A população do bairro Parque Novo Século está sem rede de esgoto e pavimentação. Os moradores, há mais de 15 anos, convivem com a falta de saneamento básico. O Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB) estabeleceu o prazo para o saneamento básico e os projetos estruturais para as redes de drenagem e esgoto do bairro até 2023.
As lideranças comunitárias e os moradores do bairro destacam divergências nos prazos da prefeitura para as obras de saneamento e recorrem a estruturas improvisadas para o armazenamento de dejetos. Os moradores organizaram uma assembleia para definir as demandas e encaminhar à Prefeitura de Campo Grande. A principal reivindicação é a inclusão do bairro no programa de obras de saneamento, durante períodos de chuva as ruas ficam alagadas e arrastam resíduos de lixo, que aumenta o risco de transmissão de doenças contagiosas entre a população local.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) divulgou boletim que Campo Grande está em alerta laranja, condição que indica risco de chuvas acima de 50 mm e volumes que podem chegar a 100 mm por dia. A precipitação no bairro ficou acima da média. Durante o período de alerta, os registros de alagamentos e quedas de árvores são mais frequentes no município.
A presidente do bairro Parque Novo Século, Hermínia Madalena, 53 anos, teve a casa inundada e recebeu ajuda dos vizinhos para recuperar o imóvel. “A chuva desce toda das Moreninhas e enche tudo. Parece até um rio de tanta água. [...] A água entrava dentro de casa”. Segundo a presidente, a concessionária responsável pelas obras de asfalto e esgoto eventualemente vai ao bairro para compactar as ruas após as chuvas.
O morador Rafael Carvalho, 29, vive há quatro anos no bairro e construiu uma fossa. “Não tem saneamento básico, aí eu fiz uma fossa do jeito que eu consegui”. A estrutura improvisada é uma alternativa para viabilizar a moradia. “ela vai se expandindo e a água vai sair”.
Carvalho ressalta que a falta do serviço de saneamento básico no bairro influencia o cotidiano dos moradores. Ele destaca que, em períodos de chuva ou calor extremo, aumenta a presença de insetos e animais peçonhentos e que frequentemente precisa fazer manutenção na fossa para evitar problemas de saúde. “Já chegou a aparecer escorpião e barata, e fica um cheiro forte às vezes também”.
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) julgou a ação civil pública movida pelo Ministério Público Estadual, que trata da implementação das políticas de drenagem e saneamento básico de Campo Grande, previstas no Plano Diretor de Drenagem Urbana (PDDU) e no Plano Municipal de Saneamento Básico. O TJMS deu o prazo de 18 meses para o município revisar os planos e executar medidas atrasadas há mais de uma década. A decisão judicial ressalta que a falta de execução dessas políticas impacta diretamente a segurança da população e a prevenção de desastres.
A médica infectologista Isadora Andrade destaca que doenças tropicais e gastrointestinais são comuns nesses contextos, “as principais são as doenças diarreicas, as gastroenterites”, causadas pelo consumo de água contaminada e infecções como hepatite A e leptospirose, transmitida pelo contato com água.
A moradora do bairro Novo Século, Cleuza de Lima, 66, convive com a falta de rede de esgoto na sua casa. A moradora destaca que a água da fossa é descartada na rua e, devido ao contato frequente com resíduos, adoeceu algumas vezes desde que se mudou para o bairro. “De vez em quando eu fico doente. Quando chove, a rua fica toda esburacada, mistura a água da chuva com a água do esgoto, fica difícil de passar”. Segundo a médica Isadora Andrade, “a água da chuva pode se misturar com lixo e ser contaminada”, o que favorece a proliferação de mosquitos transmissores de dengue, zika vírus e chikungunya. A médica alerta para o acúmulo de lixo e entulho, que contribui para a presença de ratos e animais peçonhentos, o que agrava riscos em áreas sem infraestrutura adequada.
Moradores do bairro Novo Século convivem diariamente com vazamento de esgoto nas ruas e alagamentos
- (Foto: Juliana Menezes)