A onça-pintada, símbolo do Pantanal, passou a ser tratada como espécie migratória na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15). A espécie foi incluída nesta classificação pelo trânsito entre fronteiras de países como Brasil, Bolívia e Paraguai. A preservação do animal nas regiões e biomas em que ele se encontra e a criação de corredores ecológicos foram temas da COP15.

Mato Grosso do Sul regulamentou a formação de corredores ecológicos pela Lei nº 6.160, que estabelece a proteção de Áreas de Uso Restrito (AUR) no Pantanal. O Decreto nº 16.388 regulamenta a lei e a implementação de corredores ecológicos em propriedades rurais de Mato Grosso do Sul. Os corredores que estiverem presentes em AUR são obrigados a terem faixas de 500 metros com área protegida.

Os animais migratórios percorrem distâncias entre o Pantanal e os outros biomas, por meio de um ciclo sazonal de deslocamento. As aves são um exemplo, pois migram de um local para outro em busca de recursos. A onça-pintada transita entre diferentes países para se reproduzir e estabelecer novos territórios, sem percorrer longas distâncias, como as aves. A inclusão nos debates incentiva os países a estabelecer estratégias de conservação. 

Mapa de incidência da onça-pintada Mariana Viana

O biólogo e diretor do SOS Pantanal, Gustavo Figueirôa, afirma que onças transitam por pequenas áreas em busca de recursos. Os territórios menores com a biodiversidade preservada são habitats em que esses animais conseguem viver e procriar, como por exemplo o Refúgio Ecológico Cainan, localizado na zona rural de Miranda. "Ocasionalmente elas podem sair, deixar o território e buscar outro, mas não chega a ser uma migração". 

 

Segundo o  Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, a fragmentação do habitat é a principal causa do bloqueio do trânsito desses animais entre os territórios de forma segura. O biólogo ressalta que os corredores ecológicos auxiliam na preservação dos animais. "Os corredores ecológicos são áreas protegidas, onde esses animais possam transitar com segurança, que tenham um alimento e que não tenham uma perturbação antrópica, os corredores são importantes para conectar áreas maiores".

A  professora do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Thyara de Deco pesquisa genética das onças, e destaca que essas passagens são fundamentais para a conexão entre as diferentes populações. O mapeamento da movimentação do animal é utilizado para identificar as áreas prioritárias para uso do recurso. A travessia entre países permite que a espécie faça uma troca genética, que fortalece a população de onças. "A gente não vai conseguir criar grandes áreas, aumentar muito as áreas de conservação a ponto delas se conectarem naturalmente. Então a gente tem que criar estratégias de conexão entre essas reservas, que são os corredores ecológicos".

A professora do curso de Direito da UFMS e coordenadora da Liga Acadêmica de Direito Ecológico, Lívia Gaigher enfatiza que os corredores estão ausentes na Política Nacional do Meio Ambiente. "As Áreas de Preservação Permanente (APP) protegem a mata ciliar, que é importantíssima para preservação da onça. Se a gente consegue conectar uma APP com uma Área de Reservas Legais (ARL) com uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e a gente forma um corredor ecológico e faz com que a onça possa transitar". O documento foi criado para políticas públicas ambientais em áreas em que as onças estão localizadas e amparadas pelo Governo Federal. 

Ameaças à espécie

O biólogo Figuerôa salienta que o agronegócio é responsável pela substituição da vegetação nativa por uma vegetação exótica e mudança do uso da terra. O biólogo também cita que o agronegócio tem capacidade de conservação. "Dentro do Pantanal, a pecuária tradicional é uma grande aliada da conservação, porque o Pantanal tem vocação, tem campos nativos, então, você usando gramínea nativa, fazendo o manejo do gado de uma maneira tradicional, como o pantaneiro fez nos últimos séculos, a gente consegue manter o equilíbrio".

A médica veterinária Thyara de Deco ressalta que os conflitos entre humanos e animais são foco dos pesquisadores para a manutenção da biodiversidade no Pantanal. "Dentro da capacidade e do suporte do bioma, nós temos uma população relativamente preservada. Isso não quer dizer que ela não esteja abaixo do que poderia, isso não quer dizer que ela não tenha problemas que podem levar ela à extinção". Ela também comenta sobre as colisões veiculares com fauna, que causam a morte de animais nas estradas. 

O biólogo alerta que as espécies têm declínio na sua população quando os recursos de preservação deixam de existir. "Quando a gente não tem esses corredores, quando a gente não tem as áreas para esses animais viverem, a gente está perdendo essas espécies". Os espaços em que as onças estabelecem o seu habitat diminuem com o crescimento das cidades, zonas industriais e latifúndios

A COP15 ocorreu entre os dias 23 e 29 de março de 2026, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A conferência reuniu representantes das 133 partes, 132 países e a União Europeia para discutir sobre medidas para a preservação das espécies migratórias. As medidas para ampliar a proteção de 40 espécies foram incluídas ou reclassificadas nos Apêndices I e II da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS).