da Silva Briltes o ambiente ideal, de acordo com as leis trabalhistas e que visa a saúde do trabalhador, está baseado em três pilares. “O primeiro é a empresa, que deve cumprir com seus deveres e obrigações no quesito fornecimento e fiscalização, o segundo é o empregado, que deve cumprir o uso de equipamentos de proteção, cursos e que esteja satisfeito com isso. Por último, a harmonia, na qual haja questões relacionadas a sentimento”.
O coordenador também afirma que muitas questões poderiam ser resolvidas ao longo do contrato de trabalho, e que a maioria das pessoas que procuram esse tipo de serviço tem conhecimento somente dos direitos básicos e, muitas vezes, são privadas de garantias mínimas, um exemplo simples é a assinatura da carteira de trabalho. “Dependendo da classe de trabalhadores, eles nem sabem nenhum dos seus direitos. Felizmente são poucos os casos que nós atendemos nessa situação. Essas pessoas acabam sendo vulneráveis as relações trabalhistas e acabam até como vítimas de trabalho escravo”.
A estudante do curso da faculdade de Direito (Fadir) da UFMS, Gabriele Araújo trabalha desde os 16 anos. No emprego de assistente administrativa, ainda como Mirim, ela se deparou com situações incômodas no ambiente de trabalho, onde precisava lavar copos e pratos - funções imprevistas no contrato, ouvir comentários racistas e insultos que fizeram com que adoecesse. “Elas falavam diariamente que todo adolescente fedia, que tinha que aprender a trabalhar desde cedo, mas elas mesmo não trabalhavam desde cedo. Eu fiquei bem deprimida na época, inclusive quando me mandaram para outro setor, eu ainda ficava um pouco receosa para trabalhar, e achava que ia acontecer a mesma coisa”.
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) fundado decreto nº 99.350 de 1990 é o órgão público brasileiro responsável por realizar concessões de aposentadoria, auxílio-doença, auxílio-acidente, pensão por morte e outros direitos garantidos na lei Nº 8. 213. O auxílio-doença é o benefício provisório pago às pessoas que estão inaptas a realizar seu trabalho devido à doença incapacitante ou acidente.
A seção de saúde do trabalhador do INSS é a divisão encarregada por gerenciar as atividades da perícia médica do serviço social e reabilitação profissional. Em Campo Grande, as agências localizadas na avenida Coronel Antonino e no Horto Florestal são as responsáveis por realizar atendimentos, após o agendamento do solicitante que pode ser efetuado pelo site e na central de atendimento, pelo telefone 135.
A perita médica e chefe da Seção de Saúde do trabalhador, Daniela Barbosa comenta que durante a perícia o solicitante deve trazer os documentos médicos, como atestado, laudo, exame e receita médica, para serem analisados pelo perito. “O médico vai ver os exames que a pessoa tem, os medicamentos que ela está tomando, a profissão da pessoa, vai fazer o exame físico, é como se estivesse em uma consulta para ver se ela pode ou não trabalhar com aquela doença”. O auxílio-doença é um benefício que pode ser concedido por motivos psiquiátricos e psicológicos como a depressão, estresse, esquizofrenia, transtorno bipolar, social e outros.
As condições no ambiente de trabalho e as dinâmicas que o envolve, como a pressão que os funcionários sofrem, liderança e relacionamento profissional são alguns dos fatores que podem influenciar a saúde mental do trabalhador. A professora do curso de Psicologia da UFMS, Branca Maria de Menezes comenta que é necessário que a empresa cuide do funcionário e tenha a responsabilidade de verificar os setores do trabalho na qual os empregados tenham determinada sobrecarga. “A questão principal é a empresa cuidar do funcionário, principalmente não pensar que esse trabalhador é só uma máquina para gerar resultados. Quando você tem muitas exigências, salários baixos e condições precárias de trabalho a responsabilidade maior é da empresa”.
Reações ao estresse grave, transtornos ansiosos e depressivos estão entre os casos de concessões do auxílio-doença. A professora Branca Maria de Meneses explica que algumas das doenças físicas tem relação com questões psicossomáticas, como a gastrite. “Você pode ter um relacionamento de trabalho que pressiona tanto é tão estressante que você vai acabar tendo problema de estômago, você pode ter alteração de pressão, dores de cabeça”.
A jornada de trabalho exaustiva, temas emergenciais, cobranças e a gestão no local onde Ana* trabalha influenciaram a saúde psicológica e emocional da profissional. “As pessoas em volta de mim começaram a se preocupar, eu estava triste, muitas vezes aérea, apática, como se não estivesse naquele ambiente; demorava muito para desligar das coisas do trabalho, percebi que estava entrando em um quadro mais sério de estresse”.
Durante um mês, Ana* trabalhou das oito horas da manhã às três horas da madrugada e nos finais de semana. Hoje, ela procura sair no horário e por vezes leva para casa demandas do trabalho. “É difícil porque chega um ponto em que sair do serviço às sete da noite faz você sentir como se estivesse fazendo algo errado, passa a ser comum comer muito rápido ou ficar sem comer para terminar algo”. A funcionária relata que tomou decisões que poderiam levar a seu desligamento da empresa, como se negar a trabalhar até tarde, cobrar pausa para alimentação e solicitar pausas para descanso.
O nome Ana citado na reportagem é ficiticio para preservar a identidade da fonte, que prefere não ser identificada.
A Digix é uma das empresas do estado do Mato Grosso do Sul que dispõe do cuidado com os funcionários. Presente em 68 cidades de Mato Grosso do Sul, conta com 358 funcionários. Em Campo Grande, são 114 colaboradores. Em 2018, a empresa foi a única do estado a estar entre as 35 melhores para se trabalhar no Brasil, segundo o ranking da Great Place to Work (GPTW). Existe uma série de cuidados com os colaboradores, que inclui café da manhã, hora da fruta, massagem três vezes por semana, inglês gratuito nos intervalos de almoço ou no final do expediente, sala de descanso e sala com jogos.
O método de análise de qualidade do ambiente de trabalho da Digix consiste em uma pesquisa semelhante ao modelo utilizado pela GPTW, uma organização mundial que concede consultoria para empresários que observam as pessoas como centro do negócio. Ela também certifica e reconhece os melhores ambientes de trabalho em mais de 50 países.
A analista de recursos humanos da Digix, Aline Grazielle de Jesus acredita que a melhor solução para as empresas é ouvir as necessidades dos colaboradores e visar seu bem estar dentro da empresa. “É através do que o colaborador pede e sente que a gente realiza essas ações. Tudo que a gente faz, é pela busca de melhorias com base no que que está acontecendo no mundo, mas vem muito do que os colaboradores precisam e estão sentindo necessidade. Por isso, eles ficam bem e trabalham felizes, porque a gente ouve o que eles querem para o momento”.
Trabalhadores adoecem nas empresas
- (Foto: Julisandy Ferreira)