[caption id="attachment_3456" align="alignleft" width="336"]Foto: Suelen Buzinaro Mãe de Diego quer que ele seja internado compulsoriamente para evitar fugas.
Foto: Suelen Buzinaro[/caption] Dias atrás, tive a difícil missão de entrevistar uma mãe em meio à sua dor. Na última semana, o filho mais novo de Maria, Diego  (nomes fictícios para preservar as pessoas), de 21 anos, teve uma crise psicótica, tentou destruir uma viatura do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU), agrediu três policiais, foi internado em um posto de saúde e aguarda, em uma fila longa e demorada, atendimento pelo Centro de Apoio Psicossocial (CAPS). Ele é usuário de drogas e foi preso por roubo. A mãe, peregrina de clínicas de tratamento de delegacias policiais desde que Diego usou maconha pela primeira vez, aceitou falar comigo. Mas como abordar certos assuntos, se aqueles olhos vermelhos de tanto chorar te olham como se pedissem sossego? Se os olhos pudessem falar por si próprios, certamente diriam “me deixem em paz, me deixem aqui para sofrer sozinha”. Mesmo assim, o cansaço pelo péssimo tratamento nos órgãos públicos de saúde, pelos quais Diego passou, e a incansável fé de mãe de que as coisas podem melhorar para seus filhos, fizeram Maria não apenas falar, mas desabafar tudo o que estava acumulado. O que se seguiu foi uma ladainha de histórias de agressão, descontrole e impotência. “Como uma mãe solteira, com outras duas filhas, sem nenhum homem adulto em casa, poderia domar um adolescente de 16 anos revoltado?”, indaga Maria. Segundo ela, a família demorou a perceber que algo mais sério estava acontecendo. Somente quando artigos de valor começaram a sumir da casa é que o “sinal vermelho” acendeu. Mas aí era tarde demais. Eu, na posição de jornalista, tentei ser o mais profissional possível. Tentei esquecer que ali havia uma guerreira, já cansada de perder tantas batalhas, e uma mãe que simplesmente não consegue desistir. Mas descobri que isso é um trabalho muito mais difícil do que qualquer outro. Não dá pra desligar sua “humanidade” e fingir ser um robô. Não é possível impedir que os arrepios subam pela espinha ao ouvir os relatos mais sombrios da vida de uma família destruída pela droga. Qualquer outra pessoa poderia ter apenas redigido a matéria-padrão, enchido de números que mostram que as drogas estão deixando cada vez mais vítimas por onde passa. Nada muito diferente. Mas eu, não. Sofrendo por causa de um “bando de perdidos viciados”, como a mídia muitas vezes retrata os usuários, apesar de não usar tais palavras, estão milhares de famílias como essa, desesperadas por ajuda, e que precisam de voz. Maria, antes de falar comigo pessoalmente, me fez um pedido. “Promete que você não vai transformar minha história em apenas mais uma manchete para vender jornal?”. Talvez, seja esse o caminho. De mostrar que, por trás das estatísticas e das histórias superficiais que vemos todo dia, existem vidas marcadas para sempre pelo uso de entorpecentes. E mães que não param de lutar por seus filhos, mesmo quando todo mundo desistiu. Artigo por: Heloísa Garcia Foto: Suelen Buzinaro Edição: Vanessa Albuquerque