O Instituto de Identificação Gonçalo Pereira registrou 20,4% das emissões das Carteiras de Identidade Nacional (CIN) com símbolo do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Mato Grosso do Sul, entre janeiro de 2024 e março de 2026. O posto de identificação possui Sala Amigo do Autista, especial para atendimento à população com TEA, inaugurada em abril de 2025. A instituição emitiu 1.098 dos 5.930 documentos com o símbolo do TEA no período, com maior número de emissões para crianças de cinco a 12 anos. As emissões das 4.832 carteiras de identidade com o símbolo ocorreram nos outros 92 postos de identificação de Mato Grosso do Sul.

O posto de identificação, vinculado à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) registra, em média, 500 atendimentos por dia. Os serviços disponíveis no local são a emissão da CIN, e solicitação de informações sobre outros documentos pessoais, como Certidão de Óbito. A perita forense papiloscopista Maira Cappi  criou o projeto da sala especial. A perita identificou problemas de acessebilidade no atendimento à população com TEA. “Antigamente, quando não tinha essa sala adaptada, a gente perdia os atendimentos. A criança que estava sendo atendida lá no salão geral se desregulava muito, de maneira que não dava para continuar”.

Maira Cappi afirma que os profissionais do posto de identificação necessitavam de instruções sobre atendimentos a cidadãos neurodivergentes. “Eles são mais sensíveis à quebra de rotina, ao barulho, ao cheiro, então a gente vivia na prática as dificuldades do atendimento. Mas a gente não teve nenhuma formação sobre transtorno do espectro autista, sobre neurodiversidade. Não tinha muita solução, informação, a gente fazia o atendimento da forma que dava”.

O diretor do posto de identificação, Daniel Ferreira informou que foram gastos entre R$ 80 mil e R$ 90 mil para a implementação da sala. “A sala foi dada através de um contrato de gestão, um projeto da nossa perita lotada, e estamos visando a expansão desse trabalho para o interior do Estado do Mato Grosso do Sul”. Segundo Ferreira, os investimentos possibilitaram uma adequação do ambiente para um atendimento especializado à população com TEA. “Além de trazer conforto para os familiares, ela traz acolhimento para as pessoas com transtorno do espectro autista. É uma sala toda climatizada, com acústica, especializada para esse atendimento desse público que detém a necessidade especial”.

Maira Cappi destaca que as principais dificuldades de manter o atendimento especializado são a capacitação dos profissionais e a burocracia dos órgãos públicos. “A gente está planejando um seminário para os peritos dos postos de identificação da capital e do interior para trabalhar nessa capacitação. Isso exige um planejamento, verba pública, exige uma série de passos e processos que têm que ultrapassar”. O diretor do Posto Daniel Ferreira afirma que a expectativa é ampliar o projeto para outras cinco cidades de Mato Grosso do Sul. “Existe um trabalho paralelo, juntamente da Coordenação Geral de Perícias, para expandir o projeto para as maiores cidades do Mato Grosso do Sul, juntamente com a nossa perita Maira à frente dessa expansão, porque ela foi capacitada e instruída para esse trabalho”.

A mãe atípica Luciene Ribeiro afirma que teve muitas dificuldades ao levar seu filho Daniel Ribeiro para emissão do documento antes da criação da sala. “Foi muito difícil, todas as vezes que  tentava levá-lo, os atendimentos eram todos juntos, e ele ficava muito nervoso, com muito barulho, e a gente adiava o atendimento”. Segundo Luciene Ribeiro, a sala Amigo do Autista "permitiu um atendimento mais acolhedor e propício à criança". A mãe de Daniel Ribeiro afirmou que “a sala deixou ele muito à vontade, seguro, eu fiquei muito feliz por essa nova experiência e por conseguir a carteira de identidade dele. Saí bastante emocionada de lá, por terem pensado nas dificuldades do meu filho”.