Por Amanda Raíssa
Mato Grosso do Sul registrou altos índices de temperatura e de baixa umidade do ar durante os meses de agosto e setembro. Segundo dados do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), a qualidade do ar no estado atingiu a categoria "péssima" no mesmo período. Nessas condições, material particulado como poeira, cinzas e poluentes ficam dispersos no ar e causam danos à saúde.
O boletim meteorológico divulgado pelo Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de MS (Cemtec) em agosto de 2019 mostra que Campo Grande ficou 28 dias sem chuva e atingiu temperatura máxima de 35,7ºC. A estiagem durou 31 dias nos municípios de Sidrolândia, Sonora, Sete Quedas, Porto Murtinho e Santa Rita do Pardo. A maior temperatura registrada pelo boletim em Mato Grosso do Sul foi de 38,6ºC em Três Lagoas. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Corumbá foi o município com mais focos de calor do Brasil, com 3.627 registros em 2019.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o estado de Mato Grosso do Sul registrou índice de umidade do ar em 9% no mês de setembro. O meteorologista Natálio Abrahão explica que a pressão atmosférica, a umidade relativa e a temperatura influenciam na qualidade do ar. "Em Mato Grosso do Sul, o inverno é tipicamente seco, com baixas oscilações de temperatura e situações permanentes de baixa umidade, com estiagens geralmente longas, com mais de 25 dias".
Abrahão explica que a alta pressão das massas de ar diminui a umidade e é comum no estado do mês de agosto a outubro. Esse fenômeno impede que partículas como poeira, areia, fuligem e cinzas retornem ao solo. “Suspenso no ar, esse material se transforma em uma névoa seca, capaz de encobrir prédios. Na prática, pode resultar em danos pulmonares e problemas na visão, além de prejudicar também animais e plantas”.
O médico pneumologista e presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Mato Grosso do Sul (SPT/MS), Henrique Brito afirma que a má qualidade do ar associada à baixa umidade é preocupante por ser um fator de risco que favorece doenças irritativas e alérgicas, como rinite, bronquite e asma. “Em situações mais graves, doenças infecciosas e até um quadro de pneumonia podem ser causados”.
O médico explica que o monóxido de carbono liberado pelas queimadas e ácaros presentes no ar estão entre os poluentes mais agressivos. “O monóxido de carbono é altamente tóxico para nós porque, em nosso organismo, ocupa o lugar da molécula de hemoglobina que transporta o oxigênio até as células através do sangue. E uma vez respirado, é irreversível, pois ao ocupar o lugar do oxigênio ele não sairá. A própria fuligem pode irritar e inflamar os pulmões”. Brito ressalta que dores de cabeça, falta de ar, turvação da visão e, em casos mais graves, o coma, estão entre os efeitos da respiração do poluente.
Brito afirma que a estiagem é o principal agravante climático, marcada por baixos índices de umidade do ar, o que prejudica a defesa natural do corpo. “A umidade do ar é essencial no processo respiratório. O ar seco nos torna mais vulneráveis a grandes agressores, já que com a ausência de umidade na mucosa nasal, respiração e defesa são dificultadas”. Segundo Brito, o ideal é que o ar que respiramos esteja com a umidade acima de 60%. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define que entre 30% e 20% se caracteriza um estado de atenção, abaixo de 20% até 12% é o estado chamado de alerta, e índices menores, se definem como estado de emergência.
O médico explica que hidratação e cuidados maiores no momento da prática de atividades físicas estão entre as medidas que podem ser adotadas para amenizar os efeitos negativos provocados pelas condições climáticas. “Grande parte do nosso organismo é feito de água, é essencial a ingestão de pelo menos dois litros por dia. A ingestão de líquidos não inclui refrigerantes ou sucos industrializados e é importante lembrar que bebidas alcoólicas podem causar a desidratação. Além disso, pode-se hidratar diretamente a mucosa respiratória com soro fisiológico, por exemplo, para ela cumprir seu papel de defesa e umidificação do ar”.
O professor explica que avanços no estudo da qualidade do ar serão possibilitados pelo projeto (Foto: Evelyn Mendonça)Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), será instalada estação de monitoramento da qualidade do ar, sob a orientação dos professores do curso de Física, Hamilton Germano e Widinei Fernandes. A estação vai ser instalada na Universidade e irá medir os poluentes por meio de equipamentos fornecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Germano ressalta que os principais poluentes analisados durante o estudo da qualidade do ar serão identificados pela estação de monitoramento.
Germano complementa que em Mato Grosso do Sul a qualidade do ar apresenta um equilíbrio na maior parte do ano e que no período de queimadas, nos meses de agosto, setembro e outubro, condição do ar é prejudicada. “É um projeto bem legal, pois além de ser como um projeto de pesquisa, no qual utilizamos alunos em iniciação científica e alunos do mestrado, nós iremos fornecer esses dados para a Secretária de Saúde, para orientar. É o que faz dele um projeto muito interessante”.
A aparência acinzentada vista no céu é resultado do longo período de estiagem na capital
- (Foto: Amanda Raíssa)