A Santa Casa de Campo Grande teve superlotação no Pronto-Socorro no período de 15 dias. A unidade, no dia 27 de abril, atendeu 90 pacientes com sete leitos destinados para Sistema Único de Saúde (SUS). Os corredores da emergência abrigavam 57 pacientes à espera de vagas para internação.
A superlotação afetou pacientes em estado grave que buscaram atendimento no hospital. A unidade contava, no mesmo dia, com três pacientes em estado grave sem acesso a leitos de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) por mais de 24 horas. O Pronto-Socorro tinha 20 pacientes à espera de avaliação médica por causa da superlotação.
O coordenador do Pronto-Socorro da Santa Casa, médico Marcos Bonilha afirma que a superlotação faz parte da unidade e causa represamento constante de pacientes nos corredores que aguardam vagas para internação. “O hospital há muitos anos trabalha sempre com superlotação, sempre com uma taxa de ocupação próxima aos 100%. Isso não é bom. O ideal seria que ele ficasse 80%, 85% para que a gente pudesse trabalhar melhor". O médico ressalta a dificuldade de manter os atendimentos com a equipe reduzida e a falta de espaços físicos adequados.
Segundo Marcos Bonilha a falta de equipamentos como os ventiladores mecânicos é uma das consequências da alta demanda enfrentada pela unidade. “O ventilador mecânico chega numa hora que não tem mais. Não tem nem onde colocar, não tem oxigênio para todo mundo. A gente acaba tendo que usar opções para poder dar assistência correta ao paciente”.
A vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Área de Enfermagem de Mato Grosso do Sul (SIEMS), Helena Delgado afirma que a superlotação da Santa Casa acontece pela ausência de investimentos destinados à manutenção estrutura da instituição, equipamentos e profissionais. Segundo ela, "o crescimento populacional e o aumento da complexidade das doenças ao longo dos anos impactaram na estrutura do sistema. O caos se instalou. Enquanto os poderes não se preocuparem com a questão dos leitos e da estrutura física, não vai resolver o problema”.
Dados da plataforma SmartLab, desenvolvida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) com base em registros do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), indicam que profissionais da enfermagem acumularam 70.701 afastamentos por transtornos mentais entre 2012 e 2024. Os dados da plataforma registram que em Mato Grosso do Sul foram 8.386 afastamento de profissionais em 2024. Helena Delgado afirma que o sindicato ampliou o suporte aos trabalhadores por causa do aumento de casos de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e burnout. “Hoje a gente tem que ter uma preocupação de ter um psicólogo atendendo dentro do sindicato”.
A técnica de enfermagem Kristie Lopes trabalhou na Santa Casa entre 2020 e fevereiro de 2026. "Tive ansiedade generalizada após anos de jornadas de trabalho desgastantes. Eu já vinha pedindo ajuda pra minha chefia, antes do agravamento, falando que estava no meu limite, mas nada foi feito, fui informada que não tinha ninguém para colocar no meu lugar".
A técnica afirma que passou por um quadro de surto dentro do hospital, após um desentendimento com a chefe em um atendimento de emergência. "No momento, nós duas discordamos sobre o procedimento que deveria ser realizado". Segundo ela, o episódio aconteceu no atendimento de uma paciente com queda de saturação. “Eu fui socorrer a paciente porque é o nosso dever ético. Depois a responsável pela enfermaria começou a gritar comigo no corredor, na frente dos pacientes. Eu desci chorando pensando em subir no sexto andar e me jogar”.
Pacientes aguardam a liberação de leitos nos corredores do Pronto-Socorro da Santa Casa
- (Foto: Nathaly Santos)