O índice de endividamento das famílias em Campo Grande atingiu 70,1% no mês de março. O percentual representa um crescimento de 6,7% em relação ao mesmo período de 2025. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) foi realizada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso do Sul (Fecomércio-MS) em parceria com a Confederação Nacional do Comércio (CNC).
A pesquisa registra que sete em cada dez famílias possuem algum tipo de dívida. A inadimplência alcança 28% dos entrevistados. Desse grupo, 12,5% afirmam não ter condições de quitar os débitos. O tempo médio de atraso para o início do pagamento da dívida é de 65 dias. O cartão de crédito é a principal fonte de endividamento, com 67,6% das ocorrências. Os carnês e crediários aparecem em segundo lugar, com 19,9%. No Brasil, o índice de endividamento chega a 80,4%, o maior da série histórica.

Segundo a economista do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Fecomércio, Ludmila Velozo “o endividamento ocorre quando a pessoa tem parcelas no cartão de crédito, consignado e financiamento e consegue pagar. A inadimplência surge quando ela não consegue quitar esses valores”. Ludmila Velozo destaca que o cenário afeta diretamente o comércio. “Quando a família não tem dinheiro, o comércio não tem aquele capital girando. A família deixa de consumir".
A educadora financeira Sabrina Nakao afirma que o problema está no uso inadequado do crédito. “As pessoas tratam o cartão de crédito como um complemento da renda. Ganham R$ 3 mil e possuem limite de R$ 2 mil. Acreditam que o salário é de R$ 5 mil. Isso gera um ciclo vicioso”. A economista Ludmila Velozo ressalta que a falta de educação financeira é um fator determinante para o endividamento. “Falta entender como funciona o cartão de crédito. O banco oferece um limite alto e você acumula parcelas até comprometer quase 30% do orçamento".
A assistente de atividades educacionais, Rosemeire Pedroso recorre a empréstimos consignados desde que ingressou no serviço público. “No meu caso, foi para a área de saúde. Eu não tive outro recurso a não ser entrar nesses empréstimos. Na hora resolve, depois você fica amargando”. A assistente ressalva que não tem uma rede de apoio financeira e depende de empréstimos para pagar as despesas. “É um tiro no pé. Trata-se do recurso que eu tenho, que está ao meu favor”.
Sabrina Nakao orienta organizar todas as dívidas e priorizar aquelas com juros mais altos. Ela recomenda o uso da plataforma consumidor.gov.br para negociar diretamente com as instituições financeiras. “A empresa tem dez dias para responder. Geralmente, reduzem 95% dos juros”. A plataforma funciona de acordo com a Lei 14.181/2021, lei do Superendividamento, que proíbe cobranças que comprometam o mínimo existencial. A demanda por crédito em Mato Grosso do Sul aumentou 19% entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. O indicador do Serasa Experian registra que o número é o maior do Centro-Oeste. A educadora financeira alerta que o crédito farto exige cautela. “Não podemos culpar o crédito. O crédito não é o vilão. Precisamos saber como gastar".
Ludmila Velozo afirma que há uma mudança de comportamento do consumidor. “Pesquisas da Páscoa e do Dia das Mães mostraram famílias mais conscientes, preferindo pagamento à vista". A economista avalia que o crédito é um sinal positivo quando bem utilizado. “Dar crédito ajuda na economia e sinaliza que as pessoas estão conseguindo pagar. Requer cuidado para não gerar inadimplência futura".
A taxa Selic chegou a 15% ao ano em fevereiro de 2026, maior patamar desde 2006, encarecendo o crédito para as famílias
- (Foto: Breno Kaoru)